Captura em Le Cap

8 Agaté - Jornada ao Inferno


Cerca de uma hora e meia depois, Baptiste entrou pela cozinha para falar com Agaté, que continuava lá para ajudar Louise no preparo do jantar.

—Agaté, avistei o Mestre Claude Dubois nos arredores da fazenda. Ele sinalizou que os nossos homens já estão em formação para o ataque.

—Já cercaram a fazenda?

—Mais do que isso. Estão escondidos em todo canto, e inclusive já mataram alguns dos capatazes.

—Excelente. Agora só precisamos esperar Duvalier chegar. – Agaté virou-se para Louise e prosseguiu, em crioulo: – Louise, quando o seu senhor costuma chegar em casa e jantar?

—Bem, o sol já está se pondo. Acho que em meia hora ele já estará aqui.

—Certo. Quando ele o fizer, pingaremos o veneno.

—E irão mata-lo enquanto estiver fraco?

—Talvez, mas esse não é o plano. – comentou Baptiste – Mesmo que ele fuja, uma vez envenenado, não poderá sobreviver. Arsênico demora um pouco a agir, mas é letal, ainda mais nessa concentração.

—Nós queremos eliminar Laurent primeiro, pois ele é um Templário, e Templários bem treinados podem ser difíceis de matar com métodos corpo-a-corpo.

—O mesmo vale para o capanga dele, o traidor Shay Cormac.

—Louise, você trabalha aqui. Sabe se talvez Laurent convidou Cormac para jantar com ele?

—Cormac? Eu não... Ah, espere! Sim, um homem com esse nome esteve aqui ontem. Mas não, acho que ele não estará aqui.

—Que pena. Se ele estivesse, uma parte de nossos problemas seria resolvida.

—Mas não se preocupe, creio que Kobina e Renaud cuidarão dele.

—Assim espero, Baptiste. – Agaté concluiu, preocupado.

—Está com medo, amigo? Medo de que Shay nos vença?

—Bem, ele matou Adéwalé. E ninguém da nossa Irmandade é tão forte e astuto quanto ele era.

—Mackandal é. E, ao nos treinar, ele transferiu sua sabedoria para nós. Além do mais, o Mestre Adéwalé estava em desvantagem por ter ido ao território inimigo. Mas nós não. Estamos em casa! Conhecemos Le Cap melhor do que qualquer um! Não há como perdermos!

Agaté sorriu.

—Tenho inveja do seu otimismo, Baptiste.

Os dois Assassinos riram.

—Enfim, Agaté, vou começar a entrar em ação. Irei falar com os outros escravos sobre o plano. Assim, não entrarão em pânico quando o ataque começar.

—Vá, meu amigo. Boa sorte.

Como Louise dissera, Duvalier (ou Laurent, como era conhecido oficialmente) não tardou a aparecer. Chegou caminhando sozinho. Assim que chegou, Baptiste avisou Agaté, que logo pingou o arsênico nas comidas que seriam servidas. Os dois Assassinos deram um jeito para que fossem eles a levar a comida à mesa. Pouco antes de entrar na sala de jantar com as bandejas de comida, eles puderam ouvir Duvalier conversar com um capataz.

—Reúna os escravos, Gérald. – ele dizia – Quero que você e Charles os interroguem e perguntem o que eles sabem a respeito de François Mackandal. Se derem respostas negativas, podem torturar alguns que sejam mais suspeitos para extrair o que puderem.

—Claro, chefe! O que fazemos de melhor! – respondeu o capataz com um sorriso, logo antes de se retirar.

Por um instante, Agaté se preocupou que durante essa interrogação os capatazes poderiam encontrar os outros Assassinos, mas resolveu seguir o plano. Foi com satisfação que ele e Baptiste viram o Templário comer o arroz com frango assado. Embora ele não percebesse nada ainda, os Assassinos sabiam que o sabor que ele sentia era o gosto da própria morte.

O plano pareceu correr bem por alguns minutos. Duvalier comia, os Assassinos traziam as bandejas restantes, enquanto dois capatazes os observavam. Para Agaté, esse equilíbrio numérico era ótimo: seria fácil matar os dois se fosse preciso lutar.

No entanto, uma nova figura carrancuda entrou de supetão no aposento. Ele vestia um casaco alinhado com o símbolo templário em seu peito. Agaté logo o reconheceu, embora só o houvesse visto uma vez, e de longe: era Shay Cormac, o Templário ianque.

—Sr. Cormac? – exclamou Duvalier – O que faz aqui? Pensei que estaria em seu navio.

—Senhor, desculpe-me por entrar desse modo – dizia Shay, ofegante – Mas trago informações novas. Temo que os Assassinos saibam da sua localização. Talvez planejem matá-lo.

Aquilo impressionou não apenas o dono da casa, mas também os dois Assassinos.

Madichon!” – Agaté murmurou para si mesmo, preocupado. Como ele poderia saber do plano? E, mais do que isso, os Assassinos não haviam combinado que Renaud e Kobina iriam cuidar de Shay? O que acontecera a eles?

—Tem certeza, Sr. Cormac? Duvido que eles me encontrem pelo meu pseudônimo. – Agaté se esforçou para não sorrir quando Duvalier disse isso – Você parece tenso, por que não se senta, come algo e relaxa?

Gwo!.”– Agaté novamente murmurou, desta vez contente. Se Shay seguisse o conselho do amigo, seu fim também estaria próximo.

Shay então ficou quieto. Andou em volta da sala, analisando o ambiente. Ele parecia sentir a presença dos Assassinos no recinto. Uma certa arrogância emanava de si. Agaté e Baptiste trocaram olhares. Eles realmente não sabiam como reagir àquilo. Esperavam que tudo desse certo.

Mas o que Shay disse em seguida acabou com todas as esperanças que os dois tinham:

—Guillaume, não coma isto!

Shay então dirigiu-se a Baptiste. Levantou o braço direito dele, abaixando sua manga e pondo à mostra a lâmina oculta.

—Um Assassino! – exclamou Shay.

Agaté ficou aliviado ao ver a rápida reação do amigo, que em um segundo ejetou a lâmina. Shay pôde desviar o rosto, mas Baptiste usou a mão livre para socar seu nariz.

—Agaté! – ele gritou, em seguida. Não foram necessárias mais palavras para que ele captasse a mensagem. Sacou a corneta que trazia na cintura e a soprou, fazendo um som alto e agudo.

O sinal fora dado.

Assim que a corneta soou, o barulho de espadas surgiu nos jardins. Agaté sorriu. Os seus colegas haviam começado a batalha.

É uma emboscada! – gritou Shay, embora tarde demais para impedi-la.

Enquanto Duvalier cuspia sua comida, um dos capatazes na sala avançou contra Baptiste. Ele, no entanto, foi mais rápido, cravando a lâmina oculta em sua garganta. Agaté jogou uma bomba de fumaça ao chão. Logo a visão em toda a sala estava embaçada. Os Assassinos pularam por uma janela, de modo a voltar às plantações.

Quando o fizeram, viram o alvoroço que seus colegas estavam causando. Em todo lugar, via-se a luta entre Assassinos libertadores e capatazes opressores. Ao longe, um pequeno grupo de encapuzados guiava os escravos a fugirem pela mata, embora alguns dos cativos preferissem ficar e ajudar na luta. Sem dúvida sentiam contra cada um daqueles capatazes um enorme rancor, fruto de incontáveis anos de tortura e exploração.

Enquanto Agaté tossia para expelir o pouco de fumaça que inalara, uma voz conhecida lhe chamou:

—Agaté! Baptiste! Como foi o plano? – dizia o Mestre Dubois, com três cadáveres a seus pés e um outro Assassino ao lado.

—Como o planejado. – respondeu Baptiste – Duvalier comeu o veneno. Ele ainda está na sala do segundo piso, mas...

—Mas...?

—Shay Cormac estava lá. Vivo e saudável; não conseguimos fazê-lo tomar o veneno.

Claude pensou um pouco. Pegou num dos bolsos em sua cintura algumas bombinhas.

—Por que não os ajudamos, acelerando a sua jornada ao inferno? – falando a Agaté, Baptiste e o outro Assassino, concluiu: – Joguem isto pelas janelas.

Agaté percebeu que se tratavam de bombinhas de gás venenoso. Isso seria ótimo para evitar que Cormac pudesse causar problemas. Desse modo, ele e Baptiste rapidamente deram a volta no edifício para jogar as bombas pelas janelas corretas. Após terem-no feito, Baptiste chamou o amigo:

—Agaté... Veja isso.

Quando olhou, viu um grupo de doze homens, brancos em sua maioria, vindo na direção deles. Capatazes, com certeza, querendo suprimir a revolta dos escravos. Cada um carregava uma espada, e cerca de metade deles levava pistolas. Agaté e Baptiste, no entanto, eram dois, e tinham apenas as lâminas ocultas em seus pulsos.

—Acha que podemos enfrenta-los?

Agaté riu.

—Já enfrentamos coisas mais difíceis.

—Nos separamos, então.

—Eu fico com os da direita.

—Combinado.

Os Assassinos então andaram ao encontro dos adversários. Afastaram-se um pouco um do outro, para dispersar o grupo inimigo. Assim que o primeiro capataz começou a golpear Agaté com a espada, o Assassino desviou dos golpes. Após irritá-lo, ele levantou a mão esquerda e ejetou a lâmina. Em contato com a espada, a arma do Assassino pôde desviar o golpe para o lado esquerdo, o que abriu espaço para que Agaté rasgasse o abdome do capataz com a lâmina direita. Antes que o corpo dele caísse no chão, Agaté segurou a espada e a tomou para si

A uma certa distância, ele viu Baptiste, com um cadáver aos pés, enfrentando um capataz. Enquanto isso, mais dois começavam a golpear Agaté. Eles usavam suas espadas ao mesmo tempo, mas o Assassino aparava os ataques. Quando a sua espada tocava a do homem à esquerda, Agaté pulou de lado para a esquerda, arremessando-o para a o lado oposto. Enquanto ele cambaleava, o Assassino usou a arma para empalá-lo pelas costas.

Nesse ínterim, Agaté não pôde evitar que o outro capataz o ferisse no braço esquerdo. Ele fora golpeado duas vezes, mas desviou com sucesso na terceira. Largando a espada por um segundo, ele segurou a nuca do inimigo com a mão direita, e levou o rosto dele de encontro à ponta da lâmina esquerda. Logo, Agaté viu a uma certa distância um outro homem apontando-lhe uma pistola de pederneira. Rapidamente, levantou o cadáver do homem que acabara de matar para usar como um escudo contra a bala. Desse modo, a arma de fogo foi disparada mas Agaté nada sentiu.

Pegando de volta a espada, ele analisou os adversários que estavam vindo. Eram cinco deles, e aquele que disparara a pistola já a estava recarregando, enquanto os outros avançavam sobre o Assassino. Lentamente, ele foi ao encontro dos inimigos e deixou que o cercassem. Três homens com espada estavam em sua volta, enquanto um outro espadachim e o pistoleiro, já terminando de recarregar a arma, ficavam na retaguarda.

Havia um capataz logo à esquerda de Agaté, e outro logo à direita.

—Desista! – disse o primeiro – Esse é o seu fim!

Agaté nada disse. Apenas esperou que um deles o golpeasse. E, assim que o capataz à esquerda o fez, Agaté se agachou. A espada acabou atravessando o ar, até se fincar no abdome do outro capataz. Os dois colegas ficaram paralisados de pavor por um momento, o que foi suficiente para que o Assassino novamente se pusesse de pé, levando uma lâmina à garganta de cada um. Jogando-os para longe, viu com o canto do olho o homem que já apontava a pistola novamente. O homem que estava a sua frente, tentou golpeá-lo, mas, quando Agaté desviou, o Assassino o usou como um escudo humano contra a bala disparada.

Indo de encontro ao pistoleiro, não foi preciso muito esforço para mata-lo com um só golpe. Agaté se virou ao último, que largou as armas, levantou os braços, e falou:

—Eu me rendo! Não me mate!

—Seu pedido é uma ordem. – respondeu o Assassino, que ajoelhou sua barriga, de modo a neutralizar o capataz sem mata-lo.

Por ora, a ameaça direta fora neutralizada. Agaté olhou em volta. O Mestre Jean ajudava escravos a fugirem, enquanto Mestre Dubois e outros Assassinos, incluindo Baptiste, neutralizavam os capatazes da fazenda. Ao longe, Agaté viu o Templário Shay Cormac lutando contra o próprio François Mackandal. Mesmo com a indesejada presença de Cormac, ver o Mentor em atividade revigorou as forças de Agaté, que agora estava ainda mais determinado a lutar.

Sua visão captou, mais perto, um grupo de quatro capatazes que entrava em uma pequena senzala. Ele ouviu um deles falar:

—Então eles querem levar nossos escravos? Preferimos deixar a mão-de-obra morrer a deixá-la fugir! Matem os escravos!

Agaté com certeza não permitiria isso. Abriu seu caminho até a pequena casa, onde um dos capatazes já mostrava uma pistola de cano duplo para os escravos e escravas que lá haviam. O Assassino entrou abruptamente, segurando o rosto do homem e o levando em direção à parede, de modo que a nuca do capataz, agora desmaiado, quebrou uma janela de vidro.

—Fujam! – Agaté gritou aos escravos, enquanto se apossava da pistola.

Os escravos, com medo, não se moveram. Agaté, no entanto, saiu do aposento para enfrentar os outros três homens. O primeiro estava na porta. O Assassino rapidamente usou a lâmina oculta para cortar-lhe a garganta. O segundo, do lado de fora, já levantava a espada contra Agaté. Logo em seguida, o Assassino usou a recém-adquirida pistola para acertar seu rosto com uma coronhada. Só faltava um.

O último capataz levantava os braços, pouco antes de cair para trás, assustado. Agaté o reconheceu de imediato. Era Rousseau, o homem que ele encontrara horas antes na cozinha da mansão. O desgraçado que violara Louise.

—Por favor. – ele balbuciava – Por favor, misericórdia! Faço o que quiser, apenas me deixe viver.

Agaté, vendo aquela cena deplorável, tratou o capataz com escárnio. Apontou a pistola para seu rosto e comentou:

—Ora, ora, Rousseau. Como assim? Você está pedindo misericórdia a um preto fedido como eu?

Rousseau nada respondeu. Sua expressão apenas indicava que ele reconhecia Agaté. O Assassino largou a pistola. Estendeu uma das lâminas ocultas e a aproximou do homem, que estava prestes a lacrimejar. Agaté se lembrou daquilo que havia dito na cozinha à Louise em prantos. Ele prometera que Rousseau nunca mais abusaria de nenhuma mulher indefesa. O Assassino enfim recolheu a lâmina.

—Mas não se preocupe, amigo. Não vou te matar.

—Você... Não vai? – perguntou o capataz, ainda com medo.

—Não. Eu quero apenas... cumprir uma promessa que fiz a uma amiga. – Ambos se encararam por alguns segundos. Agaté enfim falou, com um tom sério: – Abaixe suas calças.

Rousseau, apavorado, não viu outra escolha. Desafivelou o cinto e abaixou a calça, de modo a mostrar a virilha e as partes íntimas. Rousseau já temia pelo pior, mas o que Agaté fez lhe surpreendeu. Ele ejetou a lâmina oculta e, com um golpe rápido, decepou-lhe o pênis.

A operação corria bem. Os vários escravos cativos na fazenda eram libertados pelos membros da Irmandade. Os capatazes, ligeiramente superiores em número, mas incrivelmente inferiores em habilidade de combate, ofereciam pouca resistência. Os Assassinos apenas interromperam o ataque após a chegada de um grupo grande de soldados franceses, adversários não tão inferiores. O Mentor Mackandal, não querendo arranjar conflitos diretos com as forças das autoridades locais, ordenou uma retirada aos seus homens.

Mas isso não era um problema. Quando os soldados entraram na batalha, os escravos de Duvalier já estavam livres. Com um efeito-surpresa impecável, os Assassinos não necessitaram de muito tempo para realizar a operação. Com poucas baixas, a Irmandade ganhou mais de 150 membros para sua comunidade. Além do mais, pouco antes da retirada, François Mackandal conseguira arranjar alguns segundos para finalizar Shay Cormac, enfim vingando Adéwalé. A missão havia sido uma vitória completa. Libertar a fazenda enfraquecia as economias de Guillaume Duvalier. E, com o próprio Duvalier moribundo após ingerir o veneno, não demoraria muito para que a Ordem dos Templários sentisse o efeito.

A vitória era inegável. Justiça fora feita.