Capsule
3 Súbito
Notas iniciais
Após terminarem o que faziam no laboratório Anna decidiu fazer um tour com o garoto pela cidade, eles se encantaram com tamanha beleza que aquela cidade no meio do nada oferecia. A ultima parada desse tour não fora planejado nem desejado, mas era inevitável e estava lá encarando Anna de volta e não teve como ela fugir do “dever” de visitar sua antiga casa.
Paredes queimadas, gelo para todo lado, havia terror naquele lugar, havia ódio, havia um passado congelado e esquecido, havia a parte de Anna que se perdera no universo.
_ Está da mesma forma como no dia, apenas mais destruído pelas causas naturais e sem os corpos de meus pais aqui. — Ela dizia aquilo com tranquilidade enquanto analisava cada centímetro, mas por dentro parecia que iria explodir em sua mente já se perdera a noção do real.
_ Anna é melhor voltarmos. — Ela deu um sorriso de canto fingindo estar tudo bem, mas de súbito da mesma maneira que surgiu ele desapareceu deixando o vazio que lhe abraçava interiormente escapar para fora. E esse vazio era tão grande que era quase tangível, mas pior que seu sorriso súbito era a expressão de seus olhos, que ao invés do vazio habitual carregava dor, ódio e sofrimento. As cicatrizes que Capsule não havia deixado em seu corpo deixou em sua alma.
_ Anna você está pálida.
Ele foi em direção a ela, pois teve a impressão que ela iria cair, mas ao invés disso ela se ajoelhou e novamente de súbito começou a gritar, seus ombros tremiam e suas mãos pendiam ao lado da cabeça. Se jogando para o chão em posição fetal novamente ela chorou, mas sem que sequer uma lágrima se derramasse.
_ Anna. — Roy correu em sua direção e a aninhou em seus braços, acalentando-a como se faz com um bebe que não consegue dormir a noite por medo de escuro ele dizia seu nome baixinho várias vezes enquanto tentava conter os soluços que ela deixava escapar de sua boca.
Anna não estava ali, ela se ausentara deixando apenas o passado obscuro em seu corpo frágil, seus olhos perdidos se aterrorizavam olhando para o nada e suas mãos seguravam algo contra o peito, algo que não estava ali, mas que estivera anos antes.
Roy a levou para casa a deu de comer e viu os olhos dela, aqueles lindos olhos ficarem sem vida, vagos, tão vazios quanto balões e totalmente preenchidos de nada. A noite ele dormiu em um colchão ao pé da cama dela e acordou perto do alvorecer aos gritos estridentes e medonhos que desferira para o ar. E ele? Sofria com cada arfada de uma dor psicológica que ela dava por toda a noite até em certas partes ter voltado a si.
Ela comia em pequenas colheradas e mantinha a cabeça baixa, não se sabe se por vergonha ou se ainda por uma dor que não a abandonava. Roy estava apreensivo não se afastava sem um pretexto nem por um segundo, não havia comido, nem bebido nada, mas não havia nem percebido isso.
_ Anna, você está bem?
Ela o olhou ainda com a cabeça baixa, forçou um sorriso que saiu terrivelmente torto e voltou ao seu estado deplorável. Seu rosto parecia incrivelmente mais velho, havia imensas olheiras e seus olhos estavam caídos, mas ela ainda parecia bela como a chuva que mesmo deprimente ainda resplandece.
_ Sabe Roy — Sua voz estava normal, baixa, mas parecia a mesma Anna de sempre, mas se reparasse, se percebesse que lá no fundo havia algo diferente, seria capaz de ver o assombro e a dor em sua voz. -Parece que sempre vou voltar ao mesmo ponto, queria apenas me esquecer de tudo ou ser capaz de recordar. Capsule não é isso que as pessoas veem, como todos podem ser tão cegos? Eles estão roubando tudo que há de mais precioso e ninguém vê... — Sua voz pouco a pouco foi falhando e no fim não restou nada, apenas um silêncio prolongado.
_ Me conte o que aconteceu, talvez ajude um pouco. — Disse ele, ela olhou incrédula, mas essa expressão foi se esvaindo até ficar apenas a face apática e um aceno de cabeça.
O cheiro de flores pairava no ar, podiam-se ouvir risadas e o som do vento cortando as árvores, agora que me lembro de um pouco, nem tudo foi sempre neve por aqui, havia o verde da grama e o azul do céu, mas agora só resta isso, as memórias. Recordo de ter machucado e ter ouvido uma doce voz dizer "Está tudo bem Anna, você tem a nós!" Nós? "Nós" quem? Se hoje já não há mais nada. Era tudo perfeito, havia grama sob meus pés e sorrisos sobre mim. E então de súbito não resta mais nada.
_ Como assim, isso agora? Eles deveriam ter vindo há quatro anos.
O doce rosto de minha mãe mostrava uma expressão de espanto, ela fazia perguntas, várias e não recebia respostas. Essa foi sua reação logo após meu pai receber um telefonema inesperado.
_ Você sabe que isso aconteceria, eles sabem de nós, vá para casa e salve...
São as últimas palavras que me lembro dele ter dito depois um grande vazio habita minhas memórias, um vazio doloroso e aterrorizante. E então eu ouço passos rápidos e leves para longe sumindo aos poucos enquanto o sangue borrava minha visão eu gritava e era arrastada para longe dos corpos que um dia foi dos meus pais. O cheiro de sangue dominava o ar, o fogo consumia as paredes, as árvores, as memórias, tudo até que só restou o cinza e minhas ultimas lágrimas.
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