Capitão Noturno
1 Capítulo 1 - Primeira Porrada: Super-Humano
Notas iniciais
Ele é bastante bom.
Mas os outros vão ser bem mais fodas que este aqui.
Se não gostarem dele podem ir todos se fu...!!!
Ass. José.
PRIMEIRA PORRADA
— UM SUPER HUMANO –
1
Meu nome é Jorge Falcão.
E eu tenho uma novidade pra você.
O crime compensa.
Pelo menos aqui na Capital.
Ladrões baratos. Assassinos. Estupradores. Todos estão passando muito bem, obrigado.
E quer saber de uma coisa? Foda-se! Do fundo do meu coração, foda-se.
Acho que eles merecem, esses miseráveis. Merecem tudo de ruim que acontece com eles: cada carro roubado, cada sarrada no ônibus lotado, cada babaca assaltado, cada veadinho espancado nas ruelas, cada desgraçado esfaqueado, cada menininha violada, cada dona de casa violentada pelo marido, cada adolescente abusado pelos pais. Que se fodam todos!
Esse é o preço a ser pago pela omissão, pela conivência.
Estávamos todos desesperados naquela época em que o governo meteu o pau na gente e pegou nosso dinheiro. Estávamos ferrados mas pelo menos estávamos juntos nessa merda. Todo mundo tinha se dado mal, sem escapatória. O problema foi que no segundo tempo todo mundo perdeu as esperanças que as coisas podiam melhorar.
Porra! Custava ficar todo mundo junto, na amizade, no companheirismo? Custava?
E no final das contas, deu no que deu.
O Império e o Imperador, a Patrulha da Capital, as prisões, as torturas. E agora a humilhação, a desonra.
E isso já faz mais de trinta anos.
Meu Deus, por quanto tempo alguém pode resistir a uma coisa dessas? Por quanto tempo mais as pessoas vão ficar de cabeça baixa, esperando a merda da guilhotina cair, na velocidade da luz, sobre seus pescoços?
O sangue que mancha as ruas todos os dias quando acordamos de manha é a prova viva de que vivemos um teatro, uma eterna encenação onde fingimos viver uma vida normal, um sorriso pregado no rosto, as roupas muito justas num corpo machucado. A alma grita como louca dentro dessa casca maldita que é o corpo de quem se sujeita.
2
Hoje eu tenho 38 anos de idade. Moro sozinho em meu apartamento no subúrbio da Capital. Chamamos esse lugar de Buraco.
Divido meu apartamento com um pastor alemão aleijado. Eu chamo ele de Duas Patas.
Encontrei Duas Patas se arrastando perto do porto da Capital, as patas traseiras esmagadas por algum veículo. O bicho estava mau, fedia como um monte de merda encima de um cadáver, ainda tinha sangue escorrendo pegajoso nos pelos, o que significava que tinha sido atropelado há algumas horas.
Já era quase noite, eu estava voltando do meu trabalho no escritório quando o vi. Desci do carro imediatamente, fui andando em sua direção sem tomar o cuidado de olhar para os lados e o tomei em meus braços.
Velho, que sensação!
Eu peguei aquele bicho quase morto em meus braços e aquilo foi a maior lição que já tive na vida.
No meio de uma cidade de merda, onde a vergonha reina estampada na cara de cada cidadão, foi justamente um cachorro que quis continuar. Porra, um cachorro! A merda de um pastor alemão velho e aleijado! Ele estava arruinado, nunca mais poderia mijar ou cagar como antes, teria que se arrastar pra onde quer que quisesse ir, não cruzaria mais com as cadelas da rua e muito menos correr atrás do caminhão de lixo nos finais de tarde das terças e quintas-feiras. Mas ele largou o dane-se pro mundo e decidiu ter esperanças de que poderia sair dessa e continuar a viver.
Ele me lambeu quando o peguei nos braços a caminho do carro.
Foi o gesto de carinho mais sincero, mais HUMANO, que já tinha recebido na minha vida.
Na minha vida até então.
3
Sou solteiro.
E viúvo também.
Não tenho filhos.
A única que eu tinha, Isabela, Bela, foi morta junto com a mãe. Foram assassinadas. Mas antes disso foram espancadas e estupradas. Isso mesmo, as duas.
Foram pegas pela Patrulha, a milícia que trabalhava para o Império e para o Imperador.
Elas eram a minha família. Eram tudo o que eu tinha de mais valioso.
E foram arrancadas de mim de forma brutal.
Eu ainda as ouço, todas as noites.
É quando vem o sono e eu fico vulnerável. É quando já não consigo suportar ser o ator que faz parte desse maldito teatro. E só então elas vêm de mãos dadas passeando pelo apartamento. Eu posso ver nitidamente onde as balas perfuraram seus corpos – na cabeça, no coração, nas costas, nas coxas; posso sentir o cheiro do sangue que escorre do ventre de cada uma delas; consigo ouvir seus dentes rangendo, suas vozes agonizantes presas em suas gargantas cortadas.
Elas foram degoladas antes de terem metido bala nelas.
Minhas meninas se foram e eu sou o culpado.
Duas Patas, depois de dois anos, me salvou da escuridão em que a morte de minha esposa e minha filha me lançou.
4
Quando minha esposa e minha filha morreram, eu ainda trabalhava como agente da Patrulha.
Soldado Falcão. Trigésimo Quarto Regimento das Forças Imperiais – que era só um nome pomposo pra uma facção criminosa que começou dentro de complexos penitenciários.
E quer saber por que elas morreram?
Quando eu disse que tudo foi culpa minha eu não estava mentindo, tampouco me fazendo de vítima.
Na época eu havia tomado a decisão de ir contra as ordens do Império e me filiar a um dos comitês clandestinos de resistência.
Não era o único Patrulheiro a virar a casaca. E nem fui o último.
Mas também não fui o mais esperto.
Por pouco mais de um ano, cruzei informações ultrassecretas da Central, desde datas e horários de batidas pela Capital, até o nome de procurados para depoimento.
Durante esse tempo eu ajudei a frustrar missões e emboscadas, a tirar a vida de companheiros de trabalho e de sabotar operações de grande importância. Carregamentos de drogas foram interceptados pela resistência, rebeliões foram alimentadas e centenas de presos inocentes ganharam a liberdade.
Tudo graças a mim.
Mas bastou um deslize para que eu perdesse tudo.
No final, eles me deixaram viver. É claro que eles quase foderam comigo. Mas antes tivessem feito isso. Antes tivessem poupado minhas meninas.
Àquela altura da minha vida eu já não me importava comigo mesmo. Estava disposto a fazer o impossível só pra ver aquela porra toda se despedaçando, aquele sistema do crime organizado que de um dia pro outro se transformou numa distopia infernal.
Me diga você meu chapa: quando alguém ia imaginar que dono de morro, preso, podia virar um déspota?
5
Depois que fui descoberto e condenado, e depois de ter sido espancado eles me jogaram numa vala aberta, com a certeza de que se eu não morresse pela porrada, com certeza morreria pelas infecções.
Mas até nisso eles se ferraram.
Fui salvo por um maluco.
Não, eu não estou brincado. Tô falando sério.
Um maluco enfiado numa malha azul escura, mascarado, me tirou da sarjeta e me levou pra sua casa.
As lembranças que tenho daqueles dias são nebulosas, confusas.
Lembro de um dia acordar e ouvir a voz daquele homem, muito serena, pausada. Ele ficava repetindo: “Você é um filho da puta de sorte, você é um filho da puta de sorte”.
Depois eu apagava e acordava novamente, sem ter consciência de quanto tempo tinha passado. Mas ele continuava lá, repetindo aquelas mesmas palavras, toda vez que eu despertava.
Até que um dia, quando acordei, percebi que estava dentro da minha antiga casa, deitada na cama que dividia com minha falecida esposa.
Demorei a me acostumar com aquele lugar que era tão familiar, mas ao mesmo tempo tão desconhecido e assustador para mim.
Antes de conseguir me levantar, porém, percebi que colado a minha blusa estava um bilhete do maluco mascarado:
SAIA DA CIDADE E NUNCA MAIS VOLTE. MUDE TUDO.
De alguma maneira ele entendeu o perigo que eu estava correndo. Não só entendeu, mas pelas suas palavras ele parecia saber tudo o que tinha me levado até aquela vala imunda.
No dia seguinte eu recolhi somente o necessário e fui embora.
Nunca mais voltei.
6
Mudei de vida e mudei de nome.
Meu antigo nome já não tem mais importância. Aquele eu morreu junto com minha esposa e filha.
Quem eu sou hoje?
Hoje eu sou alguém que luta, que combate o crime.
Hoje eu sou alguém que não se humilha mais, que decidiu se vingar dos horrores de um mundo injusto, onde o crime é o prato do dia.
Ainda enfrento grandes dificuldades. Graças aos golpes sofridos na minha condenação – principalmente na cabeça – sou incapaz de reconhecer rostos.
Minha maior tristeza agora é não conseguir lembrar mais da face da minha família, nem dos olhos da minha esposa, tampouco do sorriso da minha filha.
Com o tempo, aprendi a combater contra as forças do Império, me disfarçando com as sombras que eles mesmos lançaram sobre nosso país.
Sou um homem melhor agora.
Sou um super-humano.
7
Mas antes quero te contar como minha segunda vida começou.
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