Caos Irresistível
7 Capitulo 7
Notas iniciais
Diana espiou pela quinta vez. A rua parecia tão vazia quanto antes, embora já fizesse dez minutos que correra da entrada do seu prédio até seu quarto. O Sr. Filpsbird já deve ter ligado para a polícia e certamente eles já devem estar a caminho. Quinze minutos no máximo. Nada lá embaixo. Diana fechou a cortina e passeou pelo cômodo pela sexta vez. Ainda tinha o coração bastante acelerado, mas nada comparado ao de dez minutos atrás. Estivera escondida numa cena que nunca imaginaria se encontrar. Um acerto de contas entre uma gangue e um infrator.
Elliot, quem quer ele seja, matou um cara. O mesmo da madrugada. E por questões de dinheiro. O Filp, ligado à alguma gangue que eles pareciam temer veio cumprir ordens. Castigar Elliot pelo o que ele fez diante de um dos seus. E aonde Hans se encaixava nisso? Ele parecia ser um amigo bastante fiel ao Elliot para se sacrificar e ir até lá para salvá-lo estando em menor número. Mas, mesmo na situação que estava, não havia sequer desconhecidos naquele lugar, exceto por Diana. Hans conhecia todos ali, era do seu cenário, fazia parte do seu cotidiano, bastante diferente do que era para Diana.
Ela parou. Ouviu sons se misturarem.
– Sirenes! — disse para si mesma antes de correr para perto da janela.
Contou até dez para abrir devagar a cortina que cobria o vidro e espiou lá embaixo. Era realmente a polícia. Eles entrariam dentro do metrô e se não tivesse sido suficiente para Hans fugir? O coração de Diana se contraiu. Ele era esperto, ágil, saberia sair dali ileso… ou era o que Diana tentava se convencer.
Ele não seria estupido em enfrentar aqueles caras para sair preso depois. Ele nem tinha culpa.
O coração de Diana se apertou contra o peito. Os policiais estavam armados, eram em quatro. Estavam caminhando lentamente e preocupantes em direção à entrada do metrô. Diana levou o dedo mindinho a boca e roeu a unha. Que ele esteja a salvo, que ele esteja a salvo. Depois, segurou o cordão no pescoço e deslizou os dedos pelo metal frio até o limite onde a chave estava pendurada. Hans não podia fazer isso com ela, dar uma de herói e depois sair encrencado de tudo isso.
Pelo o que demorou dois minutos, Diana não conseguiu ver mais nenhum policial dali de cima. E se tinha dado errado? Se Hans tinha sido ferido como seus amigos e assim não ter conseguido escapar a tempo? Ele tinha que sair dali antes que Diana ficasse louca.
Se pelo menos ela tivesse como se comunicar com ele… Bang, Bang. Diana pulou para o lado. Alguém batera na sua porta. Ela estava de costas para a janela e o coração em descompasso. Não se ouviu mais nada. Parecia um espalmar de mãos, mas agora nada. Será que não foi da sua cabeça? Estava pensando em tanta coisa ao mesmo tempo que poderia ter inventando tudo isso. Talvez uma ilusão. Sua respiração voltou a se equilibrar novamente, mas durou por muito pouco tempo. Bang, Bang. Voltaram a bater na porta.
Não era ilusão. Quem seria? O Hans? Mas que pergunta… Ele sabia onde ela morava, mas não sabia seu andar. E como saberia? A não ser que ele fosse realmente um psicopata e tenha driblado a portaria para entrar no prédio. Mas, pensando bem, como ele adivinharia seu quarto?
Diana logo tirou ele do seu pensamento. Se era o Hans, também não podia ser o Filps ou seus comparsas, muito menos Sven e o tal de Elliot. Quem mais seria? Abby? Ela dissera que ficaria na casa de sua amiga e que não viria para casa. Diana saiu de perto da janela e andou em direção à porta. Abby tinha a chave, então por que bateria na porta?
No mísero contar de segundos, Diana abriu a porta e teve suas dúvidas respondidas. Não era Abby. Era o Hans.
– Que que você está fazendo aqui? — perguntou a única coisa que seu cérebro processou.
Hans fez uma careta. Uma parte do seu rosto estava vermelha. Não inchada… Ainda, mas ficaria. Abaixo do nariz e no começo do lábio um corte superficial, mas que mesmo assim saiu sangue. Ele parecia acabado.
– Perguntas para depois. Deixe-me entrar. — implorou, mas ainda sim muito arrogante. Diana abriu espaço para ele e Hans entrou cambaleando para dentro.
Diana fechou a porta e ela parou no início do tapete da sala. Ela não pode deixar de notar que a umidade de uma rápida respingada de gotas da chuva deixou sua blusa branca molhada e pegajosa em todas as curvas do seu corpo. Diana parou os olhos na coluna de Hans e depois piscou várias vezes para espantar os pensamentos e a visão. Teria que focar-se em outra coisa.
Como por exemplo, o aparecimento dele.
– Como chegou aqui? — ela se aproximou.
Levou um segundo para ele despertar.
– Pelo estacionamento. Saí por detrás da igreja e peguei a rua contrária a que você de ter pegado. — Hans virou o rosto para ela. — É bastante fácil você pular aquele portão.
– Tem câmeras lá.
– To nem aí. — ele começou a caminhar. — Então você mora aqui?
Ela não respondeu. Hans deu uma volta na sala antes de espiar pelo corredor e parar de frente para ela.
– É bonito.
– Como você encontrou meu apartamento? — era a pergunta que não lhe acalmava mente.
Seria agora o momento em que ele iria dizer sobre ser um maníaco e que havia escolhido-a para perseguir? Ou o roteiro seguiria um caminho diferente do de Diana?
Hans primeiramente se silenciou. Depois deu três passos para frente e esbarrou levemente em Diana. Ela hesitou, não sabia se, se afastava dele ou se permaneceria ali, como se nada a abalasse. Ela preferiu a alternativa C. A de não saber o que fazer por isso ficou imóvel.
Por um segundo, quando Hans levantou a mão, ela achou que ele tocaria seu rosto. Por alguma fração de segundos, ela quase sentiu antecipadamente o toque de sua mão. Isso fez seu coração acelerar. Mas, para sua surpresa — e decepção, mesmo que negasse isso a si mesma — Hans alterou o trajeto e encostou o dedo no se cordão.
– Sua chave. — sussurrou. — Tem números nela. Juntei dois com dois e suspeitei que fosse a chave do seu apartamento.
Diana baixou os olhos para seus dedos. Eram compridos e sua mão grande, máscula. Ela sentiu uma vontade absurda de senti-las. O que estava acontecendo com ela?
– Sou péssima em guardar coisas. — ela se afastou. — Perco a maioria.
– Entendi. — ele balançou a cabeça. — Eu sou o oposto. Sou ótimo em achar coisas. — o que ele queria dizer?
Eles se olharam por três segundos longos até que ela decidiu mudar o rumo da conversa.
– Onde estão seus amigos?
– Hm, Elliot deu no pé. — ele pareceu um pouco desapontado com a ideia dela. — O Sven fugiu comigo e depois pedi que ele fosse atrás do Elliot. Ele não tem o juízo muito certo.
– Não discordo. — ela cruzou os braços. — E os outros? Os cinco?
– Ficaram lá inconscientes. — Hans se afastou e olhou por cima do ombro de Diana. — Posso?
Ela não soube dizer o que ele pretendia quando disse isso, mas quando ele a ultrapassou, ela percebeu que ele estava falando da cozinha. Diana a seguiu.
– A polícia vai pegá-los, então.
– É isso ai. — ele contornou o balcão e foi até a geladeira.
– Mas, mas isso não é algo ruim?
– Ruim? — Hans ergueu a cabeça e a encarou por cima da porta da geladeira. Ele era uns dez centímetros maior do que ela.
– O Filp, os outros, eles te entregarão, — Hans arqueou a sobrancelha para o que ela disse. Diana corou de repente. — os seus amigos também.
– Sim, é verdade. Eles certamente na raiva vão dar a língua nos dentes. — rapidamente, ele fechou a geladeira e trouxe consigo uma bandeja de presuntos de peru e manteiga.
– E isso não te preocupa? — ela o seguiu.
– Onde fica os pães? — ele perguntou. Diana apontou para a primeira porta da segunda prateleira. — Obrigado.
– Então. Você não está nem um pouco preocupado?
– Mesmo que eles estejam putos com a gente Diana, — recheava o pão enquanto dizia. — eles não irão nos dedurar.
Diana ficou confusa.
– E por que não?! Eu entendi o que aconteceu ali.
Hans se virou para ela.
– Sério? Então o que entendeu?
Diana ficou furiosa porque via sua incredulidade naquele rosto brusco.
– Seu amigo Elliot matou o garoto na madrugada passada. Ele era de uma gangue, da mesma do Filp. Eles irão se vingar.
Hans deu um meio sorriso.
– Você não entende. Na verdade, você nem deveria ter estado lá. Não é algo que você está acostumada.
– Não mesmo. Mas eu estive. — ela resmungou. — Eles me viram, tenho certeza.
– Nada vai te acontecer se é com isso que está preocupada. — Hans desistiu do seu sanduíche e a encarou. — Primeiramente porque eles não podem nos dedurar sem que o chefe deles permita. Existe muita poeira embaixo desse tapete, Diana.
– Eles não podem, então? Vocês são tão importantes assim? — ela cruzou os braços.
– Até que somos. — Hans deu um risinho baixo. — Está interessada na minha vida, agora?
– Não na sua vida. — ela murmurou. — Mas sim no que pode me incluir. Esses caras que você conhece. Eu não sei quem eles são ou o que eles são capazes.
Hans apoiou o braço esquerdo no balcão e se virou para ela.
– Os caras que eu conheço Diana não vão se meter com você.
– Você tem como garantir isso? A não ser que você fique de plantão na minha casa todos os dias ou instale câmeras de segurança, você não pode saber se eles vão vir atrás de mim.
Hans riu.
– Por acaso está me convidando para dormir aqui?
Diana corou.
– Idiota. — ela tentou não encará-lo nos olhos. Isso não funcionou como ela queria pois ele continuou a encará-la intensamente. — Você está desvirtuando tudo, Hans. Você não sabe como isso mexe comigo.
– Desculpe. — ele sussurrou.
Finalmente ela criou coragem para encará-lo. Talvez porque tivesse ficado curiosa com a sua resposta e pelo tom que ela saiu. Não parecia ser o estilo dele.
– Você mesmo disse. Eu não deveria ter estado lá. — ela disse, esvaindo aquele acesso de raiva que ela sentiu alguns segundos atrás. — O seu mundo é diferente do meu, Hans. Não pertencemos aos mesmos cenários.
Ele ficou sério. Uma linha reta se formou bem no meio da sua testa franzida. Seus olhos negros estavam mais sombrios do que o de costume. Fora isso, ele não demonstrava nenhuma feição.
– Sinto muito. — disse-lhe. — Você não deveria ter estado lá. Era a hora errada, no momento errado.
– Não foi sua culpa.
– É, só que ta difícil enfiar isso na minha cabeça. — ele resmungou, cutucando fortemente o lado direito da sua cabeça.
– O que? Sobre o que?
– Sobre… — seus olhos pairaram sobre ela. Tão quietos e ao mesmo tempo tão embaraçosos. — Não é nada. É irrelevante.
Ela não conseguiu compreendê-lo. Houve uma pausa.
– O que eu quero dizer, Diana… É que fique despreocupada, — Hans moveu os largos dedos pela lateral da borda do balcão. — ninguém virá atrás de você.
– Como pode ter tanta certeza? — ela se perguntou, mas alto o suficiente para que ele ouvisse.
Hans demorou um longo segundo para pensar no que dizer. Ele se aproximou.
– Estou dando minha palavra. — ele se aproximou de novo. Era a primeira vez que Diana reparava com afinco o rosto de Hans. Seus olhos não eram enormes, eram um pouco oblíquos, semicerrados. A encaravam na meia lua. — Para que isso aconteça, terão que passar por mim. E será bastante difícil. Confie em mim.
Sua pele bronzeada não deixou esconder a leve insistência de sardas no seu nariz pontudo, um pouco assimétrico no seu rosto, mas que tornava o contraste perfeito no fim. Os lábios eram um tanto cheios. Diana nunca havia reparado porque nunca tinha se dado ao trabalho de pensar em outra coisa a não ser odiá-lo e querer fugir. As sobrancelhas eram grossas, negras, da mesma cor do seu cabelo. Hans espalmou fortemente a lateral do balcão de repente e ela percebeu novamente o quão grande ela era. Ele inclinou seu corpo para frente pelo o que se passou quinze segundos. Tudo em silêncio, um olhando para o outro. Diana sentiu que se não puxasse o ar de volta, desmaiaria sem oxigênio.
– Hans… — sussurrou.
– Chame-me de Adam.
– Adam?
– É o meu verdadeiro nome. — disse baixinho ao ponto de que estavam numa distância de um sopro. — Adam Hanson. — ele explicou.
– Ah! Faz sentido agora.
Ele riu. Diana demonstrou rapidamente um risinho tímido. Depois, tomou a consciência. O que ela estava fazendo? Estava esperando que ele a beijasse ali mesmo? Onde estava sua sanidade ou sua decência? Não o odiava? Diana tinha que se recordar que Hans, Adam, não importava qual seu nome fosse, era o tipo certo de garoto errado. Ela sempre planejou um mundo perfeito. Trabalharia, conheceria um cara como ela, inteligente, correto e prudente. Se casariam na primeira oportunidade. Mas Hans não era aquele que ela procurou. Ou planejou.
– Você tem que ir embora. — ela murmurou de repente. A expressão de Hans mudou para um tanto surpresa.
– Você quer que eu vá embora?
Ela não lhe respondeu.
– Diana, — Adam sorriu. — você quer que saia daqui?
– Q-quero.
– Não senti convicção.
– Você tem que ir. — ela emoldurou a voz como se nada tivesse acontecido. — Está tarde. E eu estou sozinha. — Diana deu dois passos para trás e se moveu. — Acho que você entende isso.
Ela nem quis questionar se Adam estava seguindo-a ou não. Ela andou em direção à porta e a abriu. Ficou surpresa na mesma hora.
– Sr. Filpsbird?
O coração de Diana pareceu sair pela boca. Ela se encolheu na brecha da porta para impedir que o porteiro visse alguma coisa.
– Ah, boa noite, Diana. Já estava me preparando bater. — ele deu um meio sorriso. — Você está bem?
Ela fez que sim com a cabeça.
– Ah, certo. Desculpe perturbá-la, mas… — seu rosto ficou vermelho. — A polícia está lá embaixo. Eles me fizeram perguntas sobre o que aconteceu no metrô depois que você foi embora porque… porque parece que não encontraram nada.
– Nada? O senhor disse sobre mim? — sua respiração mal combinava com sua frequência cardíaca.
– Não, claro que não. Disse que iria checar se as câmeras do prédio estão funcionado para ajudá-los. Mas não sei o que dizer, como explicar tudo.
– Ah, desculpe sr. Filpsbird por tê-lo metido nessa. — Diana respondeu, sua cabeça latejava um pouco. — Eu não sei o que aconteceu direito. Eu estava no metrô quando apareceu cinco caras falando alto com outros dois. Nunca os vi na minha vida. Achei que aconteceria alguma coisa. — explicou, sua garganta ardeu com a mentira.
– E aconteceu. Eles encontraram vestígios de sangue no piso do metrô, mas nada além disso. Eles vieram me perguntar o motivo de eu ter ligado. Eu menti. Disse que ouvi vozes bastante altas, não iria incluir a senhorita, estava apavorada quando apareceu.
– Obrigada, sr. Filpsbird.
– Não tem pelo o que. — ele deu um sorriso amarelo. — Vou voltar lá para baixo. Direi que as câmeras não estavam em funcionamento, o que não é mentira pois coincidentemente eles estão passando por manutenção.
– Tudo bem então. Boa sorte com os policiais. Obrigada novamente.
Ele acenou um tanto antes de se afastar no corredor e Diana finalmente fechou a porta. Ela encostou as costas na madeira e recuperou a respiração. O coração em descompasso deixava sua visão turva. Achou que desmaiaria a qualquer momento. Nem percebeu a chegada de Hans e muito menos quando ele colocou suas enormes mãos de cada lado do seu rosto e disparou a falar. Levou um longo segundo para ela despertar.
– Diana? Diana?!
– Estou bem. — ela murmurou.
– Seus lábios estão brancos. Você está toda branca.
– Estou nervosa, me dê um tempo. — ela empurrou seu corpo para frente e tentou ficar ereta. As mãos de Adam caíram para seus ombros.
– Está melhor?
– Acho que sim.
Houve silêncio. Ele ficou monitorando-a por uns dois minutos.
– Que que foi?
– Nada. — resmungou. — Estou apenas pensando.
– Em que?
– Você nunca se adaptaria a esse mundo. — seu tom de voz era quase que decepcionante. Adam se afastou e andou em direção à cozinha. Diana o seguiu. — Estou indo embora, OK?
Ele se moveu até a geladeira e tirou uma jarra de água.
– Mas não antes de você tomar um pouco de água com açúcar.
Ela quase riu.
– Eu não preciso disso.
– Não vou sair daqui esperando que você desmaie nas minhas costas.
Ela foi atrás dele.
– Isso não vai acontecer. Largue isso. — Diana se intrometeu ao seu lado e tentou puxar a jarra para si.
– Deixe de ser teimosa. — Hans afastou a jarra do seu alcance. Era uma boa hora para ser alto.
– Não se preocupe comigo. — Diana pulou no ar e agarrou a ponta do vidro. Ela achou que tinha puxado com muita força porque no momento que ele ergueu o braço para afastar-se dela e Diana aproveitar para puxar a jarra, Hans xingou baixinho. — O que foi?
Ele fez uma careta de dor.
– Nada.
– Eu te machuquei?
Ele riu.
– Claro que não.
Diana não engoliu sua risadinha. Ela inspecionou seu braço inteiro a procura de algum ferimento. Talvez tenha ocorrido na briga. Mas estava tudo limpo. Foi quando ela correu os olhos para sua barriga que ela notou a lateral dela. Uma mancha de sangue.
– O que é isso? — ela se movimentou para tocá-lo.
Ele se afastou.
– Deixe isso quieto, Diana.
– Venha aqui, Adam! — ela resmungou.
O seguiu em volta do balcão.
– Você não vai correr de mim. — mas foi o que ele fez. Ela ficou irada. — Não seja infantil.
– Então pare de me perseguir.
Ela não lhe deu ouvidos. Quando ele decidiu ir para um lado ela o pegou. O empurrou para o balcão e ouviu suas costas batendo no armário.
– Desculpe. — ela disse depois de ouvi-lo gemer.
Diana não se importou com seus protestos. Segurou a barra da sua camisa e afastou sua mão na tentativa de impedi-la. Ela ergueu o tecido e avistou o ferimento. Ainda saía sangue, não era tão feio, mas era o suficiente para ele ganhar uma infecção e morrer.
– O que aconteceu?
– Levei um tiro.
Seus olhos se alarmaram.
– Mas pegou de raspão, fique calma. — e para sua surpresa, ele deu um meio sorriso.
– Preciso lavar isso. Não posso costurar, se fizesse com agulha e linha não esterilizada você pode muito bem ganhar uma infecção muito feia. — Hans não assimilou rapidamente o que ela dizia, Diana perambulou de um lado a outro da cozinha até achar o que procurava.
Dentro de uma gaveta ela encontrou uma maleta branca com vermelho de primeiros socorros.
– Tire a camisa. — ela ordenou.
– Sem problema. — ele ainda sorria. Hans passou os dedos pelo tecido e o deslizou pelos braços até o chão. Diana tentou se concentrar no seu ferimento e não na desenvoltura do seu peito. Ele cheirava tanto a sal e chuva quanto a sabonete de lavanda e colônia.
– Preciso lavar isso primeiro. — ela murmurou ainda sem encará-lo. — Vai doer um bocado então é melhor… — ela nem se deixou terminar de falar. Correu para o outro lado da cozinha e puxou uma tigela de remédios. — Analgésico. Para você.
Hans fez cara feia quando ela se aproximou.
– Ou você toma ou eu enfio uma faca quente na sua pele.
– OK, OK. — ele fez gesto de rendição. Diana lhe passou os remédios e um copo d’água. — Pronto. O que faremos agora?
– Agora você vai pra debaixo do chuveiro.
– Ei, ei, espere aí — Diana se virou para ele, curiosa. — primeira noite na sua casa e você já está me convidando para tomar banho com você? Vai com calma, Diana. Eu ainda sou virgem.
Ela fez cara feia para ele, mas quando virou de costas não teve como esconder o sorrisinho. Adam era divertido quando queria.
No corredor a frente, na primeira porta a direta havia o banheiro que Diana usava para tomar banho. Ela deixou Hans na porta para pegar o necessário. Uma toalha e um sabonete. Quando ela voltou, ele já estava lá dentro.
– Aqui estão as coisas.
– Você não vai ficar aqui comigo? — ele arqueou a sobrancelha.
– Claro que não.
– E se eu cair? Quando seu remédio fizer efeito eu vou ficar maluco demais para me manter em pé. E de jeito algum vou tocar nisso. — ele apontou para seu ferimento.
– Você é um aproveitador, Adam. — Diana resmungou, mas cedeu logo em seguida. Ela entrou dentro do banheiro e o empurrou para a ducha. Depois de ajeitar a caixa de primeiros socorros e sua toalha, eles se ajeitaram frente a frente. — Sem gracinhas entendeu?
– Gracinhas? — seu sorriso era um tanto divertido para quem tinha levado um tiro.
– Fique quieto. — ela resmungou.
– Sim, general.
Adam fez o cumprimento militar e depois levou as mãos aos botões da calça.
– Ei, ei, que que você ta fazendo?
– Tirando a calça ou você acha que vou tomar banho de roupa?
– P-pelado que não vai ser. — Diana corou.
– Tudo bem. – ele revirou os olhos. — Eu fico apenas de cueca.
Se Diana podia ficar mais vermelha, ela ficou, mas infelizmente não tinha como impedi-lo agora. Adam desabotoou a calça e abriu o zíper. Deixou o tecido cair pelas pernas até se desvencilhar dele por completo. Diana ficou fingindo procurar algo de importante na caixa enquanto ele fazia tudo isso.
– Estou pronto.
– OK. — ela se afastou. — Não precisa pressionar seu ferimento, deixe a água lavá-lo naturalmente. Na primeira pausa, eu termino de lavá-lo.
Diana se inclinou no chuveiro e ligou o interruptor. Mantendo uma distância mínima de Adam e a água, ela o observou fazer careta enquanto a água caía.
– Está doendo?
Ele ignorou. Inclinou o corpo para a parede e a segurou com as duas mãos. Ele gemeu alto. Diana queria fazer algo para ajudá-lo, mas não podia. Ela não tinha todos os remédios o suficiente para isso.
– Isso arde. — ele resmungou.
– Aguente firme.
Ele tentou. Durou no máximo uns três minutos quando ele fechou a torneira.
– Vamos logo com isso.
Ela fez que sim com a cabeça. Não iria questioná-lo, não era ela que estava sofrendo por causa de um tiro. Diana abriu a caixa e tirou um gaze para a limpeza.
– Ignore a dor. — ela disse ao se aproximar dele, mantendo equilibro para não escorregar no chão molhado.
Adam não respondeu. Ela entendeu isso como “já está doendo, mas vai fundo”. Ela se aproximou um pouco mais e limpou as laterais do ferimento, o corpo de Adam se contraiu no primeiro toque. Sua barriga era bastante dura. Ela tentou mais uma vez. Sem perceber, já estava segurando em volta de sua cintura enquanto limpava ainda mais perto da ferida de Adam. Ele ainda parecia estremecer a cada toque seu. Diana trocou de gaze. Mais uma vez o mesmo trajeto. Passou-se uns sete minutos quando ela decidiu que podia parar ali.
– Já é o suficiente. Você pode tomar um banho mais confortável agora. — ela deu um meio sorriso. Jogou mais um gaze no lixo e o encarou. — Vou deixá-lo sozinho, agora.
Adam a olhou um pouco turvo, torto. Apoiava-se na parede a esquerda, esticando o braço até ela.
– Você está bem?
– Acho que é o remédio.
– Você consegue ficar em pé pelo menos?
Ele fez que sim com a cabeça.
– Se precisar de mim é só chamar. — Diana disse, afastando-se para fora do boxe.
– Espere. — ele a segurou com a mão livre pelo cotovelo. Diana se aproximou novamente.
– O que foi?
Via diretamente seu rosto de baixo, ela era alguns centímetros mais baixa que ele, consideravelmente mais baixa do que ele. Hans tinha a respiração pesada e ofegante, mas ainda sim, mesmo tonto por causa do remédio, ele era de tirar o fôlego.
– Fique aqui.
– Não posso. Você tem que tomar banho.
– Diana… — ele sussurrou. Seu rosto pendeu alguns centímetros para frente, para perto de Diana. — Por favor.
Seu cheiro ainda era muito tentador depois de tudo. Diana mal sentia a força dos membros, pareciam gelatinas nas mãos do Adam. Seus olhos mal conseguiam se focar em alguma coisa, piscavam sonolentos como se ela estivesse se entregando ao sono. Nenhum resquício de sanidade ela guardava nesse momento.
– Hans…
– Adam… por… favor.
Num farfalhar de batidas do seu coração e uma última tentativa de se manter acordada, Diana perdeu. Adam a beijou.
Seus lábios tocaram silenciosamente e suavemente os dela, sentindo um gosto supérfluo do sabor da boca de Diana. Mas o suficiente para que o coração de ambos se acelerasse. Lentamente, ambos se afastaram, mas mal conseguiam enxergar um ao outro, ainda estavam entorpecidos. Adam segurou os cotovelos de Diana e a puxou novamente, agora bem mais decidido. Aproveitou o beijo rápido e duro para infiltrar sua língua nos canto dos seus lábios, fazendo o convite. Diana atendeu na mesma hora. Saboreou a entrada dele na sua boca e se derreteu num gemido abafado pelo beijo forte de Adam. Ele a tomou pelos braços e no baque ele gemeu de dor. A dor foi rapidamente a única coisa que a fez despertar. Adam estava ferido. Não podia tê-lo beijado. Ela se afastou.
– Você precisa terminar seu banho. — fora a única coisa que ela foi capaz de dizer antes de correr para fora do banheiro e fechar a porta, deixando-o inteiramente confuso.
Este era o abismo que Diana estava querendo ultrapassar? Adam não era seu plano, mas por que se sentia tão desnorteada por um simples toque? Como afastar uma pessoa que tornava a fazer seu corpo desejá-lo de todas as maneiras? Este era o caos? Diana não queria confirmar se era. Era o caos chamado Adam Hanson. Algo irresistível demais para ceder.
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