Notas iniciais
obrigada pelas visualizações >< boa leitura

Diana chegou à conclusão que odiava motos. Repudiava a ideia de estar sobre duas motos e sentada num mínimo espaço apresentável possível. Odiava também o vento contra o rosto e embaraçando os fios do cabelo. E acima de tudo isso, odiava ter que se sentir tão protegida agarrando-se em volta da cintura do Hans. Seu nome agora estava gravado na sua fraca memória, que diferentemente das outras, mais parecia uma tatuagem, algo que não sairia com muita facilidade. Ela não se esqueceria. Muito menos também do “camiseta branca e jeans”. E até agora ela não sabia por quê.

Hans parecia tão confortável montado na moto que chegava a se tornar livre. Ela não entendia essa tal liberdade que ele sentia prazer. Era assustador. Estar sempre com medo, esperando que o pior pudesse acontecer. Não havia segurança alguma estar ali desprotegido. Isso não era nada libertador. Diana esqueceu até de passar no bairro italiano e comprar a comida de Aby. Perdeu até a fome. Queria somente estar em casa e segura entre várias paredes. Sem trânsito, sem bares, sem maníacos bêbados e acima de tudo sem Hans.

Quando finalmente Diana avistou o topo da sua igreja e os primeiros lances dos andares do seu prédio, ela tirou os braços em volta do corpo de Hans e disse para ele, um tanto quanto alto, que ele podia parar. Ele ouviu atentamente, virou o rosto para Diana para ouvi-la melhor. Nesse momento ela teve que admitir tanto quanto sua pele bronzeada era perfeitamente atenuada e bonita, que seu cheiro era maravilhoso. Armani talvez.

– Aqui. — ela gritou novamente, apontando o dedo para frente.

Um segundo depois, Hans estacionou a moto no acostamento, ao lado da calçada. Diana se sentiu finalmente bem novamente. Passou a perna por cima da moto e sentiu a dureza e a firmeza do asfalto. Agora estava segura. Tirou o capacete e o passou para Hans.

– Obrigada. — ela disse sem olhá-lo.

Não podia contar o nível de sua felicidade. Sairia dali e prometeria a si mesmo que seria a última vez que faria algo desse jeito. Porque até parece que isso, montar em cima de uma moto com um cara desconhecido, Diana voltaria a fazer.

– Então essa é a sua casa? — ela despertou e agora olhando para ele, ela percebeu que Hans estava observando todos os lances de andares do seu prédio.

Não eram muitos, apenas sete. O edifício era bem alinhado, paredes de pedras cinzas bem escuras, janelas largas e compridas com uma porta de vidro para o alpendre pelo menos na maioria delas. O quarto de Diana ficava facilmente notório porque era o único do apartamento que tinha um alpendre. Abby nem pestanejou pela escolha dele, era um pouco medrosa para altura.

– É, por que? — Diana finalmente perguntou.

– É legal. — ele a encarou. Sua expressão era confusa. Seus olhos eram bem escuros, pareciam duas cortinas negras nunca prontas para serem abertas e mostrar o sol.

– O que foi?

– Só estou me perguntando por quê alguém que vive num bairro confortável desse e num lugar desse estaria num bairro como o Five Points.

– Por que o interesse? — Diana devolveu a pergunta.

Diana não iria lhe responder a verdade. Ele sabia demais da vida dela, agora estava por dentro sobre onde ela morava e se fosse esperto, juntaria os pontos e perceberia que a maioria das pessoas que frequentam aquele café a tarde são os alunos da Columbia.

– É confidencial? — e depois ele deu de ombros. — Você estava no meu bairro, moça.

– Seu bairro?

– Five Points é a minha casa. — ele abraçou o capacete. — Qual a surpresa?

Diana riu-se. Não podia acreditar que Hans morava ali. Já era mais coincidências do que ela podia suportar. A idéia de esbarrar com ele subiu para uma probabilidade de oitenta por cento, isso a deixava ainda mais incrédula.

– Por que está rindo? – Hans perguntou, aquele par de olhos negros encarando cada centímetro do seu rosto. Diana odiou isso, mas ignorou.

– Achei que estivesse me perseguindo ou o destino estava querendo gozar com a minha cara me fazendo esbarrar com você outra vez.

Ele riu.

– Qual a graça?

– Nada. — ele se conteve, Diana havia perdido alguma coisa. — É tão ruim a ideia de se esbarrar comigo, moça?

– Ah, sim. — disse. — Piadas. Motos. Bares. Ah, sim.

– Qual o problema com a moto? Shelley é segura, está comigo há anos. — Hans fez uma carranca como se estivesse magoado

– Shelley? — ela riu.

– É o nome da minha moto. Que que foi?

– Você dá nome para sua moto? – ela riu-se, quando molhando os olhos.

– Por quê? Nunca deu nome à uma moto ou um carro?

– Não. Definitivamente não. – ela se conteve. – E primeiramente porque odeio motos. Nunca andaria num troço desse, seg...

– Mas andou comigo hoje. — ele a interrompeu.

– Primeira e última vez. – ela retrucou.

– Você não parece muito boa com promessas, moça.

Diana ficou vermelha.

– Do que é que está falando? Eu cumpro todas que eu digo. — ela postou-se a sua frente, furiosa.

Quem era ele para inferir tais coisas sobre ela? Tinha que ressaltar que eles mal se conheciam? Ele não sabia nada sobre ela.

– Tirando a parte que não me agarraria na moto. — ele a lembrou, sorrindo de lado e piscando para ela. Diana não pode ficar mais furiosa do que já estava.

– Eu não te agarrei. Eu estava me segurando porque você parece um maluco dirigindo. — suas bochechas estavam queimando de raiva. — E mesmo que houvesse uma única chance para isso acontecer, eu não faria.

– Out! — ele fez um sinal de dor, como se houvessem lhe atingido o peito. — Você é a primeira garota que não fica feliz por estar andando comigo na minha moto.

– Deve ser porque sou a única com algum pingo de sanidade. — ela retrucou.

Hans franziu a testa, mas ainda sorrindo.

– Você é do tipo que escuta Beethoven antes dormir, estou errado? Qual seu tipo de música favorita? Barroca? Erudita? — ele se inclinou pela moto e encarou Diana. Os olhos bem abertos. — Você conhece algo chamado "atual"?

Ela tentou não batê-lo naquele momento.

– Eu não sou como as vadias que você frequentemente encontra e se auto convidam para montar na sua moto. Deve ser algo diferente para você, creio. — Diana se aproximou. — Aproveite, porque será a última vez.

– Você está me pedindo algo, moça? — Hans umedeceu os lábios. Depois disso, ele encarou os de Diana. – Está querendo fazer algo proibido, é?

Ela encarou seus lábios. Antes que se arrependesse, ela percebeu que eles eram carnudos, mais do que os dela. Tirou os pensamentos da cabeça e se brigou a encará-lo nos olhos.

– Você é um idiota.

– Já me chamaram de coisa pior. – ele arqueou a sobrancelha.

Diana revirou os olhos e nem pensou duas vezes, afastou-se de imediato.

– Até nunca mais, Hans. — ela murmurou.

– Você ainda não me disse porque estava no meu bairro.

– Isso não é da sua conta. — ela disse um pouco alto, aproximando-se da entrada.

– Não vai me dizer nem seu nome?

– NÃO! – gritou, virou-se de costas para ele.

– Eu já disse que sou insistente?

– Eu já lhe disse que não estou nem aí? — ela berrou.

– Ainda nos veremos muito. — Hans colocou o capacete de volta na cabeça e ligou a moto. Diana espreitou-o pelo ombro. — Eu sei que garotas como você não saem com garotos como eu. — ele disse muito baixo, mas Diana ainda conseguia ouvi-lo. — Mas não quer dizer que seja impossível. Te vejo por aí.

E antes que ela pudesse pestanejar ou xinga-lo, Hans foi embora. Cantou pneu naquela moto ridícula e se mandou. Diana entrou no prédio cuspindo fogo. Mal o conhecia e ele já estava fazendo suposições. Quem era ele afinal? Algum mafioso da Five Points? Diana começou a rir de repente. Até parece que ela seria patética ao nível de sair com um cara como Hans. Moto. Bebida. Fumo. Bar. E garotas. Ele era o semblante do perigo e de tudo que era errado. Não era o seu tipo e nunca seria. Os dois eram diferentes demais para fazer algo acontecer.

Diana subiu até o elevador pisando firme, acenou para o porteiro e apertou seu andar. Teria que arrumar um plano para não encontrá-lo no Five Points. Teria que fazer de tudo para evitá-lo. Não suportaria essa situação. E Diana sabia que se isso acontecesse, deles se encontrarem, ela sabia que Hans não pouparia esforços para importuná-la. Era do feitio dele. Ela já adivinhara.

Após alguns segundos, Diana já estava no seu andar. Pegou a chave presa no cordão e abriu a porta. A maior parte das luzes estavam apagadas, menos a do corredor. Ela achou que tivesse chagado primeiro que Abby, mas assim que chegou na cozinha para beber água, ela ouviu passos.

Abby vinha do quarto ainda vestida de pijama com um sorriso infinitamente grande no rosto. O que havia acontecido de tão bom que ela estava transbordando felicidade?

– Ana, — ela se debruçou pelo balcão. Naquele momento Diana achou que Abby contaria o que de tão bom havia lhe acontecido. — quem era o cara?

– Que cara?

– O da moto. — ela revirou os olhos. — Eu vi você chegando na garupa de uma moto. E não era o Matt.

Diana ficou vermelha.

– Era um idiota.

– Mas um idiota muito gato. Onde o conheceu?

– Nem queira saber. — já não bastava Brienne e Annie falando sobre o quão gato Hans e sua turma eram, agora tinha a Abby para dizer isso também?

– Ah, você tem que me contar. Não faça isso comigo.

– Ele é um idiota qualquer, Abby. — Diana devolveu a jarra de água na geladeira e lavou o copo. — Preciso dormir.

– Qual o nome dele?

– Não sei.

– O que ele queria te trazendo até aqui?

– Não faço ideia.

– Não vale, Diana! — ela resmungou.

– Estou falando a verdade. Por falar nisso, nem o nome dele eu lembro. — ela mentiu.

– Seu caso com memória está ficando sério. — Abby nem notou que ela estava mentindo. Isso era um avanço. — Mas pelo menos o cara sem nome era um gato.

– Gato nada. Um encosto. Para me livrar disso preciso de um banho e uma boa noite de sono.

– Você ainda não me contou isso direito, Diana.

– Contar o que? — Diana andou preguiçosamente até a sala. Abby a seguiu.

– Essa história.

– Não tem o que contar. Tchau Abby. — ela se dirigiu para seu corredor.

– Conversaremos amanha.

– Boa noite, Abby.

Quando Diana fechou a porta, não se ouviu mais nada. Ela iria conseguir adiar o questionário para amanhã e mesmo que ela não quisesse, era melhor do que ser bombardeada por inúmeras perguntas agora. Já bastava as suas a respeito de Hans. Na verdade, queria tomar um chá de esquecimento e não lembrar desse dia e muito menos desse nome e dele. Diana era tão boa para esquecer as coisas, por que não um garoto desconhecido que só lhe irritava?

Seria fácil.

Amanhã quando menos esperasse, já teria superado toda essa noite. Seria um novo dia bem diferente do que acontecera com ela essa tarde. Esqueceria do Hans, nem lembraria seu nome e voltaria a sua vida normal.

Crente nisso, Diana pegou uma toalha e foi tomar uma ducha. Não demorou muito, arrumou-se para dormi colocando moletom e uma blusa fina de alça e deitou-se. Apenas quando estava rolando para um lado e para outro que ela percebeu que não estava com muito sono. Pensava em coisas e odiava pensar nessas coisas. Primeiramente, pensou sobre motos. Não sabia porque já que odiava-as. Depois, pensou em como odiava homens prepotentes e nisso somou-se à Hans. Ele era exatamente o estilo de homem prepotente, confiante demais e certo do seu charme. Ele até podia ter charme… Diana pensou. Ele até podia ser atraente, levando em conta toda aquela combinação de músculos, ser bastante alto e aquele cabelo negro. Melhor ainda, o contraste da sua pele bronzeada. Ou o sorriso branco. Ele ainda cheirava muito bem.

Ah, Deus, no que estou pensando?

Diana balançou a cabeça como se fosse espantar seus pensamentos. Parecia nesse momento muito ridícula. O odiava ou o admirava? Ela só era confiante para afirmar uma dessas sentenças. A outra seu próprio orgulho a impedia.

Depois de um longo tempo, Diana consegiu finalmente sentir seu corpo entregando-se ao sono, sua mente esvaziando e seus pensamentos sobre esse dia afastando-se aos poucos.

Era uma idéia de liberdade bem melhor do que a do Hans, da de estar em cima duma moto. Liberdade de não pensar em nada.

Diana xingou baixinho e virou-se para o outro lado da cama. Voltara a pensar nele. E de novo.

Fechou os olhos e voltou a se esforçar a dormir. Em mais alguns minutos, ela conseguiu.

Entregou-se a um pesado sono e ao sonho mais estranho da sua vida. Estava na garupa de uma moto. Seguia por uma rua deserta e sem prédios dos lados. Não era em nada parecida com Manhattan. E para completar, Hans dirigia e Diana segurava-se fortemente em volta da sua cintura.

Ele não havia a seqüestrado, nem era um pesadelo. Era um sonho maravilhoso, mas que faria Diana acordar fula da vida no dia seguinte.

Notas finais
comentem!