Caos - Afterend
4 Fragmentação
Não demorou muito mais que um mês para que o pressentimento de Suzaku se concretizasse, qualquer que fosse a situação produzida por prender Nunnaly, não poderia ser pior do que aquela.
Apesar de as piores previsões de desintegração total não terem se tornado realidade, ainda, era certo que a UFN estava à beira do abismo. O ressentimento da Europa era palpável por obviamente não ser considerada um grande poder, e era óbvio que o único motivo pelo qual não buscava a separação ainda era que estavam esperando para ver o que acontecia na Britannia. Os Cavaleiros Negros originais, por outro lado, não viam a necessidade de uma inclusão maior dos europeus, afinal eles não eram muito confiáveis.
A Rússia parecia um urso em hibernação, havia algo de estranho em seu líder, mas que Suzaku não conseguia explicar objetivamente. Eles não tiveram grande participação nos últimos conflitos, mas algo dizia a Suzaku que isso era apenas uma preparação. Eles não tinham uma posição clara.
Mas o maior problema vinha de países das Américas e da África. Pareciam haver apenas dois tipo possíveis de cartas vindas de líderes desses lugares: Um pedido desesperado de intervenção na Britannia, antes que algum tipo de revolução irreversível acontecesse e ameaçasse-os. Havia também o pedido minimamente sutil, cheio de insinuações indiretas, que caso algo não fosse feito, tal ou tal país provavelmente se juntaria à Britannia em caso de conflito direto entre um novo império da Britannia e a UFN. Suzaku esperava que não chegasse a isso. Além disso, Nunnally nunca restauraria o império, certo? Era o que ele gostaria de pensar.
-
Nunnally lançou um olhar quase melancólico para o cenário que via da janela em seu apartamento de Nova Londres, capital da República da Britannia pois Pendragon fora aniquilada por uma Freya. – Será que essa foi a melhor escolha? Talvez eu não esteja sendo injusta por fazer isso? Apenas por não conseguir aguentar a injustiça de como meu irmão viveu e morreu? – Ela não se sentiu surpresa ao ver E.E. quando se virou.
– Ora, por favor, majestade... – Ela cortou-o rapidamente.
– Eu sou apenas um restante da família que levou essa nação à ruína. – Ela olhou-o como se estivesse desafiando-o a dizer diferente.
Pela expressão de desagrado que fez, E.E. não parecia concordar com essa ideia. – Por enquanto apenas. – E sorriu.
– Já te disse, não tenho intenções de me tornar Imperatriz, e duvido que alguém me queira nessa função. – Mas havia algo que faltava em sua voz, convicção nisso talvez.
E.E. não disse mais nada no momento, mas ele sabia que ela era inteligente o suficiente para perceber os efeitos de seu discurso em seu país natal. A liderança política da Britannia, antes incipiente por medo de uma possível retaliação da UFN, estava rapidamente se coagulando em dois grandes grupos: Aqueles leais à UFN, que por convicção ou por medo, pregavam que era necessário manter relações amigáveis com a UFN e condenavam veementemente o discurso de Nunnally, dizendo que seguir os ideias de seus rivais levava a regressão ao passado. Haviam também aqueles que valorizavam o orgulho e o passado de Britannia acima de tudo, dizendo que se sujeitar à UFN era o fim da cultura da Britannia.
Seria fácil supor que plebeus estavam do lado do primeiro campo, enquanto que o segundo campo tinha o apoio da nobreza, mas as coisas não eram tão simples assim. Um dos mais proeminentes líderes daqueles leais era Gino, ex-Knight of Round. Apoio a cada um dos campos era relativamente balanceado, pendendo para o segundo grupo, mas o primeiro tinha a UFN como apoio. Apesar de constantemente fazer discursos críticos à UFN, naturalmente a colocando do lado do segundo campo, Nunnally rejeitou repetidas vezes uma posição de poder dentro do grupo, pois sabia onde isso a levaria. As relações já estavam precárias, e um conflito parecia que podia começar a qualquer momento.
Mas por que tantas pessoas apoiavam uma afronta à UFN, uma organização tão poderosa? Os Cavaleiros Negros não foram vencedores benevolentes. Além da negligencia a que outros países também eram submetidos, a Britannia fora obrigada a aceitar uma série de tratados que a limitavam economicamente, e quase qualquer demonstração de orgulho nacional era taxada de incitação à agressão que marcou grande parte da história da Britannia.
– Apenas lembre-se, Nunnally vi Britannia, você pode temer uma guerra civil, mas com ou sem guerra, sem uma figura forte para apoiá-los, a UFN vai em algum momento esmagar esse movimento separatista, você vai deixar que sua vingança acabe antes de começar? A hesitação de Kururugi Suzaku não pode durar para sempre, e mesmo que ela dure, a influência dele não durará.
-
Alguns dias depois, Kaname Ohgi não conseguia deixar de esconder certo nervosismo, afinal eles estavam se encontrando sem Zero. – O que vocês acham da situação? – E olhou para uma das telas em sua sala de primeiro-ministro do Japão.
Li Xingke Olhou de volta de uma cama de hospital. – Desastrosa, e do jeito que está indo, só ficará pior. Considerando a crescente oposição à UFN dentro da Britannia, só posso concluir que é questão de tempo até que o gabinete de governo atual que nos apoia caia. Então será tarde. Pessoalmente eu recomendaria algum tipo de repressão, mas... – Ele foi interrompido por um ataque de tosse.
Kyoshiro Tohdoh continuou. – Zero não aceitaria qualquer intervenção, não sem um mínimo de razão, algo assim só poderia resultar em uma radicalização. Outra opção seriam sanções econômicas... – Todos os três ficaram em silêncio devido à ironia, boa parte da culpa de estarem naquela situação fora a quantidade de sanções que a Britannia sofreu após a queda de Lelouch. – Enfim, a única opção que nos resta é o subterfúgio. Vocês concordam com a elaboração de um plano por prevenção? – Os três sabiam que Zero não concordaria com isso, mas o novo Zero, independente de quem fosse, não era metade de Lelouch e provavelmente rejeitaria o plano por mero idealismo. O que era preciso naquele momento era ações práticas.
– Concordo.
– De acordo.
-
Richard Smith sempre se achou um homem esperto, mas talvez o termo mais correto fosse oportunista. O primeiro primeiro-ministro da Britannia foi capaz de. Seguido da queda do Imperador Demônio, ele rapidamente identificou o núcleo de poder da UFN, os Cavaleiros Negros, e o que eles precisavam: Alguém facilmente controlável que desse aos habitantes da Britannia de que tinham controle sobre o próprio destino.
Oficialmente, ele não fora o candidato da UFN, mas seguido do período de alguns meses de ocupação e controle da UFN, devido a extensas campanhas pagas por ela, ele era a única figura com um mínimo de poder político. Dos filhos mais proeminentes de Charles, apenas Odysseus e Nunnally tinham um mínimo de liberdade que lhes permitiriam uma posição de poder e os únicos Knights of Round ainda vivos eram Gino Weinberg e Anya Alstreim. Nenhum desses pareceu inicialmente ter qualquer interesse em política.
Dessa forma Richard Smith conseguiu seu lugar ao sol, mas agora a que preço? Cada vez mais as eleições se aproximavam e ele não sentia que conseguiria se manter apoiando a UFN, por outro lado quais seriam as consequências se ele abandonasse a UFN? Talvez eles apenas o trocariam por uma marionete obediente. E se ele perdesse as eleições para um candidato em oposição à UFN? A UFN provavelmente procuraria alguém mais capaz... Ele não tinha como ganhar, a não ser que pusesse a situação sob controle.
Foi nessa situação em que o telefone conectado direto à sala do ministro da justiça tocou. Richard atendeu suando profusamente. – Alô, Primeiro-ministro? Temos um grande problema aqui na avenida principal, uma manifestação, muito grande a favor da restauração da monarquia. – Richard entrou em pânico, e ligou sua televisão portátil, era verdade que havia uma manifestação. – A situação não está boa, eu não acho que apenas bombas de gases e balas de borracha deem conta disso. Devemos abrir fogo? –
Richard sentiu que quase teve um ataque do coração, e respondeu nervosamente. – O que for necessário, você está autorizado a abrir fogo contra os manifestantes. – E respirou fundo.
Não passou muito mais do que dez minutos para que ele começasse a achar que havia algo estranho, talvez fosse a voz. Richard pegou o telefone novamente. – Acabamos de conversar sobre a manifestação que está acontecendo? Sim, isso mesmo, eu autorizei. – Dessa vez ele não sentiu nada errado, mas por que ele tinha um mau pressentimento a respeito da situação?
-
Orfeu estava sorrindo ao receber um cafuné de E.E. – Bom garoto, eu sabia que valeu a pena passar tanto tempo te ensinando a fazer diferentes tons de vozes, mas ainda bem que aquele cara é um idiota. Agora vamos, hora de ver história acontecer na frente de nossos olhos. –
O ministro estava achando estranho que não se lembrava direito da conversa com o primeiro-ministro, mas o importante é que estava confirmado: Abrir fogo contra os manifestantes.
Naquele dia, entre tiros e atropelamento, morreram quase cem pessoas numa manifestação apartidária contra as injustiças da UFN. Apesar de repetidas negações por parte do primeiro-ministro, que se recusou a renunciar e disse que houve uma falha, não uma decisão premeditada, muitos acharam que o massacre fora ordenado pela cúpula da UFN. Sua renuncia, ou não, já não mais importava, aquele foi o início de uma sangrenta guerra civil.
Fale com o autor