Caos - Afterend
2 1 - Visita de um antigo demônio
Não pela primeira vez naquela noite, Nunnally examinou-se cuidadosamente no espelho, afinal aquela era uma ocasião extremamente importante, então a representante diplomática de Britannia junto à UFN não poderia estar mal-arrumada. Sim, aquela era uma ocasião importante demais... Naquele dia estava se passando um ano desde que o mundo ganhou liberdade. Há um ano atrás, O Imperador Demônio, não, o irmão de Nunnaly, Lelouch, morreu para levar consigo todo o ódio do mundo para o túmulo, mas até hoje uma pergunta estava alojada no coração de Nunnally: Valeu a pena?
Ela ainda se lembrava da cena, e sua suspeita era de que até que a vida abandonasse seu corpo ela se lembraria. Lelouch caindo e deslizando na rampa de seu trono como algum tipo de boneco quebrado, um sorriso esperançoso estava estampado em seu rosto, como se ele tivesse completa certeza que aquele plano, seu último, era perfeito, e que assim como ele na vida pós-morte, o mundo alcançaria a paz eterna.
Nunnally desejava fervorosamente que ele estivesse certo, pois de que outra forma ela poderia viver em um mundo onde Lelouch não existe? Não havia um dia em que ela não se esforçava ao máximo para que a obra de Lelouch continuasse firme. Visitando todos os cantos do mundo, falando aos povos que um dia foram oprimidos pelo Império da Britannia, acalmando ânimos e amenizando dúvidas e suspeitas dos mais variados líderes em relação à UFN. Essas foram as únicas atividades que Nunnally conhecera durante esse um ano.
Ela também fervorosamente desejou que esse dia não chegasse, mas infelizmente ele chegou. Apesar das dicas que ela deixara o primeiro-ministro Ougi, sobre seu desejo de que não houvesse qualquer tipo de comemoração, a pressão política era muito grande. No mesmo dia em que, um ano atrás, Lelouch morreu, haveria uma grande festa para todos os líderes e representantes na sede da UFN. Como agravante, apesar de sua rejeição, Nunnally fora pressionada a fazer o discurso de fechamento da festa. – Você é como um raio de luz dentro da escuridão que foi a Britannia. – Isso que foi dito a ela, e apesar de seu sorriso, ela se sentiu enjoada.
Antes que ela percebesse, uma lágrima havia escapado de seus olhos e estava descendo seu rosto. Ela rapidamente enxugou-a. Ela havia prometido a si mesma, desde aquele dia há um ano atrás, que não choraria mais, mas a promessa mal durou um ano e já fora quebrada. – Realmente, eu sou patética, eu não mudei nada nesse um ano... Eu imagino o que você diria de mim hoje, irmão. –
Ela não imaginava que alguém fosse responder. – Por favor, Nunnaly vi Britannia, não pense tão pouco de si, assim o seu irmão vai chorar por você. – Nunnally se virou dando de cara com três pessoas que ela tinha certeza que não estavam ali antes. Seu rosto demonstrava sua completa surpresa, com um misto de medo. Como eles poderiam ter entrado em seu quarto sem ninguém, mais importantemente ela, perceber?
No fim, seu sangue real se fez valer, ela foi capaz de perguntar relativamente calma. – Quem são vocês? O que vocês querem? – Talvez fossem assassinos? Alguém com interesses em quebrar a paz forjada pela morte de Lelouch?
O homem idoso que estava no meio riu-se como se tivesse escutado algo engraçado. – Estranho, parece que eu tenho escutado isso muitas vezes nesse último ano. – Ele parecia completamente despreocupado. Seja quem ou o que ele fosse, certamente ele era perigoso.
Nunnally insistiu na pergunta, tentando conseguir um tempo enquanto pensava em algo. – Eu fiz uma pergunta, é rude que não se responda a perguntas enquanto se invade o recinto de alguém. – Ela não tinha nada com o que pudesse se defender ao alcance de sua mão.
O homem idoso pareceu considerar por um momento, até que acenou com a cabeça, como se tivesse decidido algo. – Bom, acho que é mais fácil te mostrar do que explicar, aqui vai. – Ele puxou a manga longa de seu braço direito, revelando em seu ombro uma marca já conhecida por Nunnally.
Ela não conseguiu deixar de sentir um choque. Ela falou assustada, quase em um sussurro. – Um código! Então você é... – Ele era o mesmo tipo de pessoa que aquela mulher que havia transformado seu irmão em um demônio. Ela não foi capaz de suprimir um intenso sentimento de ódio. Se não fosse por aquela mulher! Talvez Nunnally ainda estivesse rindo ao lado de Lelouch.
Um rápido sorriso passou pelos lábios do homem sem que Nunnally percebesse. Ele já havia visto todas as reações de Nunnally, e aparentemente as coisas estavam indo como ele havia previsto. – Eu vejo que você não tem muito apreço por essa marca. Mas não se preocupe, eu sou muito diferente de certa mulher de cabelos verdes. – Antes mesmo dele mesmo dizer qualquer coisa, o homem já sabia como seria a reação de Nunnally.
Seus olhos ficaram arregalados, o quanto aquele homem sabia? Essa e muitas outras perguntas passaram rapidamente pela mente de Nunnally. Finalmente ela apenas disse. – Como e o quanto você sabe? – Provavelmente os dois eram portadores de Geass, mas de que tipo?
Essa parecia ser a resposta que ela estava esperando. Imediatamente ele se curvou como em respeito e falou em tom neutro, como se estivesse fazendo uma apresentação. – Pode me chamar de E.E., que apesar de não ser meu nome, é como eu sou chamado há muito tempo já. Os motivos pelos quais eu sei o que sei, apesar de não estar diretamente envolvido nos acontecimentos dos últimos anos, e os motivos pelos quais me encontro aqui sem quaisquer problemas são os mesmos. Esses dois que estão ao meu lado. – Ele gesticulou tanto para o garoto à sua esquerda quanto a garota à direita.
A desconfiança de Nunnally não havia diminuído, mas ela sentia que se ele pretendesse atacá-la, ele não se daria ao trabalho de conversar com ela assim. – Então ambos possuem o Geass? E você pode me dizer de que tipo? – Ela não achava que ele fosse responder a segunda pergunta.
Ele respondeu. – A garota, cujo nome é Elektra por sinal, tem o poder de se tornar completamente discreta, não invisível, mas ela pode fazer com que qualquer coisa dentro de sua “zona” seja imperceptível às pessoas, assim mesmo objetos sendo movidos não são percebidos, útil não? – Nunnally tinha que concordar, um frio percorreu sua espinha enquanto ela imaginava que poderia ter sido morta sem nunca saber que algo estava acontecendo.
– E o garoto? –
O homem sorriu como um dono quanto lhe perguntam sobre seu cão premiado. – Ah, o garoto, Orfeu, ele tem o poder de “acessar”, “roubar” e “doar” memórias. Parecido com o poder de seu falecido pai, Charles, mas fundamentalmente diferente. Ambos são capazes de enxergar as memória de outros, mas diferentemente de Charles, Orfeu não é capaz de criar memórias falsas e após terminar a influência do Geass, apenas se lembra de memórias que ele “rouba”, que dependendo do desejo dele podem acabar embaralhadas ou até esquecidas pela vitima. Ele também tem a capacidade de “doar” quaisquer memórias “roubadas” para um felizardo. Muito interessante não? – Sua voz estava cheia de orgulho.
De alguma forma, Nunnally já tinha uma ideia de o que ele veio fazer, tudo que ela precisava era analisar tudo que ela tinha dito até então, mas qual era seu objetivo? – O motivo pelo qual você me disse tudo isso é que você pretende me mostrar algo, não? O que e por que? – Ela nunca admitiria, mas ela desejava que fosse aquilo que ela queria.
E era. E.E. mais uma vez gesticulou como se estivesse em um show. Agindo como se fosse alguém que apenas queria fazer um favor a alguém. – Eu apenas vi algo estranho à minha frente. Eu suspeitei de uma grande injustiça, então eu passei um ano coletando memórias de certas pessoas ligadas a certo homem que morreu há um ano. Por fim eu acredito que a irmã desse certo homem tem direito de saber de tudo. – Ele terminou apontando para o garoto cujas memórias continham inúmeras cenas com Lelouch, todas elas roubadas.
Tudo? Por que tal palavra? Ela achava que Suzaku, não, Zero, havia lhe contado tudo, mas ela sempre sentiu que ele deixou algumas partes e alguns detalhes importantes de fora. A tentação era muito grande, principalmente para alguém que não pode lamentar publicamente a morte de seu único irmão. Mesmo que pela visão de outras pessoas ela poderia encontrar seu irmão novamente, mas ela mostrou um último suspiro de resistência. – E o que você ganha com isso? Você pretende que eu aja de alguma forma específica depois que eu saiba essa verdade? – Mas ainda assim, ela já havia se decidido. – Que seja, me mostre o que você tem a mostrar. – Ele olhou nos olhos do garoto, eles brilharam.
Quando a influência do Geass terminou, Nunnally estava no chão, ofegante, inúmeras lágrimas em seu rosto. Sem que ela percebesse, estava murmurando baixinho para si mesma. – Tão injusto, tão injusto. – Tudo que ela era capaz naquele momento era pensar na injustiça que fora a morte de seu irmão e as coisas que aconteceram após.
E.E. ajudou Nunnally a sentar-se na cama. – Recomponha-se, Nunnally vi Britannia, você tem uma festa em pouco tempo, e quando a mesma acabar você terá algo a dizer, não? – Ali estava, aquilo que ele pretendia, mas já não importava mais.
Nunnally fez que sim com a cabeça. – Sim. – Pela primeira vez, ela estava feliz que teria a chance de fazer um discurso quando a festa terminasse. No entanto, o discurso que ela tinha em mente dessa vez era muito diferente.
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