Suava litros, caminhando pelo deserto de Pris, usava apenas sua saia com alguns sinos, uma blusa fina, aljava de flechas em suas costas, um arco robusto em suas mãos e cruzado nas costas com a aljava encontrava-se sua foice. Em sua cintura, um facão escuro.

— Vamos Reana, eu não aguento mais esse calor – Falava a foice – Porque estamos a tanto tempo no deserto? Era pra já estarmos no nosso destino!

— Pra você é fácil falar Rhegan, está nas minhas costas enquanto caminho. Posso deixar você na sua forma humana para caminhar também.

— Não, não, é bom ficar no sol, pegar um bronze.

E ela continuava a caminhar incessantemente, sentindo a areia entrando em seus sapatos, embora não tivesse o que fazer, pararia para remover a areia de seus sapatos? Como?

Reana era uma elfa muito forte, já passara por situações piores em sua Ritualística. Brigas inimagináveis. Por sorte, quando a guerra estourou, seu deus a adormeceu, como todos os outros seguidores, não permitindo que lutassem, embora Reana considerasse isso traição e quebra do seu livre arbítrio.

Finalmente conseguia avistar uma cidade: Photos. Não era bom sinal. Photos era uma cidade de um povo profano, esquecido pelos deuses (embora Reana acreditasse que todos tinham sido), podendo fazer o que bem entenderem sem sequer ter algum retorno. Sua Ritualística contava com um ritual de zombaria dos deuses e uma orgia, com pessoas fantasiadas como se fossem os próprios deuses. Suas moradias tinham formados de piramides, seu transporte eram camelos e sua cultura, um tanto quanto defasada.

Reana não se sentia confortável passando por Photos, embora, fosse a cidade natal de Rhegan.

— Oba! Casa! Veio me libertar?

— Você ainda pensa nesse tipo de coisa, Rhegan?

— Hm… Sim?

— Percebo que não aprendeu nada ao longo desses anos todos.

O clima em Photos parecia ser mais forte ainda, o Sol Amarelo tornava tudo mais difícil, tudo o que Reana queria era um lugar com Sol Azul ou com o Sol Vermelho, o Sol Amarelo o deixava cansada e fraca. O local era quente e árido, somente as pessoas que ali viveram e ali cresceram conseguiriam se habituar com o ambiente.

Reana decidira não passar na cidade. Olhou em volta, mas não conseguiu achar um urubu que fosse. Cobriu então seu rosto com um véu negro e caminhou pela cidade. Reana graças a Rhegan sabia que, quando uma pessoa usa um véu negro, não deve ser incomodada pelo fato de estar de luto. Reana não estava mentindo, estava realmente de luto: por si própria.

Caminhara por Photos e as coisas não conseguiam melhorar, ela via algumas pirâmides abertas, olhava de forma sorrateira e via homens nus com seu harém e bebidas caríssimas, via homens despidos correndo pela cidade e mais mulheres nuas do que poderia contar. Não entendia como funcionava a riqueza em uma cidade onde todos são ricos.

“Ora, se todos possuem riquezas equivalentes, o ostentar de seu luxo demonstra-se em vão e sem sentido” pensara consigo mesma, tentando afastar esses pensamentos.

Já quase no fim de Photos, Reana percebera um templo e achou um tanto quanto peculiar.

“Um templo? Em Photos? É como um inseto levar veneno para o seu abrigo”.

Acreditou que o templo merecia um tempo de sua atenção e foi ver mais próxima o que estava acontecendo ali.

— Se eu fosse você, o que eu não sou né, mas se fosse, eu não chegava muito perto desse templo não. — Disse Rhegan.

— E desde quando eu me importo com o que você diz?

— Desde que vivi durante muito tempo nessa cidade. Ao menos você pode me deixar na forma humana?

— Não.

— Tudo bem, não queria ficar como humano mesmo.

E a cada passo de Reana dava, ela sentia como se o solo endurecesse e realmente acontecia. Próximo ao templo, misteriosamente o solo deixara de ser de areia e tornava-se rígido, entretanto, cheio de rachaduras. Não entendia o clima bizarro de Photos.

“Loruth, Sy’Res, Maclaw e Thra-Cku não devem passar aqui faz algum tempo”.

Quando chegou definitivamente no templo, conseguira ver quinze imagens em pedestais, com Rhoy’na no meio deles. Estavam ali todos os deuses, mas suas imagens estavam todas profanadas. Tafu, um lindo jovem, de cabelos loiros e olhos claros, agora, era um homem obeso, com o pênis de fora e assustadoramente pequeno.

— O que deseja aqui, Necromante? — Perguntou um homem encapuzado que estava no templo – Aqui não há lugar para profanadores como você.

— Eu deveria rir? — Reana perguntou – Isso me soa como uma piada. Acusa-me de ser profanadora enquanto tu e teu povo comentem essas atrocidades? Tem sorte de essa terra ser esquecida e ser a terra que Oier foi mandado para cumprir seu destino, pois se não fosse, já teria sido extinguida.

— Olith veio pessoalmente nos elogiar pelo trabalho feito.

— E que cunho moral Olith possui para agraciar alguém? Olith não passa de uma vassala de Pasoorti. Olith fechou seus olhos para a realidade. Os deuses somente ficaram reclusos pelas atrocidades que Olith causou no nosso mundo.

— Fala do nosso povo e dos deuses como se fosse uma deusa, Necromante. Qual sua perícia na Ritualística?

— Ancilae.

— Curioso. Um tanto quanto peculiar – Tirara de dentro de suas vestes um lindo colar feito de um metal rosa, parecia ser feito a mão, com um lindo e grande coração de pingente – Percebo que Necromantes perderam o respeito quando encontram um Senhor ainda vivo.

Reana cospe no chão ao ouvir o que o homem diz.

— Para ser Senhor de Olith, preferia não ter nunca sido iniciada.

— Espero que a deusa escute vossas palavras e julgue-a pelo o que disse. Você não pode ser julgada pelo seu silêncio, mas sempre será por suas palavras ditas, Necromante.

— Para ser Senhor de Olith, preferia nunca ter sido iniciada – repetiu – uma deusa que se você matar gente o suficiente ou dormir com a mesma quantidade, dá-lhe cargos. Que mérito há nisso?

— Trata Olith como se fosse uma prostituta.

— E não é?

— Você está passando dos limites, Necromante.

— E quem me colocará limites nessa cidade? Você? Ao menos sabem o que significa a palavra limite por aqui?

— Tola – Disse o homem em risos – se arrependerá pelas palavras ditas.

O homem retira o capuz que antes escondia suas vestimentas. Sua longa capa vermelha, e seu grimório escondido embaixo do braço, antes escondidos pela roupa, mostra um motivo para Reana estar arrependida: o homem era um Mago Vermelho.

— Então você esconde sua verdadeira natureza para procurar intriga, e depois mostra-se com o desejo que o seu rival peça misericórdia?

— Exato.

— Pois eu não irei!

Reana estava uma pilha de nervos por dentro. Ela era uma Ancilae, ele um senhor. Ela uma Necromante, ele um Mago Vermelho. Ela seguia Tafu, ele Olith. Não sabia o que esperar da briga, então, começou a conversar com ele para o distrair enquanto pensava em um plano.

Lembrou-se que na cidade possuía muitas pessoas, para que ela pudesse conjurar o Rhegan e ele matasse alguém para despertar o seu poder, seria fácil demais. Lembrou-se do punimento de Oier, que era ser devorado por uma águia todos os dias e a noite ele seria ressuscitado, se ela ao menos conseguisse chegar perto dele…

“Vamos por partes” pensou ela “primeiro preciso conjurar o Rhegan”.

— Rhegan, forma humana.

Quando Rheagan assumiu uma forma etérea humana, seus olhos brilharam como fogo. Algo que não estava nos planos acontecera. Esqueceu-se que Rhegan havia sido enfeitiçado por algum Mago em Photos, mas, não sabia ela, que era o que estava lutando contra.

— Já vai começar me dando vantagem? — Perguntou o mago – Fico feliz pela ajuda, jovem garota, em trazer Rhegan de volta para mim!

Eis que ele assumiu novamente a forma de uma foice, mas, quando o mago o tomou em mãos, ela assumiu o dobro de tamanho e de coloração escarlate.

“Plano B?” pensou ela “Só tenho uma chance, quando o pássaro passar no céu para ir se alimentar de Oier, tenho que acertá-lo bem no peito, assim poderei começar a magia”.

O Mago começara a lançar diversos raios vermelhos incandescentes em direção a Reana, que com facilidade, desviara de todos.

“Cadê esse pássaro?”

— Vejo que com você não terei que pegar leve, Necromante. Rhegan, conjuração escarlate.

Quando percebera, a foice tinha virado uma estrela de cinco pontas composta de metal vermelho, e do tamanho do pátio do templo. Enquanto o Mago fechava seus olhos e concentrava-se no seu ritual, Reana tentou atirar uma flecha, que o Mago não somente desviara, como refletira e acertou Reana no ombro. Ferida, escondeu-se atrás da imagem de Olith, esperando que o pássaro voasse por ali logo. Quando metade do ritual do mago estava pronto, o pássaro deu as caras, e com uma flecha certeira de dente de dragão, acertara o pássaro que foi caindo lentamente até atingir bruscamente o chão. Ela corre rapidamente até ele, onde passa sua lâmina escura no pássaro, fazendo seus cabelos ficarem mais e mais compridos e não apenas escuros, mas tão negros, que a luz que adentrava-os, não conseguia passar. Ganhou um longo vestido bem apertado em sua cintura negro, do mesmo tipo do cabelo. Sumira seu arco, sua faca e agora tinha uma foice de três gumes em sua mão, com uma corrente ligada ao próprio corpo.

Reana havia libertado o poder da Necromancia.

Ela então investiu contra o mago, com seu ritual em 70% pronto, mas em vão, a pele dele tornara-se impermeável a qualquer coisa cortante ou feitiços.

Restava-lhe tentar destruir o pentagrama. Com sua foice, girou e jogou até ela ficar bem presa ao pentagrama de ferro vermelho. Saltou até ele, e golpeando-o múltiplas vezes tentara causar algum estrago, mas parecia que o feitiço que estava sobre o mago, estaria sobre seu antigo colega.

Tendo todas as oportunidades se esvaído, optou pelo básico. Cortara seu pulso e deixou cair muito sangue no solo arenoso. O sangue deixava o solo cada vez mais úmido, como se o irrigasse, e onde as gotas caíram, diversos seres bizarros surgiam, humanos sem partes do corpo, humanos com partes a mais no corpo, corpos em decomposição, tudo o que mais poderia soar de bizarro, ali estava. Enquanto conjurava, Reana procurava uma forma de vencer o monstro que estava sendo invocado pelo Mago Vermelho. Deveria cortar o mal pela raiz. Quando o monstro nascesse, deveria ir com o máximo de pressa e precisão para cima do Mago e deixar que suas criaturas fizessem o trabalho sujo para ela.

Quando a conjuração havia finalmente terminado, Reana viu o que dera tanto trabalho para o seu invocador: Colemagg, um elemental de fogo. Seu corpo era imenso, coberto por lava e um aspecto rochoso sobrepunha na lava. Reana não queria ter tempo de lutar contra esse monstro, seu desejo era enfrentar o Mago e continuar seu caminho.

Quando avançou para acertar o Mago, seus monstros atacaram o elemental, e aos poucos foram caindo, mas, Reana ganhava tempo enquanto o elemental estava distraído com algo que não era ela.

Ao se aproximar do Mago, o mesmo transformou Rhegan novamente em foice e começou um embate de foices. Mortais que ali viviam começaram a se aproximar, e, os que sobreviveram para contar a história, diziam que parecia um lindo baile, que os dois estavam dançando e que a música era o som dos metais colidindo. Quando por um leve acidente, o Mago permitiu que a ponta da foice encostasse em seu rosto, fazendo-o assim sangrar. Reana rapidamente afastou-se do Mago, tocou na ponta da foice, fazendo com que o seu dedo cortasse e o sangue do Mago entrasse em seu corpo.

Durante seu ritual, o Mago lançou um raio vermelho em Reana que a jogou longe, mas, isso fazia parte do seu plano. Ela queria ser jogada para longe do Mago.

Quando se afastara, somente fizera uma estrela de seis pontas no chão com o próprio sangue. O mago apenas observou o que fazia, enquanto controlava seu elemental, para que matasse logo os monstros de Reana.

Ela, somente arrancou a parte superior de suas vestes, e então o mago pode ser, seu corpo estava todo negro como seus cabelos estavam anteriormente, agora brancos como leite, seu corpo possuía desenhos marcando todos os seus ossos, mostrando cada detalhe, cada pedacinho do seu corpo.

— O que pretende conjurar com esse simbolozinho ai no chão? Um passarinho? — Perguntou o Mago.

Reana simplesmente começou a andar em linha reta, aproximando-se cada vez mais do monstro que ele havia conjurado.

— Últimas palavras?

— Maldição: Controle Mortal da Possessão Sanguínea.

O Mago então ordenara que o monstro abaixasse sua mão de lava e derretesse por completo a matéria da Elfa, quando o monstro a tocou, o mago evaporou, como se lava tivesse o tocado, fazendo assim, o monstro desaparecer.