O tempo passa meus dedos como a areia passa pela ampulheta. É curioso pensar que o material que confeccionamos a ampulheta seja nada mais nada menos, que areia. A própria areia tornou-se escrava de seus semelhantes.

A vida já não é mais a mesma. As coisas já não acontecem como deveriam acontecer. Não consigo mais entender como as coisas andam e funcionam. Antes para mim era fácil conseguir observar os acontecimentos e conseguir interpretar, mas agora, sento-me na areia de uma praia qualquer, de um mundo qualquer, sequer sei onde estou, escrevo os relatos da vida humana em um caderno de couro liso, escuro, com as páginas já amareladas.

Não consigo mais engolir as coisas como são. Rhoy’Na sumiu, minha missão não tem mais objetivo.

Sinto falta de casa. Sinto falta de Ilênosumê e da sua carícia. Sinto falta de Xirupikezo, sempre me guiou e me deu essa missão. Senhor, não devia ter me dado um fardo tão grande, eu não sei se consigo carregar. Está muito difícil.

Sei exatamente o que Oir me diria se me ouvisse dizendo algo como isso: “Xirupikezo não lhe daria fardo se não soubesse que você consegue carregar, jovem”. E é verdade. Eu fui o escolhido e briguei muito por isso.

No meu mundo, muito longe desse planeta, eu batalhei arduamente contra outros guerreiros. Guerreiros fortes, poderosos, apenas não sei como eu sobrevivi, realmente, não entendo como continuo vivo para contar essa história. Apenas uma cicatriz no olho, e um corte no pescoço podem contar o que eu passei.

Ilênosumê estava tão linda no dia do combate, toda vestida em azul, tão bela e tão graciosa, meu xaoté, ela estava linda. E estava lá, torcendo por mim, eu mero guerreiro. Sempre fui diferente dos outros, isso eu entendo, eu sempre me importei mais com o charme, a luta para mim era uma incessante dança, a batalha, a força, faziam parte da minha coreografia. Enquanto eu girava para um lado e girava para o outro, o mundo parava ao meu redor, e as cabeças iam caindo em minha volta. Minhas armas eram coloridas, cores retiradas dos mais belos metais de Kriotys.

“Essas armas são menos letais do que as que os outros campeõe usam” disse Kinxanku,

“Meu intuito não é ser o mais forte, e sim o mais rápido” disse. “Se estiverem mortos antes mesmo da luta começar, não haverá batalha.

Kinxanku assustava-se com a minha força de vontade e minha confiança em mim mesmo. Mas eu não o culpo. Ele sempre quis as coisas da forma mais justa possível, tudo tinha que acontecer de forma que todos pudessem estar balanceados e nenhum pudesse crescer em cima do outro. Coitado, estávamos falando do campo de Omilénakopi, as coisas lá não eram justas, nunca foram.

Em Kriotys em um todo, quanto mais ouro você possuísse, melhor você poderia ir no campo. Mas, mesmo os deuses não eram justos. A dor de ser derrotado, só não era maior do que continuar vivendo com esse pesar.

É de fácil imaginação crer que em um campo tão violento como esse, as pessoas morriam, umas após as outras, quando entravam em batalha. Suas suposições estão certas. Mas nisso, Xirupikezo não era uma pessoa tão boa assim. Ele solicitava que Nuge, deus dos mortos, estivesse presente em todas as batalhas. Quando um guerreiro caísse morto por um golpe fatal e o guerreiro adversário fosse considerado vencedor, Nuge surgia e com seu cajado fazia com que o corpo voltasse a vida. Não era permitida a morte tão facilmente assim. O povo de Kriotys, principalmente seu deus, não gostava de mortes simples, rápidas, ou desnecessárias.

Sim, ele é hipócrita. “Não gosto de mortes rápidas e simples, mas, se matem no campo de Omilénakopi”. Amo-o como meu pai que é, mas certas atitudes deixam a desejar sim.

Minha paixão por Ilênosumê só me fez ficar mais e mais forte, mais e mais empenhado. No fim de tudo, tive que efrentar Okirênomai no campo. Não seria uma batalha tão rápida assim, sabendo que seu poder de cura era tão bom.

Wanxiteima provavelmente estava ao meu lado. Okirênomai tinha fraqueza quanto aos metais coloridos de Kriotys. Amaldiçoou até minha ultima geração, mas tornei-me o herói que Kriotys precisava ter.

Todos se inspiram em heróis.

Todos precisam de heróis.

Eu fui escolhido e aceitei o fato de que eu seria o herói daquele povo.

A missão que me foi passada será cumprida com sucesso.

Sahmar dará lugar para a nova Kriotys.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.