Caos

1 — o amor se foi


Caos

Há tempos a tristeza não assolava terrivelmente seu coração.

Dado os fatos, sentiu o que jamais pensou existir. Alguém que a visse poderia dizer que fora anestesiada, mas tal situação era apenas o resultado de sentir todos seus sentidos e cores amortecerem.

Debruçou-se sobre o parapeito da janela e ponderou sobre a pragmática relação que possuía com qualquer curso natural — ou não — que sua vida pudesse tomar. Não queria ter histórias idênticas para contar, sua pressão por mudança a corroía de maneira devastadora. Não realizaria sonhos que não eram seus.

Feita dele, ela gostava do caos.

Sabia que quando sua hora chegasse alguns chorariam e gritariam por seu nome, implorando misericórdia e uma vida perdida de volta. Por que era tão difícil consolá-la e pedirem perdão por todas aquelas pessoas que a machucaram sem dó enquanto ainda estava em vida? Sem dúvidas, a humanidade seria algo que nunca entenderia.

Corpo cansado, quarto bagunçado, ordem fora de órbita e apenas a espera de que o mundo girasse e trocasse suas dores de lugar. Seus sentidos mais aguçados permaneceram inertes, seus olhos piscavam ao mesmo tempo que os canais de TV explodiam em sua frente.

Eram crises existenciais constantes, gritos cortantes, uma mente turbulenta, ansiosa, pretensiosa. Queria tudo, mas não queria nada. Vivia por viver, viver pra quê? Preferia a ignorância a saber que aqui não tem lugar para quem sabe sofrer. Lembrou-se dos dias doces e da chuva de verão, desânimo que passava rápido e da areia quentinha que tocava seus pés ao meio dia. Suas boas sensações estavam perdidas em algum lugar vago de seu cérebro, não sabia qual, precisava daquelas sensações, sem elas não seria nada. Sentou-se junto ao chão, chorou e gritou mais uma vez e disse o quanto queria tudo aquilo que nunca teve de volta.

O silêncio nunca foi tão atormentador.

Aprisionada em seu próprio corpo.

Anestesiada de suas tensões vitais.

Espero que não busque sentido nos fatídicos eventos dessa mente um tanto atribulada, pois não há. Ela é construída de contradições e incertezas e não possui perspectiva de mudança ou de negação aos seus verdadeiros instintos. Abriu a geladeira pela quinquagésima vez e procurou qualquer coisa que saciasse os moradores desgraçados de sua satisfação pessoal. Ou parte dela.

Nós somos como folhas flutuantes, meu amor... Deixe. Deixe que nos levem.

O vento soprou soando um leve assobio vindo do céu. O frio fazia sua espinha se contorcer dentro do corpo, todo o calor de seu corpo parecia ser sugado por seu amor.

Contanto que nos leve juntos, eu irei a qualquer lugar – nossa menina concordou.

Selaram seus votos. Sem testemunhas ou plateia, ele era dela e ela, dele. Porém ninguém sabia o quanto isso doeria no final.

Pessoas boas demais desaparecem e é por isso que ela acreditava no céu. Da última vez que beijou a lápide de seu calmo e morto amor, percebeu que ele nunca poderia existir. Teorias sobre realidades alternativas e confusão mental começavam a se formar em sua mente, mas preferiu acreditar em toda a balela de pessoas mortas que se transformam em estrelas.

Pelo menos, ao olhar para o céu, a mais bonita brilharia para ela.

Não era daquelas que acreditava que a vida só fazia sentido com alguém do lado, mas acreditava em antídoto para toda a imundície que é dissipada pelo ar, por bocas mal beijadas. Acreditava que a vida é um palco de idiotas sem perspectiva de melhora, mas isso não quer dizer que não podia vestir suas meias e ouvir as piadas dele. As piadas mais infames e sem graças, mas que davam algum sentido e prazer em tudo. Na vida.

O pior momento da vida de alguém é perceber o quão pequeno é no meio de tudo e o quão nobre é o desconhecido. Ninguém é nada, mas tratamos como se fosse tudo. Cansada de velejar a toa, cansada de chorar e ser conhecida por isso, decidiu mudar, mas não planejou quando. Existem presenças insuperáveis, mas existem distrações eficientes. Um romance aqui, uma xícara de chá para dormir, uma criança inocente que te deseja bom dia ou simplesmente o abraço de um avô pode sempre fazer esquecer, ou pelo menos deixar de lembrar que está condenada a uma vida sem o seu contador de piadas sem graça.

De um jeito ou de outro, cada pedaço de nós começa e termina com o amor. Essas são as nossas ligações e o que nos faz ter um ligação. Sua mente divagou, naquela hora suas lágrimas escorriam de felicidade pois havia ultrapassado por mais um dia. "Te encontro no céu", ele disse, e a menina não podia esperar para que isso acontecesse.

Toda contradição, falta de palavras, choro, revolta, indecisão e mais um bocado de seus defeitos de fábrica só a faziam ser quem sempre foi. Não queria mudar, mesmo que não suportasse se olhar no espelho e perceber que estava presa ali dentro. Cheia de defeitos, repleta de incoerência e literalmente devastada.

Dessa vez, mais uma vez, estava cansada de pensar. Desligou as luzes e seus olhos também. Caos. Era só o que via. Abriu os olhos, caos.

Escuridão caindo, não havia alternativa.

Notas finais
Obrigada.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!