Canções de um Outro Mundo
4 Preto Relaxante
Notas iniciais
Mesmo comigo esperando que tia Annabel não o fizesse, ela realmente fez.
Três dias após a discussão com ela, fui surpreendida com uma pequena reunião de senhoras estranhas onde tia Annabel me apresentou como sua mais nova "Serviçal", como se ela fosse uma senhora de escravos apresentando um novo produto. Dizendo que ela havia me resgatado como parte de um pagamento de uma dívida, que ela não sabia o que fazer comigo e preferia me doar para uma das senhoras, como presente de amizade.
Enquanto falava, tia Annabel segurava meu ombro e olhava disfarçadamente para mim, como se quisesse me atingir com um dom que congelasse minha boca e me fizesse concordar com tudo o que ela estava falando.
Eu concordei.
Mesmo que eu houvesse desviado do assunto anteriormente... Até quando o Senhor Belmont, o dono daquela casa e marido de tia Annabel, finalmente voltou de sua viagem a negocios e me tratou bem, fiz como tia Annabel ordenou e não disse nada, mesmo assim não adiantou. Tio Belmont saiu em outra de suas viagens, e tia Annabel não mudou em nada seu tratamento.
"Ela tá mesmo fazendo isso, não acredito!", saí batendo os pés, depois que a apresentação às damas aconteceu, deixando-as decidindo quem no fim me aceitaria como presente. "Eu fiz tudo! Tudo ao meu alcance!", fui ao jardim e chutei uma arvore, machucando um pouco a ponta do meu pé. Não era justo! Nem um pouco! Eu não pedi pra ser uma musicista, nem pra ser mandada pra cá, não era culpa minha que tia Annabel tinha uma vida tão pior que minha mãe!
Dei meia volta, preparada a quebrar aquela sala de reuniões inteira no chute!
—- Senhorita... – senti um toque em meu ombro, era Bertram, o Mordomo – Não deveria exibir uma face tão conturbada, não é bom, por parte de uma dama, fazer algo assim.
Ele falou, só que não para repreender. Ele estava tentando ajudar... Mas eu não tava muito interessada no momento.
Não o respondi, apenas me livrei de sua mão e continuei o caminho de volta ao casarão.
—- A senhorita deveria usar mais a mente, não o coração...
Passei pela porta e não o dei ouvidos.
Não queria pensar, não queria ouvir a cabeça, a mente nem nada disso! Por um momento, só queria poder atender minha raiva só uma vez! Bater em tia Annabel com minha espada de madeira, pegar sua carruagem e voltar eu mesma para Rivermere.
No entanto, quando abri a porta do meu quarto emprestado, vi uma garota. Seus longos cabelos escuros me diziam que ela não era parente minha, isso significava que era filha de uma das senhoras.
—- Quem é você? – perguntei, chamando a atenção da garota que só olhava pela janela sem mover um músculo.
—- Olá – ela respondeu sem muito ânimo.
—- Saia do meu quarto.
—- Por quê? – ela finalmente olhou para mim, seu rosto era de uma criança, ela parecia ser mais nova do que eu uns quatro anos.
Eu não conhecia muitas crianças, mas as que eu conhecia eram um porre inacreditável!
—- Não te interessa, tá bom? – eu respondi, me dirigindo para a cama, onde ela estava sentada – Quer saber, só... Volta pra sua mãe, tudo bem? Ela está lá embaixo, você vai achá-la logo...
—- Não gosto de festa do chá... – ela respondeu, sem se importar comigo chegando perto dela – Mamãe sempre briga comigo por algum motivo, quando tem uma festa do chá.
Vendo que a menina não iria sair a não ser que eu a puxasse, resolvi a contra gosto deitar na cama com ela sentada ali na ponta mesmo.
O quarto era pequeno e não era tão chique como os outros quartos da casa. Acho que na verdade era um quarto de empregada, mas tia Annabel não deixou isto claro. Só havia uma cama meio desconfortável e uma mesinha, mas também tinha uma grande janela com vista para o jardim, então não reclamei. A garota olhava para a janela com bastante intensidade, como se ela tivesse vendo o mundo todo dali.
—- Por que está tão triste? – a garotinha olhou para mim com interesse, fiquei um pouco desconcertada – Seus olhos estão vermelhos como seus cabelos! – ela comentou, rindo.
Eu ri também, sem conseguir entender o porquê eu estava rindo. Talvez pela bizarrice do comentário.
—- Gostei do seu cabelo, é tão bonito... – ela deitou ao meu lado para examinar meu cabelo. Outrora iria ficar nervosa pela aproximação repentina, mas... Me vi sem forças pra comentar qualquer coisa.
Me virei de costas para ela, e a garota começou a mexer gentilmente em meus cabelos curtos.
—- Obrigada... Qual seu nome? – eu perguntei, mais relaxada.
—- Celeste.
—- Sério? O que ele quer dizer? – era um nome bonito, fiquei um pouco com inveja. Não gostava de "Ariel", era como "Areia", como se eu tivesse suja. Era estranho.
—- Mamãe disse que significa "Céu" – ela disse, rindo – Mas eu tenho medo de altura, então não vale.
Nós gargalhamos. Me senti mal em tê-la julgado antes, Celeste era uma boa criança... E era como eu, também nunca gostei de reuniões de senhoras assim, mas fui obrigada a participar de algumas.
—- Eu ouvi... – ela parou o carinho no meu cabelo por um momento, quase me forçando a pedir por mais – Eu ouvi que você vai pra casa de uma das Senhoras, não é?
—- Acho que sim... Não sei ainda.
—- Então vem! Eu vou pedir para mamãe deixar você vir para nossa casa! – Celeste se animou, se levantando da cama puxando minha mão.
—- Hey!
Quase caí para acompanha-la. De pé, Celeste era só alguns dedos menor em altura que eu, embora seu rosto fosse de uma criança, talvez ela não fosse tão nova como eu estava pensando.
—- Vamos... – ela estendeu a mão para mim, mas com uma expressão confusa no rosto – Qual seu nome?
Verdade, eu não havia dito.
—- Prazer, senhorita, meu nome é Ariel!
Logo após ouvir meu nome, Celeste segurou minha mão e me puxou, me fazendo desequilibrar de novo.
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