Canção do Tigre Enjaulado
1 Prólogo
Notas iniciais
• Subversiva: faz parte da religião de Rhasien. Subversiva ou a Deusa Negra é a deusa da destruição e da morte. No caso deste trecho, a personagem se baseia em uma das teorias dessa religião, que diz que q Subversiva teve uma relação com o Iniciador (criador de tudo material no mundo), e dessa relação obteve os seres inteligentes. Ela, então, é considerada uma mãe para todas as raças.
• Vazio: um mundo espiritual, das entidades (também conhecido como Nada). Antes do Iniciador, não existia nenhuma forma de vida inteligente, e este vivia neste mundo de entidades.
A garota corria, corria e corria. Não tinha para onde fugir, nem onde se esconder. Olhava para trás algumas vezes para se certificar de que ninguém ainda havia a encontrado. Porém, ela já conseguia ouvir trotes de cavalos e gritos ao longe.
— Peguem-na! Não a deixem fugir! — Era o que eles diziam.
Ela não parou nem por um instante de correr, mesmo com seus longos cabelos loiros atrapalhando sua visão de tempos em tempos. Gotas de gélidas de uma garoa noturna que se instalara ali pareciam querer atrapalhar a menina. Aos poucos, seu corpo pequeno e frágil começou a ter dificuldade em executar aqueles movimentos velozes e desengonçados; suas pernas e braços desnudos estavam se arranhando a medida que os galhos e arbustos das árvores passavam por ela na floresta quase totalmente fechada, seus pés descalços estavam em carne viva por causa das pedras e farpas que eram encontradas na sua corrida, e o caminho começara a ficar escorregadio com aquela fina camada de lama.
A garota estava tentando aguentar o máximo que podia, mas a perda de sangue e a dor eram demais para alguém de sua idade suportar. "Preciso aguentar", ela enviava mentalmente esse pensamento para o corpo, que parecia estar respondendo bem, apesar da situação crítica.
Um obstáculo apareceu, um penhasco. Não parecia muito alto, mas se pulasse, com certeza quebraria alguns ossos e poderia sangrar mais ainda, até a morte. O certo e prudente seria voltar e procurar outro caminho.
Mas isso não aconteceu. A última coisa que a garota viu foi um grande e barulhento cavalo branco com uma insígnia de uma fênix, junto a um homem de armadura reluzente, antes de cair no precipício.
Se foi empurrada ou caiu pelo susto ao relincho do cavalo albino, ela nunca saberia. A queda parecia calma e silenciosa, com as pequenas gotas de chuva acompanhando-a; mas seus olhos anil estavam gritando, algo que sua garganta parecia não conseguir mais executar. Ela queria ter morrido durante a queda, seria mais fácil. Ao invés disso, ela pode sentir em suas costas os galhos afiados e mortais das árvores abaixo. A dor era tão forte que se semelhou com uma dormência, parecia que havia perdido todos os sentidos. Apenas se lembrou que ainda os tinha quando ouviu o estrondoso som de seu corpo fraco e machucado no chão, danto ênfase a sua cabeça, que havia acertado algo.
Tentou levantar com o pouco de energia que restara, mas nada adiantou. Sentiu uma dor muito forte em sua cabeça, notando que havia muito sangue em seus cabelos dourados. Também sentia sua visão embassada e seus olhos pesados de cansaço, sabia que se dormisse, podia não acordar mais. A visão ia se apagando, tanto pela dor que parecia não ter fim quanto pela perda de sangue que agora aumentara. O cheiro de sangue fresco e de terra molhada começou a incomodar suas narinas. Chorou o quanto pôde, mais do que havia chorado em suas outras vidas. Mas nenhuma lágrima parece ter sido notada, haviam se misturado com as da tempestade daquela noite.
Segundos? Minutos? Horas? A garota não imaginava quanto tempo tinha ficado ali, lutando entre a vida e a morte silenciosamente. Sentiu que era hora de se entregar, e foi fechando os olhos devagar. A Subversiva* ficaria agradecida naquela noite, receberia uma de suas filhas de volta. E justo naquela noite, dia do sétimo outono da garota.
******
Um homem barbudo de cabelos bem escuros andava de um lado para o outro da sala, e de tempos em tempos passava o dedo indicador e o polegar envolta do bigode, o que mostrava sua impaciência.
"Onde estão aqueles imprestáveis?", perguntava mentalmente para si.
O estrondoso som da grande porta da sala pode ser ouvido, fazendo o coração do homem se inquietar momentaneamente. Esperava boas notícias, grandes notícias sobre o recente ocorrido. Mas não foi recepcionado com o chefe da Guarda Real como de costume; era um garoto loiro esguio de porte corcunda, nariz arrebitado e bochechas extremamente rosadas. Se conhecia bem seus guardas, acreditava ser filho ilegítimo de um deles.
— O que faz aqui, degenerado? Sabe que eu detesto quando sangue impuro circula por minhas paredes. — O homem fala friamente enquanto observa o garoto se encolher aos poucos com seu insulto. Deu um leve sorriso com isso, sentando na sua cadeira logo atrás de sua mesa de estudos abarrotada de livros novos e antigos, pequenos e grandes, leves e pesados.
— M-Me perdoe, V-Vossa Majestade... M-Mas eu vim d-dizer... — O garoto tentava escolher as palavras certas, mas seu nervosismo aparente dificultava o processo.
— Fale logo, bastardo! Antes que eu perca minha paciência! — O homem esbravejou tão alto que o garoto tremeu em seu lugar por um instante, seus olhos mostravam tanto terror que podia-se ouvir sua alma gritando em desespero.
— O-Os guardas ainda não voltaram, Vossa Majestade... E-Eles perderam o sinal da menina...
Um estrondoso som de relâmpago foi ouvido ao longe, assim como uma rápida luz violeta. O homem levantou de sua cadeira suspirando fundo, e seu rosto, antes preocupado, foi tomado por um desgosto tão forte que se transformou instantaneamente em uma raiva mortal e desumana. Naquele exato momento, parecia que o Vazio** tinha se instalado naquele corpo.
— Imprestáveis!! Bando de inúteis! Eu mando pra encontrarem uma menina fraca e indefesa e é isso que recebo como resposta?! Que perderam ela de vista?! — O rei gritava a ponto de rasgar sua garganta, empurrando e amassando todos os livros que estavam encima de sua mesa e que podiam ser facilmente arremessados ou jogados no chão. — Não quero saber se a perderam, se ela sofreu algum acidente, eu quero ela agora! Viva ou... — O rei tirou seu foco do menino e passou para um canto qualquer da grande sala, antes de terminar a frase.
Aquele olhar não indicava algo de bom; seus olhos queimavam de tanta raiva, e qualquer homem toma medidas desesperadas quando estão desta forma; a única diferença, é que ele, Mardek Thomas de Arakarth, rei de todo Reino de Nova Arakarth, mistura das antigas províncias de Arakarth, Daogron e Dragonhill, que ele mesmo conquistou sozinho, nunca se arrepende de suas ações, tanto boas quanto ruins.
— Muito bem, se você quer algo bem feito, faça você mesmo. — Mardek murmurou para si, suspirando e arrumando algumas mechas dos cabelos castanhos volumosos, tentando ao menos voltar ao seu estado habitual. — Guardas!
Os dois guardas que estavam na sala deram um passo a frente, ainda na mesma posição rígida. Ambos eram tão silenciosos que semelhavam-se a colunas do próprio castelo, o que deixava o rei satisfeito. Uma coisa que rei Mardek mais prezava além de o poder absoluto era a disciplina de seus soldados e guardas; todos foram treinados rigorosamente para não pensar, apenas executar sem questionar.
— Convoque os guardas imediatamente e digam para pararem com a busca. Tenho uma nova missão para eles. — Mardek sorriu maliciosamente, apoiando seu corpo sob seu braço na mesa. — Quero que todos vasculhem todas as cidades e aldeias de todo o reino a procura da parte da população que é loura. Não quero saber como farão isso, mas quero que esteja feito até a próxima lua minguante, ouviram bem? Quero que entrem em cada casa e expulsem todas as pessoas louras que encontrarem, todas! Inclusive todos que forem de minha Guarda. E... — Ele fez uma breve pausa, caminhando até a frente do bastardo que continuava ali, mesmo com o olhar mortal do rei sobre si. — Quero que aniquilem toda e qualquer criança loira, mesmo as que estão no ventre de suas mães! Começando por este jovem bastardo aqui.
Não havia nada mais a ser dito, a ordem havia sido dada. Apenas deveria ser executada. O garoto foi pego pelos guardas, sendo ele o primeiro de muitos jovens e crianças de cabelos dourados que morreriam naquela noite e nas noites seguinte. Os gritos de desespero do menino ecoavam a sala mesmo depois dos guardas terem retirado-o, mas Mardek encarava aquilo como uma bela sinfonia composta para ele mesmo.
— Vamos ver se você vai conseguir fugir agora, garota... — O rei murmurou ainda com um sorriso sombrio nos lábios, de um modo que a sala toda parecia ter esfriado.
Mardek andou até a janela próxima onde podia ser vista uma pequena vila vizinha, cheia de pequenos pontos de luz ao longe, mesmo com as gotículas de água no vidro atrapalhando a visão mais ampla. Imaginou como estaria daqui a alguns dias, provavelmente toda devastada, como ele gostava. A população daquele vilarejo teria de se arrastar até ele em busca de clemência, como aquilo seria esplendidamente doce a Mardek; sentir aquela gente na palma de sua mão.
Ele deu mais um de seus sorrisos gelados, que se transformou em uma leve risada medonha. O que estava prestes a acontecer era mais que apenas uma busca, era um aviso; ninguém, nem mesmo os mais jovens ou mais velhos deviam contrariá-lo, jamais! Pois ações geram consequências, e o grande rei Mardek não tinha medo de sujar suas próprias mãos.
Notas finais
Se ao menos alguém der sinal de vida que não está tão ruim assim, eu vou continuar. Como eu disse anteriormente, postá-la é a minha forma de dar mais uma chance a essa história há muito tempo esquecida no banco de dados do meu Evernote haha
Enfim, eu tenho mais meio capítulo pronto e terminarei para postar brevemente.
Por isso é só obrigada a quem leu :3
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