Canção do Eclipse
1 Sorriso: E Os Mundos Colidem
Notas iniciais
Música do cap: Kutless "Smile" -> http://www.youtube.com/watch?v=7-1lcoBxmF8
Música que o Ichigo estava ouvindo: Chopin Nocturne Op.9 No.2 -> http://www.youtube.com/watch?v=YGRO05WcNDk
“A Música em qualquer latitude é linguagem universal, é uma dádiva que Deus concede ao espírito para sua ventura eterna, é energia cósmica expressa em sons ao invés de palavras, é a composição sonora que vibra pelo infinito sob a batuta do Regente Divino, traz em sua intimidade a palpitação da própria natureza, plena de forças criadoras, contendo em si a beleza, a poesia, a inspiração e o êxtase”.
Ramatís
O que fazer quando o sonho se torna realidade, e a essência do que se ama... Perde-se no tempo sem volta?...
O forte show de luzes embaçou minha visão, mas não era o bastante para me impedir de vê-la me assistir. Contemplar aqueles olhos carinhosos e protetores, deveras transparentes, pois não escondiam o orgulho que lhes transbordava... Ela me sorria... Saudável. Senti o corpo leve, como um fantoche, minhas mãos já se moviam sozinhas. Alucinada... Como eu amava aquela melodia... Eu amava tocar as pessoas com a minha arte. As vozes ensurdecedoras, em conjunto uníssono com as distorções graves e pesadas, pulsavam em meus tímpanos. As batidas, que faziam tremer o chão, controlavam as palpitações do meu coração. Aquela era minha vida, e minha antiga paixão parecia estar retornando. Forcei a garganta para mais um grito, minhas cordas vocais ardiam como se fossem rasgadas por canivetes. Cansaço? Emoção? Sorrisos descontrolados ameaçavam deslocar minha mandíbula. Aquela sensação incrível transbordava em lágrimas pelos meus olhos. Minhas pernas bambeavam, diante as palmas que mais pareciam uma bela sinfonia, que oferecia paz aos meus ouvidos. Pensava se minha alma ainda estava no corpo, ou se havia sido repelida, por tantos sentimentos em turbilhão. Acenei para a multidão, e minha mão desabou tocando um último acorde. Estava vivendo meu maior sonho, graças a Hisana, minha irmã... Ainda posso vê-la me assistir... Mas a sinto tão longe... Cada vez mais... Longe...
Pisquei os olhos algumas vezes para acostumá-los a luz. Minha cabeça estava recostada em algo muito confortável, e eu abraçava algo firme, que me passava uma estranha segurança:
– Que perfume gostoso. – Murmurei debilmente, um pouco confusa com aquela sensação, um tanto, prazerosa.
Meus ouvidos captaram uma risada disfarçada, elevei os olhos para dar de cara com uma figura de traços perfeitos, olhos encantadores e... Cabelos cor de laranja?
– Está confortável? – Pronunciou-se divertido, fitando seu braço ao qual eu me abraçava.
Dei um salto, soltando-o... Mas... O que estava acontecendo, afinal? Eu não conseguia esconder aquela ridícula expressão caótica. Isso estava começando a me irritar... Concentre-se Rukia!... Agora eu me lembro... Foi um sonho:
– Foi só um sonho? Onde eu estou? Avião? Ônibus? Estúdio? – Droga! Por que eu nunca consigo manter meus pensamentos na minha cabeça? Acho que estou delirando.
– Você está delirando? – O quê? Ele pode ler minha mente?
A sua gargalhada foi a minha resposta, ele apenas queria me fazer de palhaça, mas claro, com tantas brechas! Recomponha-se Rukia!
– Quem diabos é você?! – Ele deixou escapar um leve espanto pela minha grosseria. – Seu pervertido que se aproveita de garotas enquanto estão dormindo! – Tentei não rir de suas bochechas vermelhinhas.
– Como é?! Você é louca?! – É assim que ele trata uma mulher? Que indelicadeza!
– É isso mesmo que você ouviu! E eu não sou louca, você que é um problemático de cabeça laranja! – Seu rosto se contorceu de raiva, e eu estava pronta para erguer a bandeira de vitória.
– Eu sou problemático?! – Berrou furioso.
– De cabeça laranja! – Completei, acredito que ele havia tentado fingir que não ouviu isso, mas eu não poderia deixar passar, o que pareceu ser a gota d’água para ele. Cérebro de minhoca! Acabou de revelar seu ponto fraco.
– Isso não interessa droga! – Se preparou para dispensar tudo o que vinha a sua cabeça. – Eu cheguei aqui, e você já estava dormindo! Sentei quietinho no meu canto! Daí você veio, deitou no meu ombro, agarrou meu braço, babou na minha camisa e ainda ficou roncando e murmurando: “Pyon! Pyon!”. – Gritava feito louco, e sacudia os braços encenando, sem esquecer de mostrar o pedaço da camisa branca, que estava transparente pela minha baba, revelando parte dos músculos definidos... Que a propósito eram tentado... Foco! Foco!
– Eu não ronco! – Gritei em resposta, sentindo um ódio avassalador por aquele maldito.
– Então você admite que fez o resto?! – Ele queria me enlouquecer, não me lembro de perder a compostura assim antes, parecia um otaku que perdeu sua touca do pikachu.
– Cala a boca! Seu idiota! – Esmurrei sua cabeça, de algum modo, aquilo me devolveu o alto-controle.
– Você é retardada?! Sua baixinha folgada! – Explodiu, apertando a própria cabeça, podia ver a fumacinha saindo.
– Com licença!!! – Estalo! Nós dois nos calamos, quando mais um timbre de voz se juntou ao estardalhaço, mas esse logo retornou ao seu estado comedido, se pronunciando com extrema classe. – O casal pode fazer silêncio, por favor? – Desgraçada! Não somos um casal! – Estão incomodando os demais passageiros.
Olhei em volta, não havia uma alma vivente que não nos encarasse com irritação, apesar de haverem alguns engraçadinhos, que pareciam achar aquela situação uma grande comédia.
– Que feio, levando bronca da aeromoça. – Sussurrou, para não ser ouvido pela mesma, com um tom muito infantil, a propósito.
Juntei ar o suficiente para berrar a ponto de deixá-lo surdo, mas quase engasguei quando a aeromoça me cobriu com um olhar assassino. Pela vergonha minha cabeça insistia em permanecer baixa, fitando o chão, lembrei do que a cenoura ambulante quase me fez esquecer... Aquele sonho... Por que isso me perturba tanto? Não foi um “adeus”, foi apenas um “até logo”. Porém, o pensamento de que aquela vez... Poderá vir a ser a última... A dor é gritante... E não me abandona!
Meu escape... A única capaz de aliviar a dor... A Música... Ou pelo menos... Costumava ser... Ainda é o que eu amo, mas o sonho parece tão vago... Sem sentido. Se em algum mundo, tudo pudesse se resumir à música, esse seria meu paraíso. Imaginar o quão simples deveria ser, e o quão complicado ficou. Por qual razão não poderia permanecer apenas na paixão? Na arte? Por que o dinheiro e o poder precisavam se envolver nisso? Se envolver no meu sonho... E pior... Por que a doença se envolveu?
“Mesmo que tudo seja igual, por dentro
Há algo real
Uma fé que me faz mudar
(mas o que está diferente agora?)”
Retirei meu mp4 do bolso, ligando em seguida, e colocando os fones de ouvido. Planejava voltar a dormir, por mais cruéis que fossem, meus sonhos eram menos torturantes que a realidade. Entretanto, como já havia se tornado rotina ultimamente, meus planos não deram certo. Percebi isso no momento em que apertei play, mas nada aconteceu, nenhuma música. O que é isso? Um pesadelo? Meus fones não funcionavam!
Estava prestes a ter um colapso nervoso, quando alguém estendeu um fone pra mim. Fitei o rapaz ao meu lado, e quase não podia decifrar aquela expressão. Ele sorria, mas não era de alegria, muito menos de pena, era como se ele quisesse me dizer algo, ou me fazer sentir algo.
“Uma faísca está brilhando em meus olhos
Como estrelas de diamante que preenchem o céu
Eu acho que um sorriso diz isso tudo”.
– Se importa em dividir? – Ele disse, colocando o outro fone em seu ouvido, mas eu não conseguia entender, se essa pergunta era sobre os fones, ou sobre meus sentimentos.
– Acho que não.
Minha voz saiu tímida, coloquei o fone no ouvido, e me surpreendi... Ele estava ouvindo Chopin, era maravilhoso, O Noturno Op. 9 Nº 2! Fechei os olhos, me sentia nas nuvens, nunca imaginei que, um bruto como ele, pudesse gostar de uma música assim. O fitei por um momento, ele ainda sorria, corei inconscientemente, por algum motivo que desconheço, aquele pequeno sorriso... Mexeu comigo.
**********
“Em um avião, em algum lugar novamente
Eu tomo meu lugar na fila, assim como outra vez
Eu deslizo para meu assento na janela
Ela estava sentada lá”.
Eu nunca havia me sentido tão impotente em toda minha vida, não conseguia parar de observá-la, e notar que a cada momento seus traços se tornavam mais abatidos. Meu corpo não se movia, apesar da vontade de fazer algo, mas quem sou eu? Eu sou um ninguém pra ela, um estranho inconveniente que sentou ao seu lado no avião.
Notei seu olhar vago despertar de súbito, ela deixou escapar um pequeno sorriso ao retirar seu mp4 do bolso, mas após colocar os fones e tentar ligá-lo, seu olhar escureceu, deduzi que ela não conseguiu ligar o aparelho. Não quis parecer intrometido naquele momento, nem deixá-la perceber que não parei de observá-la. Contudo, ver aquela cena e permanecer indiferente... Poderia levar o nome de crueldade.
Ofereci um dos meus fones a ela, e não consegui controlar meus lábios, ao ver seus grandes olhos azuis voltarem a brilhar de imediato, antes de perceber estava sorrindo feito bobo, e como imaginei, ela pareceu confusa com a minha expressão.
Ela pegou o fone devagar, tímida, como se esperasse que eu desistisse da oferta, e o colocou. Ouvi seu suspiro, parecia leve, algo pesado parecia abandonar suas costas. Em consequência senti um alivio, enquanto observava a face serena de quem aprecia uma bela obra. Ela abriu os olhos, e voltou-se para mim, senti o rosto quente, mas o sorriso ainda estava lá, não queria parar. A baixinha corou, ri internamente, me retribuiu com um sorriso acanhado, e atentou para o som que preenchia seus ouvidos... E sua mente.
“Com meu sorriso eu pude ver a esperança nos olhos dela
E eu sabia que algo estava diferente hoje”.
Não queria interromper aquele momento de paz, mas o que gritava de dentro para fora, pedindo para que eu conversasse com ela, era mais forte do que a minha noção:
– Você gosta?
– Como? – Ela pareceu acordar de um sonho.
– De Chopin... Você gosta? – Aguardei algo do tipo: “Não me incomode, idiota, não vê que estou concentrada!”. Porém o que veio foi um lindo semblante entusiasmado.
– Claro! É perfeito! – Parecia extremamente empolgada, com certeza era um assunto do seu agrado.
“A conversa continua
Conforme as milhas passam lá embaixo,
Ela diz: Tenho que deixar você saber
Que você parece tão diferente pra mim”
Em um segundo ela parou, seu rosto começou a se fechar, parando em uma estranha expressão caótica. Ela prendeu o meu olhar, como se tentasse me sondar, e eu, como um assíduo prisioneiro, permaneci inerte. Tudo que captamos naquele instante foi uma frase, saída de uma boca, que parecia incomodada com a situação:
– Que casal bipolar.
Aquilo foi o suficiente para despertar a nós dois. Fulminei a aeromoça maldita com meus olhos!
Contudo, ainda esperava que a pequena garota me dissesse o que a afligia, mas ela me desapontou enquanto o avião preparava-se para aterrissar:
– Me desculpe. Eu fui grosseira a pouco, eu sei que você não tem culpa, mas passei três dias em claro, e isso me deixou um pouco estressada. – Disse cabisbaixa.
– Sem problemas, isso explica o sono pesado. – Deixei escapar na inocência, mas acho que ela levou a mal.
– Sono pesado? – Perguntou desconfiada, mas com cara de: “Cuidado com o que você vai dizer”.
Não queria apanhar de novo, então tentei ser delicado... Apenas tentei:
– Sim, o normal seria você ter acordado na hora em que a cutuquei, mas ao invés disso você me agarrou mais ainda... Hum... – Parei, pensativo, a blusa vermelha dela refletiu na face.
– O que foi?
– Pensando bem, tenho minhas dúvidas se você estava realmente dormindo.
O avião estacionou, todos começaram a sair, um a um...
– O que você quer dizer com isso?
E os últimos que saiam, nos fitavam, provavelmente se perguntando o porquê de ainda estarmos sentados.
– Nada, na verdade. – Respondi tranquilamente.
– Não brinque comigo! Idiota! – Explodiu, jogando o fone na minha cara, era uma garota esperta, sempre percebia rápido o que eu queria dizer.
Olhei em volta de esguelha, e percebi que nós éramos os únicos naquele lugar. Isso não parecia importar para ela, então continuei com a cena.
– Não estou brincando, apenas sou um cara desconfiado, vai saber se você não queria se aproveitar de mim, com o pretexto de estar dormindo. – Tentava manter a compostura, mas minha vontade era cair no chão de tanto gargalhar, pela expressão que ela fazia.
– Pervertido! – Corou violentamente.
– Eu sou o pervertido? Tem certeza? – Ironizei, ela estapeou o próprio rosto.
– Argh! Não sei porquê estou perdendo meu precioso tempo com você. Adeus, espero nunca cruzar com você de novo, tenha um péssimo dia. – Ela saiu batendo o pé, uma gracinha, mas nem sequer perguntou meu nome... Frustrante.
Foi só ela passar da porta, que a bela e educada aeromoça surgiu.
– Senhor... Não quero parecer grosseira... Mas saia logo, por favor!
Levantei saindo, e dei as costas para a aeromoça:
– Belo trabalho em não parecer grosseira, só acho que foi boazinha demais, as pessoas podem pisar em você se continuar assim.
Não sei se minha ironia a irritou, mas pelo barulho de dentes rangendo, acredito que a missão foi cumprida.
Depois de pegar minha bagagem, caminhei até a saída do aeroporto, onde os táxis estavam estacionados. Chamei por um, e enquanto guardava a bagagem no porta-malas, vi uma fisionomia familiar passando em outro carro. Chega a ser típico dela, novamente dormindo, porém o rosto estava sereno, ao contrário da outra vez.
“Com um sorriso eu pude ver
A fé que partilhamos no interior
E eu soube que há algo diferente hoje”.
Com uma garota assim, eu não me importaria de seguir os conselhos do meu velho, e levar uma namorada na próxima visita.
Entrei no táxi, e informei ao motorista a rua e o número do local que eu precisava ir. Após um breve tempo, o carro parou em frente a um prédio enorme e muito bem conservado. Paguei o motorista e sai, caminhei até atravessar a porta automática, e me aproximei da recepção entregando a carta que havia recebido:
– Boa tarde. Estão esperando o senhor no segundo andar. – Finalmente uma atendente educada.
– Obrigado, boa tarde.
Agradeci já me locomovendo até o elevador, sim, eu estava com preguiça de subir as escadas até o segundo andar.
A porta do elevador abriu, revelando outra grande porta de vidro a frente, atravessei e encontrei quem procurava, sentado em um sofá que parecia deveras confortável:
– Boa tarde... Urahara certo? – Perguntei apertando a mão do senhor, que levantou para me receber.
– Isso mesmo, acredito que você seja o filho do Kurosaki, há algo que quero lhe mostrar, antes de resolvermos nossas pendências.
O segui, ele caminhou por um corredor onde havia outra porta de vidro, mas essa parecia mais espessa. Urahara parou olhando através do vidro, então segui seu olhar, quase não acreditando no que via. Era a garota do avião, ela estava cantando, provavelmente gravando. Urahara fez um sinal para que ela viesse até ele.
– Ela é o nosso tesouro. – Disse baixo, para que apenas eu pudesse escutar.
Como não sou burro, logo me liguei na situação, e agi como se soubesse desde o começo. Quando ela saiu, e me fitou estupefata, levantei a cabeça orgulhoso, e lhe ofereci a mão em cumprimento:
– Prazer, sou Ichigo Kurosaki, seu novo baterista.
“Eu sei o que um sorriso pode dizer sobre mim
Eu sei que nem sempre são palavras que falam
Algumas vezes isso não é o que digo
Que o mundo ao meu redor parece entender”.
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