Canção do Ceifador
1 Canção do Ceifador
Notas iniciais
Para além desta vida eu sigo
Pelos jardins e campos fenecidos
Pela vereda clandestina, de tempo cinza e terra agreste
Sigo o rastro das papoulas e a fileira de ciprestes
Marcho avante na alameda infalível, tão temida quanto invencível
Olhos baixos, peito erguido, minha coroa é a honra dos vencidos
Para trás de mim eu deixo, os raios de sol ardente e as estrelas do Leste
Tudo é silêncio à minha frente, tudo sucumbe à vigília do Oeste
Sozinho estou, sem socorro de amigo, mas conformado na minha viagem eu sigo
Pois já nem mais passado ou presente podem me emprestar abrigo
“Não atrasa, já é hora”, avisa ao longe o Ceifador, “Não hesita, não demora”
A Noite, paciente, a mão honesta então me estende
Sem guardar nenhum segredo, diz, “Criança, não tenha medo, nada mais aqui te prende”
Fecho os olhos, tolerante, para trás eu deixo a minha peleja de errante
Em paz, agora, os meus pés avançam, sonolentos, para o abraço da mortalha
No amparo daquele que no fim me espera, beijo-lhe o gelado fio da navalha
Enfim, em meu leito de areia e pedra, de bom grado, os meus restos a Ele entrego
E sob as águas escuras, da primavera ao cair do inverno, que meu sono ali seja eterno
Antes de partir, no entanto, tenha certeza:
Seis sementes é o preço da gentileza
Três sementes para a deusa, Dama do reino inferior
Três sementes em ode ao Ceifador
Assim, sob as águas escuras, o meu destino é selado
Sob as águas escuras, jaz o meu espírito, para sempre a Ele atado
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