Canção da Sereia
52 Isaac
Notas iniciais
Nora
Estamos no rochedo. Minha pernas doem e eu luto para me manter com elas.
Marry, sei lá como, já está lá em cima.
– Respira.– Ela fala pela primeira vez. - Emoções fortes são o gatilho para a transformação.
A voz dela é grossa. Diferente da de Helena.
Tento me acalmar, mas mantenho minhas pernas distantes.
Megan fica a minha frente, segura meu rosto em suas mãos.
– Me conta sobre Lancey.
Lancey? O que tem ele? por que ela quer saber sobre ele? E aonde ele está? Ele deveria estar atrás de nós. Cadê ele?
Meu coração acelera, a dor aumenta e eu estou preocupada com meu amigo.
– Como vocês se conheceram? — Megan insiste. Seu rosto está colado no meu. — Pense, Nora. Como?
Fecho meus olhos. Tento me concentrar.
Eu estava com muita dor também, no dia que nos conhecemos. Andrew havia acabado comigo. Fiquei semanas internada, precise de uma cirurgia de construção no maxilar. Quando acordei, Lancey estava lá. Me assustei pra cacete ao ver um cara desconhecido ali. Ele estava de bermuda, regata e chinelo. Era a coisa mais largada que eu já havia visto em muito tempo.
Lembro que ele me notou acordada e disse “E ai”. Eu quase tive um ataque.
– No hospital... — Digo a ela. — Nos conhecemos no hospital...
Respiro com mais calma.
– E o que pensou ao vê-lo?
Rio coma pergunta. Péssima hora pra fazer isso, mas apenas sai...
– Que ele era um tarado, louco, qualquer coisa do tipo.
Ela sorri.
– Isso, você esta conseguindo. Respira. — Ela acaricia meu rosto.
Sinto meu corpo acalmar. Minhas pernas ardem menos e consigo me firmar em pé.
– Isso... agora temos que subir.
Concordo. Ela sobe antes. Usando os buracos na grande rocha como apoio. Então é minha vez de fazer isso. Eu vou lentamente. Me seguro com força e coloco um pé de cada vez. Consigo subir boa parte, mas as dores vão voltando e preciso parar. Tento pensar em coisas boas. Subo mais um pouco. Megan me estende sua mão, me ajuda a terminar o trajeto. Quando estamos perto da entrada da caverna, os gritos começam. Me lembro de quando estive aqui na última vez. Quando fui possuída. Não quero entrar.
Megan me puxa.
– Eu estive com Lancey aqui... — Digo a ela – Foi aqui que eu fui possuída por alguma coisa...
Ela está nervosa. A lua está brilhando bastante hoje. Ilumina tudo. Eu posso ver em seus olhos a tensão e o medo.
– Talvez não esteja mais... — Ela tenta me convencer.
– Megan, quase matei o Lancey. E se eu perder o controle? E se eu te machucar?
– Eu não sei... — Ela parece tão cansada de repente. — Eu não quero ficar aqui com aquelas coisas a soltas. Se é pra morrer, que não seja por aquelas coisas. E... oh deus... — Ela leva a mão ao rosto. — Kall... e os outros. E se estiverem mortos?
Lancey saiu da cabana e ele não está conosco. Não posso imaginar nada de bom para os outros que ainda estavam na caverna... Willian. Me lembro do beijo que ele me deu enquanto me colocava pra fora. Não quero que ele morra. Ou qualquer um de nós. Precisamos sair desse lugar. Talvez Marry tenha alguma ideia de como fazer isso.
– Vamos... — Digo a ela que concorda. Nos apoiamos uma na outra, cansadas, exaustas até a alma.
Nos entramos na caverna inundada. Caímos da maldita elevação da entrada. Não lembrada dela. A água está alta dentro da caverna, para na altura dos nossos peitos e tem tochas nas paredes. Isso me assusta. É como na visão de Pearl. Andamos até o fundo da comprida caverna. Marry está dentro, perto de onde mataram a sereia no tempo de Pearl. Ela está em cima da rocha.
– Marry... — Digo, tentando me acalmar, mas sinto um formigamento em minhas pernas, pelo menos não está doendo, sinal de que a transformação parou. — Precisamos sair desse luga...
Se bem que... Marry é habitada por Helena. Ela não nos deixará sair.
– Vou libertá-las... — A voz fantasmagórica saí dela. Voz que não é como a de Helena... voz que eu vi em Megan antes. Pearl.
– Pearl. — Megan diz, ela aperta meu braço. Caminhamos em direção a ela. Bem lentamente, a água dificulta.
– Elas estão criando monstros. Estão tentando a todo custo recuperar o que lhes foi tirado. — Ela começa a dizer com a voz fantasmagórica. Eu já ouvi essas palavras. Ela disse antes de me jogar no buraco. — E as outras querem acabar de uma vez o que começaram. É uma gerra. Elas estão com raiva. Com ódio. Elas só querem vingança. Mas não há mais o que ser vingado.
– Eu não entendo, Pearl. — Digo irritada. Tudo isso é uma merda. Saí do meu apartamento confortável e das minhas férias para cair direto em um filme de terror e nem mesmo posso ter algumas respostas claras?
– Elas estão criando monstros.– Ela repete - Estão a todo custo tentando recuperar o que lhes foi tirado. E as outras querem acabar de uma vez o que começaram. É uma gerra. Elas estão com raiva. Com ódio. Elas só querem vingança. Mas não há mais o que ser vingado.
Os gritos altos tomam conta. As mil vozes gritando ao mesmo tempo, então, como se alguém tivesse ligado o interruptor, tudo fica claro.
– Elas estão criando monstros... as bruxas.– Começo a dizer em voz alta as informações que meu cérebro começa a formar. — Estão a todo custo tentando recuperar o que lhes foi tirado... os corpos. — Aquelas criaturas sem vida são um tentativa falha de voltar. — E as outras querem vingança...– As outras... - A mulheres que Helena possuiu. Não as mulheres da ilha, certo? Não são as mulheres da ilha, as que quiseram acabar com as sereias. São as mulheres da floresta. Serena... você.
Os olhos verdes, acessos como lanternas, me encaram e um pequeno sorriso aparece.
– Você me disse pra ficar longe da água... é para que não me possuíssem...
Megan vira seu rosto pra mim, está molhado. Estamos encharcadas pela água, mas tenho certeza que são lágrimas.
– Três mulheres... — Megan diz – Serena lhe disse isso antes de Helena a matar.
Megan
Tudo ficou claro. As visões que eu tive de Serena... elas não eram bem memórias. Eu apenas pude ver quando Helena não estava habitando ela. E nesses momentos, tudo que ela sentia era ódio. Ela queria acabar com Helena, acabar com o que acabou com ela. As coisas que eu me lembrava não faziam sentido porque não estavam na ordem certa ou porque eu não sabia o que sei agora. Eram apenas imagens, depois algumas vozes. Não foi como Lancey descreveu, ou Willian. Eu não vivi nada daquilo que eles dizem terem visto e sentido. Pra mim foi mais como espiar por um buraco e pegar algumas coisas do outro lado da parede.
Tem uma pessoa que está na maioria das lembranças. Joana. Ela sabia de muita coisa que não deveria, ela sabia sobre Helena, apesar de não vê-la. Mas sempre sabia quando ela não estava em Serena. Ela sempre sabia quando podia falar com a feiticeira. E ela falou então, todas as vezes que foi visitá-la. Ela contou sobre os sonhos e as vozes que ela ouvia.
No dia de sua morte, Helena voltou, assumindo o corpo de outra pessoa. Pearl. E por minutos, Helena as deixou. Esse tempo é responsáveis por estarmos aqui agora.
– Duas humanas e uma sereia – Digo me lembrando das palavras dela para Pearl antes de morrer — O corpo tomado é o sacrificado. A morte é a chave. A canção que entoam... — Levanto meu rosto por um momento, olhando para Marry. Ela está sorrindo. — O corpo tomado... assim que eu pisei na ilha... fui possuída por você... eu sou o corpo tomado. O corpo que Helena não tocou. O corpo que você tomou pra você. — Nora aperta meu braço. Ela já sabe, eu percebo. Mas eu preciso dizer em voz alta. Preciso olhar para essa mulher a nossa frente. Preciso saber dela se isso tudo é verdadeiro. — Você vai me matar e vai fazer o feitiço. O feitiço... é a canção que entoam. É a canção que Isaac ensinou as bruxas. Você quer trazê-lo de volta. Por isso não queria que Nora fosse pra água, não queria que uma das bruxas ocupasse seu corpo. Você precisa do feitiço, porque Helena se certificou de que Isaac não pudesse possuir uma mulher , mesmo de sua espécie, e que ele não pudesse transformar um homem – Quase rio disso. Aquele espirito ordinário pensou em tudo. — O que não entendo é... como conseguiu se livrar dela...
O barulho de algo caindo na água nos assusta. Olho para trás e não vejo nada além da água negra que nos cerca.
– Você acha que pode trazer Max de volta. Mas, ele está morto. Aquela coisa no mar, não é Max. Você o perdeu! — É Nora quem diz dessa vez. Por um momento ela afunda e eu a pego, mantendo a mão por baixo de seus braços. Ela não está bem e a água está subindo na caverna. Precisamos sair desse lugar, antes que seja tarde demais.
– Vamos sair... — Digo. Começo a andar para trás. Pearl nos olha da pedra. Ela mantém o sorriso convencido.
Nora me aperta.
– Droga Megan...
A encaro, tentando andar para trás com ela, mas não conseguindo. Então sinto algo relando em minhas pernas e grito. Solto Nora por puro instinto de sobrevivência. Ela afunda. Nora volta a superfície. Ela me encara assustada. Agora a merda está feita. Ela ergue os braços por um instante, deixando as nadadeiras a mostra. Azuis. Elas são azuis dessa vez. Assim como a cauda que se mexe na caverna apertada. Os gritos vindos do mar ficam mais altos. Como se estivessem todos concentrados dentro da caverna.
Eu para perto sereia a minha frente. É assustador e fascinante. Por anos eu estudei espécies marinhas e diversas vezes eu me emocionei pela beleza delas. Mas Nora... é perfeita. Um achado. Um milagre.
As escamas brilhosas em seu pescoço, testa e braços parece feita de milhares de diamantes em vários tons de azuis.
Outro som de coisa caindo na água. Mas dessa vez algo realmente caiu. Marry. Ela caminha, com água até seu pescoço. A voz dela se junta aos gritos. Mas dessa vez eles fazem sentidos. São palavras. Um dialeto diferente, mas ainda sim palavras. É o feitiço. Merda, merda. Eu não quero morrer assim, quero sair desse lugar maldito com meu marido. Eu quero viver.
– Foge Megan, só funciona se estivermos juntas. — Nora me diz já segurando minha mão e nadando com rapidez para a entrada da caverna. Me vejo sendo arrastada. Eu não quero deixá-la. Mas também não quero ficar. Realmente não quero ficar. Nesse momento eu tento escapar. Tento correr, fugir. Me sinto culpada, mas estou funcionando por instintos.
– MEGAN!
É a voz de Nora. Eu paro. Ela não está mais comigo. Ficou para trás.
– VOLTA! — Ela grita.
Sinto algo roçar minhas pernas de novo. Mas eu sei que não é Nora dessa vez. Estamos realmente longe uma da outra. A caverna é comprida. Estou a uns bons dez metros dela e nem faço ideia de como nos separamos tanto em segundos.
Eu fico imóvel. Não sei o que fazer. Ela queria que eu fosse e agora quer que eu volte... e se não for ela? E se Nora tiver sido possuída de novo? Ela disse que a primeira vez foi nessa caverna. Eu faço minha escolha e me viro para saída. O melhor que faço é ir embora. Juntas representamos perigo uma para outra. Se ficamos aqui as duas, eu serei morta e ela possuída por um demônio milenar. Tento lutar contra a água para ir até a saída, mas então bato em algo duro e caio. Afundo por segundos. Volto a superfície assustada. Então as vozes param. Cessam todas de uma vez, inclusive a de Nora. Ou talvez esse seja o meu momento de pânico e eu é que bloqueei os sons.
A água a minha frente fica parada por dois segundos e então ela se move. Meu corpo todo fica arrepiado. Ali, bem diante de mim, tampando a saída, algo começa a imergir. Uma cabeça.
Os olhos azuis acesos aparecem junto a uma cabeça deformada. A boca torta mostra dentes afiados e podres. A criatura a minha frente sorri. E isso é tudo que vejo antes de algo frio e pegajoso prender meu corpo e me puxar para a água escura.
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