Canção da Sereia
36 Amaldiçoadas Parte 1
Notas iniciais
Minha irmã continua voltando toda semana a casa da mulher da floresta. Decido acompanhá-la. Estou preocupada com seu envolvimento com essa tal mulher
***
A mulher da floresta se apresenta como Serena. Ela é muito mais bonita do que me lembrava e sombria também. É como se trevas estivessem ao seu redor. Eu a estudo, esperando ver nela a mulher prateada. Mas ela não deixa transparecer nem uma dica de outro ser vivendo em seu corpo.
A casa é assustadora. Tem coisas estranhas penduradas e muito pó. A mulher mexe algo em uma panela.
– Nós vamos usar essa poção para afastá-las. Devemos despejar ao redor da ilha no dia da lua cheia. Precisaremos nos dividir. Cada mulher terá que cobrir uma parte da ilha. — Ela conta enquanto acrescenta coisas diferentes a sua mistura. Servira como uma barreira.
– O que houve para que aceite fazer isso sem cobrar nada? — Pergunto e recebo um chute de Joanna na canela.
A mulher me olha e sorri. Agora eu posso reconhecer... esse sorriso zombeteiro que a mulher prateada sempre tem em seus lábios. É ela. Elas são uma só? Ou isso é realmente uma possessão?
– Meu marido morreu afogado... uma dessas criaturas não achou o bastante o ter como amante. Eu a vi o sufocar nas águas. Ela me olhava o tempo todo e nunca deixou de sorrir. Eu não pude alcançá-los a tempo.
É mentira. Eu sei que é. Sinto isso dentro de mim. Tudo nela é falso.
Minha irmão fica em pé e anda pela sala, olhando as prateleiras. Eu não tiro os olhos da mulher nem mesmo por um minuto. Ela me olha enquanto Joanna estuda os frascos.
– Você tem alguma poção do amor?
Agora eu desvio da feiticeira e encaro minha irmã.
– Obviamente. Foi a primeira coisa que aprendi a fazer. As mulheres desesperadas pagam caro por isso.
Por que Joanna iria querer isso? Ela já é casada. E muito bem casada.
– Interessante. — Joanna volta a sentar ao meu lado, num banco de madeira velho. — Quando devo voltar? Para pegar as poções.
A mulher fica em silêncio por um momento. Limpa sua mão em seu vestido negro.
– Dois dias antes da lua cheia. Vocês devem vir, todas, para pegar seu frasco e suas instruções.
Joanna e eu não demoramos ali. Eu pensei em como dizer a ela que aquela mulher não era de confiança sem que ela me acusasse de loucura perante a vila toda. No entanto, minha irmã não parece nem mesmo preocupada. Ela está diferente. Mais fria, se é que isso é possível. Alguma coisa está mudando nela. Ela está se tornando uma mulher amargurada. Rancorosa. Provavelmente é pelo fato de saber que seu marido a trai uma vez ao mês. Eu não posso imaginar sua dor, mas se eu me sinto traída... imagina ela que é a esposa...
***
Dois dias antes da lua cheia, foi criada uma desculpa. Uma festa para a nova futura mamãe da ilha. Assim todas as mulheres interessadas saíram de suas casas e partiram para a casa da mulher da floresta. Em todas as vezes que voltei a esse lugar, eu notei que nunca me lembrava do caminho. Que nunca poderia encontrar sozinha. É sempre Joanna que toma a frente. Sempre ela que sabe o caminho...
***
Nós fizemos o que a mulher mandou. Despejamos o veneno na água na noite de lua cheia. Eu tento convencer Joanna que não é uma boa ideia se aliar a feiticeira, mas ela não me ouve. Então eu a acompanho. Não posso apenas deixar minha irmã sozinha. E eu também quero que essas criaturas sumam. Quero que Max esteja bem e livre disso. Finalmente aceito o fato de que ele pode ser inocente. Talvez ele esteja dizendo a verdade sobre não se lembrar. Só não concordo com o método que será utilizado para conseguir tal coisa. Mas, são dezenas delas contras apenas minha pessoa. Como poderia fazer algo sobre isso? Elas já tomaram uma decisão.
Depois de despejar o veneno, várias das mulheres tem de voltar para suas casas e para tal celebração, é difícil disfarçar a ausência de tantas. Mas nós, outras, vamos ao rochedo.
Nessa noite acontece o mesmo. As mulheres e os homens. Mas algo está diferente. Elas não dançam, não riem. Estão bravas, furiosas. Parecem sentir dor. Nós assistimos do rochedo quando elas voltam para o mar. Menos uma. Ela permanece ali. Olha para todos os lados. Como se tentasse sentir nosso cheiro.
Os homens ficam ali, parados. Abobados. Como se estivessem hipnotizados A mulher se aproxima de um deles. Ela o cheira. Seu rosto se transforma em algo horrível, como um demônio, quando ela olha em nossa direção e empurra um dos homens.
Alguém grita atrás de nós. A mulher na praia dá de costas e volta para o mar. Sumindo nas águas.
***
Nós pensamos que tudo estava resolvido. Mas então na lua cheia seguinte tudo se repetiu. As danças, os risos. A traição.
– Nós precisamos de uma solução definitiva. — Minha irmã diz a feiticeira.
– Bem, eu conheço um jeito... mas... precisaremos de uma delas viva.
– Nós podemos fazer isso. Já conseguimos pegar uma, certa vez.
– Na próxima lua cheia, nós faremos isso. Eu preciso encontrar um lugar, prepará-lo, então nós nos livraremos delas. Para sempre. — Serena sorri animada e Joanna corresponde.
***
Falta um mês até a lua cheia. Joanna não pode disfarçar sua ansiedade. Juro que posso sentir a aura maligna da mulher da floresta penetrando os poros de minha irmã. É como se a cada vez que nos encontramos com ela um pouco de malignidade fosse transferida para Joanna. Estou perdendo minha irmã. Sinto isso.
Contei a ela sobre a mulher prateada. Ela pirou. Me disse que eu estava louca e que se alguém ficasse sabendo sobre isso, ela me mataria. Não acho que a ameaça seja real. Mas ela está diferente. Cruel. Seus filhos tem medo de estar com ela e sinto que até Max está se distanciando.
Ele começou a falar comigo recentemente. Isso é estranho. Por todos esses anos temos mantido tudo de lado. Nossa amizade... nosso amor. Nos comportamos como dois estranhos quando estamos perto um do outro. Mas agora, pela primeira vez em anos, eu posso ver um deslumbre do Max com que eu cresci. E... eu sinto falta dele. Mas, não quero irritar Joanna. Então, apenas me distancio quando ele se aproxima. E também, nosso tempo já passou. Não há felicidade para nós. Não há nada quando se trata de nós dois. Apenas desilusão.
***
Um dia antes da lua cheia, eu me sento estranha. Com essa sensação de formigamento em meu estomago. Como quando algo ruim está prestes a acontecer.
Joana aparece em meu quarto e temos uma conversa muito estranha.
– Hey Pearl. — Me diz ao entrar sem convite no cômodo. Ela senta na minha cama, ao meu lado. — Sabe, desde que mamãe morreu, você tem a substituído. Eu sou a mais velha, deveria ter cuidado de você. Mas foi ao contrário.
Joanna esta nervosa. Como se fosse desaparecer e precisasse acertar as coisas de uma vez. Isso me assustou. Minha irmã não era um exemplo de bondade e no último mês estava realmente pior, mas isso não muda o fato de que eu a amo. Ela é uma das pessoas mais importantes na minha vida e tudo que eu quero é que tudo isso passe e ela melhore. Que ela possa deixar as futilidades e o ódio de lado. E então, ser feliz com sua linda família. Eu deseja o bem a ela. Mesmo que algumas vezes desejos ruins tomassem conta de meu coração nos momentos de raiva. Eu ainda a amava mais que a minha vida.
– Hoje a noite... — Ela continua. — A filha da Bellinda virá ficar com as crianças e papai. — Isso não esta certo. O combinado era que eu não participaria do que quer que fosse feito hoje. Eu ficaria em casa com meu pai e meus sobrinhos e ela resolveria isso sozinha, afinal, eu sou contra e não acredito naquela mulher possuída por coisas ruins. — Eu gostaria que estivesse lá comigo, Pearl. Não... eu preciso de você comigo, irmã. Você sempre esteve comigo em tudo. Não posso passar por isso sozinha. Por favor irmã... fique comigo.
É um pedido difícil de negar. Mas isso me assusta tanto. Elas irão tirar vidas hoje.
– Joanna... — Oh deus, isso é tão difícil — ...claro que estarei com você. Mas... — Eu preciso tentar uma última vez — não seria melhor partirmos desse lugar? Você sempre quis viver na cidade grande. Talvez essa seja a hora de dar um próximo passo.
– Não! — Ela parece zangada, mas consegue se controlar. — Não é justo. Aqueles monstros estão arruinando muitas vidas. Muitas famílias. Não é certo deixar que continue assim.
– Mas Joanna... estamos falando de assassinato...
– Elas pediram por isso... — Ela fica em pé irritada. — Poderei ou não contar com você?
Nunca a abandonei, nem quando meu coração foi partido por sua união com Max. Não será agora.
– Estarei lá...
***
Joanna me encontra na cozinha, parece melhor hoje.
– Você estará lá hoje a noite? — Ela me pergunta.
Tenho dúvidas sobre isso. Mas eu lhe prometi.
– Estarei.
– Assim que o sol se for. Não se atrase Pearl. Por favor. é importante para mim.
– Estarei lá.
Minha irmã me abraça e beija minha bochecha. Ele tem os olhos tristes, a face cansada. Talvez ela não esteja tão indiferente assim ao que fará hoje. Talvez ela mude ideia até lá.
***
Está escurecendo. Quando Bellinda chega, eu visto minha capa negra sobre meu vestido e sigo para o local que a bruxa escolheu. O rochedo.
No caminho eu escuto um assovio. Talvez seja alguém que vai para o mesmo lugar que eu. Eu olho em volta e não vejo nada.Continuo andando e escuto de novo, muito mais perto. Olho em volta, nada. Está escurecendo, preciso me apressar, ou me atrasarei.
– Não deveria ter tanta pressa... — Diz uma voz fantasmagórica. A mesma que ouvi no pier e na floresta. É a mulher prateada. O demônio que possuiu a mulher da floresta. — Nada de bom te espera naquele lugar...
– O que você quer?
Ela está nua. Tem os cabelos longos e brancos soltos. Os olhos de luz me encaram.
– Muitas coisas...
– Você possuiu Serena. Eu vi.
Me mantenho distante dela. Cada passo que ela dá em minha direção, são dois passos para trás que dou. Eu deveria temer esse monstro, mas não sinto medo. Apenas repulsa.
– Eu possui muitas mulheres. E homens e tudo que possa imaginar. Essa é minha casa. Tudo que há aqui é meu e eu posso possuir, como bem entender.
– Eu não sou sua. Não pertenço a você. — Eu a desafio. Talvez não possa cumprir a promessa que fiz a Joanna. Talvez eu não sobreviva a esse encontro.
– Eles estão mentindo...
Ela fica de costas para mim.
– Eles quem?
– Os homens. Eu as criei...
– O que está dizendo? — Ela não responde — O QUE ESTÁ DIZENDO? — Grito até que ela me dá atenção — O que você criou?
– Mas isto é... — Ela parece confusa. — eu estou aqui a tanto tempo, antes da água ser água. Antes do céu ser azul. Quando só havia trevas. Eu as criei, me sentia sozinha.
– Criou a luz? Está me dizendo que é deus? Isso é uma blasfêmia!
– Não sou deus, criei elas...
Elas?
– Os monstros? Não entendo. O que está dizendo demônio?
Ela volta a me encarar.
– Você é corajosa, sabe? Eu gosto de você.
Isso é bom ou mal? Significa que ela polpará minha vida ou que possuirá como a da mulher da floresta?
– O que isso significa?
Ela caminha para o lado oposto.
– Que você ganhou uma terceira chance.
– Uma terceira? O que está dizendo? O que quis dizer com “os homens mentiram”?
– O que eu disse. Eles sabem o que fazem. Eles escolheram fazer isso... Se aproveitar... eles.
– Então porque está ajudando as mulheres da vila a matar as criaturas? Elas são inocentes. Você acabou de dizer.
– Eu não estou ajudando ninguém... apenas dou poder, o que fazem com ele... não tem nada a ver comigo.
Ela começa a desvanecer a minha frente. O que é isso? Por que fala comigo? E as coisas que ela disse... é verdade? Se for verdade, Joanna está prestes a condenar sua alma. Preciso alcançá-la.
Já é noite, o som das ondas torna o cenário muito mais assustador do que realmente é. Eu corro entre as árvores me desviando delas e saltando sobre as pedras e troncos caídos. Não preciso de luz para saber onde cada coisa está. Eu cresci aqui, desde de menina caminho por essa terra.
Conforme eu adentro mais na floresta, o som das ondas é deixado para trás. O som dos animais deveria ficar mais alto. Os grilos, os sapos, animais noturnos. Mas não há som algum. Apenas o silêncio. Parece que a natureza sabe da abominação que será feita essa noite. Passo uma segunda vez pelas árvores brancas. Não deveria ter passado duas vezes. Não estou andando em círculos... estou?
Conheço esse lugar como a palma da minha mão.
Tem alguma coisa errada.
Paro de correr. Os barulhos começam. Gritos. Meu coração bate rápido, descompassado, com medo. Parece até como nas cenas descritas nas histórias que mamãe contava antigamente sobre o inferno. Ela dizia que iriamos para esse lugar onde as pessoas sofriam e gritavam o tempo todo se não fossemos boas.
Talvez a mulher prateada fosse o próprio diabo e esse lugar seja o inferno, de fato.
Passo uma terceira vez pela árvore branca. Volto, talvez se tentar outro caminho. Ando apressada, correndo quando possível e parando quando preciso para escutar os sons. Então estou mais uma vez na árvore branca. Presa nessa pequena passagem. Os gritos cessam. O silêncio toma conta. Ele é mais arrepiante que os gritos.
Posso ver os rochedos ao longe. Volto a correr, não tirando os olhos do meu destino. Minha saia agarra na vegetação e escuto o barulho do tecido rasgando enquanto continuo minha corrida. Estou cansada, mas forço meu corpo. Isso é importante, minha irmã me pediu para estar lá. Para estar com ela. E ainda tem esses gritos apavorantes que vem de todos os lados. Rezo para que ela esteja bem. Rezo para não encontrar a árvore branca uma quinta vez. Tenho certeza que isso é obra daquele espirito maligno. Preciso chegar até a caverna. Preciso chegar até minha irmã. Preciso salvá-la.
O barulho das ondas se faz audível de novo. Chego, finalmente, ao pé do rochedo e alívio me inunda. Não é seguro ir por cima, mas é mais rápido. Já escalei tantas vezes que estou acostumada. Coloco minha mão nos buracos que meu pai fez para agarrar ao subir. A capa dificulta, então a tiro. Quando estou na parte plana, vou para frente do rochedo. A água subiu. Subiu demais. Deve estar batendo nos joelhos dentro da caverna. Hoje é lua cheia, a maré está alta.
Pulo na entrada da caverna. A água vai em todas as direções. E pesa sobre a minha saia. Olho a minha volta. Os gritos recomeçam, me causando um profundo medo. Tento saber de que lado eles vem. Não vem da caverna...vem do mar. Elas fizeram... fizeram de verdade!
Ando com dificuldade para dentro da caverna. Há tochas acessas que iluminam o caminho até o fundo do lugar. Começo a ver as mulheres reunidas mais a frente. Há muitas delas. Me aproximo. Estão em um circulo, de mãos dadas. Procuro minha irmã, a encontro no centro do circulo. A mulher da floresta está ao redor e nossa vizinha segura a cabeça de uma pessoa que está em cima de uma rocha, no centro do circulo. Há ainda uma terceira moradora da vila. É a curandeira da cidade. Minha irmã e elas dão as mãos. A mulher da floresta diz palavras estranhas, como se falasse uma língua estrangeira e as três repetem. Mas o que o me chama atenção não é seu dialeto estranho, ou o fato de uma delas segurar a cabeça de uma pessoa ao entoar as palavras estranhas. É o corpo sem vida da pessoa a qual ela segura a cabeça. Mas não é humano. Não apenas. Só metade dele se parece conosco...
É como minha irmã disse... um monstro.
Joanna me olha brava. Mas continua a ajudar Serena.
Os gritos estão mais fortes.
Quando Serena fica em silêncio, algo acontece. Minha irmã caí e em seguida Serena. Corro até minha irmã, as mulheres ficam aflitas pelas vozes. Algumas fogem, outras tentam ajudar Joanna e Serena.
Alcanço minha irmã com muita dificuldade. Ela tem o rosto marcado, lágrimas de sangue marcam suas bochechas.
– O que você fez Pearl... — Ela sussurra pra mim – Você prometeu que estaria aqui... é sua culpa...
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