Canção da Sereia
17 A Caverna - RS
Notas iniciais

Lancey
Sardinha aterrissa atrás de nós.
– Não acredito, seu pulguento. – Nora esta desesperada que o gato tenha nos seguido. — Lancey, joga ele de volta.
– Jogar? Você tá pirada?
Barulhos dentro da casa chamam nossa atenção. Procuro um lugar para nos esconder. Não há opção. Se formos pelo corredor ao lado da casa eles nos verão. Empurro Nora para o fim do pier. Para o mar. Ela me olha muito assustada, mas acaba indo. Entro na água e depois estendo a mão para ela, que aceita e vem para água com minha ajuda.
O medo de ser puxada para dentro do mar pela criatura de ontem é imensa. Ela quase chora ao meu lado. A puxo para baixo da ponte e a abraço. Seguro na madeira da ponte, para ficarmos parados. Ela rodeia os braços no meu pescoço e as pernas em minha cintura. Está assustada. Me quebra vê-la assim com tanto medo, de novo.
– É só o gato maldito. — É a voz de Gideon.
– Filho da puta. – Ela sussurra ao meu ouvido pelo comentário do nosso companheiro.
– Como ele saiu? — Mason quem fala agora.
– Não sei, mas não vai entrar. E se não for o gato? E se for aquilo.
A porta é aberta, passos sobre o piso de madeira então um tiro. Nora dá um pulo e se gruda mais ao meu pescoço.
– Péssima mira. — Mason diz.
– Não era pra matar, só pra assustar. Se mato e não é a criatura, aquela garota vai ter um troço.
Os passos ficam distantes.
– Vamos entrar. — Gideon avisa.
Depois de alguns minutos Nora finalmente se mexe.
– Ele atirou no meu gato.Vou matá-lo...
– Então decida de uma vez se quer matar ele ou ir atrás de respostas.
– Ok...– Ela tira as pernas de minha cintura, mas não solta meu pescoço. – E agora?
– Como assim e agora? Você que quis sair, eu só tô acompanhando.
– Temos que sair daqui.– Ela diz olhando pra baixo.
– Porra Nora, não me diga que tem alguma coisa na água...
– Acho que tem muitas coisas na água.– Ela sorri.
Garota estúpida. Como ela pode estar tão calma nesse momento? Estava quase chorando segundos atrás.
– Olha, podemos ir nadando até sair das vistas da casa. Então voltamos para a praia.
Ela acena.
– Não me solta.– Ela pede.
– Eu não ia.
Ela solta meu pescoço, eu a seguro com uma das mãos. Ela tira a mochila e eu seguro, depois tira o vestido e guarda na bolsa. Ela me segura no pescoço. Tiro a camisa com dificuldade, uma vez que ela não me solta de jeito nenhum. Talvez essa recém ganha coragem não fosse nada demais além de medo disfarçado. Guardo a minha camisa junto com o vestido dela e coloco a mochila em minhas costas. Juntamos ar e mergulhamos, nadamos segurando no braço um do outro. É difícil assim, mas se não for dessa maneira acho que nenhum de nós dois vai querer continuar.
Nora sempre foi melhor que eu em muitas coisas, mas não em nadar. Mas hoje parece que sou puxado por ela. É como se ela deslizasse pela água.
Voltamos a superfície várias vezes para tomar ar e voltamos a mergulhar. Algum tempo depois emergimos de vez. Vemos um rochedo a frente. Nadamos em direção a ele.
As pedras nos recebem como se fossem escadas. Subo primeiro e então a ajudo. Ela está de biquíni branco e de tênis.
– Você não tá melhor. — Ela diz ao notar meu olhar.
Estou de bermuda e tênis e agora está ruim andar. O tênis molhado escorrega na rocha lisa de musgo.
– Acho que nos afastamos demais. — Ela está olhando em volta – Não vejo a casa.
– Vamos subir mais. — Eu digo a ela e começamos a escalar o rochedo.
– Tem algas aqui em cima. — Ela me diz quando a ergo para subir mais.
– A maré deve subir bastante por aqui.
– E uma caverna.
Ela me ajuda a subir até onde está. A caverna é grande e escura. Assustadora.
– Acho melhor continuar a subir.
Mas ela não me escuta, ela já está engatinhando para dentro da caverna. Lentamente, como um animal assustado mas curioso demais para deixar passar.
– Que merda, Nora!
Me levanto e vou pra junto dela. Pego em seu braço.
– Pelo menos fica em pé, como uma pessoa normal.
Ela pisca confusa e levanta. Segura minha mão.
– Trouxe lanterna? — Pergunto e ela confirma. Paramos na entrada da caverna e tiro a mochila. Há mais que lanterna lá dentro. Tem uma faca e uma arma. A arma foi uma das “ajudas” que dei a Nora. Uma segurança extra contra Andrew.
A caverna está alagada. Percebemos isso tarde demais, quando caímos e a água fica em nossas cinturas. Deixo a lanterna cair no processo.
– Vamos sair daqui antes que fiquemos presos. — Eu insisto.
– Não... — Ela olha pra frente – Tem alguém aqui... você não está escutando?
A pouca luz vinda de fora me deixa ver seus olhos vidrados.
– Ela está cantando. – Ela diz.
– Puta merda, Nora. Não tem nada aqui. Não tem ninguém cantando nada. Vamos dar o fora.
Tento puxá-la, mas ela me empurra. E nossa, foi um santo empurrão. Nunca imaginei que essa garota fosse tão forte assim. Fico até sem ar. Quando levando minha cabeça não a vejo em parte alguma. Tento achar a maldita lanterna, a sinto no chão, perto do meu pé. Me abaixo e pego.
– Nora! — Eu chamo. Acendo a lanterna e miro a frente.
Lá está ela sentada numa pedra, me olhando triste.
Eu a alcanço.
– Você está bem?
Ela chora.
– A musica é tão triste...
– Por deus Nora, do que está falando? Não tem musica aqui. Vamos sair. Agora.
– Mas não podemos deixá-la sozinha...
– Ela quem? Não tem ninguém aqui. — A coisa ta ficando pior a cada minuto. A caverna está gelada, parece cair uns dez graus em questão de segundos. — Vem Nora... por favor.
Ela finalmente concorda e saí da pedra, segura minha mão com força. A água é escura, não dá pra ver muita coisa a baixo a menos que se mire a lanterna a baixo da água. Dá pra perceber que há pedregulhos, talvez galhos. A cada passo algo parece quebrar em baixo dos meus pé.
Decido ir próximo a parede para ter onde segurar. Sinto algo grande se partir abaixo dos meus pés.
– Ahhh – Nora leva a mão a cabeça.
– Nora? — Ela tenta se afastar de mim, mas a puxo de volta. — O que foi?
Dou mais um passo e algo ainda maior cede com meu peso. Ela grita mais alto. Não, não só ela. Várias vozes, mas elas vem lá de fora.
Ela se encolhe num canto da caverna, ficando longe do meu alcance. Miro a lanterna no chão. Consigo ver o meu pé. E algo mais. Me abaixo para pegar. São ossos. O cranio eu parti quando pisei. Caixa torácica também. Reconheço a bacia mais a frente.
Os ossos estão incrustados no chão. Apenas posso ver uma parte dele, parte que está intacta.
Depois da bacia não há mais nada. Mais nada que eu conheça. A não ser... não é uma parte normal do corpo humano. Isso eu tenho certeza.
Eu abro a mochila e começo a recolher os pedaços soltos. Bacia quebrada, costelas...
– Para...- A voz de Nora diz de trás de mim. — Deixe-a...
– Como sabe que é ela?
Pego a faca e tento retirar a parte estranha. Consigo retirar um pedaço grande e o coloco na mochila.
– Isso é incrível, Nora.
Olho para trás. Ela continua encolhida. Ilumino seu rosto com a lanterna. Manchas escuras marcam seu rosto.
– O que é isso?
– Coloca de volta... por favor...
Ela está estranha desde que entramos nesse lugar. É como se fosse outra pessoa, como se estivesse possuída.
Me afasto de onde achei a pilha de ossos e a pego pela mão. A puxo para fora. Ela não tenta fugir, apenas me acompanha. Está chorando. Quando chego perto da saída, deixo a lanterna em cima do lugar de onde caímos e subo. Depois estico a mão para Nora. Ela olha pra trás e dá um passo para longe mim, então me olha e por fim me dá a mão. Eu a puxo para cima, a sentando na pedra.
Guardo a lanterna e a seguro pela cintura, a levando para fora. Ela está completamente fora de si. Desnorteada.
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