Notas iniciais
Olá leitores, como vão? Antes de ler, preciso uma explicar uma coisinha: Neste história nossos queridos Karas jogam RPG, a sigla significa role-playing em inglês. É um jogo muito popular onde os participantes interpretam personagens em um mundo fictício, enquanto um dos jogadores (chamado mestre) comanda a história em um sistema de regras e fichas dos personagens. O jogo é mais complexo do que é apresentado na fanfic, pois precisei omitir detalhes e adaptar para caber na história. Talvez não tenha ficado como um jogo de RPG de verdade, mas... XD O conto é pós Anjo da Morte e pré A Droga do Amor. Boa leitura! Música: Bizzare Love Triangle - New Order


Era uma noite de clima ameno no campus do MIT. Muitos estudantes ainda estavam acordados e fora do dormitório. Crânio no entanto, não quis sair, mesmo com a insistência dos seus colegas de quarto, preferindo aproveitar o silêncio nos corredores e a solidão para avançar na tese de mestrado, que estava bem adiantada comparada com as dos outros estudantes.

Pilhas e mais pilhas de livros abarrotavam a mesa onde o jovem estava sentado com a cabeça enfiada em um livro grosso que não largava de jeito nenhum. No caderno ao lado, anotava trechos importantes e a cada cinco segundos, bebericava da xícara de café. Os estudos de física espacial ocupavam a maior parte do seu tempo nos últimos anos e a tese de mestrado que vinha trabalhando, de acordo com os professores, poderia ser um marco para a comunidade científica, se um dia conseguirem provar.

Crânio trabalhava em cima da teoria da relatividade geral de Einstein para abrir caminho — quando a tecnologia fosse possível — sobre as ondas gravitacionais previstas pelo cientista e comprovar sua existência. Para isso, conseguiu uma vaga para trabalhar no laboratório da universidade, com outros pesquisadores renomados, em um projeto que poderia mudar a história da humanidade sobre o universo em anos futuros.

Porém, isso também o perturbava. Não tinha ideia de quanto tempo trabalharia na pesquisa e tinha a sensação que o seu professor orientador queria que ele ficasse no país, mesmo após a entrega do trabalho. Crânio não estava preparado para tal oferta, pois já tinha planos para voltar para o Brasil e para sua universidade de origem, e continuar os trabalhos que iniciou por lá. Sem mencionar que sentia muita falta de sua família, dos amigos e claro, da sua querida Magrí.

Fitou a fotografia da moça alojada em um porta-retratos que estava em cima da escrivaninha, junto com as fotos da família. O sorriso afetuoso de Magrí enchia ainda mais o coração do rapaz de saudade.

Crânio estava em um dilema. Voltar para o Brasil quando terminar o mestrado ou continuar no EUA para seguir carreira? Não teve coragem de contar a namorada sobre a escolha que deveria fazer, pois temia o que ela diria. Era fato que Magrí não ia querer que ele desistisse da oportunidade, mas isso significaria uma separação definitiva dos dois... Tal pensamento era insuportável para Crânio.

Desistir de Magrí! Só se estivesse maluco! O rapaz não passou por tantos problemas, dilemas internos e até mesmo a superação da sua própria teimosia quanto aos seus sentimentos, para desistir dela daquela forma. Não, tinha que haver uma saída.

"Ah Magrí, meu amor... O que eu faço? Queria tanto que você estivesse aqui..."

Pensar naquilo fez Crânio se recordar de Calú que estava longe de Peggy mesmo estando também no EUA e Miguel que "fugiu" para Inglaterra para não ver mais ele e nem Magrí. Suspirou. As coisas, entre eles dois principalmente, começaram a ficar difíceis muito antes da briga no forro do vestiário...

***


— Eu não entendo porque nunca chega a minha vez de ser o mestre do jogo.

Crânio reclamou pela enésima vez com indignação para o divertimento de Miguel, Calú e Chumbinho, enquanto o primeiro arrumava a mesa de RPG.

— Porque a gente não gosta de você jogando, Crânio — brincou Calú — Você ia ganhar muito fácil.

Miguel, Calú e Chumbinho caíram na gargalhada, enquanto o gênio dos Karas olhava para os amigos mais indignado.

— Ha ha, morri de rir, Calú — ironizou ele — Mas até o pirralho do Chumbinho já foi o mestre e você dois não deixam eu ser!

— Ei! Pirralho não!

Crânio o ignorou e teria continuado a argumentar sobre como os amigos eram injustos, até Miguel distribuir as fichas dos personagens. O gênio dos Karas viu que não haveria o que fazer e se calou, amuado.

— Oba! Vou ser um guerreiro pela primeira vez! — Calú animou-se — Eu serei o guerreiro mais forte, bonito e charmoso que já pisou nesse reino...

Os Karas reviraram os olhos. Chumbinho seria o pequeno ladrão e Crânio seria de novo o mágico e Miguel o mestre, que conduziria os acontecimentos e regras do jogo.

Sem Magrí ficariam defasados, já que a menina iria partir para o EUA naquele mesmo dia para o Mundial de Ginástica Olímpica. A garota, de fato, ficou triste de perder a noite de jogos, pois era muito competitiva com os meninos e dava-lhe gosto quando ganhava deles.

— Muito bem, Karas — começou Miguel forma solene — Estamos em um reino muito distante onde um feiticeiro maligno sequestrou a filha do rei. Vocês são os melhores heróis do local; já passaram por muitas aventuras juntos e confiam plenamente um no outro. O rei convocou vocês para a nobre missão de salvar a princesa do cruel feiticeiro. Vocês têm apenas dois dias para fazê-lo, pois do contrário, o feiticeiro avisou que irá matar a princesa! Vocês precisam seguir para uma perigosa estrada durante a madrugada. Sorrateiramente, vocês vão até escutar um barulho.

— Posso tentar descobrir o que é? — Calú indagou.

— Role o dado, Calú.

O ator dos Karas rolou o dado na mesa. A peça parou com um valor bom.

— Calú passa a frente e entra mais na floresta ao lado para ver de onde vem o barulho. Você desconfia que o barulho veio do leste.

Chumbinho perguntou:

— Será que não é um animal nos enganando?

— Não, não me pareceu um animal — disse Crânio com um sorriso arteiro — Já que não vi o Calú fazendo nenhum barulho...

— Ah vai tomar no teu...

— Ok, ok — aplacou Miguel — O barulho está se aproximando cada vez mais do pedaço de estrada onde vocês três estão. A chuva que começou a cair não está ajudando a visão de vocês.

— Posso fazer uma mágica para tentar melhorar nossa visão — sugeriu Crânio.

— Então, role um dos dados.

O garoto escolheu um dos dados e o jogou na mesa, este que rolou e parou em um número razoável. Os meninos, no entanto, não ficaram tão satisfeitos, porque isso significava que a magia feito pelo personagem de Crânio não ia durar muito.

Miguel continuou a narrar. O barulho ficou mais alto e os garotos viram que se tratavam de vultos. Mas não eram vultos qualquer, eram soldados em capas negras e cavalos de olhos vermelhos. Viam em mais ou menos cinco e na direção dos três aventureiros. Chumbinho foi o primeiro a jogar um dado.

— Eba! Eu dou um mega pulo, ataco com a minha espada o primeiro que aparece na estrada e o acerto bem no olho!

— Muito bem, Chumbinho. Você derruba o cavaleiro do cavalo, mas fica com um ferimento na perna. O cavalo continua vindo na sua direção.

— Eu monto em cima do bicho e puxo as correias. Dou uma espadada no coro.

— O cavalo relincha e dá uma guinada para trás, derrubando você — narrou Miguel — Ele sai desgovernado pelo escuro. Calú, sua vez.

— Certo — ele rolou o dado, mas o ator dos Karas não teve sorte — Ah não acredito...!

— Sinto muito, Calú. Mas na sua tentativa de derrubar um dos cavaleiros, você levou um coice e caiu desmaiado.

Crânio ficou bravo.

— Na hora que precisamos mais ainda da sua força, você deixa a gente na mão!

— Ei, a culpa não foi minha, oras!

— Crânio, role um dado.

O gênio dos Karas tirou a sorte grande. Calú, Chumbinho e Miguel ficaram surpresos com o número altíssimo que o garoto tirou, mas somente Chumbinho realmente vibrou com o resultado. O rapazinho sorriu em triunfo.

— Certo. Chumbinho, tape bem os ouvidos. Eu faço a minha magia do grito infernal e deixo os outros três cavaleiros surdos e confusos, incluindo os cavalos. Eles enlouquecem e saem correndo estrada adentro, esquecendo-se de nós.

— Boa, Crânio! — o menor dos Karas riu.

— Bem... Muito bem — começou Miguel — Mas você perdeu dois pontos de vida com essa magia, Crânio.

— O quê?! Isso não tem na minha ficha, Miguel!

— Mas quem comanda as regras do jogo sou eu.

— Sim, comanda as regras, não inventa as regras! Isso daí nem nas regras do sistema do jogo consta, porque eu sei decorei tudo...

Miguel ia retrucar com a cara cada vez mais fechada para o amigo, até Calú aplacar os ânimos.

— Epa, acalmem-se vocês dois. Acho que é até justo o que o Miguel fez, Crânio. E só você mesmo e a Magrí que são doidos em decorar as trocentas regras do sistema, meu Deus!

O rapazinho bufou indignado vendo que fora derrotado pela argumentação. Se Magrí estivesse jogando naquele momento, ela também acharia contra as regras a sentença de Miguel e o faria voltar atrás — afinal ela também sabia quase todas as normas de cor — e ficaria do lado de Crânio na disputa. A menina realmente fazia muita falta também em acalmá-los quando as coisas saíam fora do controle.

Eles não eram de brigar enquanto jogavam, no entanto, eram muito competitivos e tinham vezes que chegavam a bater boca antes de Magrí ameaçar os três com um soco, aos risos de Chumbinho, que era bem mais calmo jogando RPG do que Miguel, Crânio e Calú.

A menção dela por Calú fez os três se olharam de forma esquisita, como observou Chumbinho. Por alguns segundos, a expressão de Miguel azedou mais ainda para Crânio, este que fingiu estar muito concentrado na sua ficha, enquanto que o ator dos Karas ficou inexpressivo como se tivesse percebido e se arrependido tardiamente sobre o que disse.

A verdade foi que Crânio perdeu um pouco a concentração ao se lembrar da garota e do pequeno passeio que fizeram tomando sorvete pelas alamedas ensolaradas do Parque do Ibirapuera, alguns dias. Não sabia o que pensar sobre os próprios sentimentos, muito menos os de Magrí e aquilo tudo somente aumentou ainda mais sua confusão.

***


Magrí sorria para o ninho de passarinhos cheio de filhotes encarapitado no topo de uma das árvores do parque. Crânio percebeu que a menina estava mais corada que o normal e não sabia dizer se era por causa do sol e do calor que fazia naquele dia, ou bem... Deixa para lá.

O garoto aproveitou que ela estava distraída para admirá-la sem ser pego em flagrante. Ela era mesmo muito bonita, porém não era uma beleza enjoativa, como de várias garotas do Colégio Elite que já cruzou nos corredores. Gostava da maciez e do brilho da pele da menina, o modo como vento levantava seu longo cabelo que libertou do coque, do jeito que ela andava — sempre elegante, mesmo de tênis — e a forma como ela sorria com a luz do sol refletida no seu rosto belo.

Sentiu um calor esquisito subir pelo corpo que deixou suas mãos suadas, principalmente pelos pensamentos malucos que o fizeram corar, quando percebeu outras coisas também... Dando-se conta que Calú tinha razão quando o provocou sobre a garota no forro do vestiário...

Talvez Crânio a achava mais bonita por conhecê-la muito bem, por saber que Magrí era gentil, carinhosa, prestativa com todo mundo (inclusive pessoas que não mereciam...) doce, inteligente, mas ao mesmo tempo era corajosa e por mais que sentisse medo em alguma situação, ela dificilmente se deixava abater.

Magrí não era perfeita, Crânio refletia. Ela era um pouco esquentadinha de vez em quando e sabia perder o controle quando estava sob pressão. Também era impulsiva e agia às vezes sem pensar nas consequências. Bem, ele também perdia a calma muitas vezes, porém agir por impulso não era do feitio do garoto, que gostava sempre de ponderar os prós e os contra de qualquer situação e sempre tentava ser cauteloso. Nisto, a garota era seu oposto.

Além disso, Magrí se deixava levar muito facilmente pelos outros — no sentido de que ela tinha uma tendência a acreditar e sempre ver somente o lado bom das pessoas — enquanto Crânio já era mais desconfiado e não acreditava com facilidade em qualquer um. Todos esses pensamentos passaram rapidamente por cérebro prodigioso.

Talvez, pensava, não era algo que um rapaz comum da sua idade ponderaria sobre uma garota, mas quem disse que ele um garoto comum? Sabia que se um dos seus colegas lessem seus pensamentos sobre Magrí, iriam rir dele e fazer piada...

— Eu estou um pouco apreensiva sobre o mundial — Magrí suspirou, enquanto passava a colher no seu sorvete de morango, andando novamente — Sei que todos estão contando comigo para vencer, mas terá tantas competidoras tão boas ou até melhores do que eu...

O garoto a fitou sem esconder o carinho.

— Você vai se sair bem e não precisa se comparar com as outras ginastas. E outra coisa — Eles pararam de andar e ficaram de frente um para o outro — Eu pensei nessas coisas quando cheguei na final do torneio de xadrez estadual no ano passado. Mas sabe o que eu fiz?

Magrí balançou a cabeça em negatividade com um leve sorriso. Crânio riu.

— Não pense mal de mim, mas eu disse para mim mesmo que eu era melhor ali, que ninguém iria me vencer e que todos os outros competidores eram uns m***. Resultado? Venci todas as partidas e levei o troféu para casa, para o orgulho da minha mãe.

Magrí gargalhou e revirou os olhos. Crânio não escondia o orgulho de si mesmo pelo modo que sorria. O olhar que dirigiu a ele, no entanto, queria dizer mais do que simplesmente um comentário irônico.

O garoto, porém, não percebeu nada e a menina disfarçou desferindo:

— Às veze eu dou razão para o Calú quando ele te chama de metido. Mas não nego que é uma excelente forma de lidar com a pressão.

Os dois riram e continuaram a andar devagar, sem nenhuma pressa de se despedirem e irem para casa. Ficaram em um silêncio amigável por alguns minutos, contudo estavam absortos nos próprios pensamentos.

Crânio estava em um dilema, perguntando-se se ele teria que fazer alguma coisa? "Tomar a iniciativa" algo do tipo que já ouviu outros garotos comentando?

Bem... Ele a convidou, ele pagou os sorvetes. Mas agora? Ela estava esperando alguma coisa dele? O rapazinho sentia-se burro por não saber o que fazer — ou o que não fazer — naquele... Err encontro (!) até porque não era dado a convidar garotas para sair com ele e não tinha muitas experiências na coisa.

Qualquer outro rapazinho saberia o que fazer, mas Crânio não e isso o deixou desorientado. Sabia tanta coisa sobre aritmética, física, códigos, até mesmo entendia sobre assuntos mais fora da sua área como literatura, ciências políticas e línguas.

Contudo, não sabia como lidar com uma garota em um encontro (!). Isso os livros não ensinam — deveria, pensou ele amuado. Era hora de entrar em um território desconhecido, sem nenhum conhecimento prévio.

Magrí esperava que ele fizesse alguma coisa antes de se despedirem? Estavam deixando o parque... Humm nos filmes os casais quando estão em um encontro...

Ah era isso...

Crânio corou furiosamente, o que não passou despercebido para Magrí.

— Tá tudo bem?

— Tá sim.

— Humm — a menina aproximou-se mais dele — Não me parece. Você me parece nervoso.

Com a aproximação dela, o garoto ficou realmente mais nervoso. Por alguns segundos, quase de fato teve coragem de abaixar um pouco mais o rosto e beijá—la na boca, porém vacilou. Para disfarçar, ele pegou a colher que estava usando para tomar sorvete e enfiou na taça de Magrí.

— Eu estava pensando — riu — Que o seu sorvete vai derreter e você não terminou ainda.

A garota fez um som de ultraje, porém não se aguentou de rir quando Crânio fez uma careta de nojo quando sentiu o gosto do sorvete.

Urgh, morango! Eca!

— Bem feito! E sorvete de morango é gostoso, bem melhor do que baunilha.

Crânio deu de ombros ainda rindo, andando no ritmo lento de Magrí. A menina estava concentrada no sorte e compartilhava do riso, contudo o garoto notou que havia um quê de desapontamento no jeito que ela franziu os lábios e evitava olhar para ele. O rapazinho queria se chutar.

Quando já estavam no portão da casa dela, Crânio parou na frente de Magrí, jogou a taça de sorvete no lixo (era de plástico mesmo) e num gesto corajoso, tomou a mão direita dela entre as suas...

— Certo, pessoal. Vamos continuar — a voz de Miguel despertou Crânio de seus devaneios — Vocês dormiram na floresta sob a luz de uma fogueira e agora estavam prontos para continuar a viagem. Lembrem-se que o prazo está curto e vocês precisam chegar no esconderijo do feiticeiro neste mesmo dia. Porém vocês estão perdidos, pois chegaram em um encruzilhada e precisam se decidir para que lado seguir.

Calú indagou:

— Posso rolar um dado para testar a meu senso de direção?

— Pode.

O rapazinho rolou um dos dados e finalmente, tirou a sorte. Sorriu em vitória.

— Eu sei para que lado seguir, pessoal — disse ele aos companheiros imitando de verdade seu personagem — Porque eu conheço muito bem essa estrada e devemos seguir pela direita.

— Humm... Tem certeza, Calú? — Crânio questionou — A estrada pela esquerda parece ser mais aberta e ter casas ao longe...

— Eu vou com o Calú — Chumbinho sorriu — Confio na percepção dele da estrada.

Miguel encerrou a questão.

— Então vocês três seguem Calú, mesmo com Crânio não gostando da ideia... Vocês estavam mesmo no caminho certo e a estrada que pegaram era a mais curta para o esconderijo do feiticeiro. Porém ao longe vocês perceberam enquanto caminhavam, que perto da estrada haviam três orcs nojentos. Eles tinham coisas que poderiam ajudar vocês na missão. Chumbinho, role um dado.

O garoto jogou o dado e tirou um valor razoável. Miguel fitou o garoto seriamente.

— Chumbinho, você já roubou orcs em outras aventuras e você sabe que esse tipo de orc que anda à luz do dia tem costume de guardar tesouros em suas cavernas.

— Humm... Eu acho melhor a gente tentar entrar na caverna desses orcs, não? — o garoto encarou os dois companheiros de aventuras — Estamos com poucas armas.

Calú pensou.

— Pode ser uma boa ideia, Chumbinho. Mas é muito arriscado também. Se esses orcs no virem, não vamos ter chance nenhuma contra eles...

— O Chumbinho é pequeno e veloz. E também é o ladrão — Crânio sorriu — Acho que ele consegue entrar na caverna e pegar o que precisamos, enquanto nós dois fazemos guarda.

— Certo, eu vou lá!

Miguel fitou suas anotações e continuou:

— Chumbinho, você se esconde no meio dos arbustos e vai se aproximando devagar da entrada da caverna dos orcs. Tem dois do lado de fora. Calú e Crânio, vocês seguem ele de longe e se prostram próximos entre algumas árvores e de frente para os orcs.

— Eu passei pelos orcs bem abaixado disfarçado com os arbustos — disse Chumbinho — Entrei na caverna. Vi um orc que dormia.

— Você tenta fazer o mínimo de barulho e atravessa a caverna — disse Miguel — Role um dado agora.

O menor dos Karas rolou mais um dado e dessa vez, teve mais sorte.

— Eu achei o local dos tesouros! Mas tem muita coisa, não vou conseguir carregar tudo para fora discretamente...

Crânio iria dizer que para ele se concentrar no que era mais importante para missão, mas lembrou-se que estava longe do garoto na cena para aconselhá-lo. Miguel instruiu:

— Você vê espadas, escudos, arcos, flechas, um frasco engraçado... Do que você realmente precisa para derrotar o feiticeiro?

"O frasco, Chumbinho! Você precisa de magia", Crânio mordeu a língua de ansiedade.

— Enquanto o Chumbinho se decide, você Crânio subiu numa árvore vê um dos orcs se aproximando depressa do esconderijo.

— Vou atirar em um dos olhos com uma flecha, então.

— Role o dado.

O gênio dos Karas não se deu tão bem dessa vez.

— Ah não...

— Bem, você atirou — riu Miguel — Mas acertou o ombro ao invés do olho. Calú, sua vez.

Calú finalmente teve seu esperado momento de glória. Como o guerreiro alto, forte, musculoso e corajoso que era — o que ele enfatizava muito bem durante a brincadeira — Subiu também na árvore e se jogou nos ombros do orc, que passou a se debater para esmagá-lo. Com a espada, o garoto enfiou a lâmina nos dois olhos do monstro, que urrou de agonia.

— Chumbinho, o que você vai fazer agora? Você escutou a luta de dentro da caverna e seu tempo está se esgotando.

— Ok, ok — as mãos do garoto suavam — Eu vou levar uma espada, porque é sempre bom ter uma, umas flechas na aljava e um frasco bonito de um líquido roxo que encontrei. Pode ser útil.

— Boa, Chumbinho! — elogiou Crânio.

Os dois mais velhos se aproximaram, indo atrás de Chumbinho com o menino desviando-se do pisão do segundo orc que vinha na direção deles. No entanto não precisaram entrar na caverna, pois o garoto saiu correndo de lá e se juntou aos dois amigos, que caíram de novo na estrada, pondo a máxima distância entre eles e os orcs.

Por fim, após andarem bastante, chegaram na caverna do feiticeiro. Precisavam de outro plano para salvar a princesa.

— A princesa está adormecida por magia do feiticeiro — narrou Miguel — Ela era tão bonita, a mulher mais bonita do reino, que o bruxo ficou com pena de matá-la de uma vez...

O rapazinho ficou com o olhar um pouco vago por alguns segundos. Crânio levantou a sobrancelha. Perspicaz como era, ele sabia muito bem como quem Miguel estava imaginando a princesa. Fechou a cara. Disse para os companheiros:

— O frasco é uma poção do sono. Podemos usá-la no feiticeiro.

— Você dois distraem o feiticeiro — Calú se impôs — E eu salvo a princesa.

— Mas você vai sozinho?!

— Eu sou o guerreiro aqui, Crânio, ué? Vai ser moleza. Mas o bruxão precisa estar dormindo, se não...

Miguel continuou a comandar o jogo:

— Muito bem. Vocês não podem falhar, do contrário, o feiticeiro vai mesmo matar a princesa. Vocês estão em uma câmara onde haverá o jantar.

— Eu vou colocar o líquido no cálice do feiticeiro — disse Crânio — Chumbinho, fica de olho de guarda.

Rapidamente e sem a interferência de Miguel, o gênio dos Karas pingou duas gotas do líquido do frasco no cálice. Chumbinho estava de guarda, até que...

— Vocês ouviram passos — disse Miguel — O feiticeiro está vindo. Chumbinho, sua vez de rolar o dado.

O garoto cruzou os dedos enquanto a peça rolava na mesa. Respirou de alívio quando viu que ele e Crânio conseguiriam se esconder sem serem vistos pelo bruxo. Chegou a vez de Calú, mas o garoto não fazia ideia onde a princesa estava. O dado rolou de novo, mas o valor não foi bem aquilo que o menino esperava.

Enquanto isso, Crânio e Chumbinho esperavam impacientes o feiticeiro finalmente beber do seu cálice. As coisas estavam indo bem até ali, até Miguel estragar quase tudo:

— O feiticeiro ouviu um barulho vindo de um dos corredores. Sem perder tempo, ele se levantou e foi na direção de onde Calú está.

— Ah droga! Ele não tomou a poção! — Chumbinho quase mordeu o dedo indicador de nervoso.

Crânio estava revoltado, pois Miguel estava destruindo seu plano.

— Agora a anta do Calú vai ser pego e não vai ter ajuda!

— Ei, quem é anta aqui?! Porque você não colocou o morcegão para dormir logo?!

— Por que você tinha que ser barulhento, então? Tem músculo, mas não tem cérebro?!

Você tá me chamando de burro?!

Calú se levantou da mesa com os punhos cerrados. Crânio imitou o gesto, se Chumbinho não tivesse puxado ele pelo braço para sentar.

— O que há com vocês dois hoje?! — disse ele — É só um jogo, calma aí! Não precisa brigar!

O garoto olhou para Miguel pedindo ajuda, esperando que ele aplacasse a briga sendo o bom líder de sempre. Ele no entanto, apenas observava os dois amigos de forma impassível, como se estivesse em um dilema. Chumbinho o chamou de novo e o rapazinho despertou de seus devaneios.

— Calú e Crânio, calem-se e sentem-se! O jogo não acabou ainda.

Os três se fitaram com raiva, o que deixou o pobre Chumbinho mais ainda sem ação. O rosto de Crânio queimava. Era apenas um jogo de RPG idiota como sempre jogaram outras vezes, mas nunca brigaram daquela forma. Não estavam trabalhando em equipe para vencerem o jogo, mas sim competindo um com o outro para ver quem iria salvar a princesa. Os três sabiam muito bem disso.

As palavras de Miguel foram um balde de água fria em qualquer chance de Calú ou Crânio.

— O feiticeiro prendeu Calú com correntes, pegou a princesa e fugiu para outro lugar que vocês não fazem ideia de onde seja. E este é o fim do jogo.

— Quê?! Fim de jogo? — Chumbinho basicamente gritou do seu lado da mesa — A gente tem que ir atrás dele, é assim que funciona!

— Não quero mais jogar — Miguel suspirou guardando o tabuleiro — Estou cansado.

Os quatro ficaram em um silêncio penoso, ouvindo apenas o barulho dos outros habitantes da casa do líder dos Karas. Ele guardou as peças e as fichas dentro da caixa sem olhar para os amigos. Calú e Crânio não o encarava, mas Miguel sentia os olhos revoltosos de Chumbinho sobre ele. O ator dos Karas se levantou.

— Eu vou para casa, também estou cansado. Você vem também, Chumbinho?

O garoto baixou os ombros ainda sem tirar os olhos de Miguel. O líder dos Karas sentiu-se péssimo por desapontar o menino, mas não disse nada.

Crânio acenou para Chumbinho se despedindo dele, porém ignorou Calú. Este não pareceu preocupado e saiu, não sem antes dar meia volta e levar a caixa de salgadinhos com ele.

Crânio fingiu que não estava sendo observado pelo amigo do outro lado da mesa, mas não podia ignorá-lo por muito tempo. Parecia que não era somente a mesa que os separava, e sim muito mais e sabia que era a mesma situação com Calú.

— Você não deveria ter acabado o jogo daquele jeito. Ainda é cedo.

Miguel respondeu de forma seca.

— Perdeu graça. E eu quero ficar sozinho, se você não se importa...

Crânio suspirou, mas não discutiu, mesmo querendo dizer muitas coisas agora que estava mais calmo, como por exemplo, que eles estavam se comportando que nem idiotas. Além disso, os dois estavam cada vez mais distantes, eles que sempre foram como carne e unha. Mal faziam coisas juntos como no começo da amizade e nem se lembrava quando foi a última vez que conversaram como amigos, fora dos Karas. Aquilo entristecia Crânio e ele sabia que com o seu líder era o mesmo, por mais teimoso como uma mula que ele fosse.

Levantou-se, pegou o casaco na cadeira e saiu da casa de Miguel, sem se despedir.

***


A gaita soava de forma lenta e triste pelo jardim da casa de Crânio. A varanda era ainda um dos poucos pontos de luz da noite e ele gostava da solidão noturna para pensar. Refletir. Os eventos do jogo de RPG se reproduziam na sua memória de forma dolorosa e se Miguel ou Calú estivessem na sua frente, estava na dúvida se socaria a cara dos dois ou pediria desculpas.

Era fato que ambos eram os seus melhores amigos, irmãos de pais diferentes como costumavam brincar, principalmente Miguel pelos dois serem um pouco parecidos em alguns aspectos. Eles eram os irmãos que Crânio sempre quis ter, e estar zangado com eles o feria. Os dois garotos eram como membros da sua família.

Sabia é claro a razão por trás de tudo aquilo — assim como Miguel e Calú — mas o gênio dos Karas também sabia que os dois jamais admitiriam em voz alta, assim como ele próprio. Orgulho, talvez? Medo da reação que teriam? Não sabia dizer e aquilo dava voltas na sua cabeça como dados.

Ouviu passos se aproximando de onde ele estava e sentiu um vulto esbelto sentar-se ao lado dele. Uma mão delicada estendeu uma garrafa de vinho para ele.

— Anda irmãozinho, toma um pouco, vai sentir-se melhor.

O garoto riu fracamente para a menina ao seu lado.

— Se nosso pai ver que você pegou essa garrafa, Dani... E ainda somos de menor, sabe disso, né?

— Sei, mas você já tem quase quinze e eu vou completar ano que vem. E é só um golinho, ninguém morre por isso.

Crânio balançou a cabeça com um sorriso, ainda reprovando a atitude dela, porém deu um gole rápido da garrafa e estendeu de volta para irmã. Fitou-a com carinho, pensando como ela era diferente dele — mais descolada e rebelde, principalmente depois que pintou o cabelo de vermelho — enquanto ele era sempre mais "certinho".

— Por que você está tristonho, hein? E não minta para mim.

Ele revirou os olhos. Dani também era muito enxerida.

— Nada... — ela o olhou feio e o garoto suspirou — Ok. Miguel, Calú e eu discutimos. Só isso.

— Tem certeza que é só isso? Achei que fosse porque sua namoradinha viajou. Toda vez que você toca gaita triste desse jeito e faz essa carinha de cachorro chutado é por causa dela.

Dani riu, mas Crânio olhou zangado para irmã. Não tinha graça, pois estava mesmo chateado com tudo. A menina o abraçou pelos ombros.

— Desculpa, desculpa. Não quis deixá-lo mais zangado, só queria fazer você rir. Não gosto de vê-lo assim. Você nem me chamou de Pica-Pau no jantar!

O garoto sorriu sem responder e fez um carinho no pulso da menina. Às vezes ele se perguntava quem realmente fazia o papel de irmão mais velho, já que muitas vezes as coisas se invertiam. Ele sendo o mais velho é quem deveria consolá-la naquelas situações, mas estava feliz pela irmã se preocupar com ele.

Ela era uma das garotas mais importantes na sua vida, pois a outra.... Estava distante dele, em todos os sentidos e temia o preço que teria de pagar por admitir que a amava. Desesperadamente....

Notas finais
No próximo conto: Magrí está no EUA tentando ao máximo se concentrar para o Mundial de Ginástica Olímpica, mas seu coração está no Brasil e nos seus queridos Karas. Ela está confusa sobre seus sentimentos, mas uma nova amizade poderá ajudá-la com seu problema, assim como um inesperado e esquisito reencontro com um garoto que foi uma paixonite no passado... Bjos e até a próxima!