Canção Vintage (Crânio & Magrí - Os Karas)
22 Lado A de Apaixonados
Notas iniciais
Fitas cassetes velhas ocupavam o tapete limpo e novo do apartamento recém ocupado. Próximo das fitas haviam um pilha de LPs com diversos nomes de bandas e artistas famosos, mas que já estavam um pouco esquecidos.
Na sala, um rock animado como música de fundo servia de trilha sonora, enquanto Magrí tirava das caixas da mudança toda a sua coleção musical que acumulou desde os anos do Colégio Elite.
Cada foto que aparecia, seja nos antigos "bolachões" como tinha costume de chamar os LPs, seja nas velhas fitas cassetes, um pouco empoeiradas pelo tempo e desuso, eles arrancavam um sorriso sincero da jovem — sorriso este que ela não dava há muito tempo.
A última conversa que teve com o namorado a deixou desolada demais para qualquer coisa e precisava de distração, mesmo sabendo que muitas das suas lembranças eram preenchidas pelo ele, tinham a presença dele.
De fato, ela e Crânio fizeram parte da vida um do outro nos momentos mais cruciais dos anos de crescimento e amadurecimento. Acumularam muitas lembranças juntos, lembranças difíceis de esquecer.
Suspirou. Magrí retirou mais um LP da caixa e a foto que ilustrava a capa fez com que ela risse e sorrisse amorosamente pela memória que veio em sua mente.
***
— Ei Magrí, você vai demorar muito ainda com o rádio?
A garota virou-se ao escutar a voz do amigo Chumbinho. Estava na sala de música durante todo o intervalo tentando rebobinar uma velha fita cassete para regravar outras músicas.
— Já estou acabando, Chumbinho. A parte mais chata já foi.
O garoto espiou as fitas que a amiga sem entender.
— Você está montando uma mixtape?
— Uhum! — ela acenou animadamente com os grandes olhos brilhando —Estou montando duas, na verdade! Uma é para dar de presente e a outra é para tocar na nossa festinha de aniversário para você e para o Miguel.
Chumbinho pegou as fitas para espiar, mas Magrí deu um tapa na mão dele.
— Tira a mão daí, rapazinho! Você não vai ver nada!
— Credo, Magrí, Cyndi Lauper? — Chumbinho fez uma careta —Você não vai colocar essa mixtape na festa não, né?
Ela deu a língua para o Chumbinho que riu alto. Era bom vê-la de tão contente e de bom humor, coisa que o garoto não via há muito tempo, principalmente após o fiasco da Droga do Amor. Sabia, é claro, quem era o responsável por toda aquela alegria.
— Eu não sei se o Crânio vai gostar da Cyndi Lauper na mixtape dele não, viu? — provocou.
Magrí corou até a raíz dos cabelos. Ainda não estava acostumada com a ideia de Calú saber dos dois, quanto mais o menor dos Karas. Ela ainda estava um pouco embaraçada pela cena que Chumbinho presenciou dos dois. Mordeu o lábio.
— Ele vai sim, se eu explicar para ele o que a música significa para mim... Mas você também vai gravar uma mixtape, estou correta?
Foi a vez de Chumbinho corar e mexer os pés sem jeito.
— É para mim mesmo, não é para ninguém.
Magrí o encarou com a sua melhor expressão de "como você é mentiroso", o que fez o menor dos Karas se render com um suspiro.
— Ok, ok eu admito — Chumbinho revirou os olhos — É um presente para a Natália, a sua amiga ginasta.
— Eu sei que ela gosta muito do Michael Jackson..
Magrí piscou para o amigo antes de pegar suas coisas para voltar para a aula, o que deixou Chumbinho mais encorajado. Sorriu largamente.
***
Crânio franziu a testa ao ouvir uma música sendo tocada ao longe, enquanto subia as escadas que levavam ao sótão da casa da namorada — ainda tinha que se acostumar com o fato de Magrí ser sua namorada, coisa que ainda o deixava um pouco bobo, mesmo jamais admitindo isso em voz alta. A música ficava cada vez mais alta e não por menos, porque a porta do sótão estava entreaberta.
O garoto espiou e a cena que viu era a última coisa que estava esperando: Magrí, a campeã de ginástica olímpica do Colégio Elite, a representante do Brasil no Mundial e nas próximas Olimpíadas de Seoul, uma das alunas mais respeitadas e admiradas da escola estava cantando e dançando.
Até aí tudo bem, se não fosse o fato de que ela estava dançando com uma vassoura.
O garoto fez força para não rir alto e assustar Magrí. O mais engraçado era que a música era terrível para os ouvidos dele, mas pelo menos a garota era afinada:
— I'm your Venus, I'm your fire at your desire!
Houve um momento em que Magrí com a vassoura imitou os acordes da sua guitarra imaginária. Nessa hora, porém, Crânio não se aguentou e já estava chorando de rir.
O som da risada dele despertou a menina do seu show off, que pulou, derrubando a vassoura.
— Crânio! O que você está fazendo?!
Ela corou tentando disfarçar, mas nada do que fez amenizou a risada do garoto que não conseguia nem falar. Crânio entrou e se sentou no chão tentando se acalmar pela cena dos últimos minutos. Quando conseguiu respirar, brincou:
— Eu é quem pergunto, Magrí! Eu deveria ter gravado!
A garota deu uma leve vassourada nos ombros do rapazinho, que se desviou rindo mais um pouco. Magrí sentia-se terrivelmente humilhada, e passou a varrer como se quisesse recuperar um pouco da dignidade.
A música acabou e ela desligou o velho toca-discos. Com as mãos na cintura, encarou Crânio com raiva. Ele por sua vez, se levantou com um sorriso digno do Chumbinho e abraçou, a contragosto dela. A garota, porém, não resistiu por muito tempo e o abraçou de volta, ainda muito vermelha.
— Se eu comentar isso com alguém... — brincou Crânio rindo de novamente.
— Você nem ouse, principalmente com os Karas! — Magrí deu um tapa no ombro dele — Eu pensei que você viria mais tarde...
— Eu não estava conseguindo estudar direito em casa, então resolvi aparecer antes do que eu tinha avisado.
Crânio pegou o LP que estava próximo do toca-discos e fez uma careta, mas sem deixar de sorrir.
— Jesus, Magrí! Bananarama?
A mocinha fez uma expressão de petulância, e tomou o vinil da mão do namorado como se quisesse proteger o disco do olhar acusatório dele.
— O que você tem contra? Eu gosto delas!
— Bem — Crânio riu — Se você gosta de um grupo que tem banana no nome, quem eu sou para julgar.
O rapazinho limpou as lágrimas dos olhos e balançou a cabeça, para o maior desgosto de Magrí. Mas a menina não iria deixar barato e apontou para a camisa do namorado.
— Pelo menos elas não cantam fazendo caretas e gestos como o carinha dessa banda aí.
Crânio olhou para a camisa que vestia onde estava escrito Joy Division e era ilustrada com a capa de um disco.
— O Ian Curtis era legal... Eles são uma das poucas bandas rock que eu realmente gosto.
Magrí fez uma careta, enquanto tentava guardar seus LPs e fitas de volta na caixa de onde tinha tirado.
— Tão legal que se suicidou, né? Não sei como você consegue escutar essa banda! O seu gosto musical também é esquisito.
Crânio sem se deixar abalar pelo comentário, tentava tirar a caixa da mão de Magrí para espiar o que mais ela tinha para se envergonhar. A garota lutou, contudo estava claro que logo perderia pela insistência dele.
— Sai, Crânio! Você não vai ver nada!
— Deixa eu ver, juro que não vou rir muito!
Magrí colou a caixa contra o corpo, porém Crânio resolveu jogar sujo: tomou o rosto da menina entre as mãos e a beijou com vontade. Aproveitando que ela ficou distraída e surpresa pelo beijo, o gênio dos Karas tomou a caixa da mão dela com uma risada. Ele sentou-se no chão e espiou o conteúdo da caixa, enquanto Magrí se segurava para não espantá-lo com a vassoura, tal qual se faria com um cachorrinho.
Ela ainda estava entre a vergonha e a raiva pela ousadia do garoto, mas ao mesmo tempo queria beijá-lo de novo. Suspirou. Os sentimentos da menina eram sempre assim com Crânio.
O rapazinho, por sua vez, a olhava com curiosidade ao mesmo tempo que tirava os LPs e as fitas da caixa com um leve sorriso. Rapidamente ele se levantou e a puxou para si, indo os dois para o chão, e rindo como duas crianças. Crânio acomodou o corpinho de Magrí junto ao seu ao se sentarem, o mesmo abraço que levou os dois a se declararem um para o outro.
Após se beijarem, a menina encostou a cabeça no peito do rapazinho, ao passo que ele passou a mexer de novo no conteúdo da caixa.
— Eu deveria limpar o sótão. Foi o meu castigo por eu ter chegado em casa tarde no dia do sequestro da Peggy.
— Eu imaginei que fosse isso — Crânio acariciou os cabelos macios da garota e beijou a testa dela — Ah, Queen, claro. Por que não estou surpreso?
Magrí revirou os olhos.
— Você deveria dar mais chance para a banda. Eles são muito bons.
— Ah sei não minha querida... Esses artistas de hoje são bem ruins...
Crânio olhou para o vinil pensativo. Magrí o mirou sem acreditar no que havia escutado. Sabia bem que o namorado era exigente quando o assunto era música, mas não tinha imaginado até que ponto.
Ela pegou uma fita da caixa, se levantou e colocou para tocar no pequeno rádio. A menina encarou o namorado de sobrancelha erguida, enquanto uma guitarra ecoava e a voz do vocalista da banda acompanhava junto com os outros instrumentos.
— Não vai me dizer que você não gosta desta banda? — Magrí desafiou.
Crânio sorriu de lado de forma um pouco arrogante.
— Eu gosto sim, é o Scorpions, não é? Reconheci nos primeiros segundos.
A garota fez bico e parou a fita. Pegou a caixa e retirou um LP sem deixar Crânio ver quem era o artista. Ela colocou o bolachão para tocar. Era a uma música alegre com uma bateria eletrônica que fez Magrí bater o pé e balançar a cabeça com um sorriso triunfante, porque o gênio dos Karas franzia a testa.
— Hummm alguém parece perdido...
Crânio se levantou e foi para mais perto de Magrí para espiar a capa do vinil, porém ela foi mais rápida e escondeu atrás das costas. Ele massageou o pescoço amuado.
— Tá bom, eu me rendo. Eu não faço a mínima ideia quem canta!
— É Take on Me do A-Ha, Crânio! Toca direto nas rádios, como você não conhece?
O rapazinho corou sentindo-se bem estúpido, mas Magrí riu ainda mais e deu um beijo na bochecha e nos lábios do menino.
— Já disse que eu não gosto dos artistas de hoje — ele resmungou.
Magrí desligou o aparelho de som sem deixar de sorrir.
— E o que você gosta, então, além do Joy Division?
— Pink Floyd, Black Sabbath, The Rolling Stones, Elvis, Ray Charles... — o garoto empolgou-se — São os melhores.
A garota o abraçou balançando a cabeça.
— Crânio, se você for numa festa, ninguém vai colocar The Rolling Stones para tocar, querido! É só banda de velho!
— Como assim? Eles são muito bons!
— Você sabe que eles existem há vinte anos, né? Nossos pais dançaram ao som do The Rolling Stones e Elvis.
Estava difícil para Crânio entender o raciocínio de Magrí e o seu desprezo pelos artistas do passado. Ele a mirou como se quisesse ler seus pensamentos.
Para o garoto, as bandas do passado sempre foram superiores em comparação com as que surgiram nos últimos anos, nunca teve a menor dúvida disso. Que comparação havia com tal A-ha com a genialidade do Pink Floyd, por exemplo?
— Sei não, Magrí — começou ele estreitando os braços em torno da garota — Acho que você é injusta com as bandas do passado. Por quê?
Ela franziu a nariz um pouco amuada e encarou novamente o namorado.
— Eu não sei explicar... Não acho as bandas que você citou ruins — ela mordeu o lábio — É só que elas me trazem uma sensação de passado que eu perdi, que não vai mais voltar. Entende?
O garoto acenou, porém ainda estava confuso pelas ideias de Magrí. Parecia que ela escondia algo dele que não gostaria de dizer em voz alta.
Antes que ele dissesse qualquer coisa, ela suspirou e disse:
— O The Rolling Stones, o Pink Floyd, o Black Sabbath, o Elvis, tudo o que você citou me recorda de quando eu era criança, os primeiros anos no Colégio Elite, as minhas primeiras amizades... Tudo. E percebo que tudo está se perdendo conforme o tempo passa.
Crânio arregalou os olhos.
— Magrí... Você não perdeu nada. Você ainda tem os seus amigos.
Ela mordeu a bochecha, enquanto fazia carinho no peito do garoto de cabeça baixa.
— Tenho todos mesmo? Ou quanto mais nós crescemos, as coisas vão ficando cada vez mais difíceis?
O gênio dos Karas finalmente entendeu qual era o curso de pensamento da namorada. Suspirou baixo e acompanhou o olhar dela ao chão. Murmurou:
— Você está perdendo o sono por isso, não é?
Ela acenou em concordância e sussurrou:
— Eu só queria que tudo continuasse como está...
Crânio a abraçou com ternura sentindo o coração pesado. Ficaram alguns minutos em silêncio ouvindo apenas o barulho da madeira do forro e do vento invernal do lado de fora, que fazia com que a janela batesse em um ritmo lento.
Magrí levantou a cabeça do peito de Crânio com os olhos um pouco marejados e sorriu fracamente:
— Eu só trago drama para sua vida né? Desculpe, às vezes sou muito emotiva.
— Não seja boba, eu amo de você desse jeito — ele riu e deu um selinho na garota — Mas já que o passado é incômodo para você, por que nós dois não criamos boas lembranças do presente?
A menina balançou a cabeça muito mais animada.
— Sim! Podemos começar com você me ajudando a limpar o sótão!
A expressão de Crânio não era a da pessoa mais feliz do mundo. Sorriu amarelo.
— Err eu não sei se limpar o sótão é considerado boa lembrança...
Contudo Magrí não deu atenção e puxou o namorado para um canto cheio de caixas de madeira com quinquilharias para serem limpadas como se fossem para um parque de diversões. Ela pegou a caixa onde continha mais LPs para tirar a poeira, enquanto Crânio espiava nas outras caixas.
Magrí abriu uma delas e uma expressão de sofrimento atingiu o rosto da garota, o que não passou despercebido para o gênio dos Karas. Ele se aproximou, preocupado:
— O que houve?
Ela mordeu o lábio e tentou disfarçar, mas não foi feliz na tentativa. Tirou da caixa os vinis, todos estampados com o nome da mesma banda, The Smiths. Crânio olhou para a pequena coleção com admiração.
— Não sabia que você gostava deles. Acho que só ouvi uma música do Lado A de um vinil deles na casa de um amigo — comentou.
— Gosto muito mesmo. Só que... Está incompleto.
O garoto a olhou com atenção. A tristeza não deixou o rosto de Magrí.
— Consegui todos os vinis, menos o do primeiro disco que saiu ano passado. Não achei nas lojas que procurei. Quando pergunto, ninguém não sabe nem quem eles são.
O garoto acariciou o rosto de Magrí querendo consolá-la.
— Talvez você não procurou direito — sorriu — Mas realmente, além de mim e de você, acho que quase ninguém conhece o The Smiths.
Ele pegou um vinil e colocou para tocar. Pegou um velho óculos fundo de garrafa com a armação quebrada que estava jogado, bagunçou os cabelos e começou uns passos de dança muito esquisito acompanhando a voz do vocalista do The Smiths.
— All men have secrets and here is mine, so let it be known, for we have been through hell and high tide I think I can rely on you...
Magrí ria segurando o barriga pela palhaçada que o namorado estava fazendo, imitando os trejeitos do vocalista no videoclipe que tinha visto. Ele sacudia os braços e fazia uns passos totalmente fora do ritmo, mas pelo menos cantava a letra certa de What Difference Does It Make, uma das favoritas da namorada.
— Ai meu Deus, Crânio!
O garoto se esforçava para não rir ele mesmo e estragar a performance. Estava feliz de pelo menos ter tirado a expressão triste do rosto da garota que tanto adorava.
Continuou fazendo as palhaçadas até o fim, arriscando até mesmo o olhar sedutor do Morrisey para Magrí, que riu mais ainda, mas também que sentiu o coração pulsar mais alto.
Ela mesmo entrou na brincadeira fazendo a sua versão das dancinhas esquisitas do Morrisey. Os dois deram as mãos, cantavam e dançavam no sótão.
— So, what difference does it make? What difference does it make? It makes none...
Os óculos caíram do rosto de Crânio, e ele quase tropeçou nos próprios pés quando arriscou num passo mais ousado. Magrí o segurou e riu mais ainda, com o rosto avermelhado e suado. Ela o abraçou com força e deu-lhe um beijo estalado na boca, o que pegou o garoto desprevenido.
A música terminou e os dois continuaram abraçados trocando beijos.
— Humm você é um péssimo dançarino, mas é um amor — Magrí murmurou.
— Eu digo o mesmo de você, meu amor — Crânio riu alto — Pelo menos eu sai em vantagem por vê-la dançar...
Ele não completou a frase e riu ainda mais, o que deixou Magrí confusa.
— O que você quis dizer?
Havia um sorriso travesso brincando no canto da boca do garoto, e ele estava mais vermelho.
— Deixa para lá, você vai me bater.
Magrí ia protestar e exigir que ele dissesse o que raios ele estava pensando e rindo daquele jeito travesso, porém Crânio a cortou sem perder tempo:
— O que você acha de depois nós procurarmos o vinil do The Smiths que você não tem ainda?
— É uma ótima ideia — sorriu — Só espero que tenhamos sorte.
Os dois deram um selinho e se separaram para começarem — o que já deveriam ter começado — a limpar o sótão.
Tomaram um susto com a voz da mãe de Magrí nas escadas:
— Menina, você já terminou de limpar esse sótão?! Se eu subir aí e encontrar ele sujo, você vai ver!
— Estou acabando, mãe!
Magrí, porém, olhou com desespero para o namorado, que por fim deu de ombros e resolveu salvá-la de mais um castigo.
***
Crânio olhava o mapa que tinha feito das lojas de música de São Paulo, marcando com um x aquelas que ele e Magrí haviam visitado na tentativa de encontrar o vinil do The Smiths que ela não tinha.
Os dois pararam numa lanchonete para matarem a fome, e já estavam de saída para reiniciar os esforços. Magrí não estava confiante.
— Sei não, amor. Acho que não vamos mesmo encontrar esse vinil...
— Você deveria estar mais confiante — ele apertou a bochecha da menina carinhosamente enquanto caminhavam — Vamos conseguir, você vai ver!
Magrí se enconstou no ombro do rapazinho ao segurar o braço dele. Ele estava muito determinado, o que trouxe uma sensação quentinha em seu peito.
Adentraram a loja e Crânio foi direto para a seção de vinis internacionais, enquanto a garota ficou um pouco distraída com uns fone de ouvido que tocavam os últimos lançamentos da semana.
Enquanto isso, o gênio dos Karas tentava não se distrair com os vinis do Pink Floyd que brilhavam nas prateleiras. Suspirou alto quando encontrou um vinil do Chuck Berry, um dos artistas preferidos da mãe do rapaz e dele mesmo. Magrí precisava conhecer o guitarrista americano. Pegou um dos vinis e levantou a cabeça procurando a garota.
A sua sorte é que não foi difícil encontrá-la, já que ela estava dando um verdadeiro showzinho dançando sozinha com os fones de ouvido. Os clientes da loja não seguravam o riso. Crânio, com um sorriso, bateu a mão na testa e correu para onde ela se encontrava.
Crânio sempre viu Magrí como a garota mais madura de todo o Colégio Elite, muito diferente das outras meninas da mesma idade dela, que às vezes tinham um jeito que era irritante para ele. O fato dela lutar com bandidos ao lado dele fez com o rapaz tivesse uma ideia um pouco idealizada de Magrí.
Entretanto, quando começaram a namorar, Magrí se mostrou como a garota mais normal possível. Um lado que talvez só ele conhecia. Era provável que nem os outros Karas tinham noção de como a primeira garota do grupo virava uma criança quando havia um rádio ou um toca-discos por perto.
— Olha amor, é o Prince — ela enfiou os fones nas orelhas de Crânio — Escuta, você vai gostar!
A música tinha uma batida contagiante, enquanto a voz do cantor ressoava cristalina com um teclado eletrônico e uma guitarra. De fato, a canção era muito boa e Crânio sem querer começou acompanhar com o pé os tempos da música.
Magrí sorriu triunfante. Acertou em cheio em ter colocado o Prince na mixtape que daria de presente para ele.
Foi muito difícil os dois se controlarem para não saírem dançando no meio da loja. Mas Crânio por fim tirou os fones.
— Você quer mesmo me converter para o seu gosto musical, né? — riu — Parece que está funcionando...
Ele deu um selinho na menina que não parava de sorrir. A expressão de Crânio, no entanto, se abateu um pouco.
— Não achei o seu vinil. Talvez se tentarmos em outra loja...
Os dois se abraçaram, ignorando as olhadelas curiosas dos clientes da loja. Magrí tirou da bolsinha que carregava a fita que tinha gravado — embrulhada com papel presente rosa e com um laço — e colocou nas mãos de Crânio.
— Então está na hora de você vir para o meu lado de vez!
***
Alguns dias depois na saída do Colégio Elite, Magrí se encontrava sozinha sentada num banco no jardim da escola arrumando sua mochila cheia de coisas da ginástica, quando sentiu que alguém tapava seus olhos. Ela pulou um pouco pelo susto, mas já sabia quem era, muito antes dele sussurrar no ouvido dela:
— Eu ouvi sua mixtape.
Ela deu um risinho e puxou as mãos de Crânio para si, no tempo em que ele se juntou a ela no banco, olhando para trás para ver se ninguém estava observando os dois. O fato de precisarem serem tão discretos ainda era um pouco incômodo para Crânio. No entanto, ele compreendia que era melhor eles continuarem não dando muito na vista.
— E aí, o que achou? — Magrí mal conseguia ficar quieta no lugar, os grandes olhos o fitando como verdadeiros luzeiros.
Crânio passou o braço em torno da menina trazendo-a mais para si.
— Você me surpreendeu. De verdade. Misturou bem músicas do passado com as atuais.
— Acho que eu me reconciliei com as velharias — ela sorriu mais.
— Não é velharia, Magrí. Chama de vintage, soa mais legal.
Ela acenou rindo mais. Crânio continuou:
— Gostei de você ter colocado You Can't Hurry Love do The Supremes, adora elas! E Johnny B. Goode do Chuck Berry! Como você sabia que eu gostava dele?
— Eu não sabia até o dia que fomos na loja de discos — ela beijou a bochecha do menino com ternura — Mas e as outras músicas? O que achou?
O gênio dos Karas riu e balançou a cabeça. Em seguida beijou a testa de Magrí.
— Não há nada neste mundo que faça eu gostar de Bananarama e Dolly Parton...
Ela jogou a cabeça para trás rindo como uma menininha.
— Bom, pelo menos teve aquela música do Prince que eu gostei. Aquela música do Queen que você colocou — continuou Crânio — É ok, é divertida de escutar. Qual era mesmo?
— Another One Bites to Dust. Até o fim do Ensino Médio você vai gostar do Queen que nem eu, tenho certeza disso.
Crânio balançou a cabeça em negação com muita veemência. Lembrou das outras músicas da mixtape. Ele sorriu travesso:
— What Difference Does It Make do The Smiths.... Foi uma homenagem para mim? Estou lisonjeado...
— Assim como Material Girl da Madonna — Magrí sorriu de forma sarcástica — Espero que ainda se lembre da letra.
Crânio revirou os olhos. Pelo jeito a namorada iria pegar no pé dele sobre essa história por muito tempo ainda. Ela fez a melhor carinha do gatinho Shrek.
— Faltou uma música...
— Ah sim... Cyndi Lauper — o garoto a abraçou mais — A música é bonita sim, nem me irritei com a voz dela como nas outras músicas.
— If you're lost you can look and you will find me — Magrí cantarolou para ele — Time after time, if you fall I will catch you, I'll be waiting, time after time...
Eles se olharam sem esconderem nada do que sentiam um pelo outro, com os olhos brilhando, os rostos corados e risonhos.
Como era bom estarem juntos! Aquela amizade que começou tímida, mas que se tornou tão forte a ponto dos dois se apaixonarem de verdade um pelo outro...
Não havia nenhuma dúvida daquele amor, por mais que dissessem que os dois eram jovens demais, apenas adolescentes para dizerem que se amavam. Porém se não era amor, era o quê? Depois de tudo o que passaram, de tudo que fizeram um pelo outro — literalmente quase morreram juntos — então era amor e ninguém poderia dizer ao contrário.
Beijaram-se apaixonadamente, e o abraço aqueceu os dois até mesmo do frio daquela manhã. Crânio a olhou nos olhos como se estivesse gravando o rosto de Magrí na sua memória prodigiosa — aquele rosto tão bonito, delicado, cheio de vida e que sorria para ele.
— Eu tenho uma surpresa para você, meu amor.
Antes que Magrí perguntasse o que era, o garoto tirou da mochila um embrulho em papel de presente e colocou no colo dela. A garota sem conter a ansiedade, abriu o pacote rapidamente aos olhos divertidos de Crânio.
Retirou do embrulho um vinil que tinha a capa de um garoto sentado de cabeça baixa e ao lado dele estava escrito The Smiths. Magrí fez toda a força do mundo para não dar pulinhos de alegria, mas se jogou nos braços de Crânio rindo e um pouco emocionada:
— Eu não acredito! Como você conseguiu o bolachão?! Ah eu te amo!
Crânio teria explicado a proeza, se Magrí não o tivesse calado com um daqueles beijos dela de tirar o fôlego. Quando ela o soltou, o garoto assobiou:
— Se você continuar me beijando desse jeito, eu vou ficar mais tonto e apaixonado. Por nada.
Ela continuou abraçada com o garoto que continuou:
— Eu disse que era só ser persistente na hora de procurar. Achei na última loja da lista que fizemos.
Magrí sorriu mais ainda e mirou Crânio com ternura. Ele não media esforços para vê-la feliz.
— Ficarei eternamente grata.
— Estava querendo te dar um presente também — o garoto beijou a bochecha de Magrí — Amo você.
Ela encostou a cabeça no ombro de Crânio.
— Obrigada novamente, meu querido. Espero que toda vez que você escute a mixtape, você se recorde de mim e do quanto eu amo você. Para sempre.
***
A noite já estava alta quando Crânio deu partida no carro, após sair da casa de um casal de amigos que o convidou para jantar naquela noite. Aceitou o convite de bom grado, pois era bom sair um pouco do campus da universidade, que já estava o sufocando.
Ligou o rádio e passou as estações um pouco impaciente, mas nada que tocava agradava-lhe os ouvidos.
"Só porcaria", pensou emburrado, quando interrompeu o que parecia ser um rap que tocava na estação de rádio. Resolveu abrir o porta-luvas para ver se tinha alguma fita perdida. Para sua surpresa, achou uma fita já velha pelo tempo. Encostou o carro no meio fio.
No adesivo da fita ele reconheceu a letra e o ano. Sorriu, sentindo a garganta fechar. Limpou os olhos rapidamente com o pulso e colocou a fita para tocar, e ligou o carro de novo. Conhecia a sequência musical de cabeça.
Enquanto fita tocava, pode sentir a presença de Magrí em cada nota, em cada letra entoada.
So, what difference does it make?
Oh, what difference does it make?
Oh, it makes none
But now you have gone
A música indagava e os pensamentos de Crânio rememorou toda a sua vida, toda a sua história, todas as lembranças de Magrí e os Karas.
"Canção velha... ", pensou e balançou a cabeça com outra lembrança "Velha não, somos nós que estamos nos tornando velhos. Vintage. Canção vintage...".
Dirigiu noite adentro, a expressão ganhando traços mais cálidos, que há muito tempo não dava um sorriso.
***
— Every breath you take, every smile you fake, I'll be watching you...
Dani cantarolava enquanto terminava de arrumar suas coisas para ir para casa, após um dia de trabalho na Embaixada. Miguel a observava quieto da mesa. Não era a primeira vez que ela cantava aquela música.
— Por que você gosta tanto dessa música?— perguntou a ela — Você canta ela todos os dias.
Dani sorriu de lado, guardando uma papelada no gaveteiro próximo a sua mesa.
— Não sei, Miguel. Eu sempre gostei dessa música, acho que gruda na cabeça.
— Mas ela é tão...— Miguel parou procurando as palavras — Anti romântica.
— Você acha? Humm... Creio que seja por isso que eu gosto tanto.
Miguel a fitou com curiosidade.
— Então você não é romântica?
Dani o encarou de volta dando de ombros.
— Nunca fui — riu — Acho que me decepcionei tanto com romance, que eu não quero mais perder tempo com isso.
Alguma coisa naquela frase atingiu Miguel em cheio. Havia um quê de ressentimento no modo como ela disse, mesmo de bom humor, que era impossível de ignorar. Por que aquilo o incomodava?
Não pode deixar de notar como voz de Danielle era linda quando cantava, mesmo de forma baixa. Até estranhava os dias que ela não cantarolava, ou não tomava chá preto com canela — a mistura mais esquisita de chá que ele já viu — ou quando ela não tirava os saltos e ficava andando pela sala para lá e para cá só de meia fina.
A convivência era tão grande assim ou Miguel estava observando a moça até demais? Era fato que tinham um bom relacionamento de amizade agora, mesmo com os altos e baixos nos anos do Colégio Elite, onde o rapaz praticamente ignorou a existência da garota...
— Por que você esconde essa foto desse jeito?
Miguel pulou na cadeira quando percebeu que Dani estava praticamente do lado dele segurando o porta retrato onde havia a foto da formatura do colegial — a foto dos Karas. Os lábios dele se crisparam.
— Eu não escondi, só guardei porque estava ocupando espaço demais na mesa.
Dani revirou os olhos ainda observando a foto que ela mesma tirou do grupo. Miguel era um péssimo mentiroso, tão ruim quanto o irmão. Ela depositou o porta retratos em pé como deveria estar e olhou com desafio para Miguel.
— Eu não me dei o trabalho de tirar a melhor foto de vocês, para o senhor esconder desse jeito.
Miguel detestava quando ela o chamava daquele jeito, pois o senhor sempre saía num tom pejorativo e ele se sentia velho. Quem olhasse a cena acharia que os dois estavam brigando de verdade pelas caras que faziam. Contudo, o canto da boca de ambos entregavam que estavam apenas se provocando. Como sempre.
— Ah então você vai me obrigar a deixar o porta retratos desse jeito? O que mais, senhorita, além de você ter feito eu comprar cortinas para essa sala, trocado o tapete e a máquina de café?
— Você não fez mais do que a sua obrigação, senhor — Dani deu de ombros — E sim, estou mandando você deixar o porta retratos desse jeito. Se não fosse para usar, porque trouxe na mala?
Miguel franziu a testa sem saber o que responder. Era verdade, porque trouxe aquela foto em especial na mala, de tantas que tinha com os Karas quando veio para Londres? Ficou pensativo e em silêncio, e ouviu somente a moça suspirar e voltar para sua mesa para pegar a bolsa. Tinha retocado a maquiagem e trocado a jaqueta por uma mais bonita.
— Vai sair com aquele cara de novo?
A garota sorriu fracamente.
— Você é pior do que a minha mãe às vezes. Sim, eu vou...
— Você não gosta dele — Miguel afirmou categoricamente — Porque se dá o trabalho?
Dani passou a alça da bolsa nos ombros e mordeu a bochecha, evitando fitar Miguel do outro lado da pequena sala.
— Ele não é tão ruim, eu só preciso me esforçar mais, só isso.
Miguel falou sem nenhum escrúpulo, como se estivesse explicando por que a cotação do dólar estava alta:
— Ele é horrível, só não é pior comparados com os outros caras de que você mencionou que conheceu.
Dani riu, mas havia tristeza em seus olhos. Arrumou mais os cabelos, acenou e saiu. Miguel ouviu os passos dela até o elevador, antes de suspirar e massagear as têmporas.
Ele deveria estar fazendo o mesmo, não? Era jovem, bonito, independente, deveria conhecer mais garotas... A última foi quando mesmo? Nem se lembrava da coitada mais. Talvez foi quando ainda estava no Brasil antes de receber a oferta de trabalho na Embaixada Brasileira. Mas tudo o que Miguel fez foi trabalhar e trabalhar desde o dia que pisou na Inglaterra.
O rapaz estava confuso demais, tinha receios de se arriscar... Ainda pensava em Magrí com frequência, porém a cada dia que passava, a lembrança da jovem se esvanecia como um sonho distante, um "e se" que acreditava que não mais aconteceria.
Começou a cantarolar a mesma música que Dani havia cantado, como se quisesse espantar os fantasmas do passado e as coisas que seu coração dizia...
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