Notas iniciais
Olá leitores! Chegamos enfim ao último conto do período da Droga do Amor. O mais dramático até agora, devo dizer hehe. Espero que gostem! Música: Total Eclipse of the Heart - Bonnie Tyler

Danielle não gostava de drama. De fato, de todos os gêneros literários e cinematográficos, drama era o seu menos favorito. A menina sempre preferiu fantasia, históricos, etc. Drama era uma palavra que não fazia parte do vocabulário da garota. No entanto, ela mesma sentiu-se obrigada a começar um drama — drama este que envolvia o seu próprio irmão mais velho.

"Se ele descobrir o que eu estou prestes a fazer, ele vai me matar", pensou garota olhando para o relógio de pulso. Estava no horário. O estacionamento do Colégio Elite estava vazio e o lugar onde estava encostada, num poste perto de uma vaga de carro vazia, era perfeito, pois com a presença dos outros carros à sua frente, dificilmente alguém veria a garota quando alguém passasse pelos portões de saída.

Sacou um chiclete do bolso da velha calça jeans com alguns rasgos — moda que sua mãe detestava — e passou a mascar fazendo bolhas. Bateu o pé direito seguindo o ritmo de uma música que só ecoava em sua cabeça, com o cabelo vermelho preso no alto da cabeça balançando para lá e para cá. Faltando cinco minutos para a saída dos alunos, alguém se aproximou de Dani.

Como se tivesse brotada do chão, a figura elegante de Magrí estava à frente da menina, fitando-a com curiosidade. O sangue subiu um pouco nas têmporas de Dani ao contemplar a garota.

Não eram amigas, não no sentindo literal do termo, pois nunca tiveram tempo de se conhecerem melhor nas poucas vezes que se viram. Dani não tinha, até então, uma opinião completamente formada sobre a menina dos Karas. Para ela, Magrí era só a ginasta campeã da escola, amiga de Miguel, Calú, Chumbinho e seu irmão — ou mais ou menos amiga, né? Naquele momento, porém, Dani só conseguia pensar em Magrí como uma menina idiota.

— Eu não tenho muito tempo, então eu vou direto ao assunto — disse a irmã de Crânio, ignorando o cumprimento de Magrí — Eu já estou de saco cheio dessa sua palhaçada com meu irmão, porque no fim das contas, só sobra para mim para tirar ele da fossa. Então, garota, vê se toca e deixa ele em paz.

Magrí abriu e fechou a boca como um peixe. A expressão que tinha era de alguém que tinha levado um soco. Passado o susto das palavras de Dani, a garota ficou entre a indignação e a confusão:

— Como você sabe o que há entre eu e ele? Sei que você se importa com seu irmão, mas ele não é mais uma criança e o nosso relacionamento diz respeito somente a nós dois...!

— Ai Deus, Crânio nunca te contou? — Dani revirou os olhos e mastigou mais o chiclete — Ele é sonâmbulo e fala dormindo. Já passei noites acordada com ele na sala ouvindo ele me contar até o que comeu. Ele me conta tudo, incluindo sobre você. Além disso, ele está muito para baixo e eu não sei mais o que fazer para anima-lo.

Magrí franziu a testa e com muito custo segurou o riso, mesmo em meio àquela situação tensa. Passou a se imaginar no lugar de Dani, velando o sonambulismo do namorado (?), numa casa bonita e aconchegante só dos dois... A garota balançou a cabeça despertando da visão. Era muito nova para pensar em tais coisas, mesmo às vezes não conseguindo evitar.

Encarou Dani de novo. A garota era um contraste gritante com o seu irmão mais velho, não somente na aparência — quem visse os dois juntos, nunca diriam que eram irmãos — mas também pela atitude. Dani era muito mais próxima de Chumbinho no ar rebelde e de não gostar de regras, do que de Crânio, que sempre tentava ser o mais correto possível, mesmo cometendo deslizes aqui e ali. Magrí, como a excelente observadora que era, diria que Dani era o oposto total do querido Miguel.

Pensar no amigo despertou uma suspeita na menina dos Karas, que até então ela achava sem fundamento. Ela compreendia Dani de Crânio melhor do qualquer um dos outros amigos que tiveram contato com a garota... Há um tempo atrás, Dani participou de uma noite de filme e pipoca junto com os Karas (já que ela desistiu de dormir na casa de uma amiga. Longa história) e desde aquele dia, Magrí vinha suspeitando se...

Respirou fundo. Se dissesse algo errado, aquilo poderia terminar muito mal entre as duas. Dani continuou:

— Eu não me meteria na situação se isso não estivesse afetando tanto ele. Mas está, o que me preocupa. Crânio finge que está tudo bem nestas últimas semanas, porém ele é um péssimo mentiroso. Por isso, quero te pedir uma coisa, se você realmente se importa com ele: deixa ele em paz, o esqueça de vez. Promete?

Magrí mordeu o lábio inferior para segurar a raiva que sentia crescer no peito. O que Dani estava pensando?!

— Olha... — começou ela respirando fundo de novo — Você não deveria se intrometer neste assunto, já que ele está mais complicado do que você imagina. É claro que eu me importo com o bem estar dele! Mas nós não estamos mais nos vendo, ele não te contou isso?

— Contou, mas de vez em quando você deixa bilhetinhos na mochila dele, né?

Magrí corou furiosamente. Essa história de Crânio falar dormindo não parecia mais tão divertida como pensou. Era verdade, às vezes ela deixava alguns bilhetinhos carinhosos para o garoto, quando a saudade apertava demais no peito. Pelo jeito, nem esse consolo ela teria.

A menina dos Karas, contudo, queria testar sua suspeita sobre Dani, além de desviar o foco sobre ela e Crânio. Encarou a garota profundamente. Não havia que negar que Dani era bonita, mesmo vestida como se fosse andar de skate, pensou.

— Há algo mais nessa história toda do que simplesmente preocupação com o Crânio, não é Dani? Você tem uma razão por estar zangada comigo que não tem nada a ver com ele...

Pela primeira vez, Dani pareceu desconcertada. Engoliu em seco e desviou o olhar de Magrí, como se vê-la causasse dor. Jogou o chiclete no lixo e pegou no cabelo preso como se quisesse se segurar. Quando falou, baixou o tom de voz:

— Eu não faço ideia do que você está falando.

Magrí aproximou-se mais da menina com um olhar triste. Então ela estava correta sobre sua suspeita... Aquela confirmação só deixava toda a situação pior do que ela poderia ter imaginado.

— Dani, olha para mim.

A garota com relutância encarou Magrí. Ficou claro para a irmã de Crânio que Magrí sabia do seu segredo, o que tornava tudo aquilo humilhante para ela.

— Nada do que aconteceu e está acontecendo tem um culpado. Eu não sou culpada, mesmo às vezes eu achando que piorei a situação — a voz de Magrí tremeu — Eu não posso impedir que Crânio me ame, nem mesmo o Mi...

— Não ouse falar o nome dele — interrompeu Dani com a voz seca e embargada — Eu te proíbo falar dele comigo.

— Dani...

— Não, Magrí. Eu me recuso a falar. E você está completamente errada no que está pensando. Eu te chamei para conversar apenas sobre meu irmão e nada mais. Você vai ou não deixá-lo em paz?

Magrí bateu o pé de frustração.

— Eu disse para ele que era melhor ficarmos longe, mas não posso prometer que irei esquecê-lo tão facilmente...

Dani fechou a cara sem responder. Evitava a todo custo olhar para Magrí, enquanto esta última a fitava com um olhar que Dani odiava. O sangue subiu para o rosto da menina:

— Não me encare desse jeito! Prefiro que você fique com raiva de mim, me odeie por estar fazendo isso, mas não quero sua pena!

— Então você admite? Admite que você está com mais raiva de mim por causa de outra pessoa do que por causa do seu irmão?

Dani trincou os dentes. Os olhos se encheram d'água, mas ela engoliu qualquer lágrima que desejasse derramar. Pegou a mochila que estava no chão, passou por Magrí e antes de deixar de vez o estacionamento e uma Magrí desconcertada para trás, disse:

— Deixei eu e o meu irmão em paz, Magrí. Você só nos causa problemas.

***

O barulho de garfos e facas arranhando nos pratos e as conversas baixas à gigante mesa de jantar, preenchiam o ar com uma atmosfera de família e amigos reunidos. De fato, os pais de Crânio estavam dando aquele soberbo jantar pela visita de um casal de amigos e sua filha que não viam há muito tempo, desde o dia que a família se mudou para Belo Horizonte. Os Musgroves foram vizinhos da família de Crânio por muitos anos e a filha, Maria Luísa ou Malu como era apelidada, era muito amiga de Dani.

O garoto em questão apenas observava comedido o jantar, sem participar muito das conversas, com exceção de algum comentário rápido aqui ou ali. Dani e Malu conversavam animadamente do outro lado da mesa, e Crânio teve a sensação de que as duas em um determinado momento do jantar, começaram a falar dele.

Entretanto a cabeça do gênio dos Karas estava preenchida pelos cem exercícios extras de Matemática muito difíceis que seu professor passou exclusivamente para ele, e um problema de Xadrez que estava tirando o sono do garoto há dias. Mais nada. Não havia nada melhor do que ter a mente ocupada com tantas coisas, o que era uma garantia em não pensar em alguém...

De vez em quando, a mente de Crânio o traía e vagava para a risada de Magrí, os cabelos de Magrí, os beijos de Magrí... Os bilhetes que ela deixou para ele estavam todos lidos e relidos, cuidadosamente guardados no fundo da gaveta do criado-mudo do quarto do rapazinho para ninguém ousar mexer neles.

Crânio, porém, se repreendia na maior parte do tempo e deixava para sentir a amargura da ausência da garota quando estivesse sozinho, sem ninguém o observando. Somente ele e a sua gaitinha triste eram testemunhas da saudade que sentia.

Era jovem demais para sentir-se daquele jeito, sempre pensava nessas ocasiões, mas como evitar? Magrí foi a única garota que lhe despertou para o amor, e esquecê-la não estava sendo uma tarefa das mais fáceis. Seria capaz de ficar com outra? Crânio achava que seria impossível, ninguém a substituiria e preferiria ficar sozinho até o fim da vida se não pudesse tê-la.

Com o jantar terminado, as conversas continuaram na sala. Mas o gênio dos Karas já estava pensando em uma desculpa para subir para o quarto, quando sentiu que Malu sentou-se ao seu lado no sofá com uma taça de sorvete de sobremesa. Aquele detalhe fez ele se lembrar de quando levou outra garota para tomar sorvete...

"Para com isso!"

— Não vejo você há anos há anos, garoto — disse Malu com um sorriso arteiro — E ainda assim você não veio falar comigo ainda.

Crânio sorriu amarelo para ela desejando definitivamente sair dali. Não estava com humor para conversar com ninguém, porém temia ser grosseiro com Malu.

Para ser franco, o rapazinho mal teria reconhecido a ex-vizinha se tivesse cruzado com ela na rua. Ele só se recordada da menina pequena que gostava de correr, que agora estava desabrochando numa linda mulher.

— Eu nunca fui de conversar muito, Malu — Crânio respondeu — Acho que você se esqueceu desse detalhe.

Malu arrumou os lindos cabelos cor de caramelo, que iam até os ombros, sem em nenhum momento o sorriso deixar seu rosto de traços bem definidos. Estava o mais de frente possível para Crânio que o sofá permitia. Ele não percebeu, tão distraído o rapazinho estava com os próprios pensamentos, mas o olhos da menina tinham aquele brilho característico que ele próprio tinha quando olhava para Magrí.

— Ah claro, continua caladão e taciturno? — ela riu — Bom saber que certas coisas não mudam. Mas você realmente cresceu...

A garota calou-se abruptamente, o que fez Crânio olhá-la de novo mais firmemente. É, ele poderia dizer o mesmo de Malu, mesmo não querendo admitir para si mesmo que a garota era bonita. Não tão bonita quanto Magrí, pensou... Mas havia algo na garota que estava começando a chamar sua atenção. Franziu a testa:

— Eu não sou taciturno, sou?

Malu riu tentando não se engasgar com o sorvete.

— Ah é sim, sempre foi! Vivia dando bronca na Dani, principalmente quando eu e ela subíamos naquelas árvores gigantes no fim da rua, lembra?

Crânio pela primeira vez sorriu pela lembrança.

— Lembro sim, mas no final das contas eu acabava subindo também e ajudava a roubar as maçãs da D. Rosalinda.

Os dois riram das confusões que se meteram no passado. Malu carinhosamente alisou o braço do gênio dos Karas, e disse com voz afetuosa:

— Não se esqueça que você sempre levava a culpa quando éramos pegos para livrar a minha pele e a de Dani. Desses seus gestos de cavalheirismo eu nunca me esqueci...

O garoto corou e apenas acenou, com um leve sorriso, sem dizer nada. Havia algo a mais no sorriso de Malu que ele não conseguia definir, e a mão dela estava dando pequenas cócegas no braço do rapazinho. Os olhos da menina brilhavam vívidos e ela aproximou-se mais.

— Espero que você esteja bem e... — ela estava quase sussurrando — Eu estava pensando se você não queria andar de bicicleta comigo no parque, como nos velhos tempos...?

Crânio precisou de muito auto controle para não arregalar os olhos pela oferta. Aquilo implicava o que ele achava que era? Malu praticamente entrelaçou agora a mão no braço do garoto discretamente. Ninguém percebeu o gesto, a não ser Dani do outro lado da sala. Quando o irmão a fitou pedindo ajuda, a garota apenas acenou encorajando-o. O que Dani estava pensando?

Deveria aceitar o convite? Num rompante, como sempre acontecia quando começava a divagar, as palavras de Magrí soaram na sua cabeça quando conversou com ela pela última vez na saída do Colégio Elite...

— Acho melhor ficarmos separados.

Crânio mordia o lábio tentando esconder seus sentimentos. Balançava a cabeça com um sorriso entre a ironia e a tristeza, como se não quisesse ouvir o que a garota falava.

— Crânio, me escuta — suplicava Magrí —Essa história não vai terminar bem para nós dois se continuarmos. Você vai me esquecer logo, vai conhecer outra garota que vai te amar como você merece...

A voz da garota falhou e ela lutava contra as lágrimas. Os lábios de Crânio tremiam.

—Como você pode dizer tal coisa, Magrí? Você acha mesmo que eu serei capaz de substituir você?

Magrí vacilou por alguns instantes tentando fugir do olhar acusador de Crânio, sem muito sucesso. O lado altruísta dizia para ela acreditar nas próprias palavras, mas seu lado egoísta queria abraçar o garoto à sua frente e não deixá-lo ir embora nunca mais. Aquilo estava sendo mais difícil do que imaginou. Sussurrou:

— Você deve me esquecer... Prometa que vai me esquecer.

Crânio se aproximou querendo tomar o rosto dela entre suas mãos, porém Magrí afastou-se a muito custo. A dor estampou o rosto do garoto.

— Prometa que vai ao menos se esforçar, Crânio. Por favor, por favor...

A garganta de Crânio estava travada pela vontade de chorar. Sentindo-se derrotado, apenas balançou a cabeça em afirmação, sabendo porém que nunca conseguiria cumprir aquela promessa a Magrí.

— Crânio, querido, está tudo bem? Terra chamando...

A voz suave de Malu despertou o garoto dos seus devaneios. Piscou tentando despistar a tristeza que se apossava do seu coração. Fitou Malu que ainda esperava a resposta ao seu convite. Forçou um sorriso que não chegava aos seus olhos.

— Eu adoraria sair com você, Malu.

***

Mais tarde naquela mesma noite, após os convidados terem indo embora, Crânio ainda estava acordado no quarto, quando a irmã entrou sem bater para o seu desgosto.

— Hey! Quantas vezes eu te falei para você não fazer isso?

Dani deu de ombros.

— Tem medo de quê? De eu ver você nu? — a garota gargalhou — Eu infelizmente já vi várias vezes, muito obrigada. E o problema não é garotas, porque é mais fácil eu ganhar o prêmio de Miss Brasil do que você trazer uma garota para o seu quarto, então não seja besta.

Crânio bufou indignado, sentando-se na cama e largando o livro no criado-mudo.

— Se eu faço isso com você, você falta querer me matar...

Dani, ainda rindo, sentou-se na beirada da cama.

— Eu tenho licença para isso, sendo uma menina.

Antes do irmão replicar, a menina continuou:

— Mas não é do nosso relacionamento que eu quero falar, irmãozinho. Então você finalmente vai sair com uma garota? Estou feliz por você.

Crânio fechou ainda mais a cara. Se pudesse, trancaria a petulante da irmã no armário até amanhã de manhã só de raiva. Por que irmãs mais novas eram tão intrometidas?

— Eu já sai com uma garota, oh sua enxerida...

— Puff, aquilo nem foi um encontro direito com a Magrí, garoto. Eu arranquei da Malu que ela finalmente criou coragem e te chamou para sair com ela, coisa que eu encorajei já que você é muito lerdo.

— Como você sabe que eu sai com a Magrí?

Dani revirou os olhos e suspirou. Fitaram-se e em segundos, Crânio entendeu e gemeu de frustração:

— Você ouviu eu falando dormindo de novo?

— Desculpa, mas a história estava tão interessante — Dani riu mais — Que eu não pude evitar. Que drama hein, irmãozinho? Mas agora já acabou e você vai seguir em frente, correto?

O gênio dos Karas massageou as têmporas e já visualizava todas as formas de jogar a irmã pela janela do quarto. A garota em questão aproximou-se e fez algo que o surpreendeu — segunda surpresa daquela noite: o abraçou.

O rapazinho demorou para retribuir o abraço, mas no fim, passou os braços na cintura da irmã abraçando-a de volta. Antes dele dizer qualquer coisa, a menina falou sem o tom de voz jocoso de outrora:

— Eu sei que você está sofrendo por ela e eu te entendo. Porém eu quero te ver feliz de novo... —suspirou — A Malu é ótima, e não digo isso porque ela minha amiga, mas também porque ela gosta muito de você... Dê uma chance, sério. Não vai custar nada.

Crânio soltou e encarou a irmã com carinho. Por mais que fizesse pose de durona, sabia que ela tinha um coração tão mole quanto o dele. Não perderia nada tentando, não é? Mesmo contra a própria vontade...

— Ok, eu vou me esforçar.

— Esse é o meu cabeça de ferro!

Crânio se levantou num pulo, agarrou Dani pela cintura e colocou a garota no ombro como se fosse um saco de cimento, ao som dos protestos dela. O garoto ria.

— Ei me solta!

— Agora eu vou te trancar no teu quarto e jogar a chave na piscina!

***

Magrí tentava ao máximo conter o sono e o cansaço, enquanto se debruçava no grosso livro de Biologia, mais uma vez na biblioteca. O local estava um pouco mais cheio, resultado da semana de provas que se aproximava, junto com os nervos à flor da pele dos alunos.

Escolheu de novo o canto mais afastado para estudar, porém os treinos da ginástica de mais cedo sempre a deixavam exausta e sonolenta. Bebericou da garrafa de café e com afinco, piscando os olhos, tentava se concentrar no texto e tomar notas.

A garota de vez em quando, para espantar o sono, olhava em volta da biblioteca, enquanto seus pensamentos sempre se direcionavam em encontrar uma pessoa.... A mesa que ele costumava usar estava ocupada por um outro aluno, para sua decepção. Ele não aparecia no local há semanas, coisa que a bibliotecária comentou com ela com espanto, já que o rapazinho era um dos frequentadores mais assíduos.

Magrí sabia, é claro, que Crânio estava evitando ficar na presença dela. Aquele pensamento sempre vinha acompanhado de uma dor no peito. Teria ela agido correto? Será que o sacrifício valeria realmente a pena? A conversa com Dani deu mais coisas para a menina dos Karas refletir e perder o sono.

Não estava zangada com a garota, até porque em partes ela tinha razão. Não era justo que "brincasse", mesmo sem querer, com os sentimentos de Crânio, porém Magri sabia muito bem que havia outra pessoa na mente de Dani quando ela veio conversar com ela...

— Posso sentar aqui, Magrí?

A menina deu um pulo na cadeira quando viu que uma figura estava parada olhando diretamente para ela. Ela esperava que fosse qualquer pessoa, menos Miguel. O garoto nos últimos meses tinha um ar carregado em seu rosto, incluindo na última reunião dos Karas após os eventos da droga do amor — pensar no assunto também era motivo de sofrimento para a garota.

Naquela ocasião, porém, Miguel aparentava estar mais sereno, mesmo com um pouco da melancolia que ele parecia carregar e tentava esconder a todo custo.

Com um sorriso doce, Magrí puxou a cadeira.

— Claro, Miguel. Sente-se.

O garoto sentou-se em frente de Magrí e depositou os livros que carregava. A menina não pode deixar de analisá-lo melhor, já que não se aproximava dele há muito tempo. Miguel era de fato um garoto especial, bonito, tinha um bom coração e era um excelente líder. Qualquer garota que ganhasse seu afeto seria feliz ao lado dele, disso ela não tinha dúvidas.

Contudo, engoliu em seco. Por que ela não pode responder aquele afeto? Ela já sabia a reposta há muito tempo. Miguel parecia estar deliberando alguma coisa, até finalmente dizer:

— Achei que estávamos muito distantes ultimamente e bem... — ele se remexeu na cadeira — Eu espero que eu ainda tenha a sua amizade.

Magrí deixou a caneta se apoiar na mesa e fitou o rapazinho com carinho e um nó na garganta. Ele também estava deprimido, mas sabia que não poderia jamais tocar neste assunto com ele de supetão, teria que o fazer aos poucos, com cuidado. Quando o assunto era sentimentos, Miguel era pior do que Crânio ou Calú — os dois últimos eram muito mais abertos em dizer o que se passavam em seus corações do que o seu líder.

— Claro que sim, Miguel. Você sempre terá a minha amizade, não importa o que aconteça.

Ele acenou com um sorriso amarelo. Estralou as mãos.

— Tem uma coisa que eu queria te perguntar. Por favor, não assuste, é um assunto já encerrado entre nós três, eu acho...

Magrí engoliu em seco. Sabia o rumo daquela conversa.

— Sim?

Magrí, você me ama?

Ele falou tão rápido, quase engolindo as sílabas que se Magrí não fosse uma boa ouvinte, teria perdido a pergunta. O estômago da menina afundou. Deveria dizer a verdade? Ele suportaria ouvir? Ela desconfiava que o garoto sabia quem ela amava como mulher, mas seria como se ele estivesse em um estado de negação.

— Miguel... Eu... É claro que eu amo você. Mas... — ela respirou fundo — Há diferentes níveis de amor, sabe?

— Eu sei bem — o garoto baixou um pouco os olhos — Eu só queria saber... Se... Bem...

Ele suspirou e segurou a caneta de Magrí com muita força. Reiniciou:

— Eu queria saber se eu devo ter esperanças... Esperanças de um dia você me amar de outra forma.

A menina queria se esconder debaixo da mesa e não sair dali até o fim do dia. Não conseguia encontrar palavras para responder. Era sempre assim com Miguel, sempre essas conversas difíceis que a deixavam contra a parede.

Enquanto Magrí deliberava, Miguel riu sem humor e balançou a cabeça. Por alguns segundos, os dois relaxaram.

— Eu estou tornando sua vida muito difícil, não é? — disse ele.

Magrí riu sem graça e Miguel a acompanhou, dizendo:

— Nem eu estou me reconhecendo ultimamente. Estou sempre agindo de forma esquisita, principalmente perto de você. Desculpe.

— Todos nós estamos agindo como estranhos, querido. Não há nada do que se desculpar.

Magrí respirou fundo e tomou a mão esquerda do rapazinho. Se ela não estivesse tão apaixonada por Crânio, se ele não tivesse roubado o coração dela de forma definitiva, se as coisas tivessem tomado um rumo alternativo... Magrí tinha de admitir que seria capaz de um dia amar Miguel. Não na mesma intensidade, mas não era impossível. Só não achava prudente naquele circunstância dizer isso a ele. Ou deveria dizer?

— Lembra da promessa que fizemos há um tempo? — perguntou ela.

Miguel balançou a cabeça em afirmação, fitando-a com curiosidade. Num gesto automático, depositou a outra mão sobre a de Magrí.

— Lembre-se, seremos amigos para sempre. Eu, você, Crânio, Calú e Chumbinho. Nada do que aconteça nas nossas vidas vai nos separar, mesmo que moramos longe fisicamente. No meu coração você sempre terá um lugar especial, Miguel.

Ela sorriu com os olhos cheios d'água e o garoto sorriu de volta, com uma leve tristeza pairando no ar.

— Eu acredito em você, Magrí. Eu só tenho medo de decepcioná-la no fim das contas...

A menina apertou a mão de Miguel.

— Isso pode acontecer, mas saiba que mesmo que você me decepcione, se afaste de mim para sempre, eu sempre estarei esperando que você se arrependa e volte...

Miguel fitou suas mãos entrelaçadas com as da menina.

— Você é boa demais comigo, Magrí. Eu não sei se mereço...

A menina deixou uma lágrima cair em cima da sua mão com a do rapazinho. O coração dela dizia que sofreria muito mais pelo líder dos Karas no futuro.

***

Crânio tentava ao máximo se fazer presente e não viajar nos próprios pensamentos enquanto empurrava a bicicleta com Malu pedalando ao seu lado. A garota era muito falante e tinha muitas histórias para contar desde que foi embora de São Paulo.

Era um dia bonito e ensolarado de outono no Ibirapuera, mesmo com o fino vento gelado que ameaçava uma queda de temperatura à noite. Um belo dia para fazer um passeio.

—... Então eu disse para ela que eu jamais andaria no escuro sozinha com um assassino à solta! Imagina a situação — Malu dizia — Ainda bem que pegaram o homem.

"Magrí ficou presa na cabana de um assassino sozinha..." Crânio pensou, mas se repreendeu de novo. Não havia cabimento comparar as duas garotas daquela forma, era até injusto.

Enquanto observava Malu pedalar, percebeu que ela era uma moça bem normal, como qualquer outra que já conheceu. Tinha preocupações apenas como escola, amigas, alguns namorados e o que faria no futuro. Jamais enfrentou a possibilidade de morrer como ele e... Bem... Outra garota.

— Mas eu já falei demais sobre mim — continuou ela, parando de pedalar perto de uma alameda arborizada — E você? O que tem feito?

"Prendendo sequestradores de alunos, assassinos de professores, salvando o país do renascimento do Nazismo, e desvendando o mistério de uma droga falsa. Nada de especial".

— Estudando muito para as provas e participando dos torneios de Xadrez — respondeu ele também parando de pedalar.

Os dois andavam carregando a bicicleta pelo guidão bem devagar.

— Continua com o boletim impecável, suponho? E você ganhou o último campeonato estadual de Xadrez, pelo o que eu fiquei sabendo.

Crânio ficou um pouco sem graça. A menina tinha aquele olhar de admiração de novo.

Antes que pudesse responder, uma figura esbelta apareceu correndo perto da onde os dois estavam. Crânio não precisou olhar duas vezes para reconhecer que era Magrí fazendo suas corridas diárias, como de costume.

O garoto queria se chutar, pois sabia que a menina dos Karas viu ele com Malu, porque ela diminuiu um pouco o passo e olhou para trás. Antes que ele pudesse chamá-la, Magrí acelerou e sumiu pelo parque, levando junto com ela qualquer disposição que Crânio tinha em continuar aquele err "encontro".

A cena não passou despercebida para Malu, mesmo o garoto tentando disfarçar ao máximo o que aconteceu.

— É conhecida sua? — perguntou.

— Humm... É, estuda comigo.

O modo como ele respondeu, tentando soar indiferente não convenceu Malu. Já naquele momento a garota suspeitava que havia algo mais entre ele e a menina corredora pelo modo como se olharam.

Resolveu mudar de assunto, após descansar a bicicleta no tronco da árvore, no qual Crânio deixou a dele no chão mesmo. Os dois sentaram-se na grama um do lado para o outro.

— Você gosta de rock, Crânio?

— Não sou muito fã — admitiu o garoto franzindo a testa — Eu ouvi tantos discos de jazz da minha mãe que eu acabei preferindo este estilo.

— Sério? — Malu riu — Você tem alma de velho, então.

Crânio sorriu porque não era a primeira vez que ouvia alguém dizer aquilo para ele.

— É uma pena, porque eu te perguntar se você não gostaria de ir comigo ver uma banda cover do Queen no sábado.

Crânio desviou os olhos. Estava se sentindo inquieto.

— Quem é Queen?

Malu segurou o riso para não ofender seu pretendente.

— Como assim quem é o Queen? Você não assistiu o Rock in Rio na TV? É a melhor banda do mundo!

De repente o garoto lembrou-se da cara do vocalista do tal Queen.

— Ah sim, o Queen! A banda do cara que parece um rato?

Se sua irmã ou um dos Karas ouvisse ele dizendo aquilo, iam xingá-lo até cansar. Malu caiu na gargalhada.

— Você é um fofo! Mas sim, é essa banda mesmo. Você deveria sair mais para conhecer bandas maneiras. Posso te apresentar algumas. Seria divertido.

O garoto não demorou para perceber que Malu estava mesmo disposta a querer um relacionamento com ele. Era óbvio demais de se ignorar. O único problema era que Crânio não podia corresponder a menina. Sentia-se péssimo por isso, mas o que poderia fazer? A única coisa que passava na sua mente nos últimos dez minutos era a visão do rosto de Magrí o fitando com tristeza.

Não havia para onde correr como ela. Deveria ser sincero com Malu.

— Escuta Malu, não me leve a mal. Quero dizer, você é uma garota legal, uma das mais legais que já conheci, de verdade.

A menina acenou com os grandes olhos fixos nele.

— Mas eu, digamos, estou numa situação complicada agora e não acho que eu conseguiria preencher suas expectativas...

Malu mordeu o lábio e baixou os olhos. Era uma pena, se não amasse tanto Magrí, quem sabe? Porém Crânio não era capaz de olhar para outra naquele momento.

— Eu entendo... — sussurrou ela — Imaginei que fosse isso a sua distância de mim.

Eles ficaram em um silêncio desconfortável por alguns minutos, com Crânio querendo se desculpar de mil maneiras, sem sucesso. Por fim, Malu levantou-se pegando a bicicleta.

— Acho melhor eu voltar para casa. Já está entardecendo.

Crânio se levantou também sentindo-se horrível. A garota estava mesmo decepcionada.

— Desculpe, Malu, sério...

— Tudo bem, não se preocupe. Não estou ferida de amor — ela sorriu — É só a decepção de você amar outra. Eu sempre gostei de você, mas tinha receios de me aproximar e como eu fui embora, perdi qualquer chance. Agora eu de fato não tenho nenhuma.

Crânio trincou os dentes sem saber o que responder. Preferia estar resolvendo os seus exercícios de Matemática do que lidar com tudo aquilo. Que dor de cabeça estava sua vida!

Malu recusou a oferta do garoto de levá-la até em casa e forçando um sorriso, ela subiu na bicicleta e acenou:

— Seja feliz, meu querido!

E sumiu em poucos segundos.

Crânio se jogou na grama com um suspiro alto, fechando os olhos. Estava farto de tudo aquilo e já era mais do que a hora de jogar tudo para o alto.

Quando abriu os olhos de novo, uma figura agora andava próxima onde ele estava. Sentiu outro par de olhos, olhos que conhecia bem, fitando-o de longe. Num rompante, ele ficou em pé e antes que ela fugisse de novo, gritou o nome dela.

Magrí parou de correr e esperou Crânio se aproximar. Havia um ar de estranheza entre os dois que era impossível de ignorar. A conversa com Dani se repassava na mente de Magrí como um filme, mas sua determinação de ficar longe do rapazinho se desvanecia como a claridade do dia.

Vê-lo com outra menina fez com que Magrí percebesse que não teria forças para aceitar facilmente que Crânio seguiu com sua vida — mesmo com ela tendo dito isso para ele. Ainda haviam Miguel e Calú como barreiras, porém nem ela mesma estava mais creditando os dois como obstáculos, apesar de lá no fundo de sua mente, ela ter ciência que teria problemas mesmo assim.

Os Karas eram sua vida, isso era fato, mas Crânio era o seu amor.

Contudo, pelo jeito, o garoto já a havia esquecido completamente. Aquilo a atingiu em cheio como uma bola de basquete. O amor do garoto por ela já desapareceu?

— Espero não ter interrompido nada — disse ela forçando um sorriso — Gosto de correr esse horário...

— Eu sei.

Silêncio. Magrí engoliu em seco.

— Estou feliz por você.

Crânio franziu a testa.

— Feliz?

Ela abraçou-se, evitando o olhar do rapazinho.

— Sim, quero dizer... Você seguiu em frente, estou feliz por você.

"Mas triste por mim", pensou ela.

Crânio pareceu confuso por alguns instantes, até compreender do que Magrí estava falando. Quando finalmente entendeu, o garoto balançou a cabeça e tomou as duas mãos da menina entre as suas.

— O que você está pensando, Magrí? Que eu já esqueci você, assim tão rápido?

A garota evitava a todo custo olhar para ele, mas não relutou por muito tempo e o fitou nos olhos.

— Não há problema nenhum em sentimentos inconstantes — Magrí sorriu sem alegria — É mais normal do que se pensa.

— Você está dizendo que eu sou inconstante no que sinto por você? Magrí, você está completamente errada ao me respeito.

Algo no coração da menina se acendeu quando encarou Crânio e viu a verdade estampada no rosto dele. Eles não eram adolescentes normais, jamais foram e jamais seriam.

— Outros caras por aí possam ser inconstantes, mas não eu — sussurrou ele, colocando uma mecha de cabelo de Magrí atrás da orelha — Eu posso até ter seguido seu conselho e conhecido outras garotas, porém esquecer você, jamais.

Pela primeira vez em semanas, Magrí sorriu de verdade, o sorriso que Crânio adorava. Não mais se contendo, o garoto inclinou-se e a beijou carinhosamente nos lábios. Foi um beijo rápido e doce, com um pouco de inocência de saberem que ainda se amavam. Quando se separaram, Crânio tinha um sorrio tão largo quanto o de Magrí.

— Você finalmente vai deixar eu te levar para o cinema e depois para um lugar legal para comer? Por favor....

Como dizer não quando ele fez uma cara suplicante? Ela não se importava mais com a opinião de Dani, e as barreiras entre os dois que ela colocou estavam cada vez mais frágeis.

Se ela não tentasse, se ela não desse uma chance para os dois, talvez ela jamais teria uma oportunidade e se arrependeria depois.

— Tudo bem, meu querido — ela deu um selinho no garoto — Mas sou eu quem escolherei o filme.

Notas finais
No próximo conto: Crânio e Magrí não conseguem ainda sair para o tão esperado primeiro encontro com o sequestro de Peggy MacDemortt no Colégio Elite. Passado o susto, finalmente os dois têm o momento romântico, mas que é, sem querer, atrapalhado por um dos Karas... Beijos e até o próximo conto!