Canção Do Desesperar
1 Ato I
No primeiro dia, Teru Mikami chegou ao seu limite.
Ele chorou, berrou e esperneou como uma criança malcriada — coisa que nunca fizera durante toda sua vida, talvez nem mesmo na mais tenra juventude.
Nunca o fez porque a própria vida lhe ensinou que chorar não levava a nada. Chorar não resolveria problemas, não traria soluções nem aliviaria suas dores.
Chorar era simples perda de tempo.
Descobriu desde muito cedo que só atingiria suas metas se agisse por si mesmo, utilizando suas próprias mãos, caso contrário, nada seria concretizado.
Mas nada disso fazia sentido agora. Ele não se importava mais. Simplesmente não se importava. Seus objetivos caíram por terra, suas convicções o traíram, não havia mais nada pelo que lutar, nada que o fizesse ter vontade de viver.
Com os olhos fixos no teto, Teru não conseguia pensar em mais nada que não fosse em quão estava atrasado para o trabalho e que a agenda do dia inteiro teria de ser modificada às pressas. E ele não gostava de ter de modificar horários — isso sempre causava uma tremenda bagunça, e, até que conseguisse arrumar tudo de novo, o dia já haveria ido embora.
Na verdade, agora já não era capaz lembrar-se de mais nada além do trabalho. "Levantar e ir pro trabalho", essa era a única coisa que mantinha-o conectado com a realidade de agora e a lembrança mais proeminente da vida que levou.
Mas talvez esquecer lhe tivesse feito bem. Quem sabe fosse, afinal de contas, alguma espécie de mecanismo de sobrevivência que lhe tivesse feito passar tudo pelo que passou sem perder completamente o juízo.
Ou talvez esquecer fosse efeito dos medicamentos que ainda corriam em suas veias — dopado, desde o momento que abrira os olhos não tivera sequer a presença de espírito de se perguntar o que acontecera ou como fora parar ali, ou mesmo de notar que o cubículo onde se encontrava era estranhamente desprovido de móveis ou decorações, e que duas câmeras se moviam, iluminando-se com um brilho vermelho todas as vezes que fizesse algum movimento mais brusco.
Também não existiam janelas. As lâmpadas fluorescentes do teto eram a única fonte de iluminação do ambiente, e pareciam nunca se cansar de emitir aquela luz tão incômoda (sem seus óculos, Teru não conseguia aguentar aquela claridade sem que seus olhos irritassem).
E que horas seriam? Não era capaz de saber, mas talvez ainda conseguisse arrumar as coisas, dependendo do horário que fosse.
"Hora de descansar, Teru-chan."
Remexeu-se, pela primeira vez consciente de seus atos. Tentou levantar-se da cama onde se encontrava, mas deu-se conta das tiras de couro que o amarravam à cama e impediam seus movimentos.
Aquela era uma voz familiar. Era estranhamente calma, em um tom estranhamente baixo. Era como se estivessem sussurrando em seu ouvido, mas ainda assim não conseguia identificar de onde a voz realmente vinha.
Vasculhou nervosamente todos os cantos onde seu campo de visão conseguia alcançar, procurando pelo dono daquela voz, constatando mais nervosamente ainda que estava sozinho.
— Quem está aí? — perguntou, tentando livrar-se das amarras que o prendiam.
— Você não se lembra? — replicou a voz. Era claramente um timbre ainda infantil, adolescente talvez.
— Não, eu não me lembro, e não tenho tempo a perder com brincadeiras. — Teru tentava soar calmo, mas tinha quase certeza de estar conseguindo o efeito contrário, visto que sua voz estava trêmula.
Soltou uma exclamação surpresa ao ver um rosto juvenil saltar sobre o seu.
Dois grandes olhos castanhos através das lentes de óculos agora o miravam, perscrutando sua face com grande interesse, o mesmo que a criança — um menino — teria por um animal preso em uma gaiola.
Teru, por sua vez, via o garoto de ponta cabeça, pois este estava em sua cabeceira; o rosto muito próximo do seu e os longos cabelos (que não eram realmente longos, mas certamente maiores do que um menino daquela idade normalmente usaria) formando duas cortinas de fios negros que ofuscavam o brilho constante das lâmpadas.
— Tem certeza de que não se lembra? — Sua voz tinha agora um tom entristecido. — Eu sou você. Ou melhor, eu era você.
O menino rapidamente sumiu de suas vistas, reaparecendo imediatamente ao lado de sua cama. Sentou-se na lateral, permitindo agora que o outro tivesse uma melhor visão dele.
Teru normalmente gostava de crianças. Gostava das boas crianças. Raramente, conseguia, porém, a simpatia delas, porque era sério demais para esse tipo de coisa. Gostava do modo como elas pensavam e achava que talvez, se todos encarassem as coisas com os olhos delas, o mundo seria um lugar bem melhor. (Novamente, as boas crianças. As más eram ervas daninha que gerariam no futuro maus adultos. Maus adultos que não mereceriam viver.)
Aquela criança, porém, lhe dava arrepios.
Eram uns olhos que eram sérios demais, imparciais demais para uma criança.
Tinha uma expressão grave, que o julgava a cada momento, e que ainda assim carregavam um quê de inocência infantil, mesmo que fosse difícil percebê-lo.
Sua figura dissonava de todo o ambiente cinzento ao seu redor (ou ao menos da parte do ambiente que Teru via), compondo em conjunto algo de um tom intimidador.
Aquele era realmente ele. Era ele mais jovem. O ele do passado.
O adulto não conseguia falar — estava assustado demais para fazê-lo. E o que mais o deixava desconfortável era o modo como estava vestido o menino: era uma piada de mau gosto, aquela fantasia. Nunca o levaria a sério se a situação não fosse tão absurda.
Todavia, o infante parecia não se dar conta do quão incomum sua roupa era: vestia uma túnica branca que era grande demais para ele (o mais velho não conseguiria ver, mas a barra dela era de uma cor acinzentada, pois arrastava no chão quando o menor andava) com asas de pelúcia costuradas às costas da indumentária. Havia também uma auréola de arame anexada à cabeça dele, de modo que podia-se ver com facilidade o cabo que sustentava o aro maior entremeado aos seus cabelos.
— Não fique tão nervoso. Não vou te machucar ou nada do tipo. Você sabe que eu não faria isso. — Ao dizê-lo, o menor ajeitou os óculos, equilibrando-os de volta no nariz.
O Adulto Teru começou a rir. A princípio, era uma risada sem-graça, um riso tímido de quem ainda não havia entendido muito bem a piada. O riso, no entanto, transformou-se logo numa gargalhada e, da gargalhada, aumentou para uma intensidade em que já não se podia dizer mais se eram risos ou gritos.
Quando conseguiu parar, tinha lágrimas nos olhos e uma respiração ofegante. O peito chegava a doer de tanto rir.
Deu, porém, com a expressão séria do menino. A mais séria que havia assumido até então.
— Isso não é hora pra rir, Teru. — Ele segurou-lhe uma das mãos, mas o que Teru sentiu foi somente um leve formigar, pois seu corpo já se encontrava dormente: estava há muito tempo naquela mesma posição. — Não há motivos pra isso. Eu acho que seria melhor (mais saudável, até) que você descansasse. Você já trabalhou demais e, por mais que tente negar, não nos resta muito tempo.
— O que você — ("Se é que você é gente", disse em pensamentos, mas sem ter a coragem de fazê-lo em voz alta) — quer dizer com isso? Aliás, por que acreditaria em você?
A Criança Teru mirou-o com um pouco de pesar.
— Nós estamos no corredor da morte. E a morte virá, não há dúvidas.
O adulto demorou um pouco para entender a informação.
E, quando a entendeu, não pode fazer nada senão contorcer-se no pouco espaço que tinha.
— O que... — Parou. Faltou-lhe fôlego para terminar a frase. Puxou ar e recomeçou: — O que você quer dizer com isso? O que é você?
— Eu lhe disse exatamente o que você ouviu. E eu sou você, já lhe disse.
O Teru maior agora suava. Não sabia o que dizer ou o que pensar.
— Se eu soubesse que as coisas iriam terminar assim, talvez eu tivesse tentado de outra forma. — O menino riu uma risada triste que fez a pseudo-auréola de arame agitar-se no alto de sua cabeça. — Quer dizer, agora somos lixo. Ou melhor, nós fomos lixo desde o começo. Imbecis desde sempre. Acabamos nos igualando àquele lá.
—... De quem você está falando?
— Dele, oras. Aquele que você disse que era Deus. Kira, sabe?
O menor desceu da cama, sentando-se no chão, onde podia ficar próximo ao Adulto Teru e olhá-lo melhor nos olhos e, vendo que este último contorceu-se mais ainda ao ouvir aquele nome, começou a afagar-lhe os cabelos.
— É, Teru, ficamos iguaizinhos a ele.
— Não — grunhiu o outro, por entre dentes.
Teru, até o momento, não tinha reais recordações do que acontecera nos dias anteriores, mas agora sua mente começava a clarear mais. Fragmentos de memória do fatídico dia e do tão disforme rosto do jovem que ria loucamente passaram por sua cabeça, como lembranças de um tempo distante.
Mas, maior do que o peso das lembranças, o coração de Teru sentia o Ódio. Ódio tão fulminante tal qual nunca sentira.
— O que disse? Se quer que eu escute, fale mais alto.
Teru, apesar de ser antes o que podia se chamar de um "homem intelectual", tinha fortes convicções e jamais negou o sobrenatural. Durante a maior parte de sua vida, não teve uma religião ou um credo definido (embora confiar fielmente na força da Justiça como confiava fosse uma espécie de credo), mas sabia que o sobrenatural existia de alguma forma. Sendo assim, não era difícil acreditar naquela aparição.
Mas, se o Sobrenatural queria lhe comparar àquela pessoa, haveria de bater de frente com o Sobrenatural.
— Não sou igual a ele. Kira era desprezível. Eu não sou igual a Kira. — vociferou.
— Claro que é. — O menino agora brincava com as mechas de cabelo do Adulto Teru, enroscando seus dedos nos fios de cabelo dele. — Você abandonou a justiça e matou em nome de Deus. Seu Deus matou em nome de uma justiça distorcida e, no final, morreu chafurdando no próprio sangue, implorando que não lhe matassem. Lembra disso? Ele rastejou até morrer.
— Pare de me comparar com ele. — retrucou. — O caso de Kira é outro.
Viu a espressão séria e reprovadora voltar ao rosto do garoto.
— É a verdade. Você não pode contestá-la. E é o que vai acontecer com a gente também. Vamos rastejar até o fim.
— Pare já com isso.
— É melhor que aceite agora.
O outro já não prestava mais atenção: estava envolvido numa fúria tão abrasadora que tentava atingir o menino com braços e pernas, tentando liberá-los das amarras.
— Teru, dessa distância, você não pode fazer nada comigo. Vai acabar se machucando. — O garoto então assumiu uma expressão divertida. — É meio engraçado se você parar pra pensar nisso. Se eu sou você e você me machuca, deve ser como machucar a si mesmo.
O Adulto Teru, no entanto, conseguiu soltar um dos braços e agarrar as vestes do menor, que não demonstrou nenhuma expressão de surpresa: pelo contrário, parecia até que já esperava por aquilo.
— Por que está aqui?! — ganiu. — Diga logo, pare de brincadeiras.
— Desculpe, não posso ficar mais tempo. Lembre-se do que eu te disse e tenha bons sonhos. — Teve a impressão de ver um lampejo vermelho passar pelos olhos do Pequeno Teru, mas o brilho se desfez rapidamente, dando lugar ao brilho comum dos olhos dele.
O menino torceu a mão do Adulto Teru com uma facilidade surpreendente, repelindo-a. Sem dar mais explicações, afastou-se.
Se estava preso, pensou Teru, as portas provavelmente estariam trancadas. Não haveria como sair dali.
Esse era, provavelmente, o raciocínio certo, mas esqueceu-se rapidamente dele quando viu o menino transpor uma das paredes, como se ela fosse uma mera ilusão.
— O que você...?! — gritou, sem conseguir a atenção do garoto. — Volte!
Em resposta, ouviu outra voz, dessa vez uma mais grossa e mais adulta:
— Ei, amigo, fique quieto ou vai se machucar, você não tá falando coisa com coisa.
Sentiu algo que pareceu ser um beliscão e adormeceu no mesmo instante, tendo a impressão de que os olhos do menino ainda pairavam sobre si, como se estivessem vigiando-o.
"Durma bem, Teru-chan".
Notas finais
- Gosto do Mikami. Tem gente que tem pena dele e diz "Ah, ele era uma boa pessoa, e continuaria sendo se a vida não tivesse levado ele pra onde levou.", mas eu só tenho pena de ele ter se humilhado tanto quanto se humilhou. A loucura dele era pior do que a do Raito. Bem pior. Mas ainda gosto dele.
- Ah, enfim! Estou quase começando uma campanha: ABRACE UM PSICOPATA, ELES PRECISAM DE AMOR! Eu já abracei o meu, e você? Já abraçou o seu? -q
- E aí, mereço reviews?
- EDIT: A linha cronológica que eu segui na fic é a do mangá, não a do anime, pra todos os casos.
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