Canção Da Morte

18 Capítulo 18 - O Magnífico


Pandora, a humana que recebera uma caixa com todos os males do mundo, a pessoas responsável por manter a caixa lacrada para que as maldades não se espalhassem pelo planeta. A mulher que havia falhado em sua missão e conseguido manter dentro da caixa a única coisa que não poderia se perder: a esperança. Íllias compreendia que deuses como Hades, Athena até mesmo Anteros ressurgissem nesse mundo de tempos em tempos, mas uma pessoa? Como podia uma alma humana voltar várias vezes a vida? Nero havia dito que em uma de suas conversas com o Grande Mestre o velho havia explicado esse assunto. Segundo ele, algumas almas são tão importantes em uma Guerra Santa, que os deuses fazem questão de trazê-las de volta para lutarem ao seu lado novamente. Pandora não era a única. Alguns espectros são tão poderosos que sempre retornam para compor o exército de Hades, vestindo as mesmas súplices e até usando os mesmos nomes. Algo parecido com as armaduras que com o tempo dividiram-se em Amaduras de Ouro, Prata e Bronze.

Depois de alguns dias de viagem, os três chegaram ao seu destino, eles deveriam ir até uma casa e reunir o máximo de pistas possíveis. A casa que havia sido habitada por Pandora durante alguns anos. Ao chegarem, todos se impressionaram. Como uma garota órfã poderia comprar sozinha uma mansão daquelas? A casa realmente era fantástica. Para começar, sua localização era um dos melhores bairros daquela cidade, ficava em uma vizinhança rica e extravagante, pois todas as construções mostravam-se muito luxuosas. Mesmo a distancia podia-se perceber quão grande o lugar era. Sua fachada era branca e realmente chamava a atenção, suas grandes janelas possuíam vitrais como se fosse uma igreja ou uma catedral, mas as imagens não eram de santos ou de anjos. Altas torres erguiam-se nas laterais da mansão, dando a ela um ar de fortaleza antiga. O jardim era extenso e bem-cuidado, de maneira que havia uma grande diversidade de flores por ali. A escada da entrada tinha poucos degraus, mas todos eram feitos de um mármore tão branco quanto a neve.

Ao entrarem, as surpresas não acabaram. Por dentro a mansão era muito mais luxuosa. No salão de entrada, havia uma grande escada que levava ao andar de cima, seus degraus também eram brancos e o corrimão terminava em uma espiral, de ambos os lados. Aos pés da escada, dois cães de pedra montavam guarda, sentados e olhando em direção a porta ambos mostravam-se furiosos e prontos a atacar qualquer inimigo. Nas paredes, quadros mostravam cenas de Hades e Perséfone, Caronte navegando com sua balsa, Thanatos e Hypnos num jogo de xadrez, estranhamente, esse último mostrava os pés de alguém metros acima do tabuleiro, como se uma pessoa estivesse caindo do teto, quem quer que fosse tinha os pés cobertos por uma proteção dourada. No teto um lustre imenso pendia sobre suas cabeças, diamantes dançavam com o vento que invadia a casa e balançava o lustre. Todos os cômodos possuíam móveis novos, alguns serviam somente para ostentação. Os fundos da casa davam acesso a uma rua pouco movimentada que mais servia como um espaço para as crianças se divertirem com seus brinquedos, alguns nada convencionais como réplicas de armas.

– Como essa casa não foi roubada? Será que ela não se preocupava com a possibilidade de ladrões invadirem esse lugar? – perguntou Íllias.

– Esse bairro não é muito perigoso. As pessoas são pacíficas e o Estado garante que haja segurança por aqui. Com certeza pessoas importantes moram nas redondezas. E os vizinhos disseram que ela saiu de casa há poucas semanas, talvez pensem que esteja viajando. Possivelmente, alguns pensam que em breve ela vai estar em casa. – falou Zaru.

– Mas não vai. E alguém que tem como escolta Thanatos e Hypnos não precisa se preocupar com os perigos. Nem mesmo com os grandes perigos. – disse Nero. – Agora vamos procurar qualquer coisa que possa nos dar informações sobre essa mulher. Papéis, anotações, mapas, qualquer coisa. Se encontrarmos Pandora, encontramos Hades. E encontrando Hades...

– Encontramos Athena. – os cavaleiros de bronze disseram juntos.

Eles se separaram e começaram a procurar. Íllias e Zaru ficaram com o andar de baixo e Nero dirigiu-se para o andar de cima. O quarto que deveria ser o de Pandora era sem dúvida o cômodo mais luxuoso da casa, mas ele não estava pensando nisso. Seus olhos correram pelo lugar e encontram a escrivaninha próxima da cama, e lá estava o que ele procurava. Vários papéis estavam sobre a escrivaninha, muitas folhas com várias anotações. Algumas delas chamaram sua atenção:

“Delfos ressurgiu. Paradeiro desconhecido.”

“Karen parece ter encontrado Hades. Chegou a hora.”

“O Cavaleiro de Virgem está no Submundo. Mokurenji deve ser destruída.”

“O fantasma sem-rosto. O único a resistir ao Yomotsu. Que alma será essa?”

“Castelo de Hades. Localizado na...”.

Ele queria continuar lendo, mas havia muitas folhas, seu tempo era curto e seu instinto dizia que um cosmo muito poderoso estava se aproximando, um cosmo tão forte quanto o de um cavaleiro de ouro. Nero desceu metade da escada e chamou por seus companheiros. Cada um deles surgiu de uma direção, eles pareciam confusos e olhavam na sua direção com uma expressão de susto.

– Ei, que caras são essas? Parece que viram um fantasma.

– Nero, olhe pra trás. – disse Íllias.

Do lado de fora da janela que ficava no topo da escadaria uma figura de cor escura se movia na direção da casa, num primeiro momento parecia ser um pássaro voando até eles, até que ele chegou. Os vidros se estilhaçaram e voaram por todo o lugar, no lugar onde estava a janela um homem estava flutuando, sua armadura de cores púrpura e negra possuía um estranho brilho, suas asas se estendiam de uma parede até a outra, seu elmo cobria sua cabeça e parte de seu rosto. Seu cosmo era poderoso.

– Quem é você? – perguntou Nero.

– Eu me chamo Kagaho de Benu, a estrela celeste da violência. Estou aqui a serviço do mestre Hades. Minha missão é destruir este lugar e qualquer coisa que esteja dentro dele. Incluindo vocês.

– Rapazes. Peguem essas folhas e saiam. – falou Libra. Ele lançou as folhas para trás, Zaru adiantou-se para pegá-las, mas um estranho vento entrou na casa, uma rajada tão forte que todos os quadros caíram, os cavaleiros fecharam os olhos por causa da força do vento. Quando Zaru abriu os olhos, as folhas já haviam sumido e não estavam em lugar nenhum da casa. Até mesmo Benu parecia surpreso com o estranho vento que entrou na casa.

– O que você fez? Onde estão as folhas? – perguntou o cavaleiro de Unicórnio.

– Fez o que maldito? Do que você está falando? – Benu disse.

– Não foi ele, Zaru.

– Como você sabe Íllias?

– Eu senti outro cosmo, até mais poderoso do que o dele. Foi outra pessoa, que com certeza não está mais aqui.

– Ele está certo Zaru. Eu senti esse mesmo cosmo pouco antes de entrarmos aqui. Achei que não devia me preocupar, mas agora vi que estava enganado. Depois nós vamos recuperar as folhas, no momento temos outra preocupação.

– Hahahaha! Acha mesmo que pode me derrotar cavaleiro? Eu tenho contas pra acertar com o Peixes. Você não será adversário para mim.

– E então Íllias? Está pronto? – indagou Unicórnio.

– Sempre. – respondeu Pégaso.

Ambos invocaram seu cosmo e convocaram suas armaduras. Suas vestimentas sagradas atenderam ao chamado e vieram ao encontro de seus possuidores. Já trajando suas armaduras, Zaru partiu para atacar o inimigo, mas foi impedido por Nero.

– Sinto muito garoto, mas se alguém vai lutar com ele, não será você.

O cavaleiro de Libra concentrou-se e criou uma espada usando seu cosmo, a arma era dourada assim como a aura que o envolvia. A lamina dourada dançou no ar enquanto ele corria para lutar com o espectro de Hades.

Sua espada cortou o ar e quase atingiu a cabeça de Benu, porém o espectro antecipou seu movimento e defendeu-se usando apenas uma das asas de sua súplice. Ele sorria e falava que o cavaleiro de ouro era fraco e previsível, até que ainda com a espada pressionando a armadura do inimigo, Nero formou um martelo com a outra mão e desferiu um golpe de baixo para cima acertando o queixo de Kagaho, que cambaleou para trás. Sua raiva aumentou devido a esse golpe, seu cosmo elevou-se e chamas escuras surgiram ao seu redor. Ele golpeou Nero que recuou um pouco.

– Ele luta com chamas! Eu queria que o Dante estivesse aqui. Seria de grande ajuda. Não é Zaru? – falou Íllias.

Mas ele não teve resposta, quando olhou para seu companheiro ele pôde perceber por que. O cavaleiro de Unicórnio estava numa espécie de transe. Seu corpo parecia imóvel e seus olhos permaneciam vidrados na luta. Essa foi outra coisa que chamou a atenção do Pégaso. Zaru possuía olhos castanhos bem escuros, agora, porém sua pupila estava com uma coloração amarela bem forte. Um amarelo vivo que parecia brilhar enquanto o cavaleiro observava a luta entre Libra e Benu.

Os dois demonstravam-se ótimos lutadores, cada golpe que lançavam era respondido com outro à altura. Até que um cosmo poderoso invadiu a casa, o mesmo cosmo que estava ali minutos antes. Tudo o que eles puderam ouvir foi um estrondo muito alto, quando Íllias deu por si a cozinha tinha sido destruída. Logo depois outro som enorme e a sala estava indo pelos ares. Em pouco tempo toda a casa seria destruída. Mesmo com toda essa destruição não era possível ver quem estava fazendo isso, apenas sentia-se o mesmo vento passando pelo lugar. Nero distraiu-se e Benu pegou seu braço, o cavaleiro foi girado no ar três vezes antes de ser lançado na rua atrás da casa, sua queda seria muito grave, mas felizmente ele caiu sobre algo que amorteceu sua queda.

Zaru despertou de seu estranho transe a tempo de perceber que o teto do cômodo onde estavam começava a ceder. Seus olhos voltaram para o castanho escuro que era natural. Ele viu que Nero havia sido arremessado para fora e percebeu que eles precisariam sair dali também, só havia um pequeno impedimento. Kagaho continuava flutuando no ar no espaço onde antes havia uma janela, se quisessem sair dali teriam de bolar um plano e rápido. E rapidamente o plano veio.

– Íllias, você já está voando bem rápido?

– Sim. Razoavelmente rápido.

– Ótimo. Então escute o que vou dizer. – enquanto ele contava seu plano de fuga para Íllias, o teto começou a despedaçar e alguns destroços começaram a cair.

Em pouco tempo o lustre e toda a mansão estariam sobre eles se não colocassem o plano em ação. Íllias correu escada acima e invocou o vento, ele voou perto o suficiente para derrubar o elmo de Benu e enfurece-lo mais ainda. Seu inimigo virou-se para acerta-lo com um golpe. Então Zaru veio.

Unicórnio correu e pulou sobre seu inimigo, seu alvo era a cabeça de Benu, por isso era tão importante que Íllias fosse bem sucedido em tirar seu elmo.

– Galope do Unicórnio! – gritou enquanto caía sobre seu adversário.

Íllias olhou para Zaru e por um momento pensou ter visto chamas de cor escura em seus pés, no momento em que ele estava golpeando Benu, talvez fosse só sua imaginação, mas não podia pensar nisso, sua parte do plano não estava completa. Aproveitando que Benu estava atordoado e ainda confuso devido a pancada na cabeça, ainda no ar ele reuniu seu cosmo e golpeou seu inimigo mais uma vez.

– Meteoros de Pégaso! – seus meteoros atingiram em cheio o espectro que caiu no chão e rolou escada a baixo, bem a tempo de ser coberto pelo lustre e pelo teto da mansão que veio abaixo, graças aos meteoros e ao estranho vento que percorria o lugar mesmo depois de desabado.

Os dois correram na direção do cavaleiro de libra que estava se levantando e agradecendo aos deuses por algo ter amortecido sua queda, até que ele viu o que havia sido. Um menino que aparentava ter doze anos de idade estava caído no mesmo lugar que Nero, seu braço estava quebrado e ele chorava muito. Quando Íllias e Zaru chegaram tentaram acalmá-lo, mas ele continuava chorando e se queixando da dor que sentia. Então Nero aproximou-se dele e pegou seu braço, seu cosmo começou a se elevar e ele tocou na pele da criança, depois de transferir uma grande quantidade de energia para o garoto, o braço que estava quebrado voltou ao normal e a criança já não se queixava mais de dor. Enquanto Nero curava o garoto, Íllias viu mais uma vez o estranho brilho amarelo nos olhos de seu amigo. Ele pensou nas palavras que Dante havia dito na vila Rodório, na guerra contra o exército de Ares.

– “Não demonstre suas habilidades perto do Zaru.” – foi o que ele havia dito, Íllias começava a entender por que.

Seus pensamentos foram interrompidos pelas palavras de Zaru que parecia espantado com a habilidade de cura do cavaleiro de ouro.

– Como eu não percebi antes? É claro! Nero e Leônidas! Estava na minha frente e eu não percebi!

– Não percebeu o que Zaru? – perguntou Pégaso,

– Ele. Ele é muito famoso. Você nunca ouviu falar dos Irmãos Magníficos? Os dois heróis que salvavam muitas pessoas de acidentes? Nero, o anjo que curava apenas com um toque e Leônidas, o mago que aparecia e desaparecia quando quisesse, ele entrava em prédios em chamas, em covis de bandidos, em lugares onde havia reféns. Ambos estavam em evidencia há muitos meses, na televisão, no rádio, na internet. Todos falavam sobre suas proezas.

Mesmo vagamente Íllias se lembrava de pessoas que passavam pelas ruas e comentavam sobre dois homens que estavam sempre salvando pessoas, como suas ações eram impressionantes para a maioria da população. Eles foram apelidados de Os Irmãos Magníficos.

– Mesmo não sendo irmãos de verdade, esse apelido pegou e não tivemos como rejeitá-lo. – falou Nero.

Depois que o garoto foi curado, Nero mandou que os dois jovens o levassem para casa, um pedido seguido de protestos sobre ser velho demais para babá e Athena não contrata Baby-sitters, mas ainda assim ambos acompanharam o menino. Nero voltou-se para a casa e viu uma movimentação debaixo dos escombros, foi então que Benu ressurgiu do meio dos destroços da casa, o cavaleiro preparou-se para mais uma batalha, porém o inimigo só continuou voando cada vez mais alto.

– Cólera do Dragão! – gritou Nero tentando atingir seu adversário, mas seu dragão de energia não foi veloz o suficiente. Benu havia escapado.

Os cavaleiros de bronze retornaram e encontraram o líder da missão com o olhar distante. Mesmo ao longe eles viram o dragão subindo aos céus e voltaram correndo, presumindo que Nero precisava de auxílio. O cavaleiro de ouro estava olhando para uma rua distante, onde uma estranha silhueta dourada se movia a uma velocidade tão grande que quase não podia ser vista, coincidentemente um estranho vento corria naquela direção.

– E então Nero, para onde vamos agora? – perguntou Íllias.

Ainda pensando nas palavras que estavam nas folhas de Pandora, Nero pensou em algo especial que havia lido, uma informação mais importante do que as outras. Voltando-se para seus amigos ele disse:

– Vamos para o Santuário. Eu preciso consultar o oráculo.