Canção Da Morte
13 Capítulo 13 - Histórias de um Velho Touro
Sentar ao redor da fogueira durante a noite era uma antiga tradição dos cavaleiros que permanecia através de diversas gerações e com essa não era diferente. Depois de dois dias de treinamento suas aparências não eram das melhores. A fadiga estava estampada em seus rostos e a dor era representada pelos hematomas em suas peles. Lá estavam Íllias, Cleon, Ryu e Aquiles, além de outros cavaleiros e alguns aspirantes; Dante não estava presente; já fazia dois dias que ele não era visto no Santuário e mesmo que Hikaru voltasse para a casa de Leão, o jovem continuava seu treinamento pela madrugada, à sua maneira. Mas sua ausência estava sendo preenchida pela presença de Aldebaran de Touro, o velho cavaleiro que fazia questão de acompanhar os garotos em suas conversas e discussões, ouvindo-os reclamar sobre seus exaustivos treinamentos.
- Aquela águia idiota! Não consegui nem me aproximar dela, como posso vencê-la numa corrida? Ela voa tão rápido que chega a dar inveja. Estou cansado e envergonhado de ser derrotado por um animal. – falou Íllias.
- Isso não é nada, se eu não tivesse criado aquela parede de gelo ontem, eu teria me afogado e não estaria nem aqui. O preguiçoso do mestre Magnus nem me ajudou a sair do rio. – disse Cleon.
- Parem de reclamar por pouca coisa. – pediu Ryu. – Tentem atacar um alvo sem poderem se mexer, não é possível atacar sem fazer um único movimento!
- E você Aquiles? Nada a dizer? – O velho cavaleiro perguntou.
Aquiles não parecia interessado na conversa, ele estava examinando suas mãos com um olhar preocupado, sua expressão também demonstrava um pouco de dor. O que quer que fosse o treinamento que Maximus impôs a ele, era tão desagradável quanto o dos outros. Distraído, o cavaleiro de Andrômeda não respondeu a pergunta, nada que irritasse o cavaleiro de ouro. Ele entendia como o rapaz se sentia.
- Aldebaran, você voltou para o Santuário há alguns dias e ainda não entrou na Casa de Touro e nem foi falar com o Grande Mestre, por quê? – quis saber Ryu.
- Bem, eu não entrei na terceira casa ainda porque eu não precisei fazer isso, aquele lugar não é como um lar pra mim é apenas onde eu guardo minhas coisas de cavaleiro. E eu não fui me reunir com o Grande Mestre porque eu acho que aquele bode velho não precisa de mais preocupações.
Íllias achou um pouco irônico o fato de Aldebaran chamar o Grande Mestre de bode velho, mas ele decidiu não questionar.
- Suas coisas? Seus relatos, por exemplo? – Cleon questionou, ele precisava saber mais sobre aquilo.
- Sim. Nós cavaleiros de ouro fomos instruídos a escrever nossas experiências como servos de Athena, nossas lutas, nossas técnicas, aprendizados, tudo que pudesse ser útil para as próximas gerações de cavaleiros. Todas as informações importantes devem ser escritas e guardadas, essa tradição já existe há muito tempo. Todos os doze cavaleiros dourados fazem isso, pelo menos aqueles que arranjam algum tempo pra fazê-lo.
- Então, quer dizer que tudo o que os cavaleiros antigos viveram e aprenderam, incluindo suas técnicas mais poderosas estão nesses livros? – havia certo brilho no olhar do jovem.
- Em resumo, sim. Nós procuramos relatar tudo, nossas batalhas, como as técnicas foram criadas, seus efeitos e seus nomes. As armaduras mostram flashbacks, mas não mostram tudo.
- Mas porque os nomes? Miro me disse que ao desferir um desses golpes sobre-humanos seria melhor se eu dissesse seu nome, mas não vejo necessidade disso, afinal, eu sei qual ataque quero realizar, por que ficaria dizendo seu nome? – Íllias perguntou.
- As palavras possuem poder meu garoto. Principalmente os nomes, tudo que existe tem um nome. Quando você diz o nome de sua técnica é como se você estivesse chamando por aquele poder, invocando-o sabe? É como se você reunisse todos os cavaleiros que vestiram a mesma armadura antes de você, como se o poder deles passasse para você. Porque eu tenho certeza que não foi você quem nomeou os Meteoros de Pégaso. – Touro respondeu.
- Com certeza não.
- Deixe-me dar-lhe um exemplo: muito tempo atrás, nas primeiras guerras entre Athena e Hades, havia uma mulher que lutava por Athena, ela era uma mulher muito forte e bonita, porém era fria e muito rígida com seus discípulos, que a chamavam de A Executora, porque seu temperamento era tão forte que eles achavam que ela poderia mata-los por qualquer erro que cometessem. Sua armadura era a Armadura de Ouro de Aquário e seu nome era...
- Aurora. – Cleon disse. Ele já começava a ligar os pontos.
- Pois bem, essa Aurora criou uma técnica que é usada até hoje pelos cavaleiros dessa constelação, uma poderosa rajada de gelo, um golpe poderosíssimo que congela tudo em que toca podendo reduzir a temperatura até o zero absoluto. Essa técnica foi chamada pelos mesmos discípulos dela de Execução Aurora. E segundo o próprio Magnus, ele sentiu o poder de Aurora fluindo em si na última vez que fez uso desse ataque. E tenho certeza de que não era diferente com Camus ou Dégel.
- Nossa! Eu gostaria de ser um cavaleiro de ouro. Ser poderoso, criar novas técnicas, ser respeitado por todos... Seria demais! – Íllias falou entusiasmado.
- Mas você pode ser um cavaleiro de ouro. – Aldebaran revelou. – O cavaleiro de ouro de Pégaso, o que você acha?
- Pégaso? Eu pensava que existiam apenas doze armaduras douradas.
- Na verdade, todas as armaduras podem ser armaduras douradas, só depende da vontade e do poder de quem veste as armaduras. Deixem-me explicar: nas primeiras Guerras Santas em que humanos lutaram, as armaduras não estavam divididas nas três classes que conhecemos, todas estavam no mesmo nível de poder. Mas com o acontecimento de outras guerras, algumas armaduras eram sempre vestidas pelos mais poderosos guerreiros, os mais fortes e mais habilidosos formavam um grupo de doze cavaleiros que sempre estavam acompanhados pelas mesmas armaduras.
- Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes. – Aquiles informou. De repente ele parecia interessado naquele diálogo.
- Sim. O mesmo aconteceu com as armaduras de prata e de bronze durante as Eras que passaram, conforme o padrão de poder entre os guerreiros que as possuíam se repetia, elas acabaram condicionadas a esta classificação. Entretanto, se qualquer um de vocês puder alcançar o nível de um cavaleiro de prata ou de ouro, suas armaduras certamente os acompanharão, mudando sua forma e sua aparência.
- É claro que para alterar o padrão de poder é preciso uma força fora do normal. Mas não acho que seja algo difícil para qualquer um de vocês. Não é? – disse Zaru que tinha acabado de chegar. – Senhor Aldebaran, o Grande Mestre está solicitando que todos os cavaleiros de ouro se apresentem no Salão Dourado, ele tem algo importante para falar, algo sobre uma missão.
- Ok, vamos lá. Preste atenção Íllias: não é preciso se tornar um cavaleiro de ouro para ser poderoso ou criar novas técnicas e com relação ao respeito dos outros, você não tem que ser forte para consegui-lo, afinal, sem muita força você já conseguiu o meu. Até mais, garotos! Boa sorte com o treinamento. — E então o cavaleiro se foi, subindo as escadas das Doze Casas em direção ao Grande Salão.
- Zaru, qual a missão que o Grande Mestre tem para os cavaleiros de ouro? – Ryu perguntou.
- Athena... Eles vão trazê-la para o Santuário.
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