Não lembrara a que horas fora dormir, muito menos a que horas voltaram para seus devidos quartos.
Sabia apenas que tivera um sonho bom, mas que acordara com certa dor de cabeça. E agora sua mãe, a rainha, chamava lhe insistentemente no começo daquela manhã.

Elsa então se levantava e era preparada por Gerda que ajudava a arrumar lá depois de um banho.

— Qual deseja majestade ? -

Perguntava a senhora alta e rechonchuda a sua frente,mostrando lhe três vestidos disponíveis naquela manhã de primavera.

— Esse do meio, por favor. —

Elsa apontava para o vestido listrado numa mistura de branco e azul. Havia longos babados rendados em suas mangas e o chapéu de palha completava a vestimenta.

Olhando pela janela ela via o quanto o dia estava lindo.

O céu estava num intenso tom de azul, tendo apenas algumas nuvens cirros a passar por ali. O tempo estava fresco, o cheiro das flores emanava dos jardins.

Hoje era dia do festival das flores. Pessoas de todos os cantos da Europa vinham expor suas flores nos diversos concursos que havia sobre a área da botânica.
O mais prestigiado era o concurso da flor. E também o que tinha mais expositores.
Dessa vez uma jovem ruiva vinda de longe participaria pela primeira vez.

Charlotte trouxe a sua mais exótica flor.

Uma flor vinda dos confins da África que os exploradores de seu reino trouxeram para decorar o jardim botânico das Ilhas do sul. Apesar do seu característico cheiro de corpos putrefatos.
Mais e daí ? Sem dúvida ela era a flor mais diferente daquele concurso.

Fora muito complicado trazer essa flor para Arendelle, principalmente por causa de seu tamanho de uma criança de 4 anos.
Um processo trabalhoso para retirar a planta do jardim e levá-la cuidadosamente para o navio que transportava a família real.

Hans olhava curioso todo aquele processo da escadaria do jardim.

— Ei Cristian.Sente esse cheiro ? —

Hans a olhar para trás via alguns de seus irmãos. Ali estavam eles, Cristian, karl e Haakon

— Sim Karl, infelizmente. Será da planta inútil de Charlotte ? —

Falava Cristian para seu irmão o qual lhe diria a palavra.

— Bem senhores, eu tenho uma aposta mais alta, pois tenho certeza que esse cheiro funesto vem de nosso querido décimo terceiro, a final ervas daninhas tem um cheiro muito característico. —
Rebatia Haakon para seus irmãos que riam com essa afirmação.

Hans nada respondia, sabia que poderia ser muito pior caso o fizesse. As manchas escuras em suas costas ainda faziam lembrar disto. Ele então apenas desceu as escadas até o navio.

— E lá vai ele se esconder atrás de Lars de novo. É um inútil. —

Dizia Gustav que acabara de descer as escadas falando tais palavras em alto e bom som.

— Os inúteis aqui são vocês, seres vergonhosos. -

Os quatro olharam para trás e viam Dagmar com várias maletas de madeira e couro em suas mãos

— Parem de atormentar o pobre Hans e me ajudem aqui em vez de ficar apenas olhando. —

Ela então olhava para trás e ali ainda várias malas a serem postas no navio.

— O que ganhamos com isso irmãzinha ? —

Dizia Otto que também se aproximará no momento em que ela falava sobre as malas.

— Nada ganham, mas podem sim perder, pois vocês sabem bem o que eu sou capaz de fazer; sei muitas coisas do qual vocês desejam levar consigo para o túmulo, mas para mim não teria problema nenhum em revelá los. -

Era uma balela, ela sabia sim de muitas coisas, mas não o que eles mais temiam dizer. Mas eles achavam sim que ela sabia, então nesse caso era melhor obedecer.

— Obrigada. —

Dizia o pequeno Hans que tinha sua maleta entregue por Haakon que reclamava com seu típico tom ranzinza.

— Haakon, sé não sabe responder adequadamente a um agradecimento eu sugiro aprender. —

Lars sem dúvida era o mais equilibrado, polido e gentil de seus irmãos. Hans tinha ele como o mais perfeito exemplo do que queria ser.

Mas seu caminho daqui a alguns anos seria desviado para o pior exemplo que ele poderia ter.

— Sim, não precisa ter ciúmes Haakon. Escolhi Hans pois somos muito próximos. -

A voz doce e direta vinha de Charlotte que se debruçar em um canto do corrimão da grande escadaria do palácio.

— Não precisa tratar todos com desdém só porque você vai ficar aqui nesta terra amaldiçoada por Deus. -

Charlotte era uma jovem era de uma aparência angelical, quem a olhava poderia pensar que era uma dama mimada e apática.

Mas não.

A Princesa Charlotte era enérgica, agradável, e às vezes inocente como uma criança.
Mas também poderia ser atroz.

Ela sabia exatamente nas feridas que poderia tocar. E a maior ferida aberta era o fato de seus irmãos os estarem presos naquela terra do qual nasceram, não tinham permissão de viajar para longe, muito menos mudar se dali. O único jeito de sair era casando se com alguma estrangeira da nobreza; e não uma das muitas mulheres da vida do qual alguns deles já estiveram na noite.

Haakon queria responder lhe a altura, mas lhe faltava palavras. Havia acertado em sua ferida.

Cada um deles pegou duas malas e levavam até o navio junto com os marinheiros.

Em poucas horas teriam deixado o porto das Ilhas do sul, seguindo para o primeiro reino do qual visitaram.

Agora estavam ali em Arendelle, Lars via da janela de seu quarto a praça central da capital,que tinha o mesmo nome do próprio reino, uma praça enorme por sinal.

E estava linda, cheia das mais belas flores.

Em seus 24 anos nunca havia visto tantas. Algumas ele reconhecia de vista, outras de seus livros de botânica. A ciência sempre fora um ótimo passatempo.

Os príncipes e princesas das Ilhas do Sul tiveram todas as possibilidades em suas mãos.

Os maiores pensadores da atualidade eram chamados para dar aulas para eles. Eles aprenderam com os melhores de diversas áreas.

Mas os únicos que reconheceram essa oportunidade única foram Lars, Dagmar, Charlotte, Hakkon, Søren além de Hans.

Todos os outros simplesmente jogaram essa chance no lixo. No final das contas, não passariam de ignorantes. Tão ignorantes que mal se davam conta de suas condições.

Após se ajeitar ele descia as grandes escadas para ir até a estufa do castelo onde a flor de sua querida irmã se preparava para o concurso mais tarde.

Não devia sair, o gelo poderia se manifestar.

Mas há, como queria. Aquele céu azul a cativava, a chamava para sair e passear pelo jardim.
Ainda mais hoje que era o tão esperado festival das flores, seu preferido.
Mas o gelo dentro de si, remexia, ameaçava sair.

— Elsa ! —

Uma batida era ouvida em sua porta. Era Anna, lá estava ela novamente, clamando pela companhia da irmã mais velha.
Elsa então botava as suas luvas e aproximava da porta, e logo ouvi outra voz bastante conhecida.

— Acho que ela não vem Anna. —

Dizia o jovem príncipe com a sua característica voz míngua e envergonhada.

— Vamos Elsa, vamos ver as flores, o príncipe Hans disse que a irmã irá expor uma flor nova, ela deve ser linda e cheirosa. —

Dizia Anna com sua voz com o tom fantasiosa e extasiada, como se falasse de príncipes encantados, unicórnios e outras coisas encontradas em contos de fadas.

Mas aprenderá da pior forma daqui a alguns anos de que príncipes encantados não passa de ilusão e exatamente com o jovem ao seu lado.

— Na verdade é feia e fedorenta, mas mesmo assim interessante. —

Hans olhava o sorriso de Anna se extinguir ao ouvir aquelas palavras.

— Desculpe Anna, mas eu não posso, eu não estou me sentindo bem hoje. —

O que dissera não deixava de ser verdade, mas não tratava se de um enjôo ou qualquer outra coisa. Mas sim o gelo que parecia inquieto naquela manhã.

Após falar Elsa ouvia do outro lado da porta uma Anna reclamando e passos se afastando da porta, ecoando no piso de madeira do castelo.
As sombras que se projetavam pelas frestas da porta sumiram deixando apenas o mais profundo silêncio naquele corredor.

As horas pareciam passar lentamente, e da janela conseguia ver o porto com navios carregados de plantas e emaranhados em guirlandas de várias espécies de flores. Sem dúvida uma linda visão.

Mas um som ecoou pelo quarto. O som de seu estômago; estava morrendo de fome.

Ela se aproximava da porta e a abria, torcia para que Gerda ou Kai, ou mesmo seus pais estivessem por ali para ajudá lá. Mas não estavam, na verdade estavam longe naquele momento.

Então só havia duas escolhas, ou saia de seu quarto para comer ou ficava com fome até a hora do almoço que ainda demoraria, pois não passava das 9:30 da manhã.

Teria que ser rápida. E preferencialmente que ninguém a visse, pois tinha medo de se aproximarem e ela machucar tal pessoa.

Finalmente chegara na cozinha.
O cheiro que vinha de dentro era maravilhoso. O cheiro dos doces de Arendelle.

Ela entrava cuidadosamente e via que estranhamente não havia ninguém na cozinha, o que não deixava de ser um alívio.

Elsa então vai até um grande prato coberto com os doces. Logo após a primeira mordida ela ouvia a porta atrás dela se abrir e uma voz ressoar na cozinha e em seus ouvidos. Fazendo ela quase cuspir o doce assustada.

— E essa aqui Anna ? —

Era novamente ele, o príncipe indesejado.

Ele perceberá que não se tratava de Anna a sua frente, olhava constrangido quando percebia que a princesa Elsa estava "roubando" um grande prato de doces com a boca cheia.

E ela olhava igualmente constrangida ao encontrá lo com a sua boneca na mão, aquela boneca que sua mãe fez e que era tão parecida com ela, sua preferida.

— Me desculpe ! -

Dizia ele quase como um grito. Mas antes que Elsa tivesse chance de responder algo os dois ouviam passos no corredor.

Num impulso davam as mãos e se escondiam no primeiro lugar que viam. Abaixo de uma grande mesa coberta com um pesado pano no canto da cozinha.
Aquilo estava perigosamente divertido em suas concepções juvenis. Roubando doces e se escondendo.

Seguravam o riso desesperadamente enquanto ouvia se as cozinheiras gritarem sobre cada ingrediente, cada prato e cada porcelana que havia naquela cozinha.

Mas agora era a brecha, a porta abria quando um dos garçons entrava, ele segurava a porta enquanto pegava alguma comida daquela mesma mesa do qual Hans e Elsa estavam.

Eles então aproveitaram e saíram às pressas, rindo como duas crianças que eram. O prato de doces ainda estava nas mãos de Elsa, e a boneca ainda nas mãos de Hans.

Ele a seguia até uma área do jardim do castelo.

Sentando se em baixo de uma árvore florida ela nem perceberá que o gelo estava calmo, na verdade naquele momento nem se lembrará que havia uma "maldição" dentro de si.

Ali os dois conversavam, dividiam os doces entre si. Cada mordida uma frase ou gestos delicados de amizade que se formava.
Ou seria isso apenas ?
A final não são apenas as flores que abrem na primavera.

— E como é as Ilhas do Sul ? —

Elsa perguntou intrigada enquanto mordia mais um pedaço daquele doce e fitava seu cúmplice.

Ele parava e pensava em uma frase para referir se ao seu lar, haviam muitas que poderia dizer, mas a que mais lhe marcara era a que ouvira sua irmã Charlotte dizer.

— Amaldiçoada. —

Ele não olhava para a princesa ao falar isso, focava se em um ponto aleatório a sua frente. Mas se virasse seu rosto ele perceberia uma princesa chocada e confusa.

— Como assim ? Fantasmas ? —

Elsa era uma jovem cética, não acreditava em qualquer coisa, mas pensara consigo. Sé eu tenho poderes de gelo,porque fantasmas não poderiam existir ?

— Não, eu… —

Ele tentava arranjar palavras mas não nada em sua mente sobre como poderia explicar o que sentia.

— Eu não sei como explicar, sinto muito. -

Abaixava a cabeça e então sentia uma mão em seu rosto, estava coberta, mas mesmo assim percebia o quanto era fria.
Ele então olhava na direção de onde vinha aquela mão. Era a princesa que sorria a sua frente.

Ele não precisava explicar, sentia a angústia dele, pois os sentimentos que ela tinha também eram muito parecidos.
Palavras naquele momento não foram ditas. Apenas olhares trocados.

Ele segurava forte a boneca em seu colo enquanto via a princesa se aproximar gentilmente para dar um beijo em sua testa. Mas, mais num impulso ele desviou o rosto. Mas para cima, fazendo que os lábios da princesa tocassem nos seus.

Os lábios dela eram frios, e tinham o gosto do doce de Arendelle.

Um gosto do qual ele jamais se esquecerá.

Mas antes mesmo que qualquer um deles tivesse a capacidade de perceber o que realmente acontecia, soltaram se,assustados pois ouvi alguém pigarrear atrás deles.

Era Lars, e aquele sorriso que ele dava fazia Hans querer cavar um buraco no jardim e se enterrar ali mesmo.

— Perdão vossa majestade, mas preciso da ajuda de meu irmãozinho no momento. —

Disse ele com um sorriso tanto divertido quanto enigmático.
No fundo ele ria daquela situação esdrúxula,a final não é todo dia que pegava o seu irmão mais novo dando o primeiro beijo.

Elsa apenas desviou o olhar para o chão de grama verde,que contrastava com a sua pele vermelha naquele momento.

Enquanto Hans também nada disse.
Ele apenas se levantou dali e antes de sair virava se para Elsa tomando lhe a mão dela do qual descobria a luva.

— Majestade. —

Dizia ele do modo mais formal que conseguia naquele momento e então beijava lhe a mão.

Elsa ainda desorientada o via se afastar com Lars.

O jovem também estava no mesmo estado que ela, desorientado. Pois algo que desconhecia estava em seu coração, algo bom, mas que lhe dava muito medo.

Algo que alguns poetas diziam ser culpa da primavera.