Cantigas de Medo


“E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos”
-“O medo”, Carlos Drummond de Andrade

E Deus disse: “Faça-se a luz!” e a Luz se fez. Junto com ela a possibilidade de ver o universo, os anjos, os Céus; as trevas, o Inferno. Então, seja por vários rabiscos, seja por perfeita geometria, nasceu o Homem.

Um dia, um homem gritou em horror. Depois outro perdeu a voz. Um terceiro disse: “Estou com medo”. E aos poucos, com calma e uma gentileza perversa, os assombros se misturaram ao pânico e ao terror, costurando uma criatura que tinha Luz, tinha Trevas e tinha muito Medo.

A criatura tinha lábios cadavéricos e uma pele muito branca. O esqueleto parecia de porcelana, prestes a se quebrar e se romper, destruindo toda uma vida consigo. (Oh, que medo!). Lembrava toques de morte, como se o Ceifador tivesse orientado cada linha que construiu aquele rostinho, assustador de tão frágil e bonito.As orelhas eram pontudas e incompreensíveis pelo natural humano: eram diferentes, não pareciam ter sentido. (Oh, que horror!Fuja, não é humano!). As roupas eram brancas confundidas com preto no início, mas logo o ébano assumiu, quando os homens passaram a acreditar que entendiam mais a luz do que a Escuridão.(E as crianças choraram quando a luz foi apagada).

A princípio, a criatura se escondia numa caverna, na qual havia um animal feroz no interior. Seus gemidos de agonia não eram ouvidos, sendo sempre abafados pelo rugir da fera. A seguir, surgiu um castelo no alto de um precipício, no meio de uma tormenta. A criatura dividia espaço com um Conde perturbado, que gritava no auge de loucura e sofrimento, precisando de sangue para atingir a redenção e sensível demais para sair ao sol.A criatura alimentou-se dos suspiros do Conde, dos rugidos de lobisomens, da imaginação, tornando-se uma síntese maior e mais perfeita do Medo.

Criatura caminhava pela noite e mordia alguns sonhos, que viriam a se chamar pesadelos e compor as lágrimas de Criatura.

Tinha Medo pulsando em suas veias de matéria morta. Tinha Medo escorrendo por sua alma. Precisava de Medo para se construir, para se manter. A cada século, um medo diferente. Certa vez, até costurou asas negras às suas costas.

Mas enfim, um dia se encontrou sozinha novamente, e se viu presa em puro cansaço, sem conseguir se mexer de exaustão, sem ter a mínima idéia de onde poderia estar. Perdida em algum lugar do mundo poderia ser um começo.

Alguém estava rindo. Virou-se. Era uma menina, uma gracinha: bochechas coradas, boquinha rosada, madeixas louras. Criatura tentou sorrir de volta, todavia, a criança começou a gargalhar e apertou as orelhas pontudas e esquisitas. A criatura gemeu, seu costumeiro ruído de profunda angústia e confusão. As risadas ficaram mais altas, e a menina se afastou, correndo e não cabendo em si com tanta diversão.Que criatura estranha! Pálida, de orelhas pontudas, vestida de preto! Não existia, era uma miragem, só poderia ser.

Criatura soluçou baixinho, baixinho.

Um tempo depois apareceu um garoto. Apontou e gargalhou, porém gritou por mais amigos. Todos se amontoaram em torno da Criatura, alguns com um olhar mais curioso, outros criando uma algazarra infernal.

-Disseram que essa criatura já vagou pelas sombras.

-Rastejou por florestas assombradas.

-Beijou Fantasmas.

-Tomou chá com a morte.

-Riu-se das bruxas.

-Assistiu aos assassinatos.

-Foi cúmplice de pesadelos.

-Se alimentou de monstros.

-Se esgueirou por pessoas. Algumas com cara bonita, outras tortas, outras más.

-Nossa, pessoas!

-Quem tem medo de pessoas?

-Quem tem medo da Criatura?

-Eu que não!

-Eu também não!

-Nem eu!

E correram, rindo, apontando, e se divertindo.

Criatura soluçou baixo.

Houve um casal,a mãe segurando um bebê no colo. O infante apenas dormia, o pai encarava criatura com um olhar intimidador. Criatura sentiu um gosto de medo para lamber e apreciar, mas achou melhor não se aproximar do bebê e apenas se encolheu em seu canto, abraçando os joelhos.

-Dizem que você não fala. Será? O que faz o dia todo ai, Criatura? Fica encolhido? Rasteja pelas sombras e fisga corações humanos? É o que dizem por ai. Ou diziam, Criatura, já faz anos que não ouço nada sobre devoradores de alma ou comendadores do Diabo.

-Nem morte, só natural. Nem ameaças, só circunstancial.

-Você finca seus dentes nos pesadelos? Você consegue caminhar por entre o pânico e o horror? Você é a fusão de todos os medos? Você é o terror ímpar dos homens, dos animais, e de todo ser vivo? Ou até das ilusões? Aliás, as ilusões se dobram para você? – A mulher riu.

-Você é uma Criatura tola e sozinha. Eu já quis te ver quando era pequeno, já ouvi falar da criatura. Mas você é uma massa mal feita e tonta. Um monte de retalhos. Medo, assombro, se rastejando por entre a agonia, o sofrimento e o bizarro. Patético. E agora que um adulto está aqui, todos os medos se foram. — O homem gargalhou e eles se foram.

Criatura soluçou.

Um dia apareceu outra criança. Criatura a olhou pelo cantinho dos olhos, já abraçando o próprio corpo.

-Você é engraçado. E bobo. –Riu e deixou cair um espelho.

Criatura se olhou. Criatura era uma soma de medos e pesadelos. Uma colcha de retalhos. Era ridículo, assustador e surreal demais. Era bobo.

Criatura levou a mão ao peito e não proferiu nenhum som.

De repente, uma sombra se fez sobre Criatura. Com alguma hesitação e uma delicadeza particular e silenciosa, Criatura levantou o olhar, tentando encarar a origem da penumbra. E rastejou um pouco para tentar se aproximar mais. Deparou-se com um homem, ou melhor, com as botas de um homem.

-Criatura? – Ele chamou.

-... – Assentiu, ainda em sua mudez.

-Seu nome é Criatura e eu te trato por ‘ele’, porque é o ‘Medo’ e não a “Meda”. Entendeu?

-...

-E eu sou seu Mestre. Responda-me quando falo com você, Criatura. – Ele tocou o queixo de Criatura e acariciou a pele fria e desagradável. Sentiu o perfume de flores de funeral e substâncias exóticas e perigosas.

-Sim, Mestre.

Ele sabia que Criatura era tonto, surreal, incompreendido e perdido. Precisava de um rumo, era horror demais num corpo muito pequenino e quase frágil de se olhar. E tremia! Como Criatura tremia, de frio, mesmo quando estava sol, de nervoso, mesmo quando tudo era calmo, de fome, de sede, de sujeira, sempre, sempre e sempre.

Mestre colocou Criatura em uma coleira e algemou suas mãos. Não passava mais de um servo, mas um servo com um rumo. Criatura caminhou longas trilhas ao lado de Mestre, a princípio sem compreender, apenas se exaltando com a possibilidade de falar, se alimentar de pesadelos e terrores noturnos, por mais que lhe fosse proibido se aproximar dos horrores do Mestre.

Criatura quase mordeu um temor uma vez, mas o mestre riu, então, a criatura se afastou.

Algumas vezes, era Criatura quem guiava a dupla, rastejando pelas sombras, se agarrando à escuridão e lambendo os compostos do mais puro terror.

Em um episódio, chegaram ao alto de uma colina. Criatura abriu os braços e sentiu o vento passando por seus cabelos, fraco demais para carregar os medos de sua composição. Ao contrário, só o alimentava mais e mais.

-Medo de altura?

Criatura assentiu com a cabeça e respondeu um submisso ‘sim, mestre’, ainda que alegre.

Criatura costumava receber um afago ou outro na cabeça, e o Mestre mantinha o rosto sério. Criatura atirava-se aos seus pés, abraçava suas pernas, roçava a cabeça em sua pele, beijava suas botas várias e várias vezes, sem nojo, sem vergonha.

Sôfrego e urgente. O Mestre gostava de ver os medos assim, ainda mais dominados e atirados aos seus pés, expostos e implorando por sua atenção, desesperados por um rumo.

Mestre e Criatura chegaram a uma cidade. Criatura abraçou a cintura do mestre e se escondeu, apavorado e tímido. Risos, ouviu risos por todo o lado. Bobo, bobo ecoando pela eternidade.

Mestre deu-lhe um costumeiro carinho nos cabelos e sussurrou para que apenas obedecesse.

-Sim, Mestre.

Havia guardas na cidade. No entanto, ninguém se opunha a Mestre, porque Mestre era forte, Mestre dominava todos os medos e então merecia o mais profundo respeito. Criatura caminhava ao seu lado, encolhido e constantemente desesperado, sem poder abocanhar um mínimo temor para se manter.

As pessoas os encaravam. Faziam reverências a Mestre, enquanto ele apenas tirava o chapéu e sorria em superioridade. Riam de Criatura, enquanto ele tentava se encolher e Mestre o expunha, mais e mais, balançando as correntes para que o som metálico chamasse atenção. E assim, aos poucos, uma multidão se acumulou, gargalhando, apontando e fazendo sinais de respeitos, numa balburdia confusa.

Criatura queria gritar. Mestre o amordaçou e sorriu.

A multidão foi ao delírio.

A soma de todos os medos era ridícula! Abocanhava pesadelos e dançava ao som do horror, mas vejam, era dominada tão facilmente! Era um tolo, um desgraçado tolo.

Mestre aplaudiu e a população o acompanhou. Mais que isso, dançaram, alegres, vendo o domínio do medo e podendo se sentir fortes e superiores. O homem acariciou os cabelos de Criatura e deslizou o indicador da outra mão por seu rosto. Não havia lágrimas.

Então, na atmosfera repentina a qual lhe era característica, Mestre arrancou a mordaça. Assoviou e pediu silêncio. Bateu as mãos e endireitou Criatura no centro do círculo. Segurou Criatura pelo queixo e o puxou para baixo, fazendo-o abrir a boca e mostrar os dentes. Pontiagudos, como era de se esperar.

Houve um principio de riso, calado prontamente por um movimento brusco da mão de Mestre.

-Olhem com bastante calma. O que pensam dessa criatura?

-Bobo.

-Estúpido.

-Irreal!

O sorriso de Mestre se tornou perverso.

-Vocês não têm a menor atenção. Riem e dançam, mas não compreendem nada. Não é, Criatura?

-Sim, mestre. Eles riem e dançam e nada compreendem.

-Essa Criatura é o Medo. Gritem, chorem, vocês são fracos e riem diante da desgraça, até ela se aproximar. E vejam, Medo está tão próximo de vocês, pronto para morder seus sonhos...

Uma exclamação de espanto.

-...destroçar suas esperanças...

Um grito.

-...destruir suas expectativas...

Unhas roídas, carne mordida até sangrar.

-...mostrar que vocês são fracos e nunca poderão fazer nada além de gritar e sucumbir.

Desmaios, pânico.

-Vocês são assustados e inúteis diante de seus Medos.

-Vai ficar escuro, a morte vai se aproximar, seus entes queridos vão morrer. Vocês vão ficar no alto de um penhasco, perdidos na floresta, agonizando, errados, ofendendo a todos, sem amor, sem carinho. Seus sonhos não significarão nada. – Criatura falava tudo quase mecanicamente, como se aquilo estivesse em sua essência e até certo ponto, como se mestre estivesse controlando as cordas de uma linda marionete.

Os habitantes da cidade começaram a correr e fazer alarde. Abraçavam quem podiam, buscavam conforto no calor humano. Todavia, nada detinha o avanço de Criatura, que caminhava em direção às pessoas, ouvindo berros e urros de dor com sua aproximavam, algo que desafinava em muito quando comparado à risada ritmada de Mestre.

Não mais chamavam Criatura de idiota ou bobo. Não mais arquitetavam um galhofa insultante com sua presença.

-Por favor!- Diziam, quando Criatura estava prestes a tocar o choro deles com a pontinha dos dedos.

-Socorro!

E Mestre guiava Criatura por entre as ruelas do lugar. Divertia-se com as pessoas correndo e tentando escapar de seus temores, tão fracas e insuficientes. Nunca conseguiriam, pobrezinhas, sempre teriam pelo que gritar, sempre haveria horror nesse mundo. Criatura continuaria se alimentando e somando mais terror à sua constituição.

Enquanto isso, todos se atiravam aos pés de Mestre e imploravam desesperados para que ele afastasse Criatura, para que fossem para longe. Ele era o único capaz de domar Criatura e o Medo, podia controlar tudo e a todos.

Todos eram subjugados por seu poder.

E assim, Criatura e Mestre vagaram por várias cidades. Criatura aterrorizava os guardas, fazia pessoas se perderem e angustiarem, até agonizar em medo e perderem a consciência de tantos pesadelos. Mestre guiava Criatura. Mestre decidia o futuro. Mestre era mais forte, cada vez mais. E todos se atiravam aos seus pés e beijavam seu chão.

E assim foi, até Mestre não enxergar mais graça naquilo. Aquele domínio pelo medo cansou, simplesmente. Ele precisava de outra forma de poder, quanta complicação.

Logo, ele soltou as correntes de Criatura e saiu caminhando, cada vez mais rápido, mas sem correr. Criatura o seguia, tímido e confuso. Até que um dia, Mestre prendeu uma corrente no tornozelo de Criatura e a outra ponta da corrente fincou em uma árvore.

E saiu andando, como se nada nunca tivesse acontecido.

Criatura apertou o peito. Depois esticou as mãos, tentando alcançar Mestre. Atirou-se nele, e felizmente ele ainda estava ao seu alcance. Criatura abraçou suas pernas como costumava fazer, roçou a cabeça em sua coxa, beijou suas botas, beijou-o como podia, abraçando, implorando e não querendo vê-lo partir.

Então falou a única coisa que poderia:

-Você volta?

-Volto. — Criatura sorriu em resposta. – Mas não para você.

O Medo ficou sozinho. E o medo se assustou com a solidão.

E o Medo aprendeu a ter medo.

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