Naquele dia, decidi tomar o café da manhã da varanda. Havia uma mesinha grande o suficiente para colocar a tigela de cereal lá enquanto eu tomava meu café com leite. Precisava reunir toda a energia possível para o caso de Johnny tentar me agredir.

Quando terminei de comer, joguei-me contra a cadeira e pensei novamente na decisão que estava tomando. Johnny não era o tipo de cara que costuma voltar com as ex-namoradas.

Mais importante que o fato de Johnny poder me bater ou o de eu querer voltar e ele se recusar, porém, era a minha liberdade. O cara não me deixava ter minhas opiniões ou ser quem eu sou.

– Você não vai a essa festa! – gritou ele.

– Vou sim, idiota! É a festa da minha irmã!

– Não, porra! – E me deu mais uma surra.

Aquilo fora a gota d’água. Após 2 meses aturando um cara controlador, violento, bruto e idiota feio Johnny, aquele era o dia do fim.

Levantei-me e entrei na casa. Lavei a louça e fui trocar de roupa, indo para o carro em seguida. Enquanto dirigia, lembranças dos 2 meses de meu namoro com Johnny, que estava prestes a acabar, vinham à minha mente.

Estávamos andando pelas calçadas do centro da cidade quando um Johnny viu um cara me fitando.

– Ei, seu filho da mãe! – gritou ele. – Para de pagar pau para a minha namorada!

– Ei, cara – respondeu o garoto. – Eu nem estava olhando para ela... A culpa não é minha se vocês estão em frente à loja de...

– Filho da mãe! – Ele deu uma surra no pobre garoto.

– Johnny, para com isso! – gritei.

– Não se meta nisso, Mandy!

– PARA COM ISSO!

– Não se mete, porra! – E ele me bateu também.

Eu devia ter terminado logo naquele dia, mas, ao invés disso, o perdoei. Que idiota eu fui, pensei.

TOC TOC!

Pausei o filme e fui até a porta. Quem seria àquela hora?

– Quem é?

– Sou eu, gata. – Era Johnny. Abri a porta e ele entrou de supetão. – Precisamos conversar.

– Sobre o quê?

– Sobre você.

– Qual o meu problema?

– O seu problema? Você ser quem você é não basta?

– Eu ser quem eu sou... – Sentei-me no sofá da sala. – Poderia me dar mais detalhes? Quer dizer, o que há em mim que não te agrada?

– Você é controladora, mandona, rebelde, oferecida, reclamona...

– Correção: eu quero ter minhas opiniões, ter algum controle na relação, tenho um personalidade fora de seus padrões, não tenho culpa se os caras babam pelo meu corpo... E você é um porre. Por que eu não reclamaria?

– Acha mesmo que pode tomar decisões? Comigo, gata, você não manda. Sou EU que mando. Você é mulher, foi feita para obedecer a nós, homens. Especificamente, ME obedecer. E isso inclui se encaixar no tipo de garota que eu curto: certinha, submissa e que faz comida para mim. Só não mando você ajeitar esse teu corpinho porque é a única coisa que me faz ficar contigo. Captou a mensagem?

Revirei os olhos. Ele agarrou meu pescoço.

– NEM PENSE EM REVIRAR OS OLHOS PARA MIM DE NOVO! – E me soltou. Eu estava sem ar. Logo em seguida, foi embora.

No dia seguinte, foi o episódio da esta da minha irmã. Some essas 2 coisas e pronto: não dava mais para aguentar.

Perdida em lembranças, quase passei direto pela casa de Johnny, mas freei a tempo. Olhei no relógio. Dez e meia da manhã. Não sabia se Johnny estava acordado ou não, então estacionei meu carro com cuidado no meio-fio, saí e olhei pela janela para ver se conseguia detectar sinal de vida.

Não havia nada. Ele devia estar dormindo. Voltei ao carro e fiquei esperando até meio-dia, quando o vi pela janela da cozinha. Conhecendo-o bem, eu sabia que ele só ia à cozinha após tomar um banho megagelado e vestir uma roupa que diga eu-sou-fodão. O que significa que ele estava acordado o bastante para levar um fora.

Desliguei o rádio e saí do carro, sem me dar ao trabalho de fechá-lo. Se eu precisasse sair correndo da ira do Johnny, o carro estaria lá, de braços abertos para a minha pessoa.

A não ser que o roubassem. Mas isso já era outra história.

Inspirei e toquei a campanhia. Meio minuto depois, Johnny a abriu sem perguntar quem era.

– Bem na hora, gata.

Entrei sem cerimônia, ignorando seu comentário idiota, e fui direto ao ponto:

– Acabou, Johnny. Eu e você... Terminou.

Ele me olhou como se eu tivesse dito que ovelhas são azuis e comestíveis.

– Está me dando um pé na bunda, Mandy? – Ele disse com aquele tom de eu-sou-fodão que sempre usava.

– Sim, Johnny, eu estou te dando um pé na bunda. E não tem volta. – Ele cerrou os punhos e ficou em posição de ataque. – Acha mesmo que vai me intimidar desse jeito? Não, Johnny. Você não me assusta. Não mais.

– Vadia filha da puta! – Ele se jogou em cima de mim e começou a me espancar. Não dava para me defender; ele era forte demais.

A coisa piorou quando ele começou a desabotoar minha calça. Eu sabia o que vinha em seguida; eu não era burra. Tanto que sabia como impedi-lo.

O chute foi certeiro. Johnny caiu ao meu lado, contorcendo-se de dor. Aproveitei e saí correndo. Não era fácil: cada músculo do meu corpo doía, pedindo que eu parasse. Mas eu não podia. Se eu quisesse chegar viva à delegacia, não podia parar de jeito nenhum.

Graças a Deus o carro estava lá. Entrei, pus a chave na ignição e pisei forte no acelerador.

A delegacia mais próxima ficava a 10 quadras dali. Cheguei lá acabada. Precisei de toda a energia do mundo para me levantar e caminhar (aos tropeços, devo admitir) até a porta, onde desabei. É, Johnny me espancara feio mesmo.

Havia 2 policiais perto da porta, que me pegaram e me deixaram numa cadeira. A delegada perguntou se eu estava bem.

– Acho que “bem” é a palavra que menos me descreve agora. – Ri sem emoção. – Vim aqui denunciar meu ex-namorado...

Contei toda a cena de minutos antes, e o que Johnny costumava fazer comigo quando eu não agia conforme seus padrões de gata-gostosa-submissa nem fazia o que ele queria.

– Tudo bem, Srta. Mandy – disse ela por fim. – Como esse Johnny parece ser muito perigoso, vou lhe por no programa de proteção de testemunha, ok?

– Sim, obrigada, delegada. – Não que eu tivesse medo do Johnny (até que eu tinha um pouquinho), mas é que... Vai que ele tinha uma gangue e mandava me matar. Nunca confie em caras que fazem o tipo eu-sou-fodão. Nunca mesmo. – Er... Ouvi dizer que as testemunhas nesse programa de proteção têm que sair do país, né?

– Sim... Alguma preferência?

– Desde que não me mande para o Brasil, por mim tanto faz. – Brasil era meu país predileto, e Johnny sabia disso. Quando ele descobrisse que eu havia saído da cidade, o 1º local em que ele procuraria (ou enviaria seus capangas para me procurar) seria o Brasil. Eu não era burra nem idiota. Sabia o que fazia.

– Tudo bem. Deixe-me ver os melhores locais... O que acha de Frankfurt, Alemanha?

Sorri. Uma das coisas que Johnny não sabia sobre mim era que eu já estivera em Frankfurt. Meu sonho era voltar lá. E agora podia morara lá. Claro que aceitaria, não?

– Aceito, delegada.

Notas finais
Críticas, elogios, sugestões, correções, deixem reviews!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!