Cansaço Mental
2 O ninho
Notas iniciais
Sobreviver é quase impossível. Ainda assim, é melhor que a morte. Por isso estou aqui, fazendo um favor a minha essência: Sobrevivendo. Mesmo com toda essa pressão que existe sobre meu ser, e acredito que ela exista sobre todos nós, não podendo falhar em nenhum minuto da vida para não sermos julgados pelo resto dela.
Já repararam que é fácil ser julgado, não é? Ainda mais se você tem mais de 18. É, a vida real começa aos 18, meus amigos. Saia do colégio, escolha uma faculdade, arrume um emprego, case, tenha um filho, tenha outro filho, faça seus filhos serem brilhantes, além das menos importantes, como ter uma vida social, fazer amigos, ser feliz... O facebok está aí para provar que ser feliz é necessário, impondo através de sua timeline a ditadura da felicidade (todo mundo tem uma vida perfeita no facebook, já repararam, eu sei).
Bom, acontece que não é exatamente assim que acontece na minha vida. Não, senhor. Eu com todos os meus vinte anos, conseguindo até agora um trampo de secretária durante meio período em uma escolinha de futebol, decidindo qual curso superior fazer somente depois de quase quatro anos de conclusão do ensino médio, e ainda morando com a mãe, decidi que iria fazer algo para mudar minha vida. Decidi mesmo. O quê, eu ainda não sabia. Mas iria fazer. Chutar o balde de vez, por exemplo, fazer algo inovador, foda-se tudo. Abandonar tudo e sair em uma turnê pela Europa sem dinheiro nenhum, quem sabe.
Eu juro que estava completamente decidida a fazer tudo isso, sério. Quando cheguei em casa, pontualmente às treze horas, como ocorria todos os dias, lá estava o que me impediu, em cima da mesa, um boleto para ser pago. Aí está ele, o capitalismo, obstruindo todos os meus ideais em segundos, como sempre. Segurei o papel com pesar. Sim. Contas. Sempre existem, parecem não ter fim. Respirei fundo. Caminhei pelo corredor minúsculo da minha casa até o esconderijo, peguei o valor a pagar, e sai em busca de uma lotérica para quitar mais uma divida.
Pobre de mim. Aquele olhar de indiferença e frustração a minha casinha seria o último, mas óbvio, eu não sabia. Ninguém nunca sabe. O último olhar, a última conversa, o último beijo. Ninguém nunca sabe.
Estava eu, caminhando em direção à lotérica, atravessando a rua sem prestar muita atenção, quando olhei para o lado. Aquele momento ocorreu em milésimos de segundos, porém, para mim, demorou a eternidade. O carro preto, com vidros esfumaçados já estava a centímetros de mim, o som do pneu cantando, na tentativa de frear foi ensurdecedor, o impacto sobre minhas costelas foi tão intenso que achei que morreria só com aquilo, e então, mais um choque, minhas costelas batendo no chão e por último, minha cabeça. Minha última visão foi da porta do carro se abrindo.
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Gemi, sentando bruscamente. Olhei ao redor, eu estava em uma espécie de cesta. Ok, olha a viagem. Eu realmente estava em uma cesta imensa, com uns cobertores brancos em baixo de mim. Levei as mãos na cara, coçando os olhos para que tudo isso sumisse e a realidade voltasse a mim. Adivinha? Eu ainda estava dentro de uma cesta enorme. Olhei para cima, cordas saindo da cesta estavam presas em um troco gigante de árvore e mais acima estavam às copas cheias de folhas verdinhas e que tampavam um possível céu.
-Não pode ser real. – sussurrei, fechando os olhos com força.
— O que não pode ser real?
Um calafrio passou pela minha espinha e por um momento cogitei a possibilidade de não abrir os olhos. Era uma voz, de uma pessoa, parecia ser de uma mulher. Ainda com os olhos fechados, meu corpo ficou mole e não consegui me sustentar sentada, cai de volta nas cobertas brancas.
-Oxi, desmaiou de novo? – a mesma voz perguntou, e eu não ousei abrir os olhos, nem se eu quisesse eu conseguiria abrir, estava assustada demais.- Essa não vai conseguir sair do ninho tão cedo.
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