Cansada

1 Capítulo único- Eles conseguiram te afastar de mim


Notas iniciais
Aquela amizade antiga, de anos, você sabe quanto tempo ela vai durar?

Lembro-me como se fosse ontem como quando nos conhecemos, lá mesmo, no facebook. Eu havia entrado de férias e para resumi-las, ficava o dia todo lá nos RPGs (role-playings-game, ou jogo de interpretação). E como você já sabe, eu sou um desastre de pura desorientação e falta de atenção e não vi em que post estava comentando. O que foi bom? Uh, digamos que sim. Pois aquele engano me fizera sorrir por quase dois anos, não é?

Você estava lá, eu lembro. Quietinho, apenas observando a cena sem comentar nada. Seria apenas uma interpretação normal da nossa querida amiga Ana com um garoto do qual nome não me recordo mais, porém, eu comentei lá também. No começo até pensei em apagar o comentário, mas nós começamos a conversar ali mesmo, no post.

“Me adiciona” — ela disse, e logo mandei uma solicitação de amizade, que foi respondida. Começamos a conversar e, eu ainda não sabia sobre você. Eu não imaginava te conhecer, por outro lado eu estava feliz e conversando com minha talvez nova amiga.

“Você tem Skype?” — ela perguntou, eu digitei que sim e logo fizemos uma chamada, havia três pessoas lá do outro lado: Ana, seu irmão e o primo. Havia sido uma chamada divertida, eu ri bastante. Porém como não tinha webcam/microfone eu apenas digitava no chat. Até porque, você sabe que eu odeio a minha voz.

Passado alguns dias, Ana me colocou em um grupo de chat no Skype onde tinha alguns amigos que ela acabara de conhecer, e você estava lá. Comecei a conversar, um pouco sem jeito, eu tinha apenas quatro amigas na época: duas da minha antiga escola (da qual mudei-me há um ano, na época que nos conhecemos) e duas da nova, e se não fosse por uma delas, eu não teria voltado a encenar nos RPGs. Voltando ao assunto, no grupo havia aproximadamente seis pessoas, nomes cujo não tem tanta importância agora.

Eu realmente detestava ser contrariada, ou colocada á prova. Mas, por um lado, eu adorava contrariar e por outras pessoas a prova, por isso geralmente havia sempre discussões entre mim e Gabriel, garoto do grupo. Eu não me lembro sobre a nossa primeira conversa, para falar a verdade. Mas eu sei que em um momento, nós falávamos do anime Naruto e sobre qual casal achávamos melhor. Eu e você achávamos que o par ideal para ele era sua paixão, Sakura, mas isso não vem ao caso agora.

Eu me lembro de que recebi sua solicitação um mês depois, no facebook. Já havíamos encenado juntos, mas eu não sei por que não te adicionei. Nós éramos tão jovens. Você tinha quatorze anos, e eu doze. O tempo foi passando, e depois de vacilos de ambos os lados, brigas, discussões, mágoas, risos e entre outros chegamos a era moderna.

Estávamos em novembro de 2015, você iria fazer dezesseis anos daqui á três meses. Conversávamos normalmente, eram tempos difíceis, pois as aulas estavam acabando e nossa situação não era a das melhores, e por morarmos praticamente um país todo longe um do outro, a sua vergonha e minha péssima voz limitavam-nos ao pequeno cubículo que era o bate-papo. Havia estranhado seu comportamento, sabe aquela sua amiga? Com quem você saía quase todos os finais de semana, só que namorava um de seus amigos? Você havia estranhamente falado dela sem parar naquela semana. Ok, eu não posso por a culpa em você, desde que ela estava quase completando um ano de namoro com ele eu dizia que eles não eram feitos um pro outro, que ela era a sua garota.

Será que eu fiz uma pressão psicológica forte demais pra você? Será que o destino estava a seu favor? Ou será tudo apenas, uma coincidência? Eles acabaram terminando. Demorou muito tempo, mas ela se recuperou por que você é incrível e ajudou ela, como sempre fez comigo e eu nunca soube como te retribuir se não pelo amor de irmã que sentia.

Até que, depois de muito tempo insistindo e repetindo “vocês tem que ficar juntos”, eu recebo a notícia, ou melhor, o print da conversa. A profecia se cumpriu. Agora, você e ela estavam juntos, oficialmente. Namorando, para ser clara. Sorri e mandei minhas felicidades, a mente inocente desfrutava de sentimentos bons, que resultavam em dedos teclando palavras positivas e de bom grado. Mas eu sabia, que como todos os seus outros namoros, nossa convivência iria mudar.

Uma hora ou outra eu sabia que você me abandonaria, largaria, e mesmo que eu chorasse lágrimas de sangue você não poderia ver minha dor, tampouco senti-la pois estaria ocupado demais pensando em viver para sempre com ela. Isso me deprimia. Comia-me aos poucos. Meus esforços foram ficando gastos, até então você tinha um mês de namoro pelo o que me lembro de apesar do fato ser recente. Até que, você fez uma pré-deixa.

Não me dava atenção, não me chamava mesmo que eu estivesse o dia todo online. Você só tinha olhos para ela. Eu logo desabafei com ela, pois apesar de tudo eu não a culpava e tínhamos uma relação estável como cunhadas. Uma vez você me disse que não ia me deixar que não fosse parar de falar comigo e que se importava comigo, claro, depois de ouvir um bom desabafo. Eu não consigo entender ainda, por quê? Por que me escondia às coisas? Você sabe que eu não queria fazer mal, apenas quero que fiques bem. Você mesmo disse que estava se comportando como um idiota certa vez, e que mesmo assim eu me mantive ao seu lado, o que foi diferente DELA que na primeira chance que teve, desistiu de você.

Eu não queria ser mais que ela, eu queria estar à altura dela, eu não quero ser deixada para trás como você deixou Ana. Mas foi ali, está gravado, no dia vinte e seis de novembro, no seu aniversário de namoro é o dia em que você comemora, enquanto eu e Ana choramos com o rompimento eterno da nossa amizade.

Porém, dizem que o tempo passa, não é mesmo? E ele passou e então chegamos há um mês e nove dias depois. Era janeiro e no nono dia do ano, eu pude sentir uma dor, uma parte de mim se apagando e indo embora. Foi o dia que você me deixou.

Conversávamos como sempre, eu havia falado para você ir comer na mesa com sua família, porque perigava cair toda a comida do prato na mesa do computador, mas você não me deu ouvidos e meu único recurso era ela. Eu pensava que ela poderia me ajudar, mas ao contrário, com desdém ela menosprezou a ideia. O que me deixava extremamente irritada. Eu estava cansada do jeito whatever dela, e estava na hora de você saber disso.

Estava na hora de você saber o quanto ela te chama de anoréxico, magricelo, estranho e com voz feia, enquanto eu te achava lindo e com um sotaque encantador. Estava na hora de você saber que por ela, você teria reprovado de ano, mas por mim, por minhas palavras, você abriu sua mente e estudou. E estava na hora de você saber que ela adora xingar-te pelas costas, mas se recusa a ajudar-te a mudar, até porquê, você queria mudar-se fisicamente para agradá-la. O que não era nada correto.

Mas ao invés de ouvir-me como todas as noites, o que fizeste? Trataste-me com desdém, dando pouca importância as minhas palavras, as minhas súplicas, e então? Eu estourei. Como toda Mônica irritadinha do vestidinho vermelho, eu me exaltei. Comecei a contar-te, falar-te friamente o que ela dizia, e você parecia apenas copiar meu texto e mandar no chat da sua estupenda namorada, ah, às vezes eu concordo com seus amigos quando eles lhe chamam de PAU MANDADO.

Você soltou-me palavras tão frias, tão cruéis, você não era o mesmo, o que é óbvio, ordens da grandalhona, que adora bater nas pessoas, Andressa! Porém, mesmo que eu soubesse que você apenas estava sendo um fantoche nas mãos dela, eu realizei o objetivo dela, feri-me.

Meu consciente estava exaltado, eu não digeria ideias sãs de respostas, a visão já embaçada de lágrimas, então, mesmo que eu corresse por muito tempo atrás de você, sempre te reerguendo quando caindo, dando opiniões talvez sensatas ou não, eu estaria lá, correndo, mas hoje a corrida acabou. Por que eu cansei.

“Eu cansei” – te disse, e mais que eu houvesse tentado explicar, você apenas dava control c control v no que ELA digitava. Logo, eu não tinha mais esperanças, eu já havia brigado com Ana a um certo tempo, ela havia simplesmente desaparecido da face da terra e eu havia ficado irritada por coisa pessoais, então você era o único que me restava, eu não considerava Andressa mais nada, e ao ler então as seguintes frases, eu não tive outra escolha.

“Não leve tanto a sério”.

Tem-se algo incomodando meus amigos, vou tentar ajudar. Isso está escrito no contrato de amizade quando as pessoas ficam amigas. Eu só queria que você soubesse que estou me importando com você.

“Não precisa, sério”.

Você mais do que ninguém sabe da minha teimosia, sabe que eu não iria desistir tão fácil. Eu não me arrependo, por que eu disse tudo que não havia coragem suficiente para dizer-te antes.

“Se eu estou dizendo que não, é por que não”.

Eu não quero ser inútil na sua vida.

“Você está somente falando comigo, já é uma ajuda”.

Eu já estava em prantos àquela hora, mas eu não queria que ninguém desse lado de fora da tela percebesse. Sem ter o que fazer, disse:

“Então tá”.

Ele realmente tratou-me como se tivesse acabado de repreender uma criança, coisa que eu achava-me completamente.

“Tá bom?”

“Tá. E desculpa”.

Eu já havia pedido minhas desculpas. E não por simplesmente por querer influenciar suas escolhas, mas por simplesmente porque havia adentrado sua vida, durante dois longos anos. Desculpa por tudo que eu tivesse feito, dito, omitido e entre outros. Desculpa por fazê-lo saber da minha existência.

“Não fica mal ._.”

Ele disse. Por que ele me conhecia bem. Ele sabia que isso não seria fácil para mim, minha mente era tão fechada e meu único objetivo era deixa-lo feliz. Mas esse era a vida dele, ele não era meu fantoche. Em poucos balões de bate-papo, ele resumiu de uma maneira que não me magoasse tanto. Mas ele também sabia que eu estava ferida, mais do que antes.

Eu não preferi não respondê-lo, apenas fechei o facebook e deixei a música que havia posto para acalmar-me, de três horas que a propósito ainda estou a escutar, enquanto escrevo aqui a nossa pequena história que hoje teve seu fim.

Eu chorava, chorava muito. Mais do que já chorei, eu só conseguia pensar em uma coisa:

Eles conseguiram te afastar de mim.

Eles, eu me referia aos cúmplices: AMOR e NAMORO. Meus amigos sempre me abandonaram, trocando-me por outra pessoa. Namorado, ou até mesmo um amigo novo. Há mais de sete bilhões de pessoas no mundo, e mesmo assim nós conseguimos considerar um, dois, três ou até mesmo mais pessoas nossos “amigos”. Mas nem sempre eles realmente são, ou vão durar para sempre. Eu, pelo menos, não tive nenhum desde minha última desilusão amorosa (a qual eu considero a mais dolorosa, pois mexeu com meu psicológico de forma surpreendente), eu havia parado de acreditar no amor. Não, ele não era real. O amor é de mentira, juntamente da falsa ilusão que é a amizade. Mais uma vez eles conseguiram, mas a nossa amizade era tão forte, que eu me senti cansada. Não só emocionalmente, mentalmente e fisicamente também, esgotada é a palavra correta. Eu havia esgotado minha vida.

Apesar de tudo, eu sabia que não teria condições de acordar amanhã, pois não saberia o que fazer sem ter o seu ‘oi irmãzinha’. Acabou.

Não faltava muito tempo para a música relaxante acabar, e claro, como todo doente mental (um real doente mental, sádico, não um retardado), sorri. Eu preparei uma massa instantânea, tomei um bom banho e vesti uma roupa qualquer. Caminhei até a sacada, onde ainda podia ouvir a melodia doce que vinha da música. Passei pelas grades da sacada, joguei um chinelo treze andares abaixo, joguei o outro, e então sorri, virando-me de costas, dando um último olhar para meus pequenos filhotes de gato, e disse enquanto fechava os olhos:

– Estou cansada.

Eu não sei por que escrevi essa história, talvez, porque simplesmente tinha vontade de deixar marcado o motivo, mas eu não quero que o culpe, eu sou a suicida, ele não me induziu a nada, eu quis isso porque eu não sabia como proceder. Desprendi-me das grades, e com um impulso fui caindo, o vento soprava e a demora não foi longa, até que finalmente, os pedestres, carros e estabelecimentos da volta puderam ver algo caindo com uma surpreendente força, um moletom bege, que após um barulho muito alto, ficou marcado com sangue fresco, e assim, toda a rua parou.

Jogar-me foi uma alternativa que já havia sido planejada há um tempo, mas eu não sabia como despedir-me, mas você já fez isso por mim. Alguns dias depois, você e ela leram uma publicação da minha irmã mais velha no facebook, o luto, até que percebeu as mensagens na minha timeline, e a notícia dada pelo repórter deixou tudo claro. Eu sei você deve sentir um pesar enorme agora. Mas eu não vou poder ajudar você a se livrar dele agora, não era isso que você queria? Mesmo com tudo, eu só quis o melhor pra você, até nos últimos instantes da minha vida. Eu pude ver, lá de cima, você no seu quarto, chorando, e sua mãe entrando silenciosamente, um pouco chocada e balbuciando:

“Não fica mal”.

Notas finais
Criei essa história porque, uh, não estou em um bom-dia. Comente o que achou, agora se você gostou do que leu ou não, fica a critério seu. Um forte abraço e até a próxima história.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!