Notas iniciais
A cultura popular brasileira é recheada de histórias fantásticas. Em cada região do país são contadas de uma forma. Muitas são herança do Velho Mundo trazidas pelos colonizadores.

O resfolegar assustava roedores e insetos no seu caminho. O passo pesado e ligeiro deixava marcas por onde passava. Um barulho próximo a fonte chamou sua atenção. Levantou o focinho e sentiu o odor. Pessoas.

Mudou de direção e começou a correr pela mata seguindo ao lado do caminho que levava à fonte. Risos e palavras abafadas vinham de lá. O balde de metal bateu nas pedras quando encheram de água. As vozes aproximaram-se. Ele parou e ficou a espreita. Estava salivando. A baba escorria entre os dentes e pingava pelo canto da boca. Novamente ergueu o focinho. Farejou. Deu mais alguns passos.

As crianças tomaram o trilho de volta. Estavam distantes apenas algumas passadas. Um único pulo e...

— Aiiii! O que foi isso?

— A Maria está com meeedoooo! Lá, lá, lá, lá, lá, lá!

— Alguma coisa puxou o meu casaco!

— Deixa de ser medrosa! Vai dizer agora, que tem monstros horrorosos aqui nesse fim de mundo.

— Eu não vi nada.

As crianças avançavam pelo trilho estreito. Lucinda e Maria, que eram as irmãs mais velhas, carregavam um balde de água cada uma. Os outros três iam fazendo barulho, pulando ao redor e implicando uns com os outros. Deviam ter enchido o barril de água durante a tarde, mas esqueceram-se. E a mãe zangada mandara que fossem buscar água na fonte depois do jantar.

A fonte não ficava longe, mas precisava passar por um trilho que beirava o mato fechado. As pessoas diziam que viam coisas, principalmente em noites de lua cheia como aquela. Maria não gostava, mas precisava obedecer a mãe. Naquele instante tinha certeza que tinham lhe puxado o casaco. Talvez fosse Alberto aprontando das suas. Ele era o terceiro filho. Adorava dar sustos, beliscar, puxar, além de fazer piada de tudo e com todos. Mas ele estava do outro lado! Ela resolveu trocar o balde para a outra mão. Fez o movimento olhando para a mata escura a sua frente. Sentiu um barulho. A sensação era de alguém a observando. Olhou mais uma vez para a mata com cuidado...

— Gente, tenho certeza que algo se mexeu no mato. Vamos andar mais rápido!?

— Algo se mexeu... algo se mexeu!?

— Claro que algo se mexeu! A medrosa está tentando por medo na gente.

— Pedro, não enche! Pode ser algum animal. Estamos andando do lado do mato. Não custa apurar o passo.

O passo foi apressado, mas os baldes cheios ficavam muito pesados. Não era possível andar tão rápido, quanto desejavam. Ninguém falava, mas todos estavam apreensivos como Maria.

Novamente houve barulho e agora, como havia menos conversa, todos escutaram. Pararam. Olharam-se...

— Vamos correr... – Os meninos não faziam mais piada. Estavam com muito medo.

— Não podemos correr carregando os baldes.

— Se aparecermos sem levar a água, nossa mãe vai nos matar.

— Vamos andar todos bem juntos.

— Assim parecemos uma coisa só.

Ficaram bem próximos e andaram o mais rápido, o máximo que as irmãs conseguiam carregando sua carga pesada. Quando chegaram no alto da elevação, uma sombra avançou sobre eles. Gritos. Correria. Lucinda derramou a água e gritou para a irmã fazer o mesmo. Corriam mas a fera corria atrás deles muito rápido. Passou por eles.

No instante seguinte todos pararam como estátuas. Um bicho enorme estava diante deles no meio do caminho impedindo a passagem. Seus dentes brancos arreganhados reluziam e os olhos brilhavam como duas tochas vermelhas. Ouvia-se a respiração barulhenta das crianças, o rosnado do monstro e talvez os corações de todos eles. Essa era a certeza de Nato, o menorzinho. Sentia seu coração batendo no ouvido.

Maria olhou as casas no final da descida do outro lado. As luzes fracas das velas que apareciam pelas aberturas das janelas. Não era tão grande a distância. Talvez conseguissem chegar se por uns instantes se livrassem daquela fera.

— Pessoal, quando eu gritar vocês correm em direção da casa o mais rápido que puderem. Não olhem pra trás. Corram! Lucinda, eu e você vamos bater com os baldes na cabeça do bicho. Talvez dê certo. — Maria sussurrava, mas os irmãos abanaram a cabeça concordando. Sinal que entenderam. Ela fez um sinal com a mão indicando que corressem pela direita. Ela se deslocou bem devagar pela esquerda e Lucinda a acompanhou. O bicho arreganhando os dentes rosnava ameaçador conforme elas se mexiam e avançavam. Se olharam. Uma de cada lado. Maria gritou e levantou o balde no mesmo instante. Tudo aconteceu muito rápido. Ela conseguiu acertar o focinho da fera, que parecia ser um cachorro, mas tinha o dobro do tamanho. Negro. Corpulento. Lucinda acertou a cabeça em cheio. Os menores já corriam longe. E elas fizeram o mesmo.

Gritos e desespero encheram a pequena cozinha, onde a mãe escolhia o feijão para o outro dia. Todos falavam ao mesmo tempo. As meninas entraram por último carregando os baldes amassados na mão. Dona Gertrudes não conseguia entender.

Vários minutos se passaram até que Lucinda, depois de recuperar o fôlego contou o que aconteceu. A mãe ouvia desconfiada, mas os baldes estavam amassados. Não sabia no que acreditar. Imagina só, cachorro gigante, quase maior que ela. Criança tem uma criatividade...

No dia seguinte, logo cedo, a senhora arrumava a lenha no fogão para ascender o fogo, quando bateram na porta.

— Dona Gertrudes, meu pai mandou pedir um pouco de sal. – Era o filho do vizinho, seu Roncalho. Homem estranho e de poucas palavras. Quase não saía. A mulher olhou pela porta em direção da casa do menino. O pai estava na janela com a cabeça toda enrolada com faixas de pano. Parecia que tinha tomado uma surra. O rosto estava inchado.

— O que aconteceu com seu pai, menino?

— Ontem à noite, ele bateu num galho de árvore e caiu do cavalo. Machucou o rosto, cortou um pouco o nariz e fez um galo feio na cabeça. – A mulher sentiu as pernas amolecerem. Será que as crianças tinham razão? Até aquele momento desconfiava do que eles lhe tinham contado.

Fazia anos que as línguas venenosas da vizinhança diziam que tinha um lobisomem a solta na região. Não podia negar também, que ouviam uivos lamentosos nessas noites. Mas isso não provava nada. Sempre encarara as histórias como fofoca de gente que não tem o que fazer e como imaginação muito fértil do pessoal da vila. Mas agora... será?

Dona Gertrudes resolveu investigar. Com uma vizinha de língua solta, soube em confidência que ele era o sétimo filho, nascido depois de seis irmãs. A família não gostava de ter ele por perto, e por isso ele saíra da sua terra natal e morava ali na vila agora. Com outra alcoviteira, descobriu que a esposa o trancava para fora de casa nas noites de lua cheia. Era muita coincidência. Tomou uma decisão drástica.

— De hoje em diante ninguém da minha casa põe os pés na rua em noite de lua cheia. O povo fala demais. Mas não custa prevenir.

Muitas são as lendas que falam de uma fera em forma de cachorro que anda sobre as patas traseiras como se fosse homem. A origem desses seres não é certa e está presente no folclore de muitos povos. A versão mais aceita para o surgimento dos lobisomens coloca sua origem na Grécia antiga.

Ninguém sabe ao certo como alguém se torna lobisomem pela primeira vez. No Brasil, encontramos algumas versões para esse início. Pode ser o sétimo filho, depois de seis filhos homens. Na variação, pode ser o sétimo filho depois de seis filhas mulheres. Crianças não batizadas também podem tornar-se lobisomens. Ou como nas versões encontradas no mundo todo, uma pessoa ao ser mordida por um lobisomem vai se transformar na fera temida. Essa transformação sempre ocorre em noites de lua cheia. A pessoa volta ao normal quando o sol aparece de manhã.

Esse ser só é vencido quando acertado por uma bala ou objeto de prata. Em alguns lugares é recomendado que se bata em sua cabeça ou no lobisomem bem forte ao ponto de arrancar-lhe uma gota de sangue. Existe ainda outra forma de se proteger. Caso o bicho lhe ataque e você o acertar com força e ele fugir, no outro dia alguém lhe procurara pedindo sal. Se você der o sal, o lobisomem nunca mais o atacará na forma de fera. Se não der, ele o virá buscar mesmo que esteja dentro de casa.

Essa história aconteceu no Sul do Brasil há muito tempo atrás.

Notas finais
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