Cancro & chaos

5 Saudade é língua universal


Depois do “seja lá o quê aconteceu”, continuei a vagar, sendo guiado muito mais pelos meus pés descontínuos do que por algum instinto nortista.

A minha instabilidade emocional é algo a se ressaltar. Confundir Sol e Lua, penumbra e clarão. De certa forma abstrata, eu queria me comunicar com o mundo, sem me questionar se o certo é próclise ou mesóclise, mesmo sabendo usá-las, sem me importunar com questões de formalidade e linguajar; queria que, pelo menos uma parcela das pessoas, pudesse ver o quê eu conseguia arranhar, tudo depois de chá de sumiço de algo que nem me lembro mais.

Continuei a andar e através do olhar enviesado de mais uma esquina, enxerguei ao longe uma obra magérrima, grande aos meus olhos, lembrava-me a arquitetura grega com requintes épicos. Parei diante a arquitetura majestosa, cheirei as minhas axilas, pensei se importunaria alguém ao entrar num local que parecia realmente faustoso. Cocei a cabeça e entrei, olhando de relance o nome que se descortinava acima da minha testa, num arco de triunfo: “Museu de Saudade”.

Luzes em tom de sépia, pilares no modelo jônico. Quadros, fichas audiográficas, museus dentro dum museu. Entre as longas paredes brancas, com todos os quadros e representações dum passado nostálgico, repousava um homem de terno amarronzado, tinha as mãos sobrepostas à pélvis. Atencioso, paciente, com um sorriso real, sem a mesquinharia hipócrita de algumas festas familiares ou de supostos amigos.

Estagnei meus passos e com uma solicitude bonita de se ver, ele andou até mim, sem se importar com o meu jeito maltrapilho, o cabelo despenteado e as botas ainda molhadas.

Fiquei paralisado, picado por algum pernilongo vetor de doenças duvidosas, como: “é possível ter esperança na humanidade?”.’

O homem de cabelos brancos, com feições de quarenta anos, dirigiu as palavras a mim:

— Não é sempre que recebemos visitas na madrugada, mas, fico feliz por ter me arrancado do tédio da ociosidade.

— Eu que agradeço... Eu acho.

— Já veio aqui, senhor? Se a minha memória fotográfica não falha, é a sua primeira vez. Certo?

Acenei concordando, ele continuou.

— Queremos que nossos visitantes tenham uma experiência emotiva e multipolar. Por isso, gostaria de fazer uma pergunta, se me permite, claro. Ela fará com quê fique mais aberto às emoções que enfrentará no nosso passeio.

— Pode fazer.

Afinal, o quê eu tinha a perder? Enfim, ele questionou insólito:

— Você sente saudade de algo?

Franzi a testa e logo a relaxei. Abaixei os olhos que estavam fitados nos castanhos olhos daquele homem. Eu não estava pensando, eu já tinha a resposta ao ler aquele arco; eu estava mais remoendo e remontando o passado na minha cabeça. Lembrei dos meus pais. Com a voz embargada por lágrimas que desciam quietas como se escorressem por um riacho tranquilo, contornando pedras e galhos resistentes, ousei falar um pouco de mim. Não tanto pela pergunta, mais por mim, mais por tudo que eu tinha passado silencioso e sem entender os motivos travestidos de razões soturnas para tudo.

— Eu tenho... Talvez, muitas. Há cada ano que se passa, eu sinto ter perdido mais gente, mesmo eu nunca ter me consagrado com bons amigos ou família, mas, o pouco que tive parece ter ficado o tempo todo comigo só para ser tirado depois. Sinto falta de quando eu era criança e vestia um macacão jeans confeccionado com bordados feitos pelo meu pai, havia estrelas, morangos e abelhas. Eu andava pela casa, corria, sentia-me um trabalhador vestindo aquilo e sentia ter o mundo inteiro dentro de mim. Não sei bem explicar... Minha mãe, nos dias de bolo, sentava na mesa da cozinha, redonda e pequena, sempre empunhando o mesmo livro e eu arrisco dizer que não era de receitas... “Os monstros ciclópicos do Everest”. Sei... Um nome estranho. Depois de percorrer a casa e todas as passagens secretas, eu chegava e pedia para ela ler um pedaço para mim, dizia “querido, claro que leio”. Na época, eu realmente acreditava que o livro se tratava de um menino que saía para brincar num certo dia, todo feliz e contente, trabalhava até cansar e quando retornava para casa, cansadinho, ele entrava e os pais dele esperavam para contar um segredo. Lembro até das palavras dela e como a minha mãe mexia a boca, misteriosa, ao contar esse trecho: “filho, já está na hora de você saber a verdade, nós temos uma montanha no guarda roupa e não é uma montanha de roupas, é o Everest, com monstros de um olho só, olhos vermelhos”. Eu ficava todo intrigado quando ela chegava nessa parte. Vale lembrar que todas as vezes que ela lia, só chegava até esse trecho... Eu ouvia sempre calmamente, pois, esperava que ela passasse por esse ponto, mas, eu estava muito entretido para perceber que ou a sua criatividade findava ou havia algo sobre aquela história criada, algo que eu não deveria saber na minha idade. Um dia eu implorei, bastante, eu estava no meu surto bipolar... Eu queria saber mais. Minha mãe me deu um beijo na testa, agachou até mim e disse olhando nos meus olhos: “amanhã, eu e o seu pai, ficamos na sala, eu pego o livro e a gente conta o final dele para você... Amanhã”. Ressaltou o “amanhã” e eu me enchi de júbilo e uma felicidade clandestina... No dia seguinte, eu acordei, desci da beliche... Recordo... Eu queria comer panquecas, panquecas do papai. Corri até o quarto deles, pois, estava cedo e eu havia acordado mais cedo que o normal. Batia os pés descalços no chão, sem as pantufas de pato que eu tinha, só para acordá-los... Graciosamente — Dei duas risadas entristecidas, como uma criança feliz em dia nublado, retomei —... Meus pais não estavam lá. Deduzi que já tinham levantado. Procurei pela casa inteira, gritava, astuto e alegre, o nome deles...

Pausei a fala, meu encanto que prevalecia parecia se esvaziar pelo canto do meu sorriso que descia. Pisquei duas ou três vezes num curto espaço de tempo. Terminei:

— Eu nunca mais vi os meus pais.

O homem, na sua solicitude servil, compadecido, apoiou a sua mão no meu ombro e disse:

— Você descobriu o quê aconteceu?

Olhei para os quadros, leitores de audiógrafos, vi as pichações. Respondi, tristemente resoluto:

— As coisas tendem a sumir sem dizer adeus ou deixar uma carta. O livro também se foi, como se nunca tivesse existido. Assim foram os meus pais. Respondendo a sua pergunta: eu sinto muitas saudades, mais do que eu posso mensurar.

O homem fez um gesto positivo com a cabeça e acenando com a mesma, chamou-me para ver algo. Ficamos diante um certo quadro. Moldura adornada com cores avermelhadas e douradas. Uma placa de ouro revelava o nome da imagem ampliada, amarelada e enquadrada: “Transcaucásia”. O homem falou sobre a foto:

— A mulher que está entre as crianças era uma enfermeira do tempo nazista. As crianças, o menino e a menina, estão morrendo de intoxicação após um teste com substâncias manipuladas por algum lunático que seguia Hitler. Ela pediu para o fotógrafo tirar essa foto, pois, só queria lembrar das crianças com o semblante meigo.

— Ela era uma enfermeira alemã?

— Não, ela havia participado do resgate dessas crianças. Mas, era tarde demais.

Ele falava com um tal emocionalismo nas palavras. Questionei.

— Como sabe de tudo isso? Afinal, é só uma foto...

— Fotos falam muito, se você souber ouvir. Além do mais, eu estava lá.

— Você?

— Alguém precisava tirar a foto, não é?

Fiquei atônito, porém, ele não me deu tempo de reação, já me levava para ver outra fotografia emoldurada. Moldura de madeira firme. Foto com granulação, câmera mediana. Ele contou:

— Esse homem que está martelando a estrutura de metal, foi só para pousar para a foto. Ele está nas alturas, no alto da construção da Estátua da Liberdade. O nome dele era Robert. Trabalhava de Lua à Sol. Continuamente. A pele queimava, o sonho extinguia e o sonho americano convencia-o que a vitória sobre a vida seria consequência inevitável de toda aquela dignificação. O mais saudoso nessa foto, é pensar que a estória de Robert é só mais uma num oceano de outras, esquecidas. Pai, mãe, linhagem, só mais corpos. Quem lembra das almas? São como as estátuas aos ditadores ou aos heróis de guerra, encargam numa só imagem tamanha elevação e se esquecem que de seres humanos grandes nos feitos e pequenos na imagem, é que a vida se arquiteta. Robert sempre estará na minha memória, não importa quanto tempo se passe.

— Ele conseguiu ter a vida que sonhava?

— Ele caiu dias depois da mesma estrutura em que trabalhava nessa foto. Robert bebia, era a forma de afogar as mágoas e esquecer o quê tinha condicionado a filha a fazer, para que os seus filhos pequenos e mulher não morressem de fome. A vida é cheia de Robert’s. Só que nos acostumamos com as idas e vindas de tantos sacos de gente, que até esquecemos que há algo ali. Amor, fúria e derivados. Pacotes de sonhos.

Estava chovendo dentro de mim e o homem não parava, a saudade dele e a minha se confundiam num mosaico de cores, gestos e quadros. Levou-me para ouvir um audiógrafo, primeiro explicou como funciona:

— Audiógrafos são áudios gravados por pessoas, geralmente com tom de diário ou biográfico. Esse áudio foi gravado por uma menina de 11 anos, vivia em Hiroshima. Isso te faz lembrar alguma coisa?

— Caos.

— Algo que aprendi na minha rotina de fotografia e memória viva e ambulante, é que ordem ou paz, seja lá como chama, não existe além de estado mental. Afinal, não importa o quão imerso esteja em cenário de profunda calma e solitude, há algum lugar do mundo, em que coisas inenarráveis acontece, caóticas. Da mesma forma, enquanto estamos em supostos momentos de repouso e calma, violentas reações químicas acontecem dentro de nós, gases difundem-se no ar, pensamentos desgovernados esperam o momento certo para fazer um circo sobre nossas cabeleiras. O caos nem sempre é ruim, mas, eu entendo quando diz que Hiroshima te lembra caos. Ouça o áudio; ele foi recolhido em Hiroshima, anos depois de ter sido gravado.

Apertou para tocar por meio de um objeto metálico, antigo, como um leitor que reproduz a voz conforme uma placa branca passa por dentro do dispositivo.

“Hoje é um dia especial, as flores estão abertas e o céu está claro e iluminado, meu tio diz que hoje até os samurais descansam as espadas... Hoje visto meu vestido florido, ele é amarelo e tem flores grandes e pequenas. Meu sapato é preto e não aperta os meus pés. Não dá a sensação de estar descalça, mas, é confortável. Já acendi o incenso ao meu pai e contei como foi a minha noite de sonhos, todos os jardins que visitei e os corações de pedra que toquei. Espero que papai esteja bem aonde for. Aprendi, ontem, a fazer torta de arroz. É gostoso, você deveria experimentar. Fica ainda mais gostoso quando é você que faz... Sei que não gosta quando eu conto dos meus pesadelos, porém, essa noite eu tive um que preciso compartilhar. Chovia. Mas, não era uma chuva normal, chovia umas pedras grandes, mas, que não eram pedras. Elas brilhavam e faziam um som de vespa mandarina, a suzumebachi. Elas caiam, sobre todos os lugares. Eu não sei se era aqui, ou se caiam no mundo inteiro, ou no universo! Eu só sei que o som faz eu perder a audição e os impactos pareciam milhos de pipoca estourando... Eu ficava com medo, no sonho e então acordava... Não deve ser nada! Hoje é um dia...” (áudio cortado, zunido).

O homem olhou para mim e enxergando a minha face de espanto, embriagada por lágrimas copiosas, tentou pontuar algo:

— A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo. Mario Quintana. Venha, há mais a ser visto.

Chegamos diante uma parede de tijolos vermelhos, pichada de preto. O homem estava com um sorriso tímido no rosto, uma mescla de felicidade diante a rebeldia. Eu não conseguia sorrir, todas as associações e a intermitência de fatos e coisas que não sei, deixavam-me atordoados. Eu morreria sem saber do Robert, da menina de Hiroshima, sem saber da enfermeira e nem de um fotógrafo que esconde a velhice por trás de um terno e luz sépia.

A placa de concreto que víamos tinha as inicias grafadas: A.R. .

Lemos, em silêncio:

“Nas paredes verdes do palácio bege, encontrei-me diante um simplista amigo. Havia uma pichação, um garrafal característico do subúrbio. Mas, aquele subúrbio me surdia diferente.

O balde com água e o spray anti-tinta se negavam a retirar a pichação. Quando eu era mais novo, minha mãe me impedia de andar duas quadras de casa. Tinha um medo inexorável, como se meu pai tivesse voltado com as duas espingardas.

Pueril garoto, não sabia que após duas quadras, o subúrbio terminava e a cidade começava.

A pichação me lembrou dos meus colhões, e a minha casa de concreto-sapê.

‘E se traficarmos amor?’ “

Emoções recônditas dançavam entre as minhas estranhas. Danças indescritíveis. Estava multipolarizado e emotivo como deveria estar, segundo o homem no começo da apresentação. Serviu da minha abertura emocional e me deixou debilitado (ou de mente aberta) para sentir todo aquele passado imortalizado em nós, com algum objetivo no âmago.

O museu era imenso, estávamos só no começo. Contudo, o sono havia chego, emplacado minhas têmporas que estavam quentes e as minhas pálpebras que estavam pesadas. Foi repentino. O homem percebeu como eu estava alterado. Falou:

— Não há problema em ir embora. Agradeço pela visita. Aliás, um segredo que acredito que queira que fique entre nós: só quem não está dopado com os remédios que nos prescrevem, conseguem ver esse lugar. Ao contrário, é só mais uma obra faraônica que passa despercebida. Obrigado por ouvir. O sono pesado pode ser muito pelo cansaço, mas, é o ônus que imbuíram com a abstinência das drogas. Enquanto acordado você pode fazer muita diferença, isso é nocivo para você-sabe-quem.

Não sei o quê respondi e nem quanto tempo mais fiquei, só lembro-me de ter saído do estabelecimento, apoiado a cabeça nalguma parede suja e adormecido. Quase sem escolha. Sem escolha.

Era como ter tomado um choque da vida e percebido que há muito mais além do que nossos olhos podem captar. Muita informação em curto espaço de tempo. A fome tinha se tornado algoz ruminante, porém, eu estava muito fraco para lutar contra ela.

Apaguei, como a lâmpada que queima para ser trocada.