Cancro & chaos
6 Mercenários sentimentais
Não há como negar, somos movidos por recompensas. Seja uma recompensa mental, material ou qualquer outra. Trabalhamos em prol dalgo. Somos o quê chamo de “mercenários sentimentais”, afinal, procuramos religiões, crenças e sensações que nos satisfaçam melhor. Não importa se é verdade ou mentira, se aquilo cabe-nos melhor, é com aquilo que ficamos.
Há quem acredite fielmente que tudo contido nos grandes livros é realidade suprema, axiomas pleonasticamente irrefutáveis; outros veem um conto de fadas, porém, preferem assim, viver numa utopia, paranoia ou realidade subjetiva arquitetada por outras cabeças. Há quem veja toda crença, credo e religião como bobeira.
Às vezes, eu me perguntava: será que toda a nossa busca nos levará a algum lugar se continuarmos fazendo as mesmas perguntas? É uma boa questão, creio eu, afinal, preferimos o doce e saciável, mas, talvez esqueçamos que nem todos os remédios são aprazíveis. Mentiras adornadas em detrimento de verdades cruas? Cegueira induzida em detrimento de enxergar o pomo imaturo do mundo?
A cicuta deve ter um gosto doce, no entanto, é impossível saber, visto que quem a toma não dura muito para contar.
Mantive os olhos fechados por um bom tempo, seja encostado naquela parede suja ou durante grande parte da minha vida. A maioria das pessoas nascem de olhos fechados, mas, nem todas preferem morrer com eles assim. Outras gostam de deixá-los entreabertos e imaginar nas silhuetas o quê preferem. Outras querem gorjetas por adivinhar o quê há, estando de olhos fechados. Quando a árvore tomou o lugar da minha hipotética casa, meus olhos começaram a se abrir com tamanha velocidade. Então vieram impactos ininterruptos. Surtos de lucidez que, paulatinamente, tornavam-se períodos contínuos de insanidade.
Então, por você ter chegado até aqui, ter sentido a carapuça servir algumas vezes, acredito que temos intimidade o bastante para eu aprofundar um pouco mais a minha história... Ou a sua história. Não sei mais de nada.
Começarei contando o que veio a acontecer após o sumiço dos meus pais. Eu chorei muito, tive uma crise de fúria, ódio e tristeza, comecei a quebrar tudo em casa, fiz o quê os meus pais chamavam de “fuzuê”. Os vizinhos ouviram o caos rolando, tomaram de algum telefone e não tardou e eu estava cercado por olhares atentos e cuidadosos. Tratavam-me como um animal que não pode ser provocado. Nunca havia acontecido todo aquele descontrole e os presentes ali já viam aquele meu estado como permanente. Monstro a ser exercitado. Não me lembro de estarem perturbados com o sumiço dos meus pais.
Lembro de uma discussão na sala, estava a minha colossal família reunida. Tios, avós e avôs, debatiam sobre quem deveria ficar comigo. Fechei os olhos no meio das palavras que se contradiziam, um calor começou a subir pela a minha espinha. Até que... A minha avó Zumira, trajada com um vestido preto-fosco, abaixou até mim (eu estava ao lado do maior sofá da sala, confuso), apoiou suas mãos nos meus joelhos e condescendente, disse:
— Anjinho, você vem comigo, mas, antes precisará ficar com umas amigas da vovó, elas são muito maternais.
Zumira, mulher de mistérios insondáveis, religiosa, vestia roupas diferentes, brilhantes, outras negras, outras extremamente brancas. Tinha um olhar sempre contornado com rímel; “olhos de gato”, eu pensava. Um dia perguntei ao meu pai, nalguma ocasião que não me lembro, sobre a vó Zumira e a sua religião, lembro-me de que meu pai parou de ler o seu jornal, engoliu seco e respondeu:
— A sua vó tem uma inclinação ao fanatismo religioso, algo nem tão bom num mundo como o nosso. Mas, ela é uma boa mulher, sabe não misturar as coisas e não impor a sua fé.
— Qual a religião que ela segue, pai?
— Mitraísmo... Algo assim.
Ir com a Zumira me concedeu uma das experiências mais inusitadas. Daquelas em que se voa e se cai sem ao menos perceber. Vale lembrar que antes de finalmente conhecer o Ninho, passei um tempo junto das “vós” e a Angel; algo que tomará que eu tenha contado anteriormente, pois, não estou afim de contar agora. Houve palavras de conforto e abraços longos e, então, eu já tinha partido.
Nunca fui bom com despedidas. As lágrimas rolando e o verdugo silencioso que roda uma chave invisível, emite sem trégua: “você poderia ter aproveitado mais”. Tomo tudo com um emocionalismo absurdo, pela alta probabilidade de não ter, ao meu suave encargo, tamanhos sentimentos de cuidado e amparo novamente. É como conhecer uma terra que te acolhe e, forçosamente, necessitar da mudança. Motivo de crucificação encontra-se na minha próxima afirmação: algo dentro de mim não quer voltar ao local que deixou, pois, remonta a ideia de descobrir quem eu pude ter sido e tudo que perdi. Nós, falíveis e arrogantes, sempre queremos ganhar, não é? O último beijo, o último abraço, as últimas palavras de conforto, que suscitam um “para sempre” fajuto... Toda aquela crença ébria na imortalidade de um sentimento. Não sei se é triste ou clandestinamente feliz: encontrar justificativas para partir, mesmo tendo conhecimento que até a mudança muda diferente com o passar do tempo e aquele amor jurado vira ração para peixe de aquário. Mas, não pode ser sempre assim! Não deve ser! Toda partida é uma nova chegada... Lá estou eu justificando mais uma ida.
(pausa)
Fui levado para um local que me lembrava um hospício, não por mero preconceito meu, apenas, pela aparência. As paredes tinham cores diversas e por cada ângulo que você olhava para elas, descobria novas cores. As portas eram de aço inoxidável, com barras de metal nas janelas que ficavam nas portas, janelas minúsculas. Não sei quem queriam impedir de sair.
Eram só mulheres no recinto, eu me sentia um intruso. Não falava como elas, não comia como elas, nem me portava como elas. Todas tinham idade avançada, assim como a vovó. Não eram uniformizadas, por assim dizer, porém, seguiam um padrão: vestido unicolor ou dégradé. Minha cabeça de menino imaginava tanto e comecei a deduzir que as roupas eram uma forma de calibrar a posição de cada uma naquele recinto.
Quando cheguei, fui levado para o “templo” de orações, principal. Enquanto andávamos pelos corredores, eu percebia um certo olhar de desdém vindo das outras mulheres, só depois descobri que a minha vó tinha quebrado um código a me levar lá.
Passamos por uma porta dupla, nos mesmos moldes que as outras, contudo, essa guardava adornos que não consigo reproduzir com palavras, eram trações que formavam a junção de fumaças. Não sei nem como desenha-se fumaça. Talvez, eu ainda estivesse atordoado e não estava vendo tudo claramente.
No templo havia um quadro fabuloso pela grandeza, tomava uma parede. Era uma mulher, com traços envelhecidos que não pareciam remeter uma beleza antes do processo de envelhecimento. Vestia um preto massivo, tinha uma boina também negra. Sua pele assemelhava-se às suas roupas. O fundo do quadro era um estândar de fundo ofuscado pelas cores poderosas ali presentes. Minha avó esperou eu me aproximar dela, pois, eu estava fascinado com toda a grandiloquência daquele quarto e tinha meus passos lentos e imprecisos.
Minha vó tomou do meu ombro e após me olhar, fitou o quadro, ditando:
— Essa é a Mente Perdida. Ela simboliza todo o bem que há no mundo, nas entrelinhas e nas grandes construções que não são humanas. Nós revezamos as imagens semana após semana. Tem-se a Mente Achada, sempre de branco, branquíssima com a sua pele, ela é a maledicência, banhada numa criação humana. Precisamos louvar as duas com palavras de amor. A primeira por simples agradecimento, a segunda para amolecer o seu coração e entender que o uso da maldade é equívoco desnecessário.
— Vocês louvam imagens?
— É para que nunca esqueçamos o valor que certos símbolos tem para nós.
Zumira me levou aos meus aposentos. Quarto pacato, uma cama simples e confortável no centro, dois quadros pequenos próximos ao teto: Mente Perdida e Mente Achada.
Sentei na cama, macia e limpa, enquanto minha vó esperava paciente na porta, sabendo de antemão o quê eu iria perguntar.
— Vó, o quê aconteceu aos meus pais?
— Filho, o mundo de hoje não foi pensado para fazer sentido. Ou você cria ou segue uma lógica, ou sucumbirá com ele.
Gotejaram lágrimas de relento. Argumentei:
— Então... Eu tenho que simplesmente aceitar que ele é assim e seguir em frente?
— Toda negação é uma aceitação. Você aceita negar. Depende de você. Não sirvo mais como mãe e sei como isso dói aos seus ouvidos e coração. Algo que me fez entender a passageira névoa que cobre as coisas e a dinâmica das estações, foi dosar tudo com um pouco de poesia que encontrei na religião. A efemeridade apresenta-se de diversas maneiras. Fique bem, Cancro.
Abaixei a cabeça, tentando cogitar o “simples” seguir em frente. No topo dos meus pensamentos, imperava: “Minha vó não respondeu nada, só trouxe-me a confusão”.
Foram anos comendo comidas padronizadas, fingindo orações para duas imagens que se intercalavam... O estranho era quando eu me perdia em questões infindáveis. Por exemplo: por qual motivo esteve sempre encucado em mim a ideia de que o bem é representado pelo branco e o negro é o mal? Lá era o contrário.
Como passei a minha adolescência inteira no Ninho, fui educado ali e matei meu tempo ali. As matérias básicas eram ensinadas pela Virgília, vestia vermelho, a única com o vestido da minha cor predileta. Dizia que o vermelho simbolizava a maior conexão entre ela e o conhecimento dos homens. Ela não estava no bem e nem no mal, meio que queria trazer a ambiguidade que é o conhecimento, feito arma neutra. Sempre muito atenciosa, empunhando seus óculos “fundo de garrafa”, falava, às vezes, acelerado demais e comia tanto as palavras que nem conseguia ouvir quando eu pedia trégua nas frases, que saíam na mesma velocidade dos seus pensamentos.
Nos meus tempos livres, aprendi a me virar, ao contrário eu enlouquecia na certa. Minha avidez pela observação se desenvolveu nessa época, sempre buscando nuances no comportamento de cada uma ali.
Romilda roía as unhas enquanto comia.
Heida fazia tímidos gestos católicos antes de iniciar as orações.
Zumira amava alongar as suas frases com palavras paliativas.
Uma mulher hostil, que nem o nome sei, andava sempre apressada, ou vestida com um sorriso falso ou tomada por fúria que subia até os olhos. Nunca parada, sempre em movimento, com a sua pele quase albina.
Eu sabia várias manias. Nesse meio tempo, eu lia os livros designados, os religiosos e aqueles que substituíam os escolares. Lia de uma maneira diferente da maioria, pois, para não morrer de tédio, procurava em cada sentença algum erro, de qualquer gênero. Quando encontrava, ria sentindo-me elevado, quando me bastava de tentativas falhas, fechava o livro e remoendo minha insuficiência, voltava às obras de interpretação de texto e gramática, pois, se eu não havia encontrado os erros, isso não confirmava a inexistência deles, mas, a minha incapacidade de achá-los. Assim fui, mesmo tendo períodos de estudo adulterados por causa dos remédios em excesso, deixavam-me tontos quando os tomava (hipotético efeito colateral) e com fortes dores de cabeça quando não os ingeria.
A organização do lugar até que era simples. As mulheres em dégradé ocupavam o posto superior. Eram conhecidas por ter a ligação intrínseca e direta com as Mentes. Minha vó ora era a oferenda à Mente Perdida, ora oferenda à Mente Achada. Preto e branco. Focalizava as orações na imagem que estava designada a ela, umas a seguiam, outras elevavam orações à outra imagem. Nenhuma ficava desamparada pelo tempo decorrente. Uma vez por mês, minha vó sumia, eu não a via pelos corredores e ela nem desejava-me boa noite, ela simplesmente evaporava. Em um desses dias, saí da minha jurisdição e subi degraus que eram designados às mais elevadas posições e às convidadas a subir. Senti-me um ninja das sombras, cômico nos meus pensamentos. Avistei diversas portas, entre elas uma central de comunicação, com microfones e mixadores, perguntei-me quase instintivamente: “para quê raios essas mulheres precisam de uma central de comunicação com mixagem?”. Continuei.
Na ponta dos pés, por meio da janela protegida por grades, vi através da porta minha vó ajoelhada. Havia uma substância avermelhada pelo chão e uma música taciturna de violino. Eu não entendia, apenas sentia um incômodo mórbido. Minha pele gelou quando umas das mulheres tomou-me pelo braço, vestia Branco, combinada com a pele branquíssima, havia um transtorno na face e uma pungência nas unhas, pintadas de vermelho, e na alma. Disse-me, sussurrando entre histerias sonoras, estridentes mesmo abafadas.
— Sua vó sofre por você... Ela sangra uma vez por mês para que você continue aqui... É isso que você sempre sonhou, não é? Alguém perdendo a vida, aos poucos, para que você viva...
Abruptamente, graças a uma tristeza avassaladora, saí dos domínios da mulher e corri ao meu quarto, no caminho, por destino, por desastre, trombei com uma mulher dégradé. Mantinha as mãos à frente da cintura. Disse, paciente:
— Cancro, venha comigo, por favor. Você está sendo requisitado.
Enxuguei as lágrimas com as costas dos braços e fui de cabeça baixa, imaginando que ela já sabia da minha insubordinação. Levou-me ao templo central. Não entrou comigo, apenas me dirigiu, citando:
— Descontruir é, também, parte da construção.
Entrei e as portas se fecharam. Eu estava sozinho diante o grande quadro da Mente Perdida. Para espantar o silêncio e todas as feras que se digladiavam no meu cerne, tomei da palavra após um largo tempo alternando passos e nervosismo. Simplesmente expurguei o que me doía.
— Eu não acredito em nada disso aqui... Nem um pouco. Os alicerces, as grades, os dogmas... O quê você ganha com o sofrimento de uma idosa? Sangrando por causa de alguma maldita regra... Se existe toda essa onipotência... Qual é essa do prazer referente a tanto sofrimento mundano? Acabar com tudo isso logo não seria o mais viável e sagaz? Num piscar de olhos... É criança morrendo de fome crônica... Nações agonizando por causa da exploração... Estupros... Tantas ditaduras da felicidade... O quê faz um povo acreditar que existe um salvador, deus ou afim?
Dei de ombros, virei-me para a porta, trucidado por dentro e comecei a me movimentar. Vago, sem graça ou estímulo. Atropelado por elefantes domesticados pela dor humana. Meus tímpanos tremeram, uma voz suave e melódica invadiu meu espaço íntimo, voz soul, esforço curativo. Tornei-me a virar, intrigado pelo som estonteante que não tinha origem ou espaço-tempo. Falava, amaciando o meu sofrimento.
— Você não precisa acreditar, em nenhum momento forçamos você a acreditar. Dogmas, alicerces e grades são criações humanas, eu não ditei nada a eles. Eu só existo e eles acham que podem me ler como livro, quando na verdade apenas me lê aquele que me toca, não como ser superior, não como demônio agonizante, como luz ou trevas... Não ganho nada com o sofrimento. O derramamento de sangue é prazer inferior dos homens e mulheres de má fé. Eu não sou uma imagem, então se quiser esbraveje, grite ou cuspa, eu não estou grafada em nenhuma parede. O material é impuro. A mente dos homens é diminuta, se eu dissesse que retiraria o livre arbítrio de vocês ao conceder felicidade imediata, sanando todos os males, vocês não entenderiam e entrariam em estado de rebeldia por essa perda. Os seres humanos são integrantes de um banquete, se comerem pouco, permeiam fome, se comerem muito, como geralmente fazem, irão ter que expelir o excesso e isso suja as roupas e as almas; só quando perceberem o fundo do poço, poderão entender a necessidade de sair dele. O povo crê em salvadores, deuses e afins, pois, criaram necessidade de criar necessidades. Precisam que alguém os salve de si mesmo. O ser humano entende o seu autodano, mas, não mensura o impacto disso e enquanto persistir esse ato cego, haverá guerra e todas as atrocidades vindas disso.
Meus olhos queriam fechar, parte de mim queria sucumbir a beleza da voz e da vibe que ali permanecia, outro canto da minha mente não conseguia crer naquelas palavras, eram belas e eu não aceitava beleza.
Choroso, sem saber o porquê, corri e saí pela porta. A mulher dégradé não estava mais lá. Corri ao meu quarto, bati a porta e me joguei no pé da cama, encostei as costas e eu não sabia se chorava ou se pedia para ir embora, para alguma divindade, como geralmente os homens fazem. Doía algo no meu mais profundo cerne, como uma pérola robusta, brilhante, porém, difícil de extrair e lapidar. Sentia a boca seca, a mente querendo planar.
Lembrei-me do que havia visto um pouco antes naquele mesmo dia: a sala de mixagem de áudio. Pensei: “a voz melódica, o tom ideal... Será que fui enganado? Não há nenhuma Mente por aí? Tudo uma armação inteligente? Eu saí do aposento e a mulher dégradé não estava lá... Onde estaria?”. Lembrei-me em seguida das palavras da minha vó: “Ou você cria ou segue uma lógica, ou sucumbirá com ele”. Sucumbir com o mundo é uma opção? Rodeado por contradições e dúvidas macroscópicas, fiquei dividido entre acreditar em tudo que eu havia ouvido ou aceitar uma manipulação manjada, mesquinha e baixa. Se você me perguntar hoje o quê eu aceitei... Eu não sei dizer. Apenas segui vivendo. Demorei dormir naquela noite e nas próximas que vieram.
Mais remédio ao meu coquetel. Provavelmente esqueci de notificar: desde o momento em que saímos da nossa mãe biológica, já temos a medicação preparada. Muitos estudos dizendo como isso é positivo e fortificante. Poucas as pesquisas que notificam como o coquetel demasiado traz a maior abertura a doenças, biológicas e psicológicas. Nas letras de rodapé estão: a alta probabilidade de vício, de dependência para comer, transar e viver. Basta que saía tal pesquisa e já vem o rebate, guardado na manga, lançado na hora exata, exaltando mais uma vez a medicalização da vida. Conseguiram até implantar nos nossos pensamentos a ideia de que plásticas são formas fáceis de alcançar bem estar. Uma ajeitada aqui, outra ali e você está nos enquadros da beleza mundana. Mais biocontrole sobre a vida.
Ah, não é angustiante, às vezes? Perceber o quão previsíveis conseguimos nos tornar? Medicina remediadora. Violência esmagando pacifismo. Diplomacia é o “ó”. Justificativas e mais justificativas para algo que nos mata e nos poda. Até quando?
Dado dia, enquanto almoçava e a Zumira orava como de praxe, isolado numa mesa qualquer do refeitório, recebi a visita daquela mulher hostil, que me tomou antes pelo braço e disse que a culpa do sofrimento da minha vó recaia sobre mim. Não sei se recorda-se. Sentou-se à minha frente e falou num tom discrepante da última vez, mantinha um sorriso cínico no rosto, intercalado com os palavras ditas de modo modelado, abria a boca no seu máximo aspecto e dizia o quê queria; parecia aproveitar os gostos daqueles verbetes e apreciar o deleite derivado.
— Andam dizendo que você conversou com a Mente Perdida...
Sorriso amarelado. Arcada dentária de fumante. Disse mais:
— As pessoas precisam de utopia. Se você quer acreditar que ouviu, acredite.
Sorria como se tivesse a verdade entre os dentes e eu fosse o errado da história. Incomodado com a fé quebradiça daquela mulher, perguntei:
— Você não acredita?
— Claro que acredito, se nego a existência do bem, nego, consequentemente, a minha existência.
Passei a língua pelos dentes, tentando compreender. Ela esperava que eu a questionasse e supri o seu desejo sarcástico.
— Como assim?
— Qual o meu nome, guri?!
— Você não me disse e eu também não costumo perguntar...
— Exato. Por qual motivo acha que o vil, maledicente e infame, chama-se Mente Achada?
Uma dor de cabeça súbita me acometeu, feita irrupção, uma pancada sem igual. Levei a mão a testa, ela continuou:
— Chama-se Mente Achada, pois, é a única que aparece aos homens.
Riu, riu uma gargalhada gradual e quase ensurdecedora. Quando tomei consciência do meu estado, lá estava eu no chão do refeitório, convulsionando como animal após a primeira investida rumo ao abate. Meus olhos dançavam na cavidade ocular. Escureceu. Escureci. Nenhum sentido. Nada.
Não sei por quanto tempo fiquei desacordado. Acordei na enfermaria do Ninho. Minha vó passava uma toalha molhada na minha testa, dizia que ajudava quanto a febre. Demorei um pouco para encontrar as palavras, era como se eu tivesse desaprendido a dizer. Antes de me desesperar, consegui articular.
— Vó... Vó... Uma mulher... Fumante e com dentes muito amarelados... Ela veio falar comigo... No refeitório, antes de... Tudo...
Havia compaixão, dó na expressão facial da minha vó.
— Querido, aqui nós não fumamos. Nem escondidas.
— Ela tinha unhas vermelhas... Pintadas...
— Cancro, você precisa descansar.
— Unhas pintadas!
— Há um controle gigante do que entre e saí daqui, Cancro... Artigos de beleza são deixados ao mundo exterior.
As palavras e a razão escaparam. Eu me sentia nu e indefeso. Cogitei loucura, cogitei misticismo. Eu queria chorar, como sempre fazia, porém, a vontade não condizia com o meu corpo, eu parecia não ter o que derramar. Cerrei um dos punhos e tentei apertar com toda a força... Estava débil, nem fúria eu conseguia demonstrar. O cansaço veio e recaiu, varrendo minhas entranhas e meus descuidos mentais.
Não tardou muito e melhorei. Nunca mais vi tal Mulher ou, digamos, a Mente Achada. Nunca mais conversei com a Mente Perdida. Vale dizer: depois da convulsão as mulheres me olhavam como se eu tivesse alguma doença contagiosa. Passavam céleres ao lado e tentavam não dirigir o olhar. Acostumei-me, aprendi a ser invisível e levei isso para vida. Tal como o resto dos acontecimentos que presenciei e relatei aqui.
Quando mais velho, pude, finalmente, ver o mundo além de grades, sair do Ninho. Tomar os banhos de Sol devidos. Minha pele enfermiça, esbranquiçada, tomou coloração mais saudável. Meus pais antes de sumirem, deixaram um testamento com dinheiro dirigido para mim e foi o suficiente para comprar uma casa. Onde vivi até ela não existir mais.
Recordo-me claramente as últimas palavras de Zumira para mim, enquanto eu a olhava nos olhos esbranquiçados pela catarata.
— Agora é a hora de sair do Ninho, querido. Tome seus remédios, arrume um trabalho digno, pague as suas contas e tudo ficará bem no final. Pode demorar, mas, um dia tudo finda de um boa maneira.
Compreendo a minha vó, só que ela esqueceu de dizer que só estava me dizendo uma possibilidade de final. A pluralidade do universo guardava-me outros quinhentos.
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