Cancro & chaos
11 Há "até logo" que é "até nunca mais"
Comecei. Fui para o primeiro cômodo ao lado da cozinha. Mesa longa, madeira maciça. Cortinas e janelas que tomavam uma parede. Pouca luz, ideal. Relógio-armário antigo, de pau-brasil. Ninguém, nem sombra.
Avancei. Abri uma porta. Havia achado a despensa. Ela não estava ali. Havia leite de soja e potes de mel.
Dei mais alguns passos. Sala de jogos. Uma mesa de xadrez e poltronas confortáveis para o jogo. Ventilador acima da cabeça. Carla, definitivamente, não se esconderia em locais sem refúgio ante olhares atentos.
Primeiro banheiro. Segundo banheiro. Mais banheiro.
Entrei num outro quarto. Vago. Havia apenas uma cômoda, com espelho, encostada na parede. Aproximei-me. Olhei para a gaveta e pensei em abri-la. Mas, seria substancialmente por via de curiosidade. O quê Rímel guardava ali? Não abri para saciar-me. A vida não é assim? Nutrimos nossos desejos e aspirações, porém, o tempo passa, os gostos mudam e até esquecemos da cômoda, do amorzinho antigo, da gripe? Assim foi, saí do quarto encucado, mas, foi-se embora a ideia do quarto vago.
Andei um pouco mais. Vi uma porta com riscados na parte de fora. Maçaneta dourada. Porta antiga. Era uma porta chamativa. Pensei no gênio de Carla e a necessidade de atenção. Talvez ela quisesse que eu a encontrasse, então se escondeu num local mais óbvio.
Abri. Intrigado, vi caixas e mais caixas, com retratos, papéis amarelados e tinteiros empilhados. Levei a mão para analisar as fotografias demasiadas. Petrifiquei quando ouvi um grito grave. Olhei para trás assustado. Rímel soltava fogo pelas narinas e olhos, metaforicamente falando.
— Eu trago você para minha casa, dou banho, comida e roupa lavada e você vem mexer onde não é chamado?!
— Eu não tinha int... — Cortou-me feito ave trovão.
— Você não tem mais nada para ver aqui! Nem tem roupas para levar! Pegue uma mochila que deixei na geladeira para você e leve. O dia terminou!
Fiquei perplexo. Atônito.
Passei por Rímel, repassando o caminho que havia feito até ali. Abri a geladeira branca e tomei duma mochila preta e vermelha. Mande para Vietnã, dizia a etiqueta.
Encaminhou-me até a saída. Abriu a porta e como um jab certeiro, um ataque no ponto fraco, o mundo parecia ter caído sobre as minhas costas de novo. Os sons estridentes, os carros abruptos, as pessoas conectadas aos seus celulares, crianças chorando, pássaros negros espantados, moradores de rua agonizando, prostitutas, pedofilia e o resto dos pesares libertados dalguma caixa de Pandora; e eu ali, no meio, numa maiêutica, um segundo nascimento dolorido, mas, sem o ato esperneante e o choro compulsório; a gente envelhece e aprende a chorar por dentro.
Veio na mente a imagem de Carla, apavorei e pensei em dizer ao Rímel que eu não havia me despedido da sua irmã. Calculei, mas, nada disse. O “até logo” tornou-se estaca fincada no meu peito. Eu ia embora sem dizer tudo que tinha para dizer, eu estava prestes a partir sem retirá-la da sua monotonia, calçando os sapatos-adeuses sem ao menos dizer que estava a alçar voo em baixo estado emocional.
O vento tinha levado mais alguém. Carla. Parecia que tudo que eu tocava transformava-se em líquido e evaporava; tocar tinha se tornado a essência da minha vida.
Bateu uma vontade de chorar e meus dedos se mexiam sem o meu consentimento. Rasgado como trapo, restou-me agradecer a tudo, tirando o desfecho trágico.
— Obrigado por ter me ajudado e me desculpe...
Falei com todo o meu coração (para uma porta que já havia se fechado). Ninguém podia mais me confortar. Uma mochila, roupas limpas e o destino. Apenas eu e o mundo numa balada lenta.
Curiosidade é faca cega. Assim é, meus caros, partimos sem conhecer tudo por completo. A vida não permite tal luxo. Passamos por locais e pessoas, sem descobrir suas passagens secretas, seus anseios, suas petrificações e virtuosidades de cor quente.
Se você pensa que pode retornar ao local que deixou, retire suas ilusões do âmbito do supostamente real. Nunca é o mesmo local. Jamais. Como todo abraço, ele nunca é o mesmo.
Todas as oferendas aos deuses, todas as nossas juras de amor ou ódio, é buscando criar algo que não morra. A ideia do fim é algo que nos carcome até no nosso inconsciente.
Sair da casa de Rímel, fez-me uma pessoa diferente. Eu queria fazer valer a minha liberdade, pois, o cárcere de Carla fez eu me sentir no derradeiro corredor da morte e em movimento, tal corredor nunca me alcançará. Era o que eu pensava. Era. Como sempre é.
A morte nunca é uma só. Viver é saber intercalar.
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