Cancro & chaos

8 Fronha de ruínas


Por dentre todos os corpos há motivos para ele ser assim. O olho mais caído para o lado, a boca ligeiramente entortada, os pés virados para Lua. Temos lá e aqui as nossas quedas e acertos; não admitimos a dificuldade que é a subordinação, a humilhação e a descoberta dos nossos mais ínfimos desejos, fetichizados em silhuetas e ditaduras de moda, comida e lazer.

Tais exatos aspectos atrozes da minha personalidade, conseguiram ser motivo suficiente para todo o meu suor frio, meu ranger de dentes.

Engolindo meu orgulho com excesso salivar, cerrei os punhos e os olhos, subi apenas um degrau da mercearia qualquer e pedi: “Há algo que eu possa comer, senhor?”; só tomei do verbete “senhor”, pois, geralmente serve de motivador ao outro, assumindo que reconheço a sagacidade ou maior consciência de tomar a melhor ação. É mera genuflexão vocabular.

O homem saiu dos domínios da sua bancada, veio com a face petrificada, tinha os olhos um pouco puxados, andando lentamente, aproximou-se de mim — estranhamente preferi abaixar a cabeça —, engoliu algum cisco entre os dentes e disse:

— Você está com fome?

Verguei os ombros. Senti um sotaque asiático. Respondi:

— Sim... — a voz fugia.

— Por um motivo simples, eu vou te ajudar: na alma de cada mendigo há um pouco da culpa de todos nós — levantou o dedo indicador, falava sério, frio —; fecharei a mercearia por um instante e farei a melhor comida que comerá hoje, já trago para você!

Ergui a cabeça, liberando a tensão que me acometia e agradeci, não sei de quantas maneiras diferentes. Eu estava grato e a fome que me trucidava seria sanada.

Cogitei sentar nos degraus inferiores que levavam à entrada, se não fosse a abordagem truculenta de alguns oficiais da Lei, tudo seria diferente.

Chegaram dois homens fardados, um cor de amendoim e o outro branco como neve. O primeiro veio na minha direção, enquanto o outro ficou perto da viatura, desligada. O primeiro oficial aproximou-se com tamanha pinta de superioridade, ria, andava como se o chão agradecesse aqueles passos, com a mão no coldre, fazendo-me lembrar “quem” estava diante de mim.

Permaneci em pé, sem saber o quê falar. Ele parecia ter tudo na ponta da língua.

— Se eu e o oficial Sanches, atrás de mim, vimos corretamente, você estava tentando invadir essa mercearia...

— Não!

Interrompi abrupto e sem controle sobre as palavras, o oficial puxou fortemente o ar e deu um passo forte à minha frente, recuei assustado.

— Você só fala quando eu mandar! Você não sabe com quem está falando?!

Sinceramente, não tinha ideia se a pergunta era retórica, portanto, permaneci em silêncio, gélido (com aquele calor lá fora).

— Existe uma clara diferença entre nós, é como pornografia! Não tem como confundir. Eu e o Sanches fomos escolhidos para trazer a ordem e a paz para essa terra sonâmbula. Temos o direito de usar a força contra quem achar que pode tirar com a gente. Essa tua cara de cão largado e toda essas roupas maltrapilhas, só me lembram morte. Se não fosse por eu tê-lo visto andando e falando sem a minha permissão, eu arriscaria dizer que estávamos no início de um apocalipse Zumbi. Salmo 17... Ou 21... Dane-se. Eu teria atirado. Mas, como eu e o Sanches acreditamos na raça humana, nós só viemos dar um aviso, simples. A Lei não permite sentenças de morte, mas, nós somos os braços pensantes da Lei e se mexermos uns pauzinhos aqui e ali, arrumamos uma cova fácil para você, aliada a justificativas plausíveis...

Meu paladar estava adulterado, um gosto de fuligem e veneno, sentia aftas despontarem pela língua e gengiva. Não tanto pela humilhação e impotência, mas, sim por pensar que alguns daqueles que deveriam supostamente nos proteger, aproveitavam da sua função para interações lamentáveis. Enquadramentos e formas de repúdio. O mais triste é isso acontecendo em plena avenida central, com pessoas passando, conectadas aos seus telefones e aos seus problemas; antes, acho eu, o povo não permitia essa abordagem, porém, veio o egoísmo e o seu cheiro singular, toda forma de “vai se ferrar” e as tartarugas saíram dos cascos, escancararam-se, vomitaram em tudo e puseram a culpa naqueles que acham que não podem se defender. É conflito aqui, tiroteio ali, e a mídia ganhando dinheiro com sangue, meio mais hematófago de capitalizar a realidade; é tudo conflito, nenhuma guerra civil que perdura sem tempo definido. Ironia das melhores, ironia suja de sangue escarlate.

Após uma risada sem motivo do homem que fitava-me, o mesmo continuou:

— Temos uma solução fácil para você... Fácil, fácil... Uma forma de deixar uma marca bem visível, para que não se esqueça dessas palavras.

Não durou muito e o ponto de interrogação febril que emoldurava a minha mente, foi substituída por exclamações seguidas e sem nenhum vestígio de perdão.

O oficial tirou a mão do coldre, fez um som significativo com a boca e na mesma fração que cerrou os punhos, eu já estava no chão; no começo eu sentia os golpes, aqui e ali, como pontas de faca abrindo áreas sensíveis do meu corpo; toda a minha fragilidade desposta ali, naqueles punhos ensanguentados que quase se fundiam às minhas poucas roupas e às camadas mais finas da minha pele. Ouvi uma frase cortante, quase imperceptível: “odeio bater em mendigo, fede... Mas, é melhor ajudar na sujeira!”. Juro que eu tentava gritar, mesmo sabendo que não surtiria efeito, queria de alguma forma aliviar toda a dor que se tornava generalizada. O som escapulia, eram como os pesadelos que, às vezes, temos; tentamos gritar com toda a força do mundo e nada saí, enquanto algo ruim se aproxima, sem sabermos o quê é e o quê fará conosco. A visão turva, a respiração parca... Só conseguia sentir os dois exemplares homens mostrando-me os seus infernos tão íntimos e reais; não era mais dor, era mais um desconforto anímico, como torcer um membro demasiadas vezes. No mais fundo dos termos, eu senti pena deles, pois, temos as nossas crenças que se formos causar dor ao outro, tentando nos precaver de alguma angústia refletida noutrem, temos a sensação expurgante de estarmos nos curando. Há remédio que cure isso? Cure a idiotice humana.

Sorte a minha? Sentia-me confortado entre ternos escombros, sorumbático. A minha soturnidade tinha um gosto findouro. Não sei por quanto tempo apanhei, apenas posso afirmar que em determinado momento tudo parecia ter cessado e eu agradeci ao meu ateísmo por ter morrido. Sorte é um fiasco. Eu ainda estava vivo. Contudo, na minha abstração imaginativa, via-me jogado numa cidade desolada, coberto por ruínas, apenas com a cabeça para fora; o mais estranho ou/e prazeroso, dotava-se na minha expressão sensorial de estar coberto por um cobertor leve e aconchegante, sendo moldado pela minha pele. Delírios de concussão, provavelmente. Mas, delírios respeitáveis a alguns sóbrios que sentem o mundo como eu sentia naquele momento.

Abri os olhos com certa dificuldade. Pouca luz, paredes limpas e sem imperfeições, levemente brancas. Uma janela pequena perto do teto, coberta com cortinas que davam ao quarto uma atmosfera relaxante. Parecia que eu tinha viajado por longos dias sem descanso e comida, mas, tinha alcançado um posto seguro e agora estava alimentado e descansando como deveria. Cama para conforto infinito. Travesseiro branco, cobertor de seda, retentor de calor na medida certa. O ano mais quente em eras, naquele quarto, parecia ser piada marota de criança; estava fresco e arejado. Eu estava de roupas trocadas, sem cheiro ruim. Se aquele era algum bendito paraíso, alguma religião deveria ter me avisado sobre. Nenhuma. Não estava interessado.

Ouvi uma voz, decodifiquei após um tempo de aceitação e após duas, três, quatro palavras... Reconheci o modo de falar e a entonação fervorosa: era o dono da mercearia que tinha ido preparar comida para mim, antes da violência extrema dos policiais.

O seu tom de voz incisivo estava transformado, não por ele, no entanto, pela paz que me preenchia. A iluminação estava no tom e os raios solares que passavam pelas cortinas beges, iluminavam baixissimamente o quarto; na minha subjetividade: era paz intocável.

Vi-o sentado numa cadeira próxima à cama. Fechei os olhos, apreciando cada palavra que saía da boca dele, sem me importar muito com a conotação. Finalmente, a cacofonia urbana tinha sido afunilada apenas numa voz uníssona. Havia sons de pássaros ao longe, mas, sem carros, sem automóveis ou cochichos. Apenas... Uma solitude (ainda que ferida pela presença de outrem, um salvador).

— ... Eles bateram muito em você e te jogaram num beco ao lado do meu estabelecimento... Você estava perdendo muito sangue por múltiplos ferimentos... Tive que fechar o dia de trabalho e levá-lo para um hospital. Você ficará bem, mas, precisa descansar — Como era bom ouvir isso —. Espero que não se importe, mas, eu tive que tirar as suas roupas rasgadas e trocá-lo. Aproveitei e te dei um banho. Você estava precisando. No hospital, você foi alimentado por sondas e chegando em casa eu te dei um suco pelo canudo...

Abri a boca para agradecer, porém, uma dor incomum freou-me, cortando minha primeira palavra:

— Obr...

— Não! Evite falar. Não precisa agradecer. Eu estarei lá embaixo, qualquer coisa me chame. Meu nome é Rímel.

O nome dele me lembrava uma coisa... Mas, deixe para lá.

Enfim, tomei a boa ação dele e nem tentei entender o motivo dela, não naquele momento. Eu só queria aproveitar.

Próximo à cabeceira da cama, havia uma cômoda pequena, com um retrato. Julguei ser a foto de uma longa família. Lá estava Rímel, no canto esquerdo. Voltei logo o meu pescoço a posição inicial, por causa do desconforto. A vibe me trouxe o sono e o adormecer trouxe o final desse capítulo. Calma, dessa vez haverá alguma linearidade... Toda a ação é motivada por algo. Rímel havia acabado de abrigar um mendigo na sua casa. Quem faria isso? Você? Duvido muito. Havia uma ponta de intrigante em toda aquela paz e a antiga teoria do caos ser lei universal, estava diminuta, na tênue linha que separa sonolência de devaneio.