Cancro & chaos
18 Chame a Justiça, a minha neta
Posteriormente a minha retirada estratégica daquele âmbito febril, onde só eu percebia o iminente perigo. Segui caminhando de cabeça baixa, procurando algum padrão nas calçadas irregulares e esburacadas. Andava numa invisível corda bamba, com pensamentos distópicos, outros confortantes, com atenção aos azucrinantes e os que chegavam de mansinho, fazendo-me continuar. Será que alguma criança conseguiria imaginar essa situação? O quê fazemos para merecer o sumiço? Até o sumiço do luxo havia se concretizado.
Retomei a atenção à rua quando uma moto passou célere diante o meu campo de visão, buzinando alto e gritando alguma porcaria.
Esperei o sinal abrir e caminhei com certa delinquência coxa que tomava minha forma. Um som estrondoso veio em encontro aos meus tímpanos, fazendo-os vibrar e fazendo minha mente tremer. Gritos, choro. Um carro amassado, um corpo estendido no chão, acordado, mas, agonizado.
Aproximei-me das intermediações e vi várias pessoas perplexas, entretanto, invés de acudir a mulher que gritava e chorava no chão, gravavam com os seus celulares e eu não vi ninguém ligar para uma ambulância.
Corri ao encontro dela, desentendido e abismado com a situação. Então vi: uma velhinha, com seu vestido de florezinhas e bolinhas, agora ensanguentado. Da sua perna escorria o viscoso sangue e dos seus olhos toneladas de lágrimas. Abaixei a ela que cerrou os olhos em dor.
Fiquei olhando sem saber o que falar ou fazer. Ela me viu quando abriu os olhos por um segundo e pediu com as cordas vocais trêmulas e a boca disforme:
— Por favor, minha mão, segura a minha mão!
Antes de juntar a minha mão à dela, relutei ao ver a minha suja e borrada por tantas adversidades físicas e de outros gêneros. Tomei-a e ela apertou-me forte e convicta— incrível como há momentos em que não importa a cor, a limpeza, o credo, a posição social, afinal, a dor nos faz crus — olhei para trás e gritei, truculento:
— Alguém linha para uma ambulância! Agora!
Voltei os olhares a ela e evitei olhar para a perna fraturada, se não me engano, era possível ver além da derme e o meu pavor ficava dizendo para que eu olhasse todo aquele sangue... Mas, mantive-me e tentei articular palavras para incitar a calma.
— Olha para mim, vai ficar tudo bem, a ambulância não vai demorar...
— Eu não vi o carro vindo, eu não vi... — Chorava agudamente e o meu joelho apoiado no asfalto sentia o sangue que contornava-o, tingindo-o de vermelho.
— Agora não é hora de assumir culpa, conversa comigo sobre outra coisa, o segredo é não pensar nisso... Qual o seu nome?
— Ma... Matilde... — A face destorcida parecera ter envelhecido 10 anos mais na ocasião do acidente.
— Meu nome é Cancro, eu estou aqui para te ajudar...
— Obrigado Cancro... Chame, por favor, a Justiça, a minha neta... Ela é o meu amuleto... — Os seus olhos trepidavam no globo ocular e eu apertei em consonância a mão dela para que não me deixasse e perdesse a consciência.
— Conversa comigo! Você lembra o número da sua neta?
— 000... 9988... 90...904Z!
Chamei o condutor do veículo que atropelou a mulher e pedi baixo para que telefonasse para aquele número perguntando pela Justiça. Continuei confortando a Matilde.
— Ele já está ligando... Vai ficar tudo bem, só fica comigo!
— Cancro, é esse o seu nome, né?!
— Isso...
— Obrigado por segurar a minha mão... Eu não sei o quê fa... — Tentou manter os olhos abertos enquanto falava, porém um lampejo de dor fez ela gritar, embalei no seu abalo e disse:
— Ei! Fala comigo! Você quer viver, não quer?
— Eu quero viver!
— De novo, fale!
— Eu quero viver!
O homem que havia telefonado para o número designado sussurrou no meu ouvido.
— O número é de uma funerária... Não há nenhuma pessoa que trabalha lá com nome de Justiça.
Fitei-o e refutei:
— Tente de novo!
— É a terceira vez que eu tento.
Tornei virar para a mulher que respirava mais lentamente, dizendo coisas inaudíveis; ao longe, a ambulância chegava cortando o trânsito.
Chegaram os paramédicos, acudiram-na, fui afastado com as mãos, olhei-a entrando sobre a maca na ambulância. Coçou-me o cérebro e eu tinha um desejo inabalável de saber da sua sobrevivência. Depois de pouco tempo, os automóveis voltaram à velocidade normal. A super excitação das luzes, carros, buzinas, sinais e murmúrios digitais, fizeram-me sair dali. Voltei a andar.
Meu coração acelerou sem causa aparente e levantei os olhos por um momento. Não acreditará quem vi, sorrindo para mim de uma forma singela e doce. Uma mulher idosa com a fisionomia semelhante a deusa de um quadro que decorei as feições: a Mente Perdida.
Vieram dois pensamentos incongruentes e distintos. O primeiro: lembro-me que a hipotética Mente Achada disse que a única que aparecia aos seres humanos era ela, mas, como eu havia visto a hipotética Mente Perdida? O perdido pode ser achado, talvez? Delírio? Destino? Talvez, apenas pareidolia, fenômeno psicológico caracterizado por estímulos vagos e aleatórios que levam a vermos significados reais no que não é bem assim, dessa forma reconhecemos animais nas nuvens e rostos humanos onde hipoteticamente não há.
O outro pensamento dotou-se numa outra incógnita. Pensei: por qual raios a Matilde passou o número de uma funerária? Talvez, o delírio novamente, forte indício, aliás. Ou será mesmo que Justiça é o nome próprio da neta de Matilde? Cá estou eu vendo mais um padrão... A Justiça num funeral? A Justiça num funeral! Que mundo injusto. A justiça morta. A velhinha atropelada e tantos outros, ilesos, a não ser pela mente que se carcome.
Informações filtradas num prisma subjetivo tomam significados subjetivos. Só algo mais da minha cabeça.
Ainda borrados, meus olhos conseguiam, aos poucos, avistar a famosa ponte dos Duendes da Morte.
Ah, como eu não pude perceber... Meu subconsciente estava me levando para ali. A última destinação, se assim eu escolhesse. Águas violentas se debatiam embaixo de uma ponte que os seres humanos fizeram, metaforicamente, levadiça.
“Perto do topo, abra a carta”. Peguei-a, olhei para o pequeno envelope. Não tardou e devolvi ao saco plástico que deixei enrolado o papel para que não sujasse. Eu estava disposto a ir para a ponte. Mas, ainda não sabia ao certo o quê faria quando visse tanta água e a cidade tão minúscula.
O quê acha que fiz, leitor? Será que me conhece o bastante?
Parti, com a cabeça erguida e comecei a captar uma depuração no ar, o excesso de árvores que cobria a baia nas proximidades da ponte purificavam melhor o ar e as poluições sonora e nasal reduziam-se. Os carros que passavam pela ponte tinham pelo menos um objetivo de quatro principais.
Primeiro motivo: estavam ali para entrar na Terra dos Mancos, a cidade que tanto engolfou-me.
Segundo motivo: estavam passando por ali para sair da conurbação de tantos males focalizados numa só região, para nunca mais voltar ou em férias para alguma região tropical ou extremamente fria.
Terceiro motivo: suicídio. Meramente, suicídio. A ponte tem os maiores índices de pessoas que visitam o local apenas para se jogar. O quarto motivo pode levar a esse ou barrá-lo.
Quarto motivo: reflexão. Existe um poder inexplicável que altera as condições mentais quando vemos as pessoas, os momentos e as locações por meio doutros ângulos. A ponte e, principalmente, a distância dela dos prédios, casas e centros comercias permitia tal abordagem visionária.
Até logo, leitor. Parte de todo o prazer, desde então, vem de saber que você continua comigo.
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