Cancro & chaos

12 A cidade dos pés juntos


Esse capítulo pode ser perturbador. Considere-se avisado. Pule se convier!

Há quem não goste de cemitérios. Acredito que seja difícil gostar. Nem sei se isso é possível.

Anda-se por entre as lápides e há ossadas aqui e ali, imperceptíveis por causa dos túmulos que ocultam o que há por debaixo do que nos resta, no hipotético fim das contas.

Minhas roupas límpidas não significavam muito para mim. Sentia-me falso com todo aquele asseio. Então, traguei a minha melhor coragem e ao passar pelo Cemitério da Saudade, não fiz por valer apenas os meus passos, resolvi entrar; entre tanta concupiscência e corrupção, você não sente os seus defeitos com tanta gravidade. Você quase se sente em casa. Há melhor lugar que o conglomerado de emoções e irrealizações que é um cemitério? É triste, se você for pensar, como os seres humanos conseguiram denegrir o ato de ir, tragando muito com tristeza ou esquecendo de fazer valer o tempo na carne.

Grama e calçadas irregulares. Pessoas e cachorros de moral duvidosa.

Ao longe, perto da estátua de um anjo, assolada pela chuva ácida, vi um velho sentado numa cadeirinha, ao lado de um túmulo. Aproximei-me. Interações inusitadas fazem a vida valer a pena.

Barbas brancas, definhadas, volumosas e longas. Mesmo ao perceber a minha presença, custou olhar para mim, tinha o olhar vago nas sujeiras que tornavam completo o aspecto exterior do túmulo. Fitou-me e levei um pequeno susto, na contramão das minhas expressões regulares. Ele tinha um olho totalmente esbranquiçado, esse em fenda, feito um felino. O outro olho era verde pungente.

Tinha botas sujas de barro e uma calça jeans visivelmente velha. Uma regata de pano fraco, embrutecida pela sujeira das ventanias de terra. Fiquei ereto, olhando o túmulo. “Aqui jaz a maior das mulheres, Ruanda”. O epitáfio chamativo: “Não sei porque damos tanta importância para a morte, Eu só não gosto da morte, porque só os outros sentem frio e eu nem sentirei”.

O homem começou a contar uma história, munido de voz grave e rouca. Alberguei-me no chão batido e ouvi enquanto o Sol adormecia.

— Quando eu era guri, morava afastado da cidade, numa vila rural chamada Riachó...Tinha lá seus encantos, os maiores eram as pessoas... Havia uma velha governanta na vila que contava causos para as crianças e adultos, mas, até os velhos se sentavam para ouvir, atenciosos, ávidos por uma vida que nunca viram... Certa vez, Matilde contou sobre os cemitérios. Dizia que havia um monstro comedor da carne dos corpos por debaixo da Terra, por isso só restam os ossos se abrirmos as tumbas... Ela dizia que o monstro só dilacera a carne, pois, a alma nós já fazemos questão de dilacerá-la... — Fitou-me, como se soubesse a minha vida inteira e repreendia-me — Contava com tamanha veracidade... Ela dizia que no começo dos tempos o monstro comia tudo, a alma e a carne. Porém, vieram as perversidades, a arrogância, a protuberância do ego e a alma ficou tão desvalorizada que quando o monstro comeu uma delas, o gosto putrefato o fez sentir repulsa, desde então, o cemitério é de corpos. Matilde até nos contava, que há almas que preferem ficar em cantos-sepulcros do mundo, pois, o orgulho não permite aceitar a morte ou é preferível ficar nas proximidades do que restou da vida material: ossos... A governanta terminou a sua história com uma dose de motivação aos que não se cegaram. “Ainda há salvação a vocês, imortais... Torne a alma de vocês aprazíveis e restarão mais que ossos no fim dessa vida... Pensar é infindável e o monstro não se arrisca mais a comer as almas”.

Sinestesia. Gosto de sangue na língua. Levantei, ele levantou os olhos novamente e terminou:

— Ruanda morreu já faz 9 anos. Fazia colares com espinhos. Provou um como sempre fazia e por ônus do seu trabalho, foi-se. Só não chamo ela de “minha mulher”, pois, percebe-se que nada é nosso quando não depende da gente quando alguém vai ou fica. É temporário como respirar. Acreditar em posse é nutrir mentira.

Não sei em quê baseei a minha ação, só levei uma das mãos ao ombro do homem e o vi, inesperadamente, despencar em prantos agudos e severos. Não era um choro inescrutável, mas, foi inesperado; toda a rusticidade do seu portar, resumia-se num garoto calado, fraco, debilitado. Derretendo sob o sereno.

Entre lágrimas, com a face fechada hermeticamente, fitou-me com caô nos olhos, levantou do seu banco e começou a se aproximar embrutecido. Fera prestes a atacar.

Começou a esbravejar violentamente enquanto eu recuava sem saber quando trombaria nalgum túmulo:

— Me mata! Me mata logo! Eu quero ir logo! Agora! — Alongou o “agora” até a voz escapulir.

Voltou a chorar e jogou-se sobre a poeira que cobria o túmulo de Ruanda. Tentava abraçar a lápide, o concreto, qualquer coisa palpável. Percebendo a impossibilidade, apoiou a face sobre a tampa do túmulo e com os braços abertos, ali ficou inundado.

Eu sentia pena e, na minha subjetividade, eu acho triste sentir pena.

“Pena” é palavra engraçada, ironicamente. Como sentir “pena” pode ser também expressão designada para abranger leveza? “Pena” é pesado. Oh, palavra atribulada. Continuando.

Não sentia-me capaz de ajudá-lo de nenhuma maneira plausível. Apenas procurei sair do recinto, meu sentimentalismo apertava e, sinceramente, chorar muito cansa não só as pálpebras.

Saí dali e instantaneamente, após uma trovejada digna de sustos, uma chuva fraca iniciou-se. Minha alma não ansiava por cobertura, eu só queria andar, molhar-me e sentir o mundo. Lembrei-me que horas antes eu estava todo saltitante com a ideia de descobrir o motivo de todos os desaparecimentos... Porém, a vontade passou, feito paixão ardente que acaba da mesma forma que chegou, rapidamente.