Cancerígena

1 Tudo é branco


Me encontro neste quarto de hospital frio e branco. Tudo é branco. As paredes, a cama, os lençóis, as janelas, a luz, minha pele. A única cor que há aqui são meus lábios roxos e meus olhos vermelho e verde, a parte verde tá mais pra cinza, sei lá.

Eu espero o juízo final, apenas isso. E neste balanço de minha vida, percebo que me arrependo de muitas coisas, percebo também que eu sempre estive doente.

Acredito que uma coisa é bem verdade: algumas pessoas não tem vocação para a felicidade. Eu sou uma delas.

Eu nunca fui aceita, eu sempre fui a última, eu sempre fui a pior e eu sempre fui a mais feia. Como ser feliz assim.

E essa carta vai para a sociedade: vocês julgam ser tão importante a beleza interior e bla,bla, bla? Então por que faz as pessoas feias se sentirem tão mal? Por que vocês colocam apelidos nelas? Por que acham drama barato elas se sentirem mal? Por que insistem em faze-las se sentir bonitas? Por que? Por que? Por que?

Eu fui a última até mesmo para Deus. Ninguém sabe que quando um outro paciente morre eu sinto uma grande vontade de ser ele, e ir. Semana passada eu mordi minha língua, na tentativa fracassada de suicídio, mas sabe o que aconteceu? Eu não tive força suficiente... E eu sempre me senti assim, sem força.

- Quem acordou com mal humor hoje?

São os palhaços, com seus sorrisos falsos e agonizantes, junto de piadas sem graça e a tentativa de serem desastrados e frustantes.

- Vão embora.- Minha voz está rouca e fraca.

- Não por que a tristeza vai embora e a alegria chegou!

- VÃO EMBORA!

Eles fingiram tristeza por um momento. E então senti cócegas.

- Xo, tristeza! Xô!

- Vai embora.

E então mordi a palhaça que me fazia cócegas. Depois peguei uma jarra de flores que havia no criado mudo e joguei neles. Eu tinha muita raiva. Levantei e peguei o suporte de ferro que segurava soro e remédios que iam direto para a minha veia.

- Deem um fora daqui.

E joguei contra eles enquanto eles chamavam a enfermeira. Só que a agulha ainda estava na minha veia. Eu sangrei bastante, mas não senti dor, eu estava cega de raiva, tentei agredi-los de todas as formas.

- Querem me fazer ficar alegre? Salvem minha vida, achem uma maldita medula compatível para mim!

E então vieram dois enfermeiros com sedativos, e eu apaguei.

- Foi uma manhã agitada, querida.- Dizia mamãe acariciando meus cabelos.

- Eu não aguento mais.

- O que você quer? Eu posso comprar algo que queira comer, ou podemos te levar para casa por uns dois dias.

- Eutanásia.

- O que?

- Por favor, mamãe.

- Você está louca.

Ela nunca entenderia.

- Pode ser efeito dos remédios, senhora. — disse uma enfermeira loira na porta.- O médico quer falar com a senhora.

Mas as vezes eu pensava na cura, em como seria voltar a viver. O que eu faria? Continuaria meus estudos e faria algum esporte, teria amigos e tentaria ser uma boa menina.

E então me lembrei de uma forma de suicídio. Quando beber alguma coisa é sugar a bebida como se fosse ar, fazer isso até o liquido ir aos pulmões, e então morrer.

- Remédios!- Ela era uma enfermeira ruiva e gente boa.- Tome cuidado com a água.

Ela vinha com 2 comprimidos e um copinho de água.

Água.

- Pode me deixar sozinha, por favor?

- Claro.- Ela sorria... como alguém pode sorrir?

- Eu agradeço.

Olhei o copo por alguns minutos. Aquilo era minha saída, meu paraíso.

Eu peguei ele com decisão. Encostei a borda no meu lábio inferior e ingeri um pouco de água, mas não consegui engasgar.

- Filha, acharam um medula compatível!

Santo Inferno.

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