Canarito

6 Capítulo 6


Notas iniciais
Como te quiero y te quiero, pero este amor ya no es mío Sé que tu boca y mi boca, cuando se juntan, hay lío Cómo quisiera quedarme, pero ahora no estás conmigo Siempre la vida se pasa, pero no pasa contigo” (Cristina - Sebastian Yatra)

— Eu sei que você está só fingindo que está conseguindo estudar pra não me contar em detalhes sobre esse seu final de semana, sabia? – Alana declarou sentada de frente para mim na mesa de estudos do meu quarto. – Cristina! Qual é? Sabe eu não tive a chance de visitar o tal barco, porque a gente não vai lá agora a tarde?

Eram pouco mais de 16h. Tecnicamente, se saíssemos naquele instante chegaríamos antes da visita encerrar... Ha! Eu estava caindo direitinho no jogo de Alana. Eu bem queria me concentrar para estudar, mas a todo momento minha mente vagava para Nahuel e isso era irritante, considerando que isso não tinha fundamento, era pedir para sofrer e só.

— Lana, desculpa, mas eu não vou. Não poderia. Se realmente estiver tão curiosa... Chama a Laura... O Renato... outra pessoa, amiga, sinto muito. – Eu disse erguendo meus olhos do livro, na intensão de que meu olhar tornasse a declaração menos... ácida. Alana piscou para mim duas vezes, deliberadamente.

— Okay. Talvez não tenha sido a melhor sugestão. Mas poxa, Cris, você prometeu que me contaria tudo e não tá querendo abrir o bico!

Cada vez eu ficava mais convicta da minha tendência de me cercar de pessoas muito curiosas, ainda que eu mesma não tivesse nenhum talento para isso. Respirei fundo, fechei o marcador de texto e cruzei os braços sobre o livro encarando Alana.

— O que exatamente você quer saber?

— Como ele é, como foram os encontros, sei lá... qualquer coisa! – Ela disse, agitada por eu final ter cedido.

— Ele é simpático, bonito, tem sempre um sorriso gentil no rosto e é muito educado. – Declarei.

— Ai Cristina, como você é sem graça! – Alana me encarou muito insatisfeita. – Bonito... Bonitão ou...

— Bonito do tipo não extraordinariamente lindo e exótico. Ele é um pouco mais alto do que eu, tem a pele morena clara, bronzeada, é forte, mas não é musculoso-bombadão, o cabelo é preto, cortado bem baixinho, não tem barba por causa do serviço militar, os olhos são castanho escuros, pequenos e brilhantes, as sobrancelhas bem grossas e expressivas e quando ele sorri abertamente tem uma covinha não muito funda do lado direito.

— Você sabe que poderia ter apenas me mostrado uma foto dele né?

Soltei o ar com força, revirei os olhos, abri a foto de perfil de Nahuel no whatsapp e mostrei para Alana.

— Ele tem cara de argentino. – Ela declarou e eu me perguntei como ela chegou a essa conclusão. – Tem fotos de vocês juntos? Acho que vocês combinam... Mas só pra eu verificar.

Então me dei conta que a única foto que tiramos, na varanda do prédio da faculdade, tinha sido no celular de Nahuel.

— Não. Quer dizer, só tiramos uma foto, mas foi no celular dele.

— Cristina, Cristina... o que eu faço com você e seu pavor de câmeras fotográficas? – Alana declarou jogando os braços para cima. Realmente, eu não era muito fã de posar para fotos. – Manda mensagem pedindo a foto. – Ela sugeriu, me entregando o celular.

— Ah... acho que não. Se ele... se ele quiser me mandar a foto, depois eu te mostro. Mas eu não vou pedir.

— Por quê? – perguntou horrorizada.

— Porque as chances de eu voltar a vê-lo algum dia são muito perto de zero. Porque ele está em serviço e vai embora amanhã e eu acho que posso ter me apegado sentimentalmente a ele, e talvez seja coisa da minha cabeça, mas acho que ele também se afeiçoou a mim. Mas isso tudo não vai ser saudável para nenhum dos dois. Então o mais certo a se fazer é deixar a poeira assentar, depois do furacão que foram esses últimos dias. – Vomitei todas aquelas palavras de uma vez, em um só fôlego, porque não conseguia mais contê-las, sentindo meus olhos arderem. Mas eu não iria chorar. Chorar era demais.

— Cris... Cris, me desculpa. Eu não queria... – Alana disse colocando as mãos sobre meus braços cruzados. O toque reconfortante ameaçando desfazer a redoma de vidro que continha meus sentimentos. – Poxa, amiga... Deve ter sido muito especial mesmo. Sinto muito.

— Tudo bem. Eu só não quero mais falar sobre isso, tá? – Alana concordou. – Vou... beber agua, você quer?

— Claro. – Ela se levantou e me seguiu, meio constrangida até a cozinha.

— E aí? Tão estudando ou só fofocando? – Perguntou minha mãe, quando chegamos na cozinha. Peguei os copos no armário sem responder e abri a geladeira para pegar a água, foi quando percebi Alana sinalizando para minha mãe que seria melhor não tocar no assunto. Ela me deu um sorriso amarelo quando percebeu meu olhar. – Ah... Eh... Eu acho que vou fazer um bolo de cenoura. Querem com ou sem calda de chocolate? Mariana disse que Pedro está vindo pra cá.

— Com calda, por mim. – Declarou Alana

— Sim. Muita calda por favor, e eu quero raspar a panela. – Sorri para minha mãe para que ela ficasse tranquila. Eu estava... okay.

Quando anoiteceu o comboio que pegava no me pé por causa do flerte com o argentino só crescia. Eu já tinha deixado claro que poderia suportar uma conversa superficial sobre o assunto, já que insistiam em falar sobre o grande acontecimento da minha vida nos últimos 5 anos, mas que havia um limite e eu não iria ficar dando depoimentos nem detalhes sobre nada. Talvez me ajudasse o fato da história realmente se tornar somente isso: história. Talvez em breve eu conseguisse rir com naturalidade genuína daquilo tudo.

Foi uma espécie alívio quando recebi uma ligação de Marcelo me chamando para ir dar uma volta no Mercado do Peixe no Rio Vermelho. Marcelo fora um dos primeiros amigos que eu havia feito na faculdade, que não era da minha turma, e ao longo dos anos nossa amizade resistiu e se fortaleceu. Talvez o fato dele ser de uma cidade do interior vizinha à minha e nós compartilharmos muitos gostos parecidos tenha sido um dos motivos para essa relação tão longa.

Ele havia se formado em Abril e desde então, com o trabalho dele e meu estágio, nos víamos com bem menos frequência do que estávamos acostumado. A verdade era que eu havia gostado muito de Marcelo há alguns anos, nós até já tínhamos ficado uma vez, em uma festa, mas voltamos ao modo amigos no dia seguinte e aquilo me deixou muito confusa. Então levei um tempo para superar aquele sentimento e me conformar com a friendzone. O que não significava que essa ideia de “sair para dar uma volta no Rio Vermelho a sós” não me parecia estranha e para a qual eu não estava confortável no momento, então respondi com um:

— Que ótima, ideia, Celo! Alana está aqui em casa, sabe, e ela e as meninas estavam mesmo pensando em sair um pouco hoje. Vai ser divertido sentarmos num bar e tomar umas cervejas. Tudo bem se eu estender o convite a elas? – Me senti meio culpada, mas era melhor do que recusar.

Ele concordou, com a voz um pouco desanimada e combinamos de ir às 21h. A campainha tocou e Mariana saiu do quarto com uma toalha enrolada na cabeça.

— Eu abro! Deve ser o Pedro. – Ela declarou indo abrir a porta. Provavelmente era mesmo. Pedro já era uma visita tão comum em nosso apartamento que a portaria nem avisava mais quando ele chegava.

— Quem era no telefone? – Perguntou Alana.

— Marcelo, perguntando se queria ir no RV hoje...

— Isso aí garota. A fila anda! – Brincou Mariana trazendo Pedro pela mão.

— Não é nada disso, Mari. – Disse um pouco irritada – Nós vamos ao Rio Vermelho hoje à noite. – Eu respondi apontando em volta. – Oi Pedro, você pode ir também. – Acrescentei sem muita simpatia. – Desculpa! Você não tem nada a ver com o fato da sua namorada me tirar do sério às vezes... quase sempre. – Adicionei, me sentindo mal pela rispidez.

— Sim, senhora! – Respondeu Pedro, fazendo menção de bater continência e parando a meio caminho quando olhei feio para ele. Com certeza Mariana tinha lhe atualizado de tudo. – Huuuum... que cheiro maravilhoso é esse? Tia Silvia tá fazendo bolo? – Pelo visto comida sempre era uma ótima desculpa.

Mariana, Pedro e meu pai iniciaram um jogo de cartas e eu comecei a pôr a mesa para comermos. Alana e Laura estavam conversando sobre o capítulo da novela. Minha mãe terminou a calda do bolo e me entregou a panela. Sentei no chão, em um canto da cozinha, enquanto raspava o chocolate do fundo, escondida como uma criança para não dividir com os outros. Eram 19h19 quando acendi a tela do celular. Fiquei encarando a tela... nenhuma nova mensagem.

Então, chegou uma notificação. Era Marcelo mandando um link do BuzzFeed com algum teste de conhecimentos sobre filmes da Disney. Ele sabia o quanto eu gostava desses testes, sempre me mandava e depois comparávamos as pontuações. Era uma competição muito séria. Respondi enquanto raspava a panela.

Todos comemos enquanto conversávamos amenidades, minha vida finalmente sendo deixada em paz pela maior parte do tempo. Perguntamos se meus pais também não queriam ir ao Rio Vermelho, já que o programa tinha virado um grupão mesmo. Mas eles disseram que eram jovens demais para se misturar com adultos amargurados que iam encher a cara como nós, com isso meu pai acrescentou “Vai com calma” apontando para mim. Minha mãe insinuou algumas vezes que eu devia prestar mais atenção em Marcelo e eu encerrei o assunto dizendo que eu gostava de visitar museus, mas não era um.

Com quatro mulheres para se arrumar, começamos assim que terminamos de comer. Como eu costumava ser mais rápida fui ajudar Pedro e Mariana com a louça e a cozinha, enquanto Laura e Alana tomavam banho e começavam a se arrumar. Quando fui para o banho Alana ainda estava debatendo com Laura qual roupa vestir. Ela tinha um corpo muito mais parecido com o de Laura: quadris largos, cintura marcada. Eu não era nenhum exemplo de curvas.

Escolhi um macaquito de pernas curtas ombro a ombro com um recorte em coração, o corpo branco e a parte de baixo mais soltinha com um barrado estampado como um campo de girassol, minha flor favorita. Era uma noite quente e apesar do Mercado do Peixe ser perto da praia e em espaço aberto, podia fazer calor. Quando estávamos todos prontos mandei mensagem para Marcelo, avisando que estávamos a caminho. Mariana, Pedro e Laura foram em um Uber, eu e Alana fomos em outro e no caminho paramos para pegar Marcelo.

Chegando lá a diversidade do Mercado cantava de uma ponta a outra, literalmente. Da MPB passando pelo pagode, forró e sertanejo. Nos sentamos em um dos bares, sem muito critério, e pedimos cervejas e petiscos. Entre piadas e histórias ruins, cantávamos em voz alta com alguns dos couverts que se sobressaíam, fomos rindo e ficando altos.

Não demorou muito até as meninas contarem sobre o “marinheiro argentino” para Marcelo que me olhou com certa surpresa, aqueles olhos cor de mel se divertindo. Dei de ombros. Mariana e Laura tinham criado uma regra ridícula de que, a cada vez que eu ativasse o celular, devia virar um copo de cerveja, então a fim de não passar mal eu evitava mexer no celular. Já havia aceitado que a minha estratégia de manter a distância estava sendo reproduzida por Nahuel também.

Depois de algumas garrafas de cerveja esvaziadas, uma rodada de batatas fritas e outra de bolinhos de queijo, recebi uma ligação. Antes que eu olhasse para ver de quem era a chamada, Laura já empurrava um copo cheio na minha direção. Argumentei com ela que eu iria atender, e levantei da mesa ignorando o copo, o que foi bom porque já me sentia leve. Me afastei da barulheira para atender a ligação. Caminhei até os fundos do Mercado, próximo à praia.

— Alô? Quem é? – Atendi, sem ver de quem era a chamada.

— Hola... solo yo.

— Nahu? – Fiquei realmente surpresa — Oi! O que foi? Por que ligou?

— Envié un mensaje, pero no lo viste. Hoy es la última noche de mierda de mi pelotón, antes de irnos. Entonces decidimos salir por un rato. Me preguntaba si quieres venir aquí.

— “Noche de mierda”? Que é isso? – Falei um pouco tonta, com a surpresa da ligação ou talvez fosse a cerveja.

— Desculpa. Noite livre. — ele respondeu contendo o riso.

— Onde vocês estão?

— Estamos...— Escutei ele perguntar a alguém o nome do lugar — no Bar Maré Alta, no Rio Vermelho. – Eu ri com a informação.

— Estoy más cerca que puedes imaginar.— Arrisquei dizer. – Estou no Mercado do Peixe é só atravessar a rua, na direção da Praia. Pode vir direto até o final, vou estar te esperando.

— No creo... ya voy...— Ele disse, desligando antes que eu pudesse responder.

E apesar de todo o aparente progresso daquela tarde, a ligação, a voz dele e suas palavras fizeram meu coração bater rápido e forte novamente. Um súbito calor de ansiedade me fez ir para mais perto da praia para sentir a brisa. Cerca de cinco minutos depois, avistei Nahuel caminhando em minha direção, ele deu uma pequena corrida quando me identificou, até onde eu estava olhando para as ondas.

Se aproximou com um olhar admirado e pegou minhas mãos que estavam frias, por causa da brisa úmida que vinha do mar. Suas mãos firmes e calejadas também estavam frias e ele juntou nossas mãos na frente do rosto e beijou o dorso das minhas, com aquele sorriso que dançava por seus lábios.

— Cristina...¿Pudes creer que nos vimos hoy? Porque siento que no te he visto en días.— Ele disse com a voz lamentosa.

— Eu sei… — comecei a falar baixinho, antes dele me puxar para um beijo, urgente e faminto.

Fiquei completamente inebriada ao toque da pele dele, quente contra a minha que havia esfriado onde esetava exposta à brisa. Despertou em mim uma chama que queimava, prometendo levar meu corpo à combustão . Era como a lava querendo quebrar a superficie de um vulcão adormecido nos pontos que Nahuel me tocava.

Entreguei-me àquele beijo, puxando seu corpo contra o meu, as mãos fechadas em punho nas costas dele, que envolvia meu tronco com seus braços. Tomei consciência de que essa podería ser a última vez que o beijava, que estava em seus braços, pra valer dessa vez. A maré subiu um poco mais e a espuma morna do mar tocou meus pés, molhando minhas sandálias e enviando um choque térmico por meu corpo.

Tragada dos meus pensamentos para o momento, senti meu fôlego ficar ainda mais curto e perdi as forças em minhas pernas. No mesmo instante, Nahuel me recolheu, amolecida, em seus braços, sustentando o peso me carregou até um dos bancos em formato de barco na parte pavimentada acima da praia. Meu peito subia e decía em respirações rápidas e superficiais, como se fosse difícil encher meu pulmão de ar, enquanto eu me aninhava no colo dele.

— ¿Canarito, que tomasté? — Perguntou preocupado.

— Só algumas cervejas... – Eu ri feito boba. Era bonitinha a preocupação dele.

— Creo que exageraté un poco... con quien viniste?

— Mariana, Pedro... Laura...

— ¿Dondé estan?— Ele levantou o rosto, buscando reconhecer Mariana, eu imaginei.

— Em algum bar por ali... – apontei vagamente, e fechei minhas mãos em concha no rosto dele, virando-o para mim – Mas... eu não quero eles agora. Eu... Eu quero você, Nahu. Só você. – Encostei meu rosto no dele – Eu achei que hoje pela manhã tinha sido a última vez que nos vimos... Estou feliz em te ver. E agora quero só você.

— Yo tambíen te quiero, Cristina. Yo te quiero. – Ele respondeu, e eu entendi todos os significados daquelas palavras. — Pero... así no. Tu no estás bien. – Ele acariciou meu rosto com uma mão. – Quizás un dia...

Ele sussurrou e continuou acariciando meu rosto e o toque de sua mão era convidativo, ainda que áspero. Repousei meu rosto na curva do pescoço dele, como no dia do pôr-do-sol. E senti seu cheiro, tentando memorizar cada pedacinho dos momentos dos últimos dias. Ele descansou o queixo na minha testa e continuou me abraçando. Ficamos assim por um momento, até o mundo parar de girar para mim.

– Acho que eu preciso de uma água... Melhor, um refrigerante. – Falei.

— Ya vuelvo... — Ele se levantou rapidamente e foi até a barraca mais próxima e voltou com uma lata de coca-cola. – Beba. – Nahuel encheu um copo para mim. Ficando de cócoras na minha frente, enquanto eu tomava o refrigerante.

Olhei na direção que ele acabara de vir e vi que Laura se aproximava um pouco alarmada. Então fiz um gesto pra que ela entendesse que estava tudo bem. Ela parou. Então sinalizei gentilmente que ela podia voltar para o bar. Ela esperou um pouco e então voltou por onde veio, sempre olhando por cima do ombro, para verificar se eu não havia mudado de ideia. Mas eu só queria ficar um pouco mais a sós com Nahuel, desfrutar do quanto de privacidade e intimidade que podíamos ter. Bati no banco ao meu lado para que ele se sentasse ali.

— Já estou bem. Obrigada... – Interrompi-me quando suas mãos seguraram meu rosto, depositando beijos em cada uma das minhas bochechas, na minha testa, na ponta do meu nariz e me puxando para um abraço apertado.

— Tengo algo para ti… para nós. — Ele falava e meu rosto sentia seu peito subir e descer a cada respiração, além das batidas do coração que eu percebi acelerarem. – Los encontré hoy, volviendo al puerto, con un vendedor ambulante.— Ele mexeu no bolso da calça e retirou de lá dois aneis que pareciam feitos de uma pedra polida, ou talvez resina, eram coloridos com uma mescla de laranja e azul cobalto, em padrões irregulares, parecidos, mas não exatamente iguais. – Es simple pero... Me recuerda el contraste del cielo y el mar… en el entardecer que vimos juntos. Mientras te oía cantar… Canarito.

Ele falava pausadamente, enquanto passava o par de anéis de uma mão para outra, um tanto nervoso. Repetindo o apelido como uma prece. Eram lindos. Peças que provavelmente eu visse com os ambulantes e nao tivesse dado a minima, mas agora tinham um significado completamente novo para mim.

Pegou um dos aneis e minha mão direita… e parou, pensando. Talvez colocar o anel em meu dedo fosse um ato forte demais, como um promessa que não sabíamos se poderíamos cumprir. Então eu cobri sua mão com a minha. Sussurrei um “Obrigada, são lindos” e após apertar sua mão recolhi um dos anéis com a mão fechada em punho e a aproximei do meu peito. Ele fechou a mão sob o outro anel e espelhou meu gesto. Então, só com o olhar, pedi que Nahuel me beijasse, sendo prontamente atendida.

Com cuidado e intensidade ele me beijou. Guardei o anel no bolso do macaquito e, afastando-me brevemente, apoiei as mãos em seus ombros e passei um joelho em cada lado do corpo, sentando-me em seu colo. Nahuel tocou meu rosto e depois deslizou suas mãos firmes, até abarcarem meu quadril. Corri minhas mãos por suas costas, nos aproximando para beijá-lo.

Eu quería que qualquer espaço entre nós sumisse, real ou virtual, presente ou futuro. Sentia-me forte e preciosa em seus braços. Era uma loucura pensar que ele podia me fazer sentir tudo isso depois de tão pouco tempo. Logo qualquer pensamento divagante sumiu da minha mente, quando Nahuel desceu traçando beijos por meu pescoço, avançando tão longe quanto o decote mais profundo do meu macaquito permitia, com seu lábios quentes. Arfei e apertei meus lábios para reprimir os sons que se formavam em minha garganta.

Cada toque dele me deixava extasiada. Uma de suas mãos apoiava minha lombar e a outra delisou para cima no meu tronco, apertando a curva da minha cintura, meu tórax e meu seio, sob o tecido. Gentil, mas habilidoso. Sua boca voltou para a minha, tinha sabor de menta e cerveja. Ele mordeu de leve meu lábio inferior, então joguei mais do meu peso sobre os joelhos, apertando a lateral de seu corpo com a parte interna das minhas coxas. Senti um gemido se formar, como uma vibração desde o seu tórax. Então ele se afastou um pouco de olhos fechados, equilibrando o peso do meu corpo com as mãos, e sacudiu a cabeça em um movimento rápido.

Quando ele abriu os olhos, neles enxerguei o desejo, profundo e intenso como uma tempestade em alto mar deveria ser, sendo reprimido. Eu queria que todo o resto do mundo desaparecesse, para que só restásemos nós dois e esse fogo que nos queimava por dentro. Por isso, olhei demoradamente em seus olhos escuros, para que ele tivesse certeza de que eu também o desejava.

Então, Nahuel me puxou contra seu corpo, apertado, muito apertado. E nos beijamos de novo, profunda e demoradamente, tentando dizer ali tudo o que palavras não conseguiam, não importava o idioma, tudo o que nossos corpos não podiam dizer sem reservas. Aos poucos fomos conseguindo domar aquelas chamas, juntos.

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— Preparado para enfrentar meus amigos? – Perguntei.

Haviamos decidido voltar para perto dos outros, pelo nosso próprio bem. E o meu grupo de amigos era bem menor do que o pelotão de Nahuel, deduzimos que seria mais fácil de encarar. Ele só sorriu resignado em resposta. Caminhamso lentamente de volta ao bar onde o grupo estava, despedindo-nos de nossa atmosfera perfeita. Quando nos aproximamos, meus amigos fizeram o favor de interromper subitamente a conversa, produzindo um silêncio estranho, apesar dos ruídos e conversas ao redor. Até que Mariana resolveu reagir.

— Hola, muchacho! — Mariana cumprimentou animada demais. Provavemente efeito extra das cervejas.

— Ele é argentino, não mexicano, amor. – Observou Pedro, sorrindo simpático. – Prazer, Pedro. – Falou estendendo a mão.

— Nahuel. Placer.— Respondeu ao cumprimento, o sorriso gentil e encantados nos lábios.

— Então… Você já conhece a Mariana. E agora o Pedro, el novio. – Destaquei a palavra aproveitando para tirar um pequeno sarro de Mari. Continuei – Esta é Laura, minha outra amiga que mora comigo. Esta é Alana, minha amiga que vai se formar comigo. E Marcelo um grande amigo, estudou na mesma universidade que a gente, já é médico. – Falei conforme apontava as pessoas e Nahuel seguiu apertando mãos – Pessoal, este é o Oficial Nahuel Testa.

— Seu novo amor – Falou Mariana com um olhar travesso. Laura a olhou com reprovação, Marcelo ficou imparcial e Pedro espalmou as mãos no rosto. Ohei para Nahuel e eles ria abertamente, a covinha aparecendo.

— Calada, amiga. Já deu de provocação. – Eu declarei, então todos riram um pouco.

Nos sentamos a o lado de Pedro e Mariana e a conversa na mesa voltou a ficar animada. Percebi que Marcelo ficou um pouco incomodado com minha proximidade com Nahuel, mas paciencia, sempre que ele teve uma chance nunca fez nada a respeito. Eu estava decidida a só aproveitar o momento, o máximo que eu pudesse. Conversamos, jogamos, aprendemos palavras em espanhol e ensinamos outras. Para mim a mais difícil foi “alrededor” que era praticamente um trava línguas.

— Se for para travar linguas em espanhol ela prefere outros métodos, Nahuel! – Mariana comentou e ninguém mais ligava para as piadas dela. Todos rimos… não, gargalhamos juntos.

— Alguém devia tirar o copo da mão da Mari. – Declarou Alana, recuperando o fôlego.

— É o clássico “o álcool entra, a verdade sai”, Lana. – Laura acrescentou e eu a chutei por baixo da mesa em meio aos risos.

Senti uma súbita vontade de agarrar Nahuel e beijá-lo alí mesmo, logo eu que não era muito dada aos espetáculos de afeto, mas me contive um tanto contrangida. Todavia, apertei sua mão que repousava em minha perna, só apra reforçar que Mariana tinha alguma razão, afinal.

Nahuel continuava monitorando o quanto eu bebia, volta e meia me fazendo tomar água ou refrigerante. Eu relaxei mais minha postura e me recostei no seu abraço, aceitei feliz o beijo no topo da cabeça, o carinho no rosto, o aperto na mão, outro beijo, dessa vez no ombro. Retribuía com afagos e beijos no rosto.

Assim, logo o dia seguinte estava batendo a nossa porta. Às 2h40 os bares no Mercado do Peixe começaram a fechar. Os colegas de Nahuel provavelmente teriam ido para outro lugar ou voltado para a Fragata, então quando organizamos nossos grupinhos para dividir o Uber na volta para casa ele optou por acompanhar eu, Mariana e Laura até a nossa e de lá pegar outro Uber.

Pedro que sempre voltava com Mariana foi sóbrio e sensível o bastante para ceder o lugar, lembrando a namorada com carinho de que seria o último dia de Nahuel na cidade. Assim, Alana, Marcelo e Pedro dividiram a outra corrida. Agradeci meus amigos pela noite agradável e nos separamos.

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Chegando ao nosso edifício Mariana e Laura se despediram de Nahuel com um misto de alegria e pesar e subiram, dizendo que deixariam as chaves sob o carpete para mim, porque eu disse que ficaria mais alguns minutos com Nahuel no play-ground. Andamos de mãos dadas até a área dos brinquedos. Lá havia uma “casinha de bonecas” pintada em branco e vermelho e, para minha surpresa e divertimento, Nahuel se agaichou e passou pela pequena porta com agilidade, convidando-me a entrar em seguida.

Lá dentro o espaço era razoável, devia caber tranquilamente umas quatro crianças de seis anos, ao mesmo tempo. Então, quando ele sentou-se no chão, encostado em uma das paredes e me aconchegou em seu colo tivemos espaço para ficar confortáveis e também alguma privacidade, ainda que às 04h00 da manhã de um domingo não houvesse muito movimnto por alí .

— Quais são os planos para hoje? – Perguntei entrelaçando nossos dedos em frente ao meu corpo.

— Tengo trabajo en la cocina durante el almuerzo. Y por la tarde prepararemos la Fragata.

— Ele respondeu, massageando minhas mãos. Preparar a Fragata... para partir. Pensei, complementando a frase dele.

— Então você precisa ir descansar... não é? – Eu disse. Senti a respiração dele em minha orelha e virei o rosto de lado para fita-lo.

— Pero prefiero quedarme contigo...— Silenciei suas palavras com um beijo. Cálido, saudoso e salgado, por causa de uma lágrima teimosa que não pude conter e, para minha surpresa, senti outra gotejar sobre a ponte do meu nariz, escapando de Nahuel também, juntando-se à minha ao escorrer por minha bochecha. E ele me beijou de volta, mais profundamente, com vontade de mim e relutância em me deixar. – Prométeme que siempre seguirás cantando, canarito...

— Prometo... prometo. – Respondi contra seus lábios.

— Deberías subir ahora...— Ele disse. Todavia parecia incapaz de me soltar de seus braços. — Necesita hidratarse y descansar o tendrá una resaca horrible. — Eu ri, enquanto segurava um nó em minha garganta. Sua preocupaão era tão fofa.

— Olha... Você vai passar muitos dias navegando e trabalhando, então você deve aproveitar muito bem a cada cidade que visitarem, viu? Sem querer parecer stalker, mas eu vou estar de olho no seu instagram. Só para... conhecer um pouco mais do mundo, sabe? – Ele riu, fazendo movimentos circulares em minha bochecha com a ponta do nariz.

E eu não pude deixar de pensar que ele conheceria muitas outras mulheres interessantes nos próximos meses. Tantos lugares incríveis... Provavelmente nosso final de semana juntos se tornaria apenas mais uma memória de viagem muito em breve. Por isso eu reprimi com mais vontade as lágrimas. Seria muita tolice chorar. Percebendo que eu fiquei calada, talvez vendo minha mente divagante em eu olhar, ele beijou o ponta do meu nariz, atraindo meu olhar para o seu.

— Una moneda para tus pensamientos…— Ele sussurrou, e a pesar do trocadilho seu tom era sério. Girei meu tronco para ficar de frente a ele. Toquei seu rosto, o traçado dos seus labios. Eu deveria esquecer, mas ali estava, tentando memorizar seus traços e a sensação de tocá-lo.

— Se cuida, tá? Talvez... talvez um dia... – Sussurei apoiando minha cabeça contra seu peito, gravando na minha memória as batidas do seu coração.

Eu já havia auscultado tantos corações, e as batidas de um coração saudável são sempre muito parecidas. Mas havia algo de especial nas de Nahuel, nada de errado, apenas único para mim naquele momento. Estavam muito aceleradas.

— Quizás um dia...— Ele respirou fundo, cheirando meu cabelo. Estaria ele tentando marcar essas meórias em si à ferro também? – Pero sigue cantando y feliz.

— Você também, Nahu… Mesmo que você seja muito desafinado e sem ritmo… — Eu disse rindo, com olhos marejados. – Mas seja feliz. Promete?

Ele deu um riso cansado, misturado com uma expiração pesada.

— Prometo, canarito.

Após mais um demorado abraço apertado deixei escapar um bocejo e ele me olhou como se dissesse que era hora, que precisábamos descansar. Eu torci para que conseguisse dormir como uma pedra depois de tomar um banho, sem pensar em mais nada. Engatinhamos para fora da casinha e alongamos os músculos um pouco.

Então, ele me acompanhou até o elevador. Nossos dedos ainda entrelaçados sofreram uma separação lenta, resistentes. Nahuel cruzou as mãos nas costas como se tentasse evitar que elas me agarrassem novamente e eu cruzei meus braços em frente ao corpo. Ele se inclinou e me deu um último beijo daqueles furtivos e, antes que eu pudesse fazer ou dizer qualquer coisa, afastou-se e fechou a porta. Nosso olhar se cruzou uma última vez, pela tela na porta de madeira, quando as portas de metal deslizavam. Soltei um suspiro e apertei o botão do 12º andar.

Enquanto o elevador subia, alcancei o anel no meu bolso e o coloquei em meu dedo na mão direita, ficou um tanto folgado e eu pensei que isso era bom, porque assim eu teria que guardá-lo na minha caixa de recordações, para não perdê-lo. Sem mais forças para resistir, deixei o nó em minha garganta se desfazer e lágrimas silenciosas escorreram. Apertei o a mão que segurava o anel em um punho fechado contra o peito, onde meu coração martelava com uma dor que eu não conseguia racionalizar.

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Aquele foi um domingo um pouco difícil. Parecia absurdo sentir um aperto tão grande no peito por alguém que eu conhecera por tão pouco tempo. Me permiti chorar no hall par o meu apartamento. Quando controlei as lagrimas e a repsiração entrei e agradeci o fato do aparamento estar em compleo silêncio, ninguém a minha espera.

Fui para o banho e deixei a agua morna cair pela cabeça enquanto fazia uma contagem regressiva a partir de 100. Depois cantarolei mentalmente cantigas de roda. Enchi uma garrafa de agua, peguei o tablet e meus fones e abri “Stars Above” em audio book, a fim de que a narração ocupasse minha mente, não dando espaço para os pensamentos. A luz do sol já entrava éforte pelas janelas da sala, mas escolhi me deitar ali no sofá coberta por um lençol ate sucumbir à inconsciencia.

Acordei algunas horas depois com conversas sussuradas ao meu redor. Meus país estavam tomando café da manhã com Mariana. Olhei para o relógio e eran mais de 10h30, o que significava que ninguém almoçaria antes das 14h. Me levantei murmurando um “Bom dia, família” enquano servia uma xícara de café puro.

— Que horas vocês chegaram? – Perguntou minha mãe, analizando meu rosto. Imaginei que ele deveria estar bem inchado, talvez os olhos vermelhos.

— Já estaba amanhecendo. – Respondeu Mariana. Notei que Mari não devia ter comentado com meus pais sobre meu encontro com Nahuel noite pasada e fi zuma nota menal para agradecer minha amiga mais tarde.

— Por que você dormiu na sala, filha? – Dessa vez foi meu pai.

— Estava sem sono. Não quería ficar rolando na cama e acordar, mainha. Aí fiquei lendo até cair no sono aqui na sala. – Não deixava de ser verdade.

— Está tudo bem? – Minha mãe perguntou. E eu me lembrei dela declarando: “Eu botei essa coisinha no mundo, ela pode achar que me engana, mas quem se engana é ela.”

— Está sim, mãe. – Sorri para ela com tranquilidade. Pelo menos eu estava tentando ficar bem.

Baixinho, ouvi meu pai se amaldiçoar por ter inventado aquela história de pedir informação no navio. Aproximei-me dele e o beijei carinhosamente na tempora.

— Deixe de besteira! Eu já sou crescida, vou lidar com esses sentimentos por um momento e daqui a pouco já estará tudo bem. Eu te amo!

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Na segunda de manhã na enfermaria foi como se o destino quisesse fazer alguma piadinha de mal gosto comigo. Logo que cheguei fui até o leito dos meus pacientes para cumprimentá-los e ver como tinham pasado o fim de semana. Quando cheguei ao posto de enfermagem para revisar o prontuario e ver se alguma novidade havia sido registrada no fim de semana, a médica residente perguntou se eu me importava que Marta me acompanhasse, enquanto eu passava meus pacientes, para que ela se inteirasse das atividades da enfermaria.

— Quem é Marta? – Perguntei confusa.

— Ah, desculpa! É uma aluna de intercambio. Hoje é o primeiro dia dela no estágio. Temos dois intercambistas na verdade: Marta e Joaquim. – a residente respondeu.

— Que legal! Onde eles estão?

— Devem estar no COREM ou no RH pegando os crachás. Ainda não os conheci. Dr. Peixoto me enviou mensagem sábado a noite pedindo para recebê-los hoje, até que ele chegasse para a visita.

— Sabe de onde eles são?

— Não faço ideia. Mas espero que falem português, porque e depender da minha fluencia em inglês, eu só lamento. – ela declarou.

Encontrei Alana na varanda e contei a ela sobre nossos novos colegas. Ela disse que só podia ser coisa da “Lei das Séries”: mais extrangeiros. Alguns minutos depois Marta e Joaquim chegaram. Felizmente eles falavam português. Joaquim era de Portugal e Marta era da Espanha. Senti um leve aperto no peito ao ouvir aquele sotaque familiar na voz dela. Percebi que Alana também notou a semelhança e me observou um pouco preocupada. Sorri para ela “Está tudo bem. Posso lidar com isso tanquilamente” eu tentei dizer.

Marta era interessada, simpática e engraçada. Como eu estava de plantão na enfermaria aquela tarde ela insistiu em ficar e me ajudar no que fosse preciso, mesmo eu dizendo que não tinha necessidade, já que Alana já estava escalada comigo. Mesmo assim ela ficou porque quería aprender mais sobre o funcionamento da enfermaria.

Quando nosso plantão foi declaro encerrado pelo preceptor às 19h15 me ofereci para dar uma carona para Marta até em casa. Pelo que entendí ela estava morando em algum local perto da Praia do Porto da Barra. Sabendo seria noite quando saísse do hospital, eu havia ido de carro para o estágio, porque era mais seguro a volta para casa e eu podia dar uma carona para Alana, então realmente não era contra-mão alguma levar Marta.

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Duas semanas depois, eu estava estagiando nos consultorios da pediatria que ficavam no prédio do Pelourinho e recebi uma mensagem de Marta, que havia se tornado um boa amiga, dizendo que ela estava alí no colegiado para entregar alguns papeis do inercambio. Encontrei-a passeando pelos corredores do prédio no fim do meu turno de atendimento. Fomos tomar um sorvete no A Cubana eu, ela e Alana e colocar a conversa em dia, já que Marta havia ficado na enfermaria quando eu e Alana mudamos de setor de estágio.

Dessa vez foi a Alana quem nos deu uma carona até em casa. Marta contou que estava aproveitando o tempo livre para fazer aulas de Surf com um pessoal de um Hostel perto do prédio onde estava morando. Achamos aquilo muito legal e diferente. Como eram 17h decidimos ir dar uma caminhada no calçadão com Marta quando chegamos à casa dela, para converarmos um pouco mais. Ela nos levou até o Hostel onde tinha descoberto as aulas de Surf.

— Cristina eu não tô acreditando nisso! – Falou Alana surpresa.

— O que foi? – Perguntei assustada. Marta a escarou também confusa.

— Lembra do Reveillón desse ano, quando encontramos aquele grupo dançando aquí no calçadão sincronizados e começamos a dançar com eles?

Respondi positivamente com um aceno de cabeça. Tinha sido a parte mais divertida daquela virada-de-ano. Havíamos ficado em Salvador por causa das atividades do estágio, mas não tinha muita programação gratuita disponível. Então fomos dar uma volta na orla em busca de alguma queima de fogos, que não encontramos, mas nos deparamos com um animado grupo de pessoas dançando, uma mistura de nacionalidades.

— Pois então! Foi aqui! Eu lembro dessa muretinha! – Então eu reconheci. Realmente tinha sido naquele lugar.

— Verdade! Que legal... foi uma experiência diferente aquela. – Comentei em concordancia.

— Que legal! Eles sempre fazem algum movimiento aqui no fim de semana.— Acresentou Marta com um pouco de sotaque, mas com um portugués muito bem articulado. Ela havia nos contado que praticava há algum tempo porque tinha uma namorada que morava no Rio de Janeiro.

— Mas o que eu tô chocada não é com isso! – Declarou Alana sem saber se ria ou não. Foi uma reação bem estranha.

— O que foi então? – Perguntei confusa.

— Olha aquela placa! – Alana apontou e eu segui seu gesto.

Para meu choque, perto das mesas em frente ao Hostel, no meio da calçada havia uma placa de madeira vertical onde estáva entalhado: “Pasiones Argentinas” acompanhado de uma bandeira azul e branca. E mais uma vez senti uma vaga aceleração em meu pulso. Eu não sabia qual era a piada que a vida insistia em contar, mas eu não estava achando tanta graça assim. Marta ficou sem entender e eu fi zum gesto para que ela relevasse a reação de Alana, porque não estava a fim de contar história. Porque isso era tudo: uma história para contar.

Continuamos nossa caminhada e conversamos sobre filmes em cartaz no cinema. O sol já se punha e naquela luz dourada não teve discussão sobre filmes que me impedisse de notar o contraste do céu alaranjado com o mar azul cobalto. Paramos para tirar uma selfie com o Farol da Barra ao fundo lá longe. Quando as meninas decidiram que a foto estava boa suficiente enviei para elas por whatsapp e me surpreendi com a mensagem que chegou.

Nahuel: Hace cinco días pasamos el Archipiélago de Fernando de Noronha, recibí suficiente señal para descargar algunas canciones. Entre ellas hay una que no puedo evitar escuchar. Por ahora todavía me duele, pero creo que dentro de un tiempo me hará mejor. ¡Besos, Dra. Cristina! P.S .: Ya hemos visto las tierras de las Islas Canarias. Y desearía poder escucharte, canarito.

Curiosamente o link direcionava a uma canção entitulada “Cristina” de um cantor chamado Sebastían Yatra. Disfarcei o quanto aquela mensagem havia me desorientado. Alana e Marta conversavam tranquilamente ao meu lado, sem realmente notar o que havia se passado.

Naquela noite ouvi a música mais de 50 vezes antes dela começar a ser terapêutica de alguma forma. Três días depois consegui gravar alguns versos da música com o ukulele, postei no stories do Instagram, esperando que ele pudesse ouvir. Algumas horas depois notei que ele havia visualizado os vídeos. Recebi uma resposta ao ultimo story com um emoticon de um coração pulsando.

“Y aunque yo esté en otra parte
Soy más feliz porque yo pude encontrarte
Y aunque no tenga la certeza de volverte a ver
Es tuya esta canción
Recuérdame”

(Cristina – Sebastian Yatra)

Notas finais
E isso é tudo pessoal! Espero que você tenha curtido essa história até o fim. Ela é muito especial para mim, morou em meu coração por muito tempo até a inspiração de transferí-la para o papel acontecesse de fato. Então, eu ficaria muito grata se você pudesse compartilhar comigo sua opinião. Pode deixar um comentárioa qui no Nyah ou me contactar pelo Twitter (@danilunarshadow) ou Instagram (@danymartins.f20). Beijos e obrigada!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.