Canarito

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Desculpem pela maldade com que encerrei o capítulo anterior. Espero que tenham gostado nas minhas meninas e do pai papparazzi. Hahahaha Então aqui vai a continuação do passeio pela Fragata A.R.A. Libertad, que é exatamente essa embarcação ilustrada na capa da história. Vai ser um capítulo um pouquinho mais denso no espanhol, mas é relativamente tranquilo de entender, nada que o google tradutor também não dê uma forcinha. E sim, tem falas com uma mistura de português e espanhol, afinal... É isso, espero que gostem! Boa leitura! "Te dije mi nombre y no sé dónde Como con un beso me respondes" (Cristina - Sabastían Yatra)

Levantei o olhar e o oficial me encarava com uma expressão divertida no rosto. Ele era mais ou menos da minha altura, mais alto pouca coisa. Moreno, olhos pequenos sob sobrancelhas cheias e pretas e tinha um sorriso muito bonito, aberto e cativante.

— Desculpa... – Eu disse, sem saber o que mais falar.

— ¡Tranquilo! ¿Qual es sua dúvida? – Ele disse saindo da posição oficial e se aproximando mais.

— Ah... Meu pai... quer dizer, nós... Nós estávamos querendo saber como... como subimos lá. – Falei, gesticulando. Torcendo para me fazer entendida e não parecer muito ridícula. Ele assentiu ainda sorrindo.

— ¡Te acompanho, veni!— e sinalizou para que o seguíssemos. E então, a alguns passos dali, estava Mariana com uma expressão divertida e curiosa.

— Minha amiga... – Eu disse, chamando-a para junto.

— ¡Hola, señorita! — Ele cumprimentou acenando com a cabeça.

— ¡Hola! — reproduziu Mariana. — ¿Hablas portugués? — Soltou ela satisfeita. Eu revirei os olhos, quando ela devia estar por perto, em vez de meu pai me fazer passar vergonha, ela não estava.

— Intento. — Ele respondeu sorrindo simpático. – Portunhol... – Acrescentou, sorrindo na minha direção. Eu apenas acenei, ainda sem jeito.

Então ele começou a nos guiar perguntando o que tínhamos achado da Fragata. Elogiamos a embarcação. E ele seguiu contando um pouco da história e explicando que essa viagem era uma espécie de prova prática para os marinheiros em formação, como ele. Então ele perguntou de onde éramos. Nos embananamos um pouco para explicar que morávamos e estudávamos em Salvador, mas éramos do interior do estado. E eu fiquei confusa sem saber como era a divisão geográfica na Argentina. Será que tinham cidades e estados e capitais...

— Capital? ¿Como asi? — Ele perguntou confuso. Franzi o cenho pensando em uma forma de explicar.

— É como se fosse... A capital da Argentina é Buenos Aires, entende? – Ele concordou. Bom, Salvador é a capital da Bahia.

— Hum... e Brasilia? ­— Ele perguntou ainda um pouco confuso. Mordi meu lábio e olhei para Mariana pedindo ajuda.

– Brasília é a capital do Brasil. La nación. — Ela fez um gesto mais amplo. – Donde está el presidente. Brasília é um poder maior do que Salvador. Mas estão ligados. – Ela gesticulou bastante, e fiquei feliz por eu não ser a única adepta das mímicas.

— ¡Ah, si, si! Salvador es como Rio e Recife. — Ele disse compreendendo enfim. – ¿Y que estudias? — Ele perguntou olhando para mim — ¿Y vos? – Estendendo a pergunta para Mariana.

Ele caminhava entre nós duas, andávamos lentamente conversando e observando. Mariana que eu via por trás do ombro do marinheiro, olhou pra mim erguendo as sobrancelhas, quando ele voltou a olhar para mim esperando a resposta com interesse.

— Eu estudo medicina... ¿Universidad?— Respondi ignorando as caras e bocas de Mariana.

— ¿En serio? Eres muy inteligente, entonces. Pero, eres... muito nova, no? — Ele observou com surpresa.

— Na verdade não... – Eu ri um pouco encabulada. – Tenho 23 anos.

— ¡No! No creo... parece más nova! ¿En serio? — Perguntou ainda sem aceitar.

— Sério. Formo no ano que vêm.

— Okay... una medica y... ¿Tu, que haces? — Ele se virou para Mariana.

— Jornalismo. – Ela respondeu, mas ele parecia não entender.

— Ah... notícias. Periodicos. — Eu sugeri. E ele acenou em reconhecimento.

— ¡Ah, si! Por isso eres tan ... curiosa. – E ela sorriu satisfeita consigo mesma – Vas... escrever sobre a Libertad?

— Não, não... só passeio mesmo.

Havíamos chegado a uma escada, muito íngreme e estreita, que dava acesso ao pavimento superior da cabine. E mais uma vez eu lamentei a minha escolha de roupa... Olhei para trás para ver se meus pais estavam nos acompanhando e não fiquei nada surpresa quando percebi que meu pai gravava a caminhada (e provavelmente a conversa) com o celular. O oficial subiu primeiro e recebeu Mariana e minha mãe. Eu subi em seguida, segurando o vestido para não pisar na barra e, antes de perceber, já estava segurando a mão do marinheiro, que me ajudava a terminar a subida. Ele usava uma luva branca e pensei que ele devia estar com muito calor naquele uniforme... Ou seria o calor coisa do meu nervosismo sem sentido? Assim que subimos todos, Mariana já ia a frente olhando tudo com curiosidade, seguida de meus pais enquanto eu aproveitava um pouco da brisa fria.

— Aqui es la cabine de comando. Venho aqui para tomar pedidos... ordens... e acompanhar la navegación...— Ele falava me mostrando a sala cheia de controles através do vidro. Me aproximei para observar melhor lá dentro.

— Parece bem complicado... – Eu comentei. – Além do vento nas velas. Qual tipo de motor?

— Petróleo. Pero somente quando... no tenemos viento.— Ele respondeu, olhando para meu reflexo no vidro. – No puedo creer que tenga 23 anos... Senhorita...?

— Ah! Cristina! Desculpa... que falta de educação. Nem me apresentei. E minha amiga é Mariana... Onde ela foi? – Olhei em volta sem encontra-la, devia estar do outro lado da cabine. – E o senhor? Como se chama? – Tentei ler a placa no uniforme mas, míope, sem meus óculos e com a pouca luz, não tive sucesso.

— Testa. — Ele disse sinalizando para a placa. Um sorriso divertido nos lábios. – Oficial Testa. Placer conocerte, Cristina. — Ele estendeu a mão para oficializar o cumprimento.

E eu não sei o que deu em mim no momento seguinte, que em vez de simplesmente aceitar o cumprimento de mão, apertei sua mão e me aproximei para lhe dar um beijo no rosto. Chocada comigo mesma me afastei rapidamente, soltando sua mão de forma um tanto ríspida.

— Desculpa, oficial Testa... Desculpa, não quis ser... é só... esse costume baiano de cumprimentar sempre com beijos e abraços e... poxa vida, me desculpa! – Deus eu só queria um lugar pra me enfiar agora... me repreendi.

— ¡Tranquilo, tranquilo! Tuvimos la oportunidad de andar um rato por la ciudad ayer. Son muy cálidos y receptivos, ustedes baianos. – Ele respondeu, ainda que surpreso, em um espanhol rápido e completo e eu fingi que entendi tudo e estava mesmo tudo bem.

Andei em frente para o outro lado da cabine. Agradecendo aos céus que meus pais já estavam em qualquer outro lugar e não ali. E lá estava Mariana tirando selfies com outros oficiais. Toda desenvolta. Nós dois nos aproximamos do grupo, fiquei aliviada por poder dividir minha atenção e disfarçar o constrangimento. Conversamos um pouco sobre como era a experiência de viajar, uma das oficias ali era médica e trabalhava da Armada Argentina. Imaginei como seria trabalhar em um hospital naval ou... em um barco! A conversa seguiu fluida, sobre as expectativas para os próximos destinos. Estavam todos bem animados para chegar a Dublin e experimentar a cerveja irlandesa.

Eu não tinha percebido, mas realmente já havia anoitecido, o fluxo de pessoas na embarcação era bem menor. O céu escuro sobre o mar era uma mistura de núvens e alguns pontos limpos com estrelas que brilhavam distantes da claridade da cidade. Fomos na direção de outra escada para descer. Mas como ela era igualmente íngreme e estreita, esperamos pelo casal de meia-idade que subia. Ao chegar no topo da escada o homem abriu caminho para a mulher passar, mas não desbloqueou a passagem. Em vez disso, começou a narrar com animação.

— Sabes, hace unos 20 años estuve aquí en el puerto de Salvador, como oficial de Libertad. Fue entonces cuando conocí a una mujer bahiana muy encantadora y, mira, hoy es mi esposa. — Anunciou satisfeito. Então, apontou na direção de Mariana, oficial Testa e minha, e completou. - Y miran, ¡ veo que la historia se repite!

Ele falou bem articuladamente, gesticulando de modo que deu para entender perfeitamente: ele comparava seu encontro com a esposa no passado à nossa visita guiada com o ofical Testa. E todas as pessoas ficaram encarando e sorrindo, uns bateram palmas, imagino, felicitando o senhor. Mas foi a reação de Mariana que mais me espantou.

— Ah, não senhor! – Ela disse, afetada. – No puedo, estoy comprometida— sinalizou para o dedo anelar, apesar de não haver nenhum anel ali – ¡Pero Cristina esta libre!

Fiquei sem reação. Simplesmente não sabia o que fazer. Senti o sangue queimar em meu rosto, desejando que a luz fosse muito pouca ali para os outros perceberem. As pessoas em volta olhavam de mim para o Oficial Testa e então para Mariana e de volta para mim, sem saber bem como reagir. Exceto por Mariana, que já descia as escadas, casualmente, como se nada tivesse acontecido.

Um marinheiro ao pé da escada a ajudou. Despertei do choque e fui logo atrás dela, ainda desconcertada. Parei, encarando o dilema da escada ingreme com degraus estreitos e meu vestido, novamente. Comecei a descer com cuidado e me assustei quando o mesmo marinheiro que ajudara Mariana ofereceu-me sua mão, muito digno em seu posto. Ele sorriu educadamente para mim.

— Solamente para ayudarte, señorita.

Segurei sua mão, que não usava luva. Era áspera e firme. Imaginei que devia ser por causa do trato com todas as cordas no navio. Imaginei se as mãos do oficial Testa também eram assim, ásperas.

—¡Gracias!— Disse rapidamente, afastando aquele pensamento e indo atrás de Mariana para dizer a ela que mais tarde iríamos conversar seriamente. Mas não sem perceber um comentario “¡Cuidado, González! No molestará a Testa.”

Assim que alcancei Mariana, entretanto, o oficial Testa já estava ao nosso lado. Então só lhe lancei um olhar de aviso. “Se comporte”. E acho que ela entendeu porque me fez o favor de começar outro assunto.

— Então oficial, já conheceu algo da cidade? Alguma dificuldade com o português?

— Nada... sin dificuldades. Son muy expressivos, hace que sea mais fácil interpretar. Se hablo demasiado rápido e no puedan enterder, avisamé.

— ¡Tranquilo! Aonde estiveram? – Perguntou Mariana, muito a vontade.

— Ah... Playa de Itapuã... Shopping Salvador... Pelourinho e Rio Vermelho. ­– Ele listou, buscando confirmação se estava falando corretamente com o olhar.

— Caralho, vocês conheceram mais da cidade em um dia do que eu que moro aqui há 3 anos. – Mari falou admirada.

— Mariana! Olha a boca... – Eu repreendi a escolha de palavras, esperando que o Oficial Testa não perguntasse o significado. – Parece que andaram mais que um rato. – Eu observei, na esperança de desviar a atenção, me arrependendo logo em seguida.

— Bueno, no tenemos muchos días para desfruchar aqui. ­— o marinheiro voltou a me encarar, diretamente.

— Ah... que pena!!! É uma pena, mesmo, não é Cristina? – Mariana me olhou teatralmente.

— Sim, seria bom se tivessem mais tempo, com certeza. Imagino que não possam sair todos os dias também.

— Por supuesto. Tenemos turnos de trabajo y guardia.— respondeu seriamente. – ¿Alguna recomendación sobre dónde ir?

— Deveriam visitar o Farol da Barra, tem um museu de navegação lá.

— Ah sim! Pertinho da nossa casa também. – Mariana acrescentou sorridente. E eu ergui as sobrancelhas pra ela. Fazendo o marinheiro voltar a atenção para ela.

— Então... ¿tienes novio?— Ele perguntou. Lembrando-se, subitamente, do episódio recente, deixando-me nervosa de novo.

— Noivo? Não!!! Tenho NA-MO-RA-DO. Mas ele não pode vir.

— Ele perguntou se você namora, Mari... – Murmurei entre dentes.

— Ah si, tenho novio! E o senhor, oficial... Qual seu nome, me desculpa...?

— Oficial Testa. No, no tengo novia. — Continuei olhando diretamente para a frente. A história toda tinha sido muito constrangedora.

— Que bom, não é? – Falou Mariana. E eu quis enfiar o rolo de corda na minha frente na boca dela, mas provavelmente era pesado e sujo demais. – Quer dizer... o senhor está viajando por 5 meses... seria muito ruim deixar alguém assim para trás...

—Muchos oficias dejam... pessoas amadas... en este momento. — Ele respondeu com gentileza. – Pero hay mucha celebración cuando volvemos.

— Aposto que sim! Já foram em alguma festa aqui? – Perguntou Mariana. Ela realmene tinha espírito para o jornalismo.

— Si, ayer. Son muy emocionados e bailan muy bien por aquí. ¡No puedo hacer esos movimentos com mis caderas!— Ele respondeu divertido, movendo-se com certa estranheza, tentando imitar algum movimento de dança. Eu virei o rosto para segurar meu riso.

— É preciso um pouco de prática. Mas não é impossível. – Falou Mariana com orgulho. – Não é mesmo, Cris? Ela dança bem!

Naquele momento dei graças a Deus que estávamos terminando a volta pelo deque e chegávamos perto da rampa de saída. Olhei para o porto e percebi que meus pais já haviam decido.

– Apuesto que si. — Disse o oficial Testa me encarando com um sorriso gentil.

— Nossa! Escureceu rápido, né? E parece que vai chover. – Falei para desconversar, observando as nuvens pesadas que se acumulavam no céu.

— Ah sim! Verdade. Seus pais já desceram? Senhor Jesus somos as últimas no navio! – Mariana Observou espantada.

E era verdade. A tripulação ajudava algumas pessoas na prancha de saída, e éramos as últimas visitantes no deque. Paramos em frente a um livro de registros que já tinha centenas de assinaturas. Enquanto Mariana assinava seu nome com capricho aguardei ao seu lado com o Oficial Testa. E toda a tripulação que esperava, a postos, pela nossa saída.

— ¿Tienes... instagram? — Perguntou o marinheiro, calidamente.

— Ah... sim! – E então ele estendeu o seu celular para mim, com sua conta do instagram aberta, para que eu pudesse procurar pela minha. Li o usuário. – Nahuel? Nahuel Testa? — Com certeza era um nome diferente.

— Si. Cristina...— Ele olhou minha conta que deixei aberta com a solicitação de seguir. – Fernandes.

Eu sorri em concordância e peguei meu celular para pesquisar o usuário dele.

— Estou um pouco diferente por la barba...— Ele comentou. De fato, a foto do perfil com barba era um pouco diferente, e o fato de estar sem o quepe também modificava um pouco suas feições.

— Pronto amiga, pode assinar. – Olhei para Mariana. Então compreendi o que ela falava.

Guardei o celular e fui assinar o livro, enquanto ela e o oficial Testa trocavam as contas do instagram. E ela ensaiava um “placer conocerte”. Despedi-me da tripulação com acenos e alguns “gracias”.

Quando cheguei até a desafiadora prancha para descer, talvez devesse ter me surpreendido com o fato do oficial Testa estar lá para me segurar pela mão até quase metade do caminho, mas não me surpreendi. Mariana a minha frente já estava em terra firme e acenava de lá de baixo para a tripulação. Fiz o mesmo ao pisar no porto e depois caminhei até meus pais, notando que meu pai estava com o celular na mão, provavelmente tirando várias fotos da nossa decida da embarcação.

— É tio Carlos, acho que o senhor fez negócios com um hermano hoje. – Comentou Mariana quando nos aproximamos. E eu me controlei para não dar um soco no braço dela, já que a tripulação do navio ainda nos observava, dispersando aos poucos. Lutei contra o impulso de olhar para trás e não consegui evitar. Entretanto, não consegui distinguir nenhuma das faces por causa minha miopia e também porque a chuva finalmente começou a cair.

Chegando no carro falei com Mariana que um dia ela me pagaria por me fazer passar tanta vergonha. E ela continuou pirraçando, falando com minha mãe, de forma muito teatral, sobre o incidente do casal com o “destino” e as “histórias que se repetem”. Meu pai comentou que nosso espanhol com certeza tinha melhorado bastante depois daquela tarde e Mariana comentou que até aquele dia o espanhol dela se limitava a cantar “Una Flor” de Juanes, porque era música tema em Jane. E então passamos o resto o caminho cantarolando.

Notas finais
E aí? o que acharam? Podem ser honestos! hahaah Aguardo as opiniões ou nos comentárioa aqui no Nyah ou podem me mandar mensagem no twitter @danilunarshadow Bj! P.S.: Um minuto de apreciação para "Una Flor" https://www.youtube.com/watch?v=PG-EDgM1t88