Canalhas em minha vida
1 Capítulo 1

Ela era uma menina triste. Ninguém sabia o motivo.
Não era de acreditar em elogios.
Não sabia mais sorrir com sinceridade.
Era apenas um sorriso para disfarçar uma tristeza profunda.
Uns achavam que ela era doente. Mas eu via naqueles olhos uma rachadura em seu coração. Era algo a atormentar seus pensamentos. Algo que corroía seu espírito. Uma espada fincada em seu peito. Quem há de tê-la destruído assim?
Eu era apenas um desconhecido curioso e sentei-me ao seu lado num banco. Pedi para que a moça me contasse sua aflição. Implorei por suas palavras afirmando-me como um ombro amigo. Aqueles olhos sem brilho me fitaram lendo minha alma e suas palavras começaram a saltar da boca:
“Desde pequena, eu tenho o sonho de conhecer um bom garoto para ser meu. Fui criada acreditando em finais felizes e que o rapaz certo viria me encontraria algum dia. Chegou uma hora em que eu ia minhas amigas namorando e começava a bater aquela solidão... Deixei-me levar pela emoção... Fui procurar conhecer os meninos. Nunca fui de importar-me muito com a aparência ou com a classe social, muito menos com o tipo de escola que se frequenta, só desejava amor, entende? Meus olhos viam a beleza escondia no fundo de muitos espinhos. Conheci vários rapazes diferentes... Acredite, todos eles reclamavam da solidão tanto quanto eu. Viviam deixando bem claro para todos que precisavam de uma namorada. Sinto-me a maior das otárias”.
As lágrimas começaram a correr pelo seu rosto. Sem controle. Perguntei-lhe se havia ficado com algum deles e ela negou.
“Na minha vida amorosa, acontece tudo e nada ao mesmo tempo. Sigo sempre sozinha sem nem ao menos saber o que é um beijo, porém, moço, eu me apego às pessoas. A paixão nasceu por cada um deles e todos pisotearam no meu coração como se este fosse um lixo qualquer. Houve quatro ao todo. O primeiro era frio como gelo, teimoso como mula e tinha olhos que hipnotizam. Ele conversava um pouco comigo e aos poucos fui me encantando, só que nossos sentimentos não eram compatíveis... Nunca amei tanto alguém quanto amei o primeiro! Tentei esquecê-lo de todas as formas... Então conheci o segundo. Eu acreditava que ele era meu melhor amigo. Normalmente as palavras dele me acalmavam o choro. O terceiro surgiu tentando roubar-me para si, assim como o quarto. Vieram embaralhar ainda mais um coração enlouquecido. Chegou um ponto em que eu não sabia mais de quem eu gostava. Hoje sei que fui tola em pensar que podia confiar em algum deles...”.
Dores misturadas com raiva. Era isso que havia naquela menina. Foi amiga de todos, mas ninguém quis amá-la.
“O segundo me feriu logo. Eu também me confessei para ele e isso foi como um zero à esquerda em sua vida. Um garoto rodeado de meninas que não se importa tanto assim com o sentimento delas, ele é isso e só eu não via. Acreditei que o segundo era diferente. Fui burra. Sabendo dos meus sentimentos, esse menino saía atrás de várias outras sem lembrar-se de mim. O terceiro foi até nojento quando me feriu. Jurava me amar. Mandava as mais belas mensagens de carinho, porém, de uma hora para a outra, ele apareceu com uma namorada. Tratava-me como sua segunda opção... Nojento!”.
O banco foi socado algumas vezes enquanto ela blasfemava. Já me sentia mal por sua historia, contudo ainda havia mais.
“E eu achava que não podia piorar... Fui burra outra vez! O quarto era amigo meu de anos, só tínhamos nos afastado por um tempo. Em outubro ele veio até mim com palavras de amor. Em novembro reafirmou tudo aquilo e mostrou saudade. Mas ele já tinha namorada desde junho. Eu só fui descobrir em janeiro... Foi um baque! E tem mais. O quarto tinha um amigo solitário e encorajava esse amigo a ficar comigo. Esse amigo que me contou da namorada e eu o contei da tentativa de traição. O quarto não respeitou o próprio amigo! Imagina o que faria comigo...”.
Um suspiro longo tomou conta dali. Eu não tinha coragem de dizer mais nada.
“Ai, moço. Como eu queria que o mundo não fosse tão pequeno. Tanta gente na cidade e o primeiro foi logo se apaixonar pela minha melhor amiga. Essa confusão toda fez com que eu percebesse que amor (amor mesmo) era a dor que eu sentia pelo garoto frio. Alguns dizem que ela não é minha amiga de verdade, mas, antes dos dois ficarem juntos, ela veio falar comigo. De que ia adiantar dizer a verdade? Assim eu separaria duas pessoas que se gostam. Já faz um mês que eles estão juntos... Fico feliz por eles, mas... Sinto tanta vontade de chorar. Descobrir que seus sentimentos não têm valor algum é... É terrível. Ele bagunçou a minha vida sem querer. Sem nunca me dar um mísero abraço”.
Abracei-a já que não me restaram palavras mais.
Depois daquele dia, soube que a menina estranha continuava distante de todos. Descobri que houve mais decepções, porém ela não contou quais foram. Soube que ela desejava que o namoro da sua amiga durasse muito tentando evitar o término dele constantemente. Só não ouvi dizerem que ela sorriu novamente. Não ouvi contarem que o rapaz de seus sonhos apareceu, muito menos que ainda lhe restaram sonhos. Só ouço as pessoas a ofenderem por onde quer que eu vá.
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