Can you hear me?

1 Can you hear me?


Notas iniciais
Espero que gostem, escrevi com todo coração ♥

E ali estava ele. A brisa suave e fria batia em seu rosto pálido, os flocos de neve desaparecendo entre seus cabelos loiros platinado, porém contrastando com o paletó preto – cor do luto – e congelando as pétalas de rosas vermelhas e violetas que compunham o buquê que Draco carregava na mão junto ao peito, o qual carregava uma dor relevante e irreparável.

O inverno cobria todo o céu e as folhas das árvores, banhando tudo de branco, congelando tudo que via pela frente. Não devia estar tudo branco em uma data como aquela, devido à situação em que se encontravam todos após a Guerra. Porém ainda assim, o branco não compensava o frio gélido e cortante, capaz de congelar até a mais forte das chamas se usado em excesso. Era como o coração de Malfoy sentia-se enquanto rumava para o velório de Hermione Granger, uma das falecidas da Batalha de Hogwarts, guerra recém-acontecida, congelado.

De fato, eles haviam perdido muitos. Fred Weasley, Lilá Brown, Remus Lupin, Nimphadora Thonks, e um de seus amigos, Vicent Crabbe, estavam inclusos no meio, mas nenhuma dor comparava à dor que Draco sentia ao ver o nome de Hermione dentre a lista dos falecidos no breve memorial que fizeram em Hogwarts, no qual ele ficara escondido no meio dos escombros, apenas escutando, e chorando em silêncio quando homenagearam Hermione.

Não era como se Draco fosse dar as caras no velório dela, mas ficaria ali atrás, sem que ninguém pudesse enxergá-lo, apenas observando sua ultima chance de se despedir da sua, somente sua, sangue ruim. O velório já havia começado, estavam todos a postos, lado a lado, e ali Draco podia reconhecer todos. Os Weasley, todos eles com os olhos inchados por terem perdido um membro da família, praticamente dois, levando em consideração que Hermione era considerada da família; os Lovegood, que mesmo tristes permaneciam com o olhar sonhador; os Professores de Hogwarts, e mais uma porção de familiares dos mortos. Reconheceu, inclusive, sua tia avó, Andrômeda, em luto pela filha. E também, Harry Potter, que era o que mais lhe parecia culpado e infeliz. Estavam ali, não somente por Hermione ou Fred, mas por todos os que haviam se sacrificado e perdido suas vidas dentro daquela miserável guerra.

A princípio, Draco ficou atrás de uma árvore, apenas observando tudo, mas então se lembrou que poderia sair dali livremente já que a morte de seu “amigo” estava sendo homenageada, afinal. Na realidade, a morte de todos perdidos na batalha estavam em um memorial em um terreno a poucos quilômetros de Hogwarts, para que sempre ficassem próximos, honrando a causa pela qual morreram lutando, fosse pelo lado bom, ou pelo lado mal, morreram lá, nada mais justo que eternizá-los junto com o motivo de sua ruína.

Ele então se juntou ao grupo que velava por Crabbe, mas seus olhos mantinham-se fixos ao seu lado. Potter estava com o braço em volta da cintura de Gina, que usava um vestido preto, ambos estavam com os olhos vermelhos. O gêmeo vivo debruçava-se em prantos sobre o caixão do irmão morto, enquanto Molly e Arthur observavam tudo, um agarrado ao outro, um ao lado do outro, sofrendo silenciosamente, deixando apenas que a dor tomasse conta de cada um que estava ali. Ronald por sua vez estava ao lado do caixão de Hermione, segurando suas mãos gélidas e pálidas deixando as lágrimas banhar o rosto do ruivo.

Malfoy não tirava os olhos do rosto de Hermione. Conseguia ver com clareza. Os olhos cor de avelã jamais se abririam novamente, estariam eternamente cobertos por aquelas pálpebras brancas, seus lábios que costumavam ser avermelhados ficariam assim, pálidos, seus cabelos castanhos caíam-lhe sobre os ombros contrastando com a pele e o vestido azulado que haviam colocado nela. Seu caixão estava repleto de flores, todos ali sentiriam falta dela, e Draco invejava cada um deles pelo simples fato de terem um pouco mais de convivência com ela do que ele poderia ter tido com ela.

Dizeres carinhosos a cada um deles foram discursados pela Professora Minerva. Draco limitava-se a ouvir palavra por palavra, deixando que a dor tomasse conta de seu ser. Precisava viver aquele momento de angústia e agonia, ou se sentiria atormentado pelo resto de sua vida, jamais teria paz. Seus olhos umedecidos vagavam de Minerva para Hermione e vice versa enquanto tentava absorver o que a senhora dizia, mas tudo que conseguia era pensar no quanto aquilo tudo tomava conta de seu ser.

Minutos se passaram, ou seriam horas? O tempo não era algo relevante; e com magia, os caixões foram colocados em lápides, dando assim um final digno a todos aqueles que morreram na batalha, um ao lado do outro. Hermione estava entre as lápides de Fred e Remus.

Draco ainda abraçava o buquê de rosas vermelhas e violetas junto ao seu corpo, o apertando com tamanha força que seus dedos ficavam dormentes. Não demorou muito para que o frio cobrisse parte daquelas lápides acinzentadas com flocos de neves brancos. Todos se despediram de seus entes queridos, deixando-os descansar em paz, mas Malfoy ficou ali, apenas esperando o momento para que pudesse finalmente ficar a sós com Hermione.

– Você vem, Draco? – Narcissa perguntara.

– Depois. Tenho que me despedir. – Sua mãe pensara que ele se referia ao Crabbe, mas se enganou.

Ele esperou a mãe sair do cemitério improvisado e virou-se para a lápide de Hermione.

Quando Draco falou, apenas a fumaça saiu de sua boca.

– É tão irônico estar aqui agora, não é? – Disse olhando para a escritura em letras pretas e grossas refletidas na lápide cinza: “Hermione Granger. 1979 – 1998”. Lágrimas escorreram pelas bochechas levemente rosadas por conta do frio e um soluço rompeu de seu peito por seus lábios. – Eu devia ter tido coragem para fazer isso antes.

Suspirou e se levantou, andando de um lado para o outro durante o curto perímetro em frente à lápide de Hermione.

– Eu devia ter tido coragem de te encostar à parede e falar toda a verdade pra você. Mas Hermione, eu sempre fui domado. Eu nunca pude ser quem eu realmente queria. Nunca pude admitir à você o que eu sentia, porque eu, desde sempre, fui um covarde que sempre abaixou a cabeça para todas as ordens que recebia, e olhe só! Agora você está morta! DROGA! – Ele chutou o chão em frustração, deixando mais lágrimas escorrerem por seu rosto branco. – Eu nunca me importei com seu sangue. Sempre admirei você, Hermione você sempre foi uma bruxa incrível, e todas aquelas drogas de ofensas era a minha forma de reprimir tudo aquilo que eu sentia, toda aquele maldito sentimento que eu nunca fui permitido a sentir. – Draco então se ajoelhou em frente à lápide de Hermione, colocando suavemente o buquê de flores que tinha preparado para ela. – Me perdoe. É tarde demais para pedir perdão por alguma coisa que eu tenha feito, é tarde demais para qualquer coisa, mas eu jamais conseguiria viver em paz comigo mesmo se não fizesse isso.

Mais lágrimas escorreram por seu rosto branco, os flocos de neve contrastando com o preto de seu terno e congelando seus dedos, algo que ele pouco se importava. As lágrimas quentes gelavam rapidamente em seu rosto pálido.

– Eu honestamente espero que de onde você esteja você possa ouvir o que eu estou dizendo agora e preste bastante atenção: nunca foi real, Hermione. Jamais foi. O sentimento negativo que eu demonstrava ter por você jamais foi real.

Ele piscou deixando mais lágrimas rolarem por seu rosto e acariciou as letras que diziam seu nome na lápide.

– Naquela maldita guerra, eu tentei. Eu tentei te tirar dali, eu tentei te salvar, quando O Goyle te atacou dentro da sala precisa eu quis mata-lo! Eu sempre invejei Harry e Rony, principalmente Ronald, porque sempre esteve na cara que você gostava dele e ele correspondeu, mesmo sendo um perfeito babaca. Eu sempre quis cuidar de você como todo cuidavam, como eles cuidavam. Nunca me foi permitido, e eu descontava minha frustração em você e seus amigos com todas aquelas ofensas, mas no fundo eu sempre desejei que você percebesse o que eu sinto por você, o que eu sempre senti, e o que vai me atormentar pro resto da vida por simplesmente não ter tido coragem de ter assumido isso antes, porque se eu tivesse, eu poderia ter salvo a sua vida.

Suspirou e se levantou, estava sentindo frio, mas não queria e nem tinha forças para sair dali.

– Algum dia eu vou encontrar você e te dizer tudo isso. Se bem que não é possível, porque você sem dúvidas está no céu, e eu, vou para o inferno – Pelos lábios de Draco uma risada abafada surgiu – Quem se importa, não é? Eu estive no inferno por dezessete longos anos. Meu céu seria poder ter ficado ao seu lado como Ronald Weasley ficou em suas últimas horas de vida. Quem imaginaria que perderíamos você? Fred Weasley também se foi. Terá companhia agora. – Ele sorriu e suspirou – Teria sido diferente se tivesse sido como eu queria. Eu te observava estudar, e se fosse como eu sempre planejava na minha cabeça, teria ido lá no primeiro ano e fingido que tinha dificuldades com qualquer matéria, porque você era boa em tudo, e aí eu pediria para que me ajudasse e fingiria que não tinha entendido, então na aula do professor Snape eu pediria pra fazer o trabalho em dupla com você porque tinha dificuldades e o Harry poderia fazer como o Rony. Então nós seríamos pelo menos amigos.

“Na minha cabeça, tudo que vivemos é diferente. Eu queria que tivesse sido diferente. Infelizmente isso não foi possível, um dia ou outro eu tomaria coragem e diria a você tudo aquilo que eu queria ter dito, e mesmo que não acreditasse em mim eu não desistiria de você. Construiríamos uma família e teríamos lindos filhos, e dane-se o resto do mundo. Eu não me importaria de ser traidor de sangue se isso me fizesse ficar ao seu lado.”

Um suspiro pesado soou por seus lábios, fazendo uma pequena nuvem de frio formar-se com a neve e logo depois desapareceu.

– Eu vou embora agora. Me sinto melhor. Talvez eu volte depois para te trazer mais flores, estas já estão morrendo, assim como você. Se estiver ouvindo isso agora, eu espero que me perdoe por tudo que fiz nesses anos, e saiba que em momento algum eu quis fazê-lo.

Então Malfoy rumou para fora do cemitério improvisado, conseguindo avisar ao longe do horizonte, uma Hogwarts destruída tanto quanto seus sentimentos e seu coração.

Ele só não sabia que Hermione esteve ali o tempo todo, ouvindo tudo, com a mão em seu ombro.

– Eu te perdoo. – O fantasma de Hermione Granger sussurrou assim que os portões do cemitério improvisao foram fechados.

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Anos haviam se passado desde a data que Hermione Granger morrera, a mesma data que o Draco de dezessete anos morreu junto com ela, e desde então nunca mais fora o mesmo, não que sua vida tenha sido ruim, teve um bom futuro com sua esposa, um filho que agora tinha a vida construída com seus netos e estava casado; apesar de ficar anos casado, o amor que sentia por Astoria nunca foi nada comparado ao seu sentimento pela sua sangue ruim, e mesmo assim, ele usou aquela dor com sabedoria, vivendo com a maior felicidade que podia adquirir ao invés de martirizar-se pela morte da dona dos olhos de avelã que sempre amou.

Olhos aqueles que foram a última coisa que ele visualizou quando o último sopro de vida deixou seu corpo, e sua alma foi acolhida por uma completa escuridão e logo após a escuridão cessar, uma luz muito forte a substituiu, e segundos mais tarde, seu anjo estava ali, as mãos estavam estendidas, e só assim a alma dele, agora jovem como a dela pôde aliviar-se e descansar-se de uma vez só.

Sua amada estava esperando por ele, como fizera durante todos os anos ao tempo em que o protegia, apenas para dizer-lhe três palavras:

– Eu te perdoo. – Hermione Granger pronunciou pela segunda vez, embora anos depois da primeira.

Notas finais
Então, é triste, but... espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!