Can you feel me?
2 Everything Changes
Cidade militar de Sylou 1, 1º de Janeiro de 2070
O ano novo, geralmente é uma data de novas esperanças e renovação para todos, mas atualmente sabemos que não é bem assim. Ano após ano esta guerra sem fim e o caos seguem reinando em nossas vidas, e não há nada que possamos fazer.
Seres humanos me intrigam.
Dia 1º de Janeiro foi o dia em que Sylou 1 foi bombardeada por aviões. Estava andando pela rua, tentando procurar um lugar para passar a noite. Estava ficando escuro e começando a chover. Não podia mais arriscar pelos setores pobres das cidades, nunca fui uma pessoa de muitos amigos, e pela primeira vez isso me causou problemas. Queria deixar claro também que não sou uma "pessoa", sou um Vessel, por mais que eu me sinta humano esta e a realidade e não podemos fugir dela.
Estava em frente a uma loja de roupas quando as sirenes tocaram. Precisa trocar os farrapos que estava usando, porém a cidade se tornou um caos após isso, pessoas correndo pra lá e pra cá e o pior de tudo, a confusão. O que eu quero dizer é a confusão mental. Quando eu tinha apenas 14 anos e minhas habilidades começaram a se manifestar eu não as controlava muito bem, portanto emoções de pessoas aleatórias bombardeavam meu cérebro constantemente. Durante o caos na cidade uma confusão de emoções me atingiu. Centenas de pessoas com medo, tristeza e raiva tão intensos que eu não podia me concentrar, tudo que eu sentia era o caos. Eu estava paralisado, quase pisoteado pela multidão. Ia ser deixado na rua para morrer.
Foi quando acima de todas as emoções eu senti algo tão intenso, forte e sem explicação, que me surpreendeu de súbito. Se erguendo sobre toda a confusão eu senti a tristeza mais profunda que eu já havia conhecido (Já conheci pessoas muito tristes mas nunca algo assim). Era um sentimento tão forte que varreu da minha cabeça toda a confusão.
Ótimo, tinha algo para me segurar. Fiz minha primeira tentativa de seguir o fluxo da multidão para os abrigos, sempre tentando me manter focado naquela tristeza. Infelizmente ela me invadia e me fazia perder a vontade de viver e minhas pernas pareciam não seguir meus comandos, como alguém poderia conviver com algo assim? Porém esta era minha única esperança, então continuei a correr até a entrada dos abrigos.
A chuva estava cada vez mais forte e as sirenes mais altas, os soldados tentavam organizar uma fila para dentro dos Bunkers subterrâneos pelas diversas entradas da cidade. A chuva tinha um tom doentio e os prédios repletos de ferrugem, pichações e pinturas mal acabadas me cercavam como grandes muralhas de pedra. Eu podia ouvir os gritos das pessoas e sempre que alguém esbarrava em mim sem querer eu perdia minha concentração na tristeza que me mantinha vivo. Foi quando ela veio tão forte que quase me derrubou. Pela primeira vez pude identificar a fonte deste sentimento. Junto com a tristeza vieram flashbacks sem sentido para mim. Uma mistura de sentimentos se formou em mim.
Minha visão estava embaçada por causa da chuva e dos sentimentos que me castigavam, estava enjoado e quase caindo porém consegui vê-la.
Consegui ver seus cabelos negros pouco antes de entrar em um Bunker. Vi ela se agachando, dando algo para um cachorro raquítico e logo continuar com a massa. Tinha certeza que era ela, e por algum motivo eu corri atrás dela, como se minha vida dependesse disso. Ignorando a multidão desesperada, os guardas, a rua imunda e todas as outras coisas, ignorei minha respiração pesada e o cansaço. Precisava alcançá-la a qualquer custo.
Porém não percebi quando a alcancei, e não pude parar a tempo antes de nos esbarramos. Ela caiu no chão enlameado e eu me encostei em uma parede suja.
–Perdão. — Eu disse enquanto estendia-lhe a mão. Por algum motivo eu sentia estar corando, o que não era possível.
–Tudo bem. — O sorriso dela era o mais doce que já vi, me perguntei como alguém tão triste poderia sorrir assim, seria possível alguém esconder tão bem sua tristeza? Por um momento me perdi observando-a, as sirenes não mais importavam, tudo se resumia a uma pergunta.
Quem era aquela garota?
Fale com o autor