Faltavam 10 minutos para as quatro, e eu ainda estava presa no auditório, esperando que a palestra de Direito Ambiental terminasse.

Eu não era de atrasar. Não podia me atrasar. O que a garota pensaria de mim?

Com sorte, o professor encerrou dois minutos depois. Juntei meus cadernos e canetas na bolsa e corri até os murais, descendo os dois lances de escada sem medo de tropeçar, cair e passar a maior vergonha.

Depois de xingar a garota e me atrasar pro compromisso, isso seria o menos pior deles.

Quando cheguei, encontrei uma garota sorrindo para algo no celular que segurava. Ela usava boxer braids no cabelo castanho, uma camisa manga longa listrada horizontalmente e colorida por baixo da calça bege e um cinto preto, coturnos marrons, e segurava a bolsa estilo eco bag com a outra mão. A pele do seu rosto e das mãos eram marcadas pela vitiligo.

E era a garota mais linda que eu já vi.

— Oi, Esther né? — disse assim que me aproximei.

Ela me olhou, e seus olhos eram de um castanho bem claro, como mel.

— É. Prazer, Miya! — ela estendeu a mão agora livre do celular para mim, e eu a apertei. Não forte demais, nem muito fraco.

— Desculpa pelo atraso, e por antes, também.

— Atraso? — ela olhou para o pulso, onde tinha um relógio dourado e delicado — São quatro em ponto.

— Ah... — eu sorri, sem graça — Menos mal. Nós podemos ir pra sala de estudos, é melhor lá do que a biblioteca.

— Claro, você que manda.

Eu fui na frente, e ela acompanhou meu ritmo ao meu lado. Não demorou para chegarmos em uma das salas de estudos coletivas do campus, com alguns alunos ali presentes.

Sasha era um deles, mas ele parecia concentrado demais para me ver. Ele costumava ficar assim quando estava estudando algo que gostava muito, o que era quase sempre.

Nos sentamos em uma das mesas circulares vazias, e esperei que ela ajeitasse seus livros e anotações. Enquanto isso, notei que ela cheirava a cravos e mel. Era... reconfortante.

— Então... quando é o prazo da avaliação? — perguntei.

— Duas semanas.

— Ah, tem bastante tempo ainda. Você vai conseguir.

Ela sorriu, e eu senti meu coração errar uma batida.

— Eu tenho esse material aqui, mas eu já o li por inteiro e até vi algumas videoaulas e nada — ela suspirou de frustração — Eu sou péssima nisso.

— Tenho certeza que não. E mesmo se for, podemos mudar isso aí.

Peguei um caderno de rascunhos, uma caneta e um kanzashi, automaticamente colocando-o no cabelo para prendê-lo. Abri o caderno em uma folha limpa e preparei a caneta para começar a anotar.

— Ok, vamos começar do começo.

— É por isso que é bom você dividir o exercício em passos. Primeiro você deixa a equação balanceada, depois analisa se precisa fazer mais de uma regra de três. Aliás, a regra de três vai ser sua melhor amiga a partir de agora.

— Você é um anjo, sabia? — ela disse, na maior naturalidade do mundo.

Tínhamos passado duas horas ali, livros, folhas rascunho e bolinhas de papel para todo o lado, e até Sasha já havia saído, não sem antes perceber e brincar com a situação por mensagem.

Eu senti as bochechas esquentarem, e aproveitei a deixa para soltar o cabelo e evitar que ela notasse.

— Que nada. Só fiz minha parte.

— Sério. Posso te pagar um café? — ela parecia convencida de que não sossegaria até que me retribuísse de alguma forma. O que eu não entendi. Era uma simples aula particular gratuita, ela não precisava me dar nada.

— Não precisa, Esther, juro...

— Por favor! — ela me interrompeu — Eu vou precisar de mais algumas dessas até lá então... pelo menos hoje. E você pode me chamar de Es.

Eu percebi que não seria fácil lutar contra.

— Tudo bem. Mas só dessa vez.

Ela abriu um sorriso adorável, mostrando os dentes de cima levemente separados.

— Isso! Obrigada inclusive, pela aula e por me deixar te pagar um café — ela estendeu a palma da mão e eu a toquei, como num hi-five.

Juntamos nossa bagunça e jogamos as bolinhas de papel, saindo da sala em seguida. Eu deixei que ela fosse na frente dessa vez.

O silêncio me fez perceber como apesar dela estar com coturnos de salto baixo, ela ainda era um pouco mais baixa do que eu.

Não só isso, sua bolsa possuía um desenho interessante. Era costurado no tecido, um desenho de um pardal descansando em um galho segurando um ramo de lavanda em seu bico.

— Bonito desenho — elogiei e chamei sua atenção, que parecia meio confusa, e apontei para a bolsa.

— Ah. Minha amiga quem fez. Um dia quero aprender a costurar também.

Eu assenti com a cabeça, absorvendo a informação.

— E você? O que quer aprender um dia? — ela perguntou com um interesse genuíno.

— Hmm... Acho que dançar.

— Sério? Eu participo do clube de dança. Você podia ir lá qualquer dia. Eu tento estar lá sempre que possível — ela contava com empolgação.

— Eu... vou pensar. Eu não consigo dançar em público assim.

Ela tinha um sorriso travesso no rosto.

— Eu vou mudar isso. Espera só!

Chegamos na mesma cafeteria que eu tinha estado antes, e eu pedi a ela um chá gelado. Me sentei em uma das banquetas altas de um balcão que percorria toda uma das paredes do lugar, assim eu conseguia ver o que acontecia lá fora.

— Eles são rápidos — Esther voltou, e segurava dois copos com tranquilidade, além de dois pacotinhos em cada mão — Farah disse que você costuma pedir o com gotas de chocolate, então peguei também.

Eu abri a embalagem e notei o cookie dentro dela.

— Obrigada — ela sorriu de canto, e deu uma mordida no dela, de duplo chocolate — Você não está fazendo isso para tentar me convencer de fazer a prova por você, está?

— Hmm... não? — Es tentou disfarçar e deu mais uma mordida, dizendo de boca cheia em seguida — Mas se quiser fazer para mim não vou reclamar.

Revirei os olhos, em silêncio. No fundo, tinha sido uma boa tentativa.

— Tem alguma matéria que você precise de ajuda? Se for Biologia, eu posso te ajudar para retribuir o favor — ela questionou com interesse.

— Na verdade não... — Uma ideia se passou pela minha cabeça, e era tarde demais quando pensei que pudesse me arrepender de dizê-la — Mas você pode me ensinar a dançar.

— Sério?

Assenti com a cabeça. Agora não teria mais volta.

— Que demais! — ela pegou o celular do bolso e começou a digitar alguma coisa — Vou falar para o pessoal. Você pode amanhã à tarde?

— Depois das duas horas sim.

— Beleza! Te mandei agora a sala onde a gente se encontra. Qualquer coisa você pode me chamar amanhã e eu te mostro onde fica — explicou sem mal respirar. Ela genuinamente parecia feliz.

E inconscientemente, eu estava feliz também. Nervosa, mas feliz.

Ela olhou o relógio por reflexo, e tomou um susto quando viu a hora.

— Droga, preciso ir para a aula de Citologia. Nos vemos amanhã?

— Claro!

— Até lá, então! — sorrindo, ela se virou e correu na direção do outro campus.

Sozinha com meus pensamentos de novo, eu tinha plena certeza que eu teria certos sentimentos para lidar nas próximas semanas, e eu não fazia ideia de como começar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.