Canção de Ninar
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Andando por um hospital quase vazio até chegar ao segundo andar e daí virando à esquerda, lá estava. Uma porta grande de um branco um pouco manchado e começando a descascar, mas não é isso o que importa, e sim o que está do outro lado.
Ao passar pela porta você encontra uma pessoa. Ou encontrará caso se aproxime o suficiente para distinguir o corpo frágil em meio ao cobertor e o emaranhado de fios. As máquinas apitam e uma máscara de oxigênio cobre seu rosto de aparência magra. Há tantos fios conectados ao seu corpo que ele acaba por se assemelhar a uma marionete e, assim como uma, morrerá caso esses fios sejam cortados.
Tantas coisas apitam, chiam e gorgolejam que o buraco em sua cabeça, encoberto por ataduras levemente ensanguentadas, parece ser a coisa menos dolorosa nesse momento. Seus olhos estão fechados e provavelmente nem imagina que estou aqui, é inútil tentar falar algo. E é isso, ele continua imóvel, seus cabelos e barba estão mais compridos, sua pele mais pálida e seu corpo consideravelmente mais magro. Mas apesar de tudo ele usa uma expressão serena que nunca teve antes, como se apenas dormisse e todos esses sons fossem sua canção de ninar.
Eu me viro, atravesso a porta e tudo está silencioso novamente.
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