Canção da Sereia

42 Quebra cabeças - Parte 3 - RS


Notas iniciais
Mais um capítulo chave pra vocês. As coisas estão quase explicadas agora. Mas identificar o problema é só uma parte da equação, né galera? Vamos ver como é que nossos heróis vão conseguir sair com vida desse lugar. E mais uma coisa, no próximo capítulo vou contar a vocês porque escolhi esse nome para a mulher prateada. Acho que entre meus leitores que comentam, talvez o avlisgiboy possa ter uma ideia, já que ele parece gostar de história... Boa leitura!

Lancey

– Eu só queria ajudar! — Digo a Nora que me olha com olhar assassino.

Bem, não é como se eu tivesse feito de proposito. Como eu poderia saber que iria aparecer nadadeiras em seus cotovelos. E tão rápido.

Ela ergue os braços e encara as nadadeiras que nascem eu seu pulso e se fecham no cotovelo. Conforme ela mexe os dedos elas abrem e fecham. Os dedos foram outra surpresa. A fina membrana recém-formada entre eles a estavam deixando pior que as nadadeiras. E as escamas? Voltaram com tudo. Muito parecido com o que pegamos na caverna, mas dessa vez tem um tom mais avermelhado e estão localizadas. Sobem por uma parte da cintura e nos braços. Algumas áreas do pescoço também. E sei lá... a orelha parece mais pontuda... mas, esse detalhe é melhor manter pra mim.

– É SÓ ÁGUA! — Megan está animada. Acho que finalmente o lado cientista dela acordou. — Imagina o que aconteceria se fosse o mar?

– Lancey! — Ela ruge da banheira. — E se eu nunca mais voltar a ter pernas? Pearl me jogou no buraco para que eu não tivesse contato com a água! Droga, droga, droga!

– Eu posso comprar um aquário maior pra minha casa. — Tento aliviar o tensão que se formou. Ela me olha com tanta raiva. Megan no entanto gosta da piada, ela tem um sorriso nos lábios.

– Isso não vai acontecer, Nora. — Ela garante. - Quando a lua sumir, você vai voltar ao normal.

Eu olho para Nora que franze o cenho e então encaramos Megan.

– Como sabe disso?

Quer dizer, eu consigo lembrar vagamente sobre isso também. Só não tenho certeza como!

Os olhos de Megan brilham no tom verde que Sardinha tinha ontem. Me afasto da loira, me sentando na borda da banheira e pegando na mão de Nora. Se é que dá pra chamar de mão!

– Pearl? — Minha amiga pergunta.

Megan sorri.

– O mar representa perigo porque está cheio de almas desesperadas. Eu as prendi lá.

Essa não parece Pearl. Só posso pensar em outro espirito.

– Helena?

Ela vira a cabeça lentamente e sorri. Dá um passo para frente, me fazendo deixar um som abafado escapar. Ela não apenas deu um passo em nossa direção, ela saiu... saiu da Megan.

A principio o espirito se pareciam com a da nossa amiga, mas logo tomou outra forma. Uma cheia de luz. Ela está nua. Caminha para longe de nós, parando na porta.

Megan pisca algumas vezes e nos encara.

– Ela não pode me ver.– Helena diz.

– Lancey, você tem que fugir. — Nora começa a falar e se debater na banheira. — Ela perseguia Pearl, ela é má.

Má...

– Do que vocês estão falando? — Megan olha para onde estamos focados. Estendo minha mão para ela que vem rapidamente para meu lado e se gruda em meu braço.

– Helena não é má. — Eu digo. — Apenas mal compreendida.

Os lábios pálidos do espirito se abrem em um sorriso.

– Você precisa ir para o mar, ou vai morrer. Tem que completar a transformação.– Ela diz calmamente para Nora. — Mas, se for para o mar, será possuída. Pode ser que não recupere mais o controle de seu corpo. Lhe desejo sorte!– Ela desaparece.

Megan continua encolhida e agarrada ao meu braço.

– Como sabe o nome dela, Lancey?

– Tinha alguma coisa aqui? — Megan pergunta.

– Sim, mas já foi. — Lhe acalmo e aos poucos ela me solta.

– Lancey! — Nora está irritada.

– Eu a vi, naquela parada que fizemos. Você a viu também. Não é?

Ele nega.

– E Willian também viu algo diferente de mim. Eu vi Pearl. Vi a vida dela.

– Eu vi Helena. — Digo a ela e olho para Megan.

– Uma mulher chamada Serena. Uma bruxa.

Fecho os olhos por um momento. Como é que e um espirito possuiu a nós todos ao mesmo tempo e cada um vê uma coisa pelos olhos de um espirito diferente?

– Pensei que os espíritos estivessem presos na água. — Eu lhe digo. — Talvez sejam os espíritos das mulheres que Helena possuiu na ilha.

– Serena foi uma delas. — Megan diz.

– Pearl também. — Confirmo e Nora me olha surpresa. — Eu vi isso. — Conto a elas.

– Willian... — Nora começa e suas bochechas ficam da cor da sua cauda. — Ele disse que havia um bruxo.

– Isaac. — Nem preciso que ela termine.

Isaac traiu Helena. Ela lhe deu uma parte de sua alma e ele a traiu por poder. Mas ele bem teve o que mereceu...

– Foi ele que te mordeu na ponte, Nora!

– Diminui, Lancey! Isso está rápido demais. — Megan senta no chão. — Não falei mais com Kall... ele deve me odiar. Olha sobre o que estamos falando! É basicamente um filme de terror. É capaz que eu morra aqui e o meu marido nunca saiba o que realmente aconteceu.

Ela começa a chorar. Isso é uma droga. Não estou compreendendo muito bem onde ela quer chegar. Mas entendo sua frustração.

– Nós não vamos morrer. — Nora tenta consolar Megan.

– Essa mulher... Helena... ela não vai nos deixar sair, Nora. Os homens sim, mas não nós duas. Ela precisa de corpos para ocupar.

– Mesmo que ela não precisasse – Eu começo, me lembrando do que vi – Vocês não teriam muitas chances mesmo. Será impossível passar pelo mar. Elas irão destruir quantos barcos forem preciso para se apossarem de vocês. Pelo menos estão seguras enquanto Helena as quiser.

– O que há com essa “Helena”? — Nora está com raiva. — Não para de falar nela e a defender. São todos demônios , Lancey!

– Você acredita em céu e inferno, Nora?

Ela me olha confusa, então olha para Megan antes de voltar a me encarar e concordar.

– Bem, se você morrer no mar, sua alma fica presa lá. Junto com tantas outras. Se morrer aqui na ilha, talvez Helena deixe seu espirito seguir. Mas, isso não é certeza. Depende do humor dela. Compreende o tamanho da merda? Nada de seguir em frente. Apenas mais tormento ao ficar presa nesse lugar.

– O quê?

– Helena viveu há muitos anos atrás. Ela nunca foi uma pessoa, apenas um espirito que vagava e ocupava corpos. Um dia ela se deparou com um jovem a beira da morte. Isaac. Ela teve dó dele. — Me lembro de cada imagem que vi – e usou de sua alma para curá-lo. Ele, que já vinha de uma longa linhagem de praticantes de feitiçaria, tinha o dom nato para bruxaria. Ele morreu alguns anos depois de trombar com Helena, foi ai que ele descobriu que podia ocupar corpos de pessoas vivas. Helena acompanhou de longe cada fase da vida desse homem. Ele matava por qualquer motivo, deixava pessoas doentes para conseguir o que queria e muitas vezes raptou crianças pequenas para ameaçar seus pais. Helena decidiu retirar os poderes dele em 1600. Mas nesse tempo ele já estava muito forte. Ele havia aprendido a se alimentar das almas que matava. Vendo Helena como um empecilho, ele a denunciou por bruxaria. Queimaram seu corpo e ela ocupou outro, partindo para cima dele. Com isso, ele fez as pessoas perceberem que ela poderia voltar e a mandaram para essa ilha. Ele e outras bruxas de seu clã a trouxeram, para que ela não os denunciasse. Lançaram feitiços ao redor desse lugar, a impedindo de sair. Lá por 1800 os primeiros habitantes desse lugar chegaram. E em meados de 1890 Helena conheceu Pearl.

– E as sereias? — Nora pergunta.

Me sento ao lado de Megan no chão.

Por um momento eu me esqueci desse pequeno detalhe. As sereias.

– Isaac mandou outras bruxas para esse lugar. Algumas bruxas, outras apenas mulheres que ele mentiu dizendo ser feiticeiras. Nem mesmo ele podia matar a todos que interferiam seu caminho, então ele as acusava e as enviava para cá. Helena era um tanto... insociável! Ela fez isso. As condenou ao mar e apenas poderiam sair uma vez ao mês, na primeira lua cheia. As limitou apenas ao mar da ilha, não poderiam ir para outros lugares. As condenou como ela mesma estava condenada. Só que ela não poderia sair e elas não poderiam entrar. Por muitos anos, Helena viveu no centro da ilha. Ocupou os corpos de algumas mulheres e ajudou a muitos com poções de curas. Ela vagava nas luas cheias pelo pier, atrás de coisas fora do comum, mas nada parecia fora do lugar. As bruxas não incomodavam quando tinham pernas e nem quando tinham caudas. Elas apenas aceitaram a nova a existência. Mas então veio Pearl e depois Joana. A mais velha queria se livrar das sereias. Dizia que elas estavam roubando seus maridos. Então Helena voltou para a praia por várias vezes, por muitos meses, até que encontrou as “sereias” procriando com homens.

– Procriando? — Elas dizem juntas.

– Sim, elas saiam e acasalavam. Meses depois, na lua cheia, elas davam a luz a pequenas aberrações. Algumas não sobreviviam o suficiente para voltar para o mar. Helena as castigou. Matou todas que tiveram crias. E condenou a almas delas, prendendo no mar. Mas isso não adiantou, elas continuavam a fazer isso, indo contra suas ordens. Foi em uma noite qualquer que ela encontrou Isaac entre as mulheres, copulando com uma delas. Ele havia se unido ao corpo de um dos moradores. Estava entre o povo, plantando sua semente ruim. – Eu sei que o que estou prestes a dizer vai chocá-las, eu me choquei, mas foi necessário. Eu compreendo isso. — Mas Helena não podia com ele, ele estava forte demais. Ela teria que matar, se alimentar de almas para poder vencê-lo. Foi o que ela fez. Ela ajudou as mulheres a matar as sereias, mas Isaac conseguiu atrapalhar isso também. As almas ficaram presas no mar. Então ela teve que matar as mulheres da ilha.

Notas finais
E ai galera? Alguém ai percebeu um conflito de versões? Quem será que está mentindo? Willian/Isaac ou Lancey/Helena? Bj bjs