Canção da Sereia
37 Quebra cabeças - Parte 1 - RS
Notas iniciais
Nora
Joanna me olha com raiva. Então seu rosto muda, não é mais Joanna, é a mulher de antes... a que me assombra. A mulher prateada. Mas não estou mais na caverna... onde estou...?
Olho em volta, estou na praia. A mulher prateada está na areia, admirando o barco ancorado no pier. Há homens saindo deles e mulheres.
– A diversão vai começar... — Ela diz e sorri com maldade, então desaparece.
Duas mulheres saem juntas do barco, amparadas uma na outra. Uma delas volta pro barco, a outra vem em direção a praia. Eu as conheço... Uma delas é... Megan... a outra sou eu?
Minha mente esta confusa, tudo a minha volta parece desfocado. Olho ao redor, estou no quarto de Lancey. Ele está a meu lado, segurando minha mão. Meu amigo abre os olhos. Aos poucos começo a recordar de tudo. Olho pro outro lado. Megan está de olhos abertos, mas olha horrorizada para uma quarta pessoa no quarto. Willian.
Nos separamos imediatamente quando ele abre os olhos.
Willian não diz nada por um momento. Ele caminha com dificuldade até a cama e senta. Passa a mão nos cabelos. Lancey vai pra perto da janela. Megan escorrega pro chão e fica sentada, brincando com Sardinha.
Isso tudo é surreal.
Essas visões não esclareceram muitas coisas, mas me deixam com mais dúvidas.
– O que foi isso? — Willian finalmente pergunta.
Não respondo, me concentro no meu ferimento na mão. Desfaço as bandagens, há apenas um risco rosado. O corte está curado.
Isso definitivamente não é bom. Está curando mais rápido!
Palavras voltam a minha mente... O corpo tomado é o sacrificado. A morte é a chave. A canção que entoam. Isso parece importante. Mas não faz sentido...
– Podemos falar sobre isso mais tarde? — Lancey diz aborrecido.
– O que foi isso? — Willian pergunta mais uma vez.
Seguro sua mão, os olhos azuis encaram os meus. É inegável a conexão que temos. Posso sentir uma eletricidade fluindo entre nós.
– Nós fomos... — Olho para Megan – Possuídos.
– Hum... – Ele fecha os olhos por um momento então respira fundo antes de continuar. — simples assim?
– Simples assim. — Concordo.
– Que inferno de lugar é esse e que porra de história é essa? — Ele parece realmente irritado agora. Mas não é como se fosse nossa culpa... quem é mesmo o líder da expedição?
– Quem dera soubéssemos. — Lancey tem o rosto vermelho. Ele está com muita raiva. – Quem nos trouxe pra cá foi você! — Ele diz, como se lesse minha mente.
Willian fica em pé.
– O que está dizendo? Está me acusando de quê, Lancey?
– Irresponsabilidade. Você nunca deveria ter nos trazido sem saber no que estava se metendo. E as garotas.. — Lancey aponta o dedo pra Megan e eu. — Nunca, Willian, nunca deveria tê-las trazido. Se algo acontecer, a culpa será sua.
Willian dá um passo para frente, tentando alcançar meu amigo. Me coloco entre eles. Empurrando Willian para o lado e tocando o braço de Lancey. A corrente que atravessa minha pele me faz soltá-lo.
Lancey me olha confuso. Depois para minha mão.
O que foi isso? Foi algo parecido com o que sinto ao tocar Willian. E eu que pensei que o problema era Willian, mas parece que sou eu. Mais uma vez sou eu. Santo inferno, o que eu vou fazer? Esse lugar está me deixando louca e me transformando em sabe-se lá que aberração.
Me afasto dele, que me encara pensativo.
Willian continua proferindo xingamentos, mas por um instante, me esqueço completamente dele.
– Vamos, Willian! — Me viro pra ele e começo a empurrá-lo para fora do quarto. Sardinha passa entre minhas pernas e vai a nossa frente. Dou uma última olhada a Lancey. Ele parece chateado e isso... me incomoda.
Sardinha para na frente da porta do meu quarto e mia. Aposto que está com fome.
Willian abre a porta e entra, eu vou em seguida e a tranco. Encaro sardinha que foi para cima da cômoda e lambe a pata da frente. Não tenho certeza se meu gato é o meu gato. As coisas estão muito estranhas.
– Sarou... — Volto minha atenção pra Willian. Ele está a minha frente, olhando a palma da minha mão. — São... — Ele olha o relógio da parede. — Espera...
Ele caminha até a parede com o relógio e se ergue nas pontas do pé, até alcançá-lo. Tira a pila, estuda. Coloca de novo.
– Não pode estar certo. Não faz nem uma hora desde que subimos...
O que eu posso dizer? Fomos possuídos por um fantasma, ou entidade, ou sei lá como se chama. Acho que o tempo pra eles não é o mesmo que para nós. Ou... sei lá.
Como eu queria que Lancey não tivesse aparecido na sala e me avisado. Dessa forma eu não teria vindo para esse inferno. Mas, se eu não tivesse vindo, poderia não ver Lancey nunca mais. Ele sumiria nesse lugar e eu nunca saberia o que houve com ele. O que, provavelmente, me faria vir atrás e inevitavelmente, cair na mesma armadilha. Não importa o quanto eu mude os caminhos nos meus pensamentos, acho que com ou sem intromissão de meu pai, eu teria dado um jeito de vir. Nem que eu viesse depois, por conta própria. Ficaria tão zangada ao descobrir que fiquei para trás, que iria correr para alcançá-los. Essa sou eu. Pelo menos hoje em dia.
Até parece que estou destinada a estar nesse lugar.
– Sua mão sarou em menos de uma hora. — Willian diz enquanto se deixa cair na cama. — Você precisa ver Mason, ele tem que fazer alguns exames. Me preocupa muito isso, Nora.
Ele não está mais tão zangado. Me aproximo dele e sento na cama, o estudando. Ele tem o rosto cansado. Me encara.
– Por que se mutilou? — Oh, legal! Acabamos de viver uma experiencia tremenda, praticamente uma viagem ao passado, e ele quer saber da minha mão, justamento o que não quero contar. — Teve um motivo, certo? Me conta.
Contar a ele...
Mas, o que eu deveria contar? Que meu dom muito conveniente de cura é porque eu ganhei uma cauda na noite anterior? Não mesmo! É capaz dele me abrir aqui mesmo, só pra me estudar.
– Nora, me conta o que está havendo!
– Você sabe o mesmo que eu. Viu as mesmas coisas. É tudo que eu sei.
– Nora... — Ele sabe que estou escondendo alguma coisa. Especialmente agora, depois de nos pegar no quarto...
Até que Willian está sendo bem razoável em respeito ao que viu... eu teria pirado em seu lugar!
– Eu não sei o que está acontecendo. Isso tudo é um pesadelo.
Willian segura minha mão e me puxa para seu peito. Sinto o contrair o corpo quando o meu toca o seu. Ele está com dor. Gostaria de poder passar esse “dom” pra ele. Seria bem útil gora.
Sua mão alcança meu pescoço e sobe, acariciando meu rosto.
– Nós precisamos descobrir o que tudo isso significa, Nora. Precisamos descobrir como sobreviver até o barco voltar.
– Eu sei...
Fique longe do mar. Pearl me disse. Ir embora requer que eu me aproxime... será que conseguirei sair dessa ilha algum dia?
– Precisamos encontrar esse homem.
Homem?
– Mellow? O que ele poderia saber?
Willian inclina minha cabeça, me faz olhar para ele.
– Não Mellow. O bruxo. Temos que encontrar o bruxo.
Me levanto confusa.
– Que bruxo?
Ele senta com dificuldade.
– O da visão...
Oh meu deus... Claro que as coisas não poderiam ser tão fáceis, certo? Nós estamos presos em um lugar, aparentemente, cheio de espíritos zangados. Por que é que só um deles iria querer fazer contato?
– Willian... — Ele está confuso. Me estuda de cenho franzido. — O que você viu?
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