Canção da Sereia
21 Ossos - RS
Notas iniciais
Lancey
Não acreditei quando acordei. Pensei que estava morto. Na verdade, demorou pra cair a ficha mesmo depois de acordado. Pensei que estivesse no céu ao ver Nora deitada ao meu lado toda embrulhada em cobertas brancas. Tão serena e inocente em seu sono.
Olho a nossa volta. Estamos deitados atrás do sofá, no colchão. Perto de nós está Willian. Ele está enrolado em uma coberta, sentado no chão. Suas costas estão firmadas no sofá e ele dorme, desconfortavelmente, com sua mão pousada sobre o braço de Nora.
As luzes da sala estão acesas, mas o barulho do vento me deixa saber que é de noite e mais uma tormenta passa do lado de fora.
Aos poucos vou me lembrando do que houve. Nora estava fora de si de novo. Ela me atacou. Estou feliz por estar vivo, ela não poderia lidar com isso. Com o peso de uma vida em suas mãos. Minha garganta arde. Desejo desesperadamente um copo d'água.
Me sento no colchão e beijo a testa de Nora. Sinto algo quente passar pela minha perna e levanto a coberta para checar. Sardinha está enrolado entre nós dois. Ele levanta a cabeça e mexe seu rabo, o fazendo passar por minha perna como antes. Baixo a coberta e levanto. O frio me pega desprevenido. Estou apenas de bermuda. Subo as escadas em direção ao quarto onde está minhas coisas. Pego uma camiseta e uma jaqueta.
Kall está deitado com Megan no sofá. Gideon está cochilando perto da janela. Acho que ele pensa que está vigiando. Vou até a cozinha. George está lá. Ele está lendo.
– Oi...
Ele me olha e sorri.
– Que bom que está vivo. — Ele me diz.
Vou até a geladeira e pego a garrafa de água. No primeiro gole minha garganta arde, depois o liquido traz alivio a queimação.
– Ela está bem? — Pergunto sobre Nora para ele.
Caminho até a mesa e puxo a cadeira. Me sento de frente para George.
– Sim. Mas não graças a você. O que lhe deu na cabeça, Lancey?
Essa era uma boa pergunta. Mas, eu não faria diferente. Nora teria saído atrás de suas respostas de qualquer forma. Eu a conheço, eles não. Teimosia era a marca registrada da família Ryle.
– Não podia deixá-la sair sozinha. E bem, ela iria.
– Você poderia ter a vigiado para impedir. Nos avisado.
Ele não entendia. Era alguém do lado de fora. Não podia ver o todo.
– Ela teria me nocauteado. Não duvido nada que atirasse em nossas pernas. Mas ela iria. Eu garanto.
– Vocês são doidos. — Ele me diz irritado.
– Diz o cara que está caçando sereias... – Sereias... metade mulher, metade peixe – Eu acho... que... cadê minha mochila?
Ele me olha desconfiado.
– Em algum canto da casa. Não fiquei cuidando da sua mochila, ok? Tinha quatro feridos Lancey, incluindo você...
Não o escuto terminar, volto para a sala em busca da minha mochila. Gideon acorda com meus passos.
– Que diacho cara, eu dormi. — Ele diz enquanto se recompõe. Na teoria deveríamos fazer rodizio para ficar de guarda, mas só Gideon tem feito isso atualmente.
– Viu minha mochila? — Pergunto a ele que aponta para perto da enorme porta de madeira. Lá está ela, aberta. Eu a pego e vou para cozinha.
– Sabe, George. Eu não deveria ter saído ontem com Nora. Foi uma merda nós termos ido. Mas não podia deixá-la sozinha. — Reviro a mochila. Ainda está lá. Mais quebrado que antes, mas ainda está lá. — Mas não me arrependo. E também, tivemos mais sucesso que vocês.
Eu começo a tirar os ossos da bolsa. George fica em pé, ele está curioso.
– Nós achamos uma caverna. — Começo a montar os ossos, como um quebra cabeça. Mas estão muito prejudicados pela viagem. — E Nora... acho que alguma coisa entrou nela lá.
– Como assim entrou nela? — Ele pergunta alarmado.
– Um espirito. É o que eu acho. — Explico. — Isso aconteceu quando eu pisei nisso aqui. Quer dizer, antes. Mas não tão – Me lembro do dia anterior. Como explicar o que havia acontecido? — Bem, essa presença estava lá... a chamando. Mas só quando eu quebrei essa coisa é que tudo ficou pior. Era como se outra pessoa estivesse dentro dela. E teve as vozes, eram gritos. Milhares de gritos que...
– Do que está falando, Lancey? — George não parece muito contente com minha explicação.
– Isso. — Aponto para os ossos. — Estava incrustado no fundo de uma caverna, submersa provavelmente. Tivemos sorte da maré estar baixa.
– São ossos, Lancey. — Ele estuda os pedaços na mesa. — Provavelmente alguém que ficou preso na tal caverna.
Eu acabo minha montagem. Não está perfeita, mas é possível ver o que eu vi lá dentro.
Me aproximo de George e o puxo para onde estou.
– Está olhando do ângulo errado, George.
Ele olha a mesa, estuda os pedaços e leva a mão a boca.
– Santo deus! — Ele se afasta de mim para cair sentado em uma cadeira. Seu rosto velho está pálido e ele está emocionado. — Onde está o resto?
Olho para os ossos na mesa. algumas costelas e uma parte da bacia partida ao meio. Depois disso, não era humano. Os ossos eram mais finos, isso se podiam ser chamados de ossos. Era algo que nunca vi na vida. Parecia que a coluna continuava até onde seria “os pés” do animal. Então hastes formavam algo muito semelhante a uma espinha de peixe.
– Tem uma cauda, George. Eu não consegui soltá-la. Mas estava lá. Era uma calda. Eu tenho certeza do que vi.
Ele concordava com minhas palavras, mas não consegue dizer nada.
Um barulho atrás de nós me chama atenção. Nora nos observava. Ela está com o mesmo biquíni branco de antes e o ombro enfaixado.
Ela fica nos estudando, estudando os ossos. Eu temo que ela esteja fora de si outra vez. Mas então ela fixa os olhos nos meus e uma lágrima solitária escapa.
Estendo minha mão em sua direção. Ela vem lentamente, até me tocar, então me laça em um abraço. Mais um abraço. O número seis. Não que eu esteja contando.
– Eu sinto muito... perdi o controle. Sinto muito.
– Eu sei... está tudo bem. — Seguro seu rosto entre meus dedos e a encaro. — Eu estou bem. Relaxa. Se não conseguir, eu posso pensar em uma maneira ou duas de como te ajudar a ficar bem relaxada e feliz. — Mexo as sobrancelhas com malicia e ela sorri.
– Você não perde o humor nunca?
Beijo sua testa.
– Olha, o que nós achamos...
Saio da frente dela, para que ela possa ver a mesa.
– Puta que pariu, foi o dono disso que entrou na minha cabeça?
– Na sua cabeça?
Eu sei o que ela quer dizer. Mas eu preciso ouvir dela. Preciso ver tudo do ângulo dela, para poder entender, com certeza, o ângulo que eu mesmo olhava.
– A minha mente... — Ela segurou em meus braços – ...era como se milhares de pessoas estivessem dentro dela... e todas falavam ao mesmo tempo. Eu não tive controle sobre meu corpo e eu quase... te matei. Não conseguia parar.
A mão de George toca meu ombro e o de Nora. Ele está ao nosso lado, sorrindo.
– Esse é o maior achado da história. Nós precisamos voltar naquela caverna e pegar o resto.
– Não! — Nora nega. Muito mais alto do que deveria. — Não vou voltar lá. Aquilo foi um pesadelo.
Gideon aparece na cozinha atrás dela.
– O que foi agora? — Ele tem a arma na mão.
– Diga você. — George aponta para a mesa.
Tiro minha jaqueta e entrego a Nora que está seminua na cozinha. Ela agradece e veste.
– Hey... — Willian aparece seguido de Megan e Kall. Ele está horrível. Está sem camisa e tem faixas passadas por seu peito e costelas. Está andando até meio encurvado. Eu me lembro do que o deixou assim. Nora o lançou contra uma árvore.
– Olha que magnifico isso aqui. — George diz todo alegre sobre os ossos. — Foram nossos assistentes que encontraram. — Pelo menos ele não pegou os créditos para si.
Nora se vira para Willian que a puxa para os braços dele. Isso me incomoda. Me incomoda mais do que deveria. Nora é minha amiga. Nada mais. Provavelmente estou dessa forma porque já presenciei o resultado de um de seus relacionamentos.
– Você está bem? — Ele pergunta segurando seu rosto entre as mãos, como eu fiz antes. Então ele lhe dá um beijo nos lábios. De leve, mas um beijo. Isso não deveria acontecer. Mas é só questão de tempo agora. Em breve ele ficará de lado. Eu sei que ficará.
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