Canção da Sereia
62 Extra 01 - Derrubando Obstáculos
Notas iniciais
Nora
É o ultimo dia de lua cheia do mês. Nada de cauda até agora. É madrugada, estamos na beira do mar, escondidos entre algumas pedras no fim da praia. Lancey segura minha mão com força.
– Acho que estamos oficialmente – Ele começa – Desamaldiçoados.
– Essa palavra nem existe.
– Agora ela existe. Vamos pra casa. — Me puxa em direção a rua.
Casa...
– Mas... e se eu me transformar no meio do caminho? Eu to saindo com um cara pé rapado, que não tem um carro e me obriga a andar a pé. Se eu me transformo na rua...
Lancey para e coloca a mão na minha boca, me calando.
– Garota chata. — Ele fica de frente pra mim e tira lentamente a mão da minha boca. — Você está bem. E se você se transformar, eu posso cortar a cauda pra ficar mais leve. Certamente ela vai crescer de novo. Então...
Dou um tapa sonoro em seu braço.
– Você é um idiota. Não faça piada com algo tão sério. — Me solto dele e começo a caminhar. São só cinco quadras da praia até o prédio. Ele vem logo atrás assoviando uma musica que aprendi a odiar por sua causa. Não sei porque tô saindo com ele. Lancey é insuportável quando começa com esse seu jeito largado. E tipo, 90% do tempo, é assim que ele é. Chegamos ao prédio e começamos a subir a escada. Ele para no segundo e vai pro fim do corredor. Subo mais um e vou pro fundo do corredor. Chego até meu apartamento e procuro a chave. Reparo que a janela do apartamento vizinho, onde Willian morava, não tem mais placa de aluga-se.
Só espero que o próximo vizinho não tenha bateria.
– Cadê o gatinho da mamãe... — Digo assim que entro no meu apartamento. Acendo a luz e tranco a porta. Sardinha geralmente vem correndo quando eu chego. Menos agora. Na verdade, nesses últimos dias que voltei, ele não tem feito mais isso. E eu sei bem de quem é a culpa. Caminho até a porta de vidro que dá acesso a sacada e a abro. Me inclino um pouco sobre ela, pra olhar pro andar de baixo. Na sacada logo abaixo da minha está Lancey, todo largado numa poltrona, tem meu gato no colo.
Sardinha sempre preferiu ele. Traíra dos infernos. Mas geralmente, quando eu chegava, Lancey não estava em casa ainda. Então, eu recebia alguma atenção. Mas agora, que ele sempre está, esse gato maldito só aparece na hora da comida.
– Você roubou meu gato! — Digo irritada.
Ele levanta a cabeça e sorri.
– Oi vizinha. Tudo bem ai em cima de mim?
Vizinhos.
Quando ele me disse, meses atrás, que tinha um lugar perfeito pra mim, era isso: “Em cima dele”, como ele gosta de repetir.
– Eu quero meu gato de volta.
– Ele veio por vontade própria. Então, a menos que o espere voltar, por vontade própria também, você pode descer aqui pra buscá-lo... — Um sorriso malicioso toma conta de seus lábios. Odeio esse sorriso. Não, amo o sorriso. Não, definitivamente odeio esse sorriso.
– Sejam felizes juntos. — Me retiro da varanda e fecho a porta de vidro. Pelo menos não ganhei cauda nesse meio tempo de irritação. Um problema a menos.
Me deixo cair no sofá e fico olhando pro teto.
Essa semana fui a praia com Lancey todos os dias. Nos primeiros dois dias nos sentamos na areia e ficamos esperando amanhecer. No terceiro ele me obrigou a molhar os pés. Mas no quarto, eu tive que entrar no mar, até a água chegar aos meus joelhos. Estava escuro e senti muito medo. Mas ele segurou minha mão e então eu consegui ficar alguns minutos a mais, antes de começar a gritar e correr dali. No quinto dia repetimos, mas dessa vez eu fiquei até que ele tomou minha mão e levou aos lábios. Depois disso me levou pra areia e ficamos sentados, abraçados, até amanhecer. O sexto dia foi um pouco alarmante. Ele me convenceu entrar até a água bater em minha cintura, mas me levou adiante, me fazendo mergulhar. Foi bom no começo, até que a escuridão me deixou em pânico. E hoje, bem, eu não quis entrar. Ele até tentou me levar, mas não rolou.
Olho pro relógio da parede. São três da manhã. A lua ainda está forte no céu, a maré ainda alta e eu ainda estou com medo. Mas, muito menos. No entanto, me sinto muito sozinha nesse momento.
Me levanto e caminho pelo apartamento, até parar na frente do espelho. A ilha não deixou nenhuma cicatriz, física pelo menos. O que é bem incrível se levar em consideração todas as marcas dos garotos. Mas, por outro lado, tenho muitas de Andrew.
Andrew... Foi chocante quando sua foto apareceu no noticiário. Disseram que ele foi agredido e empurrado de um prédio e até o momento não havia suspeitos.
Bem, eu diria que ele teve o que mereceu. Ele gostava de bater, começar brigas. Claro que, algum dia, algo iria dar errado nisso tudo. Me sinto aliviada sobre isso. Talvez seja algo ruim. Talvez eu seja como Helena, cruel. Mas a morte de Andrew me traz um alivio irreal.
Hora de dormir. Mas... me acostumei ao vizinho bobo do apartamento de baixo. Bufo resignada e saio do apartamento, tranco a porta e vou pras escadas. Caminho lentamente até o apartamento. É tudo igual ao andar de cima. Exceto o tapete preto com as palavras “Não tem ninguém” em vermelho. Pego meu molho de chaves. Desde que me mudei para esse prédio, eu tenho a chave dele, mas essa é a segunda vez que uso. A primeira foi na primeira noite de volta ao apartamento. Me senti incomodada enquanto estava sozinha e desci.
Entro.
Lancey ainda está na varanda. Caminho até lá, ele está cochilando com as pernas esticadas e os pés sobre o parapeito. Sardinha continua em seu colo. Passo a mão na cabeça do gato, que mia e acorda o loiro.
Ele pisca algumas vezes e então sorri ao ver que sou eu. Com movimento leve, ele empurra Sardinha que salta pro chão e se perde na sala. Me estende a mão que aceito e me puxa pro seu colo. Me acomodo ali e descanso meu rosto em seu pescoço. Ainda é um pouco estranho estar assim com ele. Mas, eu não poderia estar como antes. Seria impossível tentar aquietar todos esses sentimentos agora.
Lancey leva uma mão ao meu rosto e acaricia gentilmente.
– A senhorita precisa dormir. — Levanto meu rosto. Ele tem olhos tão bonitos.
Aproximo minha boca da sua e percebo o sorriso dele ir aumentando. Apenas um selinho, nada tão intenso. Nada tem sido intenso nesses primeiros dias. Lancey tem sido justo o que eu nunca imaginei que ele pudesse ser, um cavalheiro. Ele tem me apoiado, me dado o suporte necessário, mas não me mimado. E certamente tem respeitado os limites. Nós demos cinco beijos desde que ele voltou. E isso contanto esse selinho. Todas as vezes por incentivo meu.
– Deitar. — Ele diz mais uma vez.
– Você não vem? — Pergunto curiosa.
Essa é a terceira vez que estou dormindo na casa dele e nas outras duas, ele nunca veio pra cama.
Ele me estuda por um momento. Incerteza estampada em seu rosto.
– Ok... — O sorriso safado está nos lábios de novo. — Mas, primeiro, preciso de um banho. Tem areia até na minha bunda.
Nada romântico.
Ele me empurra pra que eu fique em pé e depois levanta.
– Vá esquentando a cama Mulher! — Ele me diz e se afasta. Tão bobo.
O vejo se afastar no corredor que dá no quarto e banheiro. Sardinha já sumiu de vista. Olho a volta e nem sinal do gato traidor.
A casa de Lancey é exatamente o que se espera do quarto de um adolescente. Uma bagunça. O quarto dele, eu diria, foge um pouco do padrão. É organizado. Mas, a mesa da sala está cheia de embalagens de comida e latas de cerveja, e provavelmente são de antes de viajarmos. Ele disse que quando for limpar eu devo ajudá-lo, mas até agora a única coisa que ele fez foi jogar o lixo da cozinha, que parecia ter algo morto dentro.
Escuto o chuveiro ser ligado. Não estou com sono. Ou cansada. Eu diria que ansiosa, na verdade. Eu sei que ele está sendo um cavaleiro, do seu jeito, mas ao mesmo tempo, quero que ele deixe isso pra lá. Eu estou ansiosa, como uma adolescente a espera do seu primeiro beijo. Mas, não sei se devo dar um próximo passo. É tudo novo e tenho um péssimo histórico com relacionamentos. Não quero estragar esse. Mas também, sinto que se não fizer algum movimento, nunca vamos sair disso.
Vou para o quarto e ascendo a luz. A cama é de casal, tem uma coberta negra por cima e travesseiros e almofadas brancas e pretas. Tudo limpo e organizado, como pode?
Respiro fundo, criando coragem. Faço uma prece para que nossa amizade não seja abalada pelos meus atos, então vou pro banheiro. A porta está apenas encostada. Ele está cantando no chuveiro, e canta mal pra caramba. Estou usando um vestido de manga curta florido, que vai até metade da minha coxa. Primeiro me passa pela cabeça tirá-lo, mas isso seria muita confiança. Eu estou julgando que Lancey não me toca porque está sendo paciente. Mas, eu posso estar enganada. E se ele não me toca meramente por não gosta de mim? Eu sei que ele disse que sim na ilha, mas estávamos sob pressão. E se os sentimentos dele mudaram?
Abro o vidro do box. Ele está de costas, esfrega o cabelo e continua cantando. Ele tem costas largas e bunda carnuda. Ele se vira.
– PUTA QUE PARIU! — Ele grita e choca as costas na parede. — Noralys dos infernos! Você quer me matar?
Ele leva a mão ao peito e puxa a toalha colocando na frente da cintura.
– Você tá bem? — Ele pergunta me estudando. Concordo. Admito que perdi um pouco da ousadia agora. E estou prestes a cair na gargalhada. Que reação foi essa?
Lancey desliga o chuveiro e enrola a toalha, agora molhada, na cintura.
– O que foi Nora? — Ele toca meu rosto e me olha apreensivo. — O que aconteceu?
– Eu... — E se eu estragar tudo...– Eu quero... você.
Seu rosto suaviza.
– Você já me tem Nora. — Ele desliza a mão livre pelo meu braço e segura minha a mão, a ergue lentamente e a pousa em seu peito nu. Sinto seu coração bater rápido.
– Não é apenas pelo susto. — Ele ri. — É por você e faz muito tempo que bate assim...
– Eu quero fazer amor com você. — Sou mais clara, já que ele decidiu ficar em modo lento.
Ele solta minha mão e passa a dele pelo rosto e então começa a rir.
– FINAMENTE! – Suas mãos alcançam meus braços e me puxa pra ele, tomando minha boca. — Eu não... aguentava mais... — Ele morde meu lábio. — Usar as mãos.
Me separo de sua boca e enterro a rosto em seu ombro, enquanto rio desenfreadamente. Ele aperta meu corpo ao dele e mordisca minha orelha, me causando arrepio e uma vontade louca de devorá-lo. Com o rosto ainda escondido em seu ombro, abro minha boca chupando a pele do ombro que abocanho e então mordo. O gemido que ele dá é como musica pra meus ouvido e quero ouvir de novo e de novo.
Me assusto quando a água começa a cair de novo, me molhando dessa vez. Ele baixa sua boca até meu pescoço, usa a língua pra fazer círculos em minha pele, as mãos sobem para meus ombros e cinto as mangas sendo afastadas. Por um segundo eu vacilo e tenho duvidas. Não quero que sexo estrague as coisas. Mas, eu preciso dele. Não tem como ser racional quando o corpo é quem dita as regras.
As mangas começam a escorregar pelos meus braços. Ele se afasta e me olha. A água cai sobre meu vestido, o deixando colado a pele e quase transparente. Lancey continua puxando, descobrindo minha pele, expondo meu sutiã branco. Então sou empurrada pra parede, pressionada ali. Ele continua descendo meu vestido, dessa vez seu corpo acompanha e vai abaixando. Os lábios tocam minha pele, meus seios por cima do tecido e então a barriga. Ele para por um momento de puxar a peça e se concentra em depositar beijos castos em minha pele, até que começa a sugar minha pele e então a circular com a língua. Então o vestido começa a descer. Depois de passar por meu quadril, ele cai pesado no chão e eu tenho Lancey ajoelhado a minha frente. Ele me olha tão docemente que minhas barreiras acabam por ser destroçadas.
Os olhos brilhosos me olham com adoração. Há quanto tempo ele tem me olhado assim? Há quanto tempo tenho ignorado isso?
– Tão linda...– Ele sussurra. Ergue o braço e desliga o chuveiro, então segura em cada lado do meu quadril e volta a beijar minha barriga, sempre descendo. Enrosco meus dedos em seu cabelo.
Quando ele alcança a borda da minha calcinha, a morde e segura entre os dentes então a solta, fazendo beliscar minha pele, puxo seus cabelos e ele me olha, passa a língua pelo lábio.
Ele me gira lentamente, me fazendo soltar seus cabelos, até que estou de costas pra ele, com meu rosto virado pra parede. A mordida que ele dá na minha bunda me faz colar o corpo na parede, então sua boca vai subindo por minha pele, bem lentamente, beijando minhas costas. Até está em pé, beijado meu ombro. Percebo que está sem toalha, quando ele cola o corpo no meu. O membro duro roça em minha bunda.
Lancey volta a concentrar os beijos em meu pescoço. Eu o quero tanto, não consigo mais suportar a essa tortura.
Como se lendo meu pensamento, ele puxa minha bunda pra trás, me fazendo inclinar um pouco, então sua mão enrosca em meu corpo e toca minha barriga, até descer até a calcinha e ir pra dentro dela.
Com a mão livre, Lancey toca meus seios. Primeiro por cima no sutiã e depois passando por baixo, acariciando a carne.
– Lan... cey... — Tento dizer seu nome, mas é impossível.
Os dedos cumpridos começam a deslizar por cima no meu clitóris e indo mais além. Até que... um está dentro de mim. Arfo, estou perdida. Seu dedo deixa lentamente meu interior e então entra mais uma vez.
– Eu... te amo... Noralys.– Ele sussurra em minha orelha, pouco antes de mordiscá-la.
Minhas pernas estão fracas e não sei até quando posso me aguentar.
– Eu vou te chupar inteirinha.
Isso é sexy.
Lancey tira seu dedo de dentro da minha calcinha e do meu sutiã. Abre o fecho dessa peça de cima, então me vira pra ele, deixando as alças escorregarem por meus braços. Mal encontro seus olhos quando nossas bocas voltam a se chocar. Ele enlaça minha cintura, me colando ao seu corpo. Nossas peles coladas, molhadas, criando sensações incríveis. Lentamente, e entre beijos ardentes, deixamos o banheiro. O caminho até o quarto é tumultuado, batemos em várias coisas, mas nenhum de nós dois liga. Nossas bocas não se separam, nossos corpos menos ainda. Só sei que estramos no quarto quando caímos em algo macio, a cama.
Com muito esforço nos separamos. Ele admira meu corpo e eu ao dele. Não sei bem o que ele vê ao me olhar, mas eu vejo perfeição ao estudar seu corpo, seu rosto. Eu imaginei que esse momento seria constrangedor, mas, eu não estou com vergonha. Estou extasiada.
Ele toma minha mão e leva aos lábios, a beija com todo carinho possível e dá uma boa olhada em meus seios nus, antes de focar em meus olhos.
– Assustei você?– Sério? Uma conversa justo agora? Só Lancey mesmo. — Quando disse que te amo...
Oh... Ele não vai seguir em frente. Não sem saber se vou me arrepender depois e fugir. Como sempre faço com os outros. Mas, dessa vez é diferente. Lancey não é um estranho, ele é apenas... Lancey. O único responsável por todos os traumas superados. O único que sempre esteve comigo. O único que eu... quero.
Toco seu peito, como quando ele puxou minha mão antes.
– Eu gosto de você – Agora sim, está ficando um pouco constrangedor. As palavras querem morrer em minha boca. Não agora que cheguei tão longe.– Eu demorei um pouco pra perceber, mas, eu entendo agora. — Os olhos dele brilham de expectativa.
E eu quero dizer o que ele anseia em ouvir, e vê-lo se alegrar com meus sentimentos. Mas parece tão difícil dizer em voz alta.
Abro meus lábios, está na ponta da língua. Apenas três palavrinhas.
Não sai.
– Tudo bem, entendi. — Ele diz sorrindo, mas sei que ele está um pouco chateado. Eu quero dizer, eu decidi fazer isso. Mas... não sai.
Ansiedade e pânico começam a reinar em mim.
Lancey volta a beijar meu pescoço, mas não consigo aproveitar agora. Sinto que um buraco se abriu entre nós.
Eu o afasto e ele me estuda chateado. Se deita de barriga pra cima e fica estudando o teto.
Por que não consigo dizer? É algo tão simples e natural. Por que não sai?
Lancey senta, se inclina e beija minha testa, então sai do quarto. Minutos depois escuto o chuveiro.
Droga.
Pego uma camiseta e cueca no guarda roupa dele. Me troco e deito, me enfiando em baixo das cobertas.
Algum tempo depois, ele desliga o chuveiro e sai do banheiro. Passa pelo quarto e apaga a luz, mas não deita.
Eu não sei o que há de errado comigo. Eu o amo. Desde do dia em que acordei no hospital e ele estava lá. Ok... talvez não desde esse dia. Eu senti medo. Mas depois que passou, eu o amei. Amei que ele me empurrava pra frente, me fazia andar sozinha, me desafiava a ser alguém independente. Então, que merda há comigo? Por que não posso expressar esses sentimentos em palavras?
Minha mente trabalha e trabalha e não chega a conclusão alguma. Por fim me deixo vencer e dormir.
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