Canção da Sereia
15 Cura
Notas iniciais
Willian
Nora está encolhida na cama, com o gato apertado a seu corpo. Bicho de sorte.
A camisa cobre muito mais do que eu gostaria. A manga comprida é muito mais longa que seus braços e esconde suas mãos nela. Também tampa boa parte da bunda. Reparo que as cobertas molhadas estão no chão. As pernas torneadas estão a mostra, pelo menos isso. A tatuagem sobe ao redor de sua perna ferida, que agora está enfaixada.
Ela colocou a faixa sozinha enquanto eu tentava controlar minha natureza. Me sento na cama, próximo a ela e toco sua perna. Ela abre os olhos sonolenta. Estuda meu corpo seminu sem vergonha alguma e então sorri.
– Desculpa – Eu digo a ela.
– Não saí de novo...– Ela pede. – Por favor...
Parece uma criança indefesa com medo de bicho papão. Claro que, nesse caso, o bicho papão existe, e está apenas esperando uma oportunidade para levá-la.
– Vou cuidar do seu joelho e então você pode dormir.
– Você vai ficar? – Aqueles olhos suplicantes de novo. A camisa está semi aberta, tenho uma boa visão de onde estou.
– Claro.
Me aproximo de minha mala e pego o kit de primeiros socorros. George nos educou a andar com um na mala sempre. Agora, com a coisa toda, veio bem a calhar.
Estico sua perna e limpo o joelho antes de colocar gaz e envolver com uma faixa.
– Está doendo?
Ela nega.
– Já faz algum tempo que não a sinto... isso é mal? — Ela tem o rosto franzido.
– Acho que é... apenas a medicação do Mason fazendo efeito.
Ela concorda. Eu a deixo e pego uma muda de roupa. Me troco no banheiro. Coloco um pijama curto, cinza. Não gosto de dormir de roupa, mas as circunstancias pedem isso hoje. Quando saio do banheiro, recolho a roupa de cama molhada do chão e vou para o quarto que eu estava antes. Deixo tudo no chão e retiro as cobertas da cama as trazendo comigo para o quarto de Nora. Escuto o pessoal conversando lá em baixo. Talvez amanhã, nos juntemos a eles no andar de baixo. Hoje prefiro que ela fique o mais longe possível do mar. Não que andar de cima fosse uma distância significante, mas por hora era o suficiente. Vai saber os tipos de artimanha que essa coisa têm. Será que é capaz de atravessar paredes? Abrir buracos no chão? Provavelmente não. Espero sinceramente que não.
Quando entro no quarto, não vejo Nora em lugar nenhum. Solto as cobertas e vou ao banheiro já em pânico.
– Nora! — Quando entro no banheiro, quase dou de cara com ela que tomba para trás. Consigo segurá-la antes que caia.
– Você me assustou. — Eu digo a estudando, toco em seu rosto, quero saber se é ela mesma e não aquele bicho frio de ontem.
Sua pele quente me faz relaxar.
– Sardinha tava com fome.
O cheiro de peixe chega a meu nariz. Olho para chão para ver o gato comento sardinhas em seu pote.
A pego no colo e saio do banheiro.
– Por que está sempre me pegando no colo? — Ela está de volta. A garota espertinha.
– Eu gosto de ter minhas mãos em você.
A coloco no centro da cama e recolho as cobertas que deixei cair. As jogo em cima dela e depois fecho a porta do banheiro. Quando estou prestes a fechar a porta do quarto, Megan aparece. Ela me encara.
– Eu fico com ela. — Ela diz.
A estudo por um momento. Séria demais. Levo uma mão a seu braço. Sinto sua pele quente, então relaxo e sorrio para minha amiga.
– Tudo bem. Não vou dormir, quero reler os documentos. Fique com Kall, prefiro que não estejam no mesmo lugar, Meg.
Ela olha para Nora sobre meus ombros. Então concorda e me abraça.
– Vai ficar tudo bem, né?
A abraço de volta. Megan é como uma irmã. Ela e Kall me acompanham desde a adolescência.
– Volte pro Kall, e não saia de perto dele.
Ela concorda e desce as escadas correndo. Então tranco a porta. Pelo tempo que estou aqui em cima, não duvido nada que a qualquer momento o estagiário intrometido apareça.
Estou exausto, mas prefiro trabalhar. Preciso achar alguma outra pista sobre o que está caçando as garotas.
Nora está aninhada na cama. Me ajeito na poltrona e volto a estudar meus documentos. Preciso acabar o que começamos essa tarde.
Eu a espio de vez enquanto e a vejo cair no sono.
Continuo as pesquisas, marcando padrões e outras coisas. Deixo a arma na cômoda dessa vez. Nunca se sabe quando vai precisar. Lancey aparece uma hora depois. Ele acaba ficando comigo no quarto e se juntando a minha busca. Evitamos falar, para não acordar Nora e depois de muito tempo, ele desiste e volta para baixo. Eu tranco a porta, mais uma vez, e me enfio na cama. Não sei se ela irá gostar de acordar comigo a seu lado, espero que não fique zangada. Mas dormir no chão, definitivamente, não vou. Estou no meu limite, precisando urgente de uma cama.
Adormeço muito rápido, mas acordo com Nora se debatendo na cama algumas horas depois. Ela acorda chorando, assustada.
– Eu não quero morrer, Willian. — Ela me diz entre soluços. Eu também não quero que ela morra, ou qualquer um de nós. Só quero dar o fora desse lugar e deixá-la em segurança. Deixar a todos nós em segurança. Ela vem pros meus braços e se aninha em mim, só depois que ela adormece é que eu posso me concentrar no meu próprio sono.
Uma batida na porta me acorda. E mais uma vez.
Nora está toda enrolada em mim. Nossas pernas estão enroscadas e seu rosto descansa no meu peito. Nossos braços estão enrolados em volta um do outro. E... eu estou sem camiseta e ela está sem camisa também. Seus seios fartos encostam na minha pele. Ótimo, já acordo com uma porra de ereção monstruosa.
A batida mais uma vez.
– Nora... — Eu a chamo. Ela começa a mexer e relando o corpo ainda mais em mim. Então abre os olhos devagar.
– Alguém? — A voz chama do outro lado da porta. — Vou arrombar.
– Já vai. — Respondo.
Empurro Nora, para me soltar de suas pernas e braços, então me levanto. Ainda estou de shorts e cueca. Pelo menos isso.
Minha camisa está jogada do meu lado da cama, a visto e abro a porta.
George está parado do outro lado, ele e encara e está muito bravo.
– Nem comece. — Eu digo. — Podemos morrer a qualquer momento.
Ele respira fundo.
– Desça com ela em uma hora, ok?
Eu concordo. Estou morrendo de sono ainda. Mas, se ele fez questão de vir me chamar, alguma coisa ele deve ter descoberto.
Ele vira e saí mal humorado. Volto a trancar a porta.
Nora adormece de novo. Eu me enfio em baixo da coberta de novo e logo ela está no meu peito de novo.
– Temos que descer.– Eu sussurro em seu ouvido.
– Só mais cinco minutos... Drew. Mais cinco minutos. — Ela diz em algum lugar entre acordada e dormindo.
Drew! Quem é esse?
– Nora... temos que descer. — Eu insisto.
Ela abre os olhos e me encara. Me estuda por muito tempo, pisca várias vezes, então senta com rapidez. O lençol escorrega, desnudando os seios e os deixando a mostra.
– Que porra? — Boca suja logo de manhã. Parece que voltou ao normal.
Ela baixa a cabeça e estuda a própria nudez.
– Me diga que usamos camisinha, por favor!
– Não usamos. — Ela me olha assustada. — Não transamos, ok?
– Sério?
– Vai dizer que está desmemoriada?
– Acho que se eu estivesse, não saberia. Seu idiota. — O idiota ela sussurra, mas consigo ouvir.
Perco o sono. Me sento e por fim levanto.
– Você é um docinho de manhã, querida. — Eu digo de mau humor e vou pro banheiro. O gato está dormindo, todo enrolado, em cima da tampa do vaso. Ele levanta a cabeça quando abro a porta e pula pro chão. Logo está fora do banheiro. A banheira está feia, ele defecou dentro dela. E o cheiro de peixe é de dar náuseas. Eu saio do quarto e fecho a porta.
– Isso tá um horror. Tá na hora do Sardinha ter seu próprio quarto, não acha?
Ela finalmente sorri. Está enrolada no lençol de novo e a bola de pelo esta em seu colo.
Ela se estica para pegar sua mala no chão, eu empurro com o pé para perto dela. Ela tira um vestido azul de dentro. Depois pega o biquíni deixado de lado ontem. Eu respiro fundo e volto pro banheiro para que ela tenha alguma privacidade.
Limpo a banheira e tiro os restos mortais dos peixes enlatados, assim como junto as latas. Depois jogo água na banheira. Passo uma toalha no chão. Provavelmente eu levaria um chingo da minha mãe, por usar a toalha. Mas já que ela não está mesmo aqui...
Depois que acabo de secar o chão, coloco a toalha no cesto de roupa suja e fecho bem o lixo. Saio do quarto. Nora está em pé na frente do espelho. Não parece tão mal quanto ontem. Os cabelos ondulados emolduram seu rosto e as bochechas estão mais coloridas agora. Ela anda normalmente até o banheiro.
– Espera... — Eu a puxo, antes que ela feche a porta. — E teu pé? Por que tá andando tão bem? Sem dor?
Ela pisca atônita.
– Sem dor alguma. Oh deus, eu tô doente? Minha perna tá necrosando, só pode. Por isso não sinto. Ela vai para a cama, ansiosa, irritada. Começa a tirar a faixa. Eu seguro suas mãos.
– Eu tiro.
Começo a desfazer a do pé. Não há mais inchaço, apenas alguns arranhados. A mordida de tubarão nem aparece mais. Não deveria estar assim. Tiro a faixa do joelho e os cortes profundos de ontem, estão rasos agora.
– Que porra, Willian?
– Duvido que isso seja resultado dos remédios de Mason fazendo efeito.
Ela leva a mão aos cabelos e os joga para trás.
– É ótimo não sentir dor. Mas aposto que eu estou ferrada.
Definitivamente ela está.
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