Canção da Sereia
18 Bond Girl - RS
Notas iniciais
Lancey
É sangue. O que marca seus olhos. Ela chora sangue.
Limpo com a ponta dos dedos as lágrimas caídas. Estudo seus olhos procurando algum ferimento. Está bem.
– Nora... volta pra mim... – Seguro seu rosto entre minhas mãos. Não sei o que houve lá dentro, mas foi bizarro e eu sei que ela nunca mais deve voltar a esse lugar. Só rezo para os danos não serem permanentes. Ela ainda parece fora de si. A maré está subindo e as ondas estão mais fortes. Ainda posso escutar os gritos de antes. Mas agora está fraco, distante. Vem do mar. O som de muitas vozes juntas.
Não conseguiremos sair nadando. Seremos jogados contra as rochedo se tentar mergulhar. O jeito é continuar subindo.
Puxo Nora pela mão e a forço a subir. Aos poucos ela vai voltando a si.
– Continua subindo, Noralys. — Eu aviso.
Alguns metros a cima eu vejo um tipo de caminho que rodeia o rochedo. Seguimos pra ele. Consigo enxergar a casa, finalmente, e está bem longe.
– Você está bem? — Pergunto a ela antes de começar a descida. Ela concorda.
– Me sinto tonta, mas consigo descer.
Abro a mochila. Sinto falta de uma corda. Pego o vestido dela e uso a faca para cortar em três tiras. Depois amarro as pontas. Ela não reclama que eu tenha destroçado seu vestido. Passo o tecido pela cintura dela e depois pela minha. Pego minha camiseta e a faço vestir.
– Temos que descer juntos. Pode fazer isso?
Ela concorda. Vou na frente para que ela veja onde pisar. O engraçado é que há marcas na rocha. Como se tivesse sido perfurada justamente para alguém escalar. Mas os buracos são antigos, já estão cheios de vegetação. Ela consegue me acompanhar. Quando chego ao chão, a espero completar o ultimo movimento, mas então ela caí. A pego antes que alcance o chão. Ela respira aliviada em meus braços e descansa a cabeça no meu ombro. Parece péssima. Ficamos ali, eu sentado no chão e ela entre minhas pernas.
– Você se lembra do que houve lá em cima?
Ela confirma.
– Eu... os gritos... eu sabia o que estava acontecendo, mas não conseguia controlar meu próprio corpo.
– Você me assustou o inferno lá. — Abraço ela — Nora, você não deve voltar naquele lugar, nunca mais. Ouviu?
Ela concorda.
É a quinta vez que a abraço em minha vida. A primeira foi ao sair do hospital. A segunda foi quando a ajudei ir contra Daniel, a terceira foi quando lhe dei a arma. A quarta vez foi no pier, e agora a quinta. Não que eu esteja contando. Mas eu gostei disso.
– Desculpe ter te arrastado pra cá. — Eu lhe digo. Estou começando a achar, mais que antes, se é possível, que nossos dias estão contados nessa ilha.
– Eu teria te matado se voltasse vivo dessa ilha e tivesse me deixado pra trás.
– Eu sei.
Beijo sua bochecha. Não de uma forma pervertida. Só quero saber que ela está bem. Tocá-la, nesse momento, é a forma mais eficaz. Ela não reclama disso, acho que se sente da mesma forma. É como se isso nos lembrasse que estamos vivos. Ainda.
– Vamos voltar, Nora.
– Não, Lancey... — Ela me encara – Preciso de respostas. Não quero mais perder o controle do meu corpo de novo. Aquilo que houve lá em cima... — Ela se perde em lembranças, posso ver pelos seus olhos vazios — foi pior que levar todas aquelas surras do Drew.
Ela ainda o chamava pelo apelido. Isso seria uma forma de seu subconsciente dizer que ela ainda sentia algo por ele?
– Eu não quero mais sentir isso.
– Eu sei.
E eu não posso mais deixá-la sentir isso. Isso a destrói.
Não quero mais ser uma vítima. Ela me disse no dia anterior, depois de ser atacada por aquela... coisa. Ela me disse a mesma coisa depois de sair do hospital há um ano atrás.
– Vamos procurar respostas então.
Ela concorda.
– Até que você sabe deixar a idiotice de lado quando precisa. — Aí está a Nora do Andrew. A Nora quebrada que afasta qualquer pessoa que tentam se aproximar demais.
– Você é uma medrosa. Um bebê chorão, Nora. Tem medo de um monstrinho que quer te comer.
Ela fica em pé e eu faço o mesmo. Tento a todo custo olhar em seus olhos e não em seu corpo, mas não aguento muito tempo, logo estou estudando seu corpo e sorrindo.
– Eu queria tirar essa camiseta, ta fedida. Mas agora não dá mais. — Ela desfaz o nó da corda improvisada. — Não posso ficar de biquíni enquanto você me devora com os olhos.
– Não desamarra. — Eu digo e refaço o nó – Isso pode ser a única coisa que te faça sobreviver a esse passeio.
– Ou que mate você.
Ela tem razão. Seja o que for persegue ela e não a mim. Finjo que vou desamarrar e ela me dá um tapa forte no braço.
– Você é um homem ou um bebê?
– Um bebê. Preciso de proteção, mami. E leitinho. — Olho em direção aos seus seios e mexo as sobrancelhas.
Com isso ela perde a paciência. O que é ótimo, pelo menos não está mais pensando sobre o que aconteceu na caverna.
Nos embrenhamos na mata. Para o lado oposto ao da casa. Não há grandes coisas para ver além de mato. Não vemos pessoa alguma enquanto andamos. Imagino que vamos acabar trombando com Willian e os outros. Mas quem aparece é Sardinha. Ele vem miando em nossa direção se enrosca em minhas pernas antes de ser pego por Nora.
– Oh, seu bichento fedido. Pensei que tinha levado um tiro. — Ela beija o gato que fica todo de chamego pra ela, virando a cabeça pra ganhar carinho no pescoço.
– Vamos Nora.
Ela volta a caminhar com o gato em suas mãos. Passamos o caminho nos revezando em levá-lo, com medo que ele fuja e acabe morto dessa vez.
Já é de tarde quando alcançamos uma velha aldeia. Está abandonada. Demoramos a chegar porque ficamos andando em círculos por tempo demais até que Nora percebesse.
As casas velhas estão condenadas. Exceto uma. Que parece mais firme.
Aponto pra casa e Nora concorda. Ela tira a arma da mochila em minhas costas. Eu deveria carregar, já que sou o homem do passeio, mas ela é quem tem mais experiência. As aulas vieram com a arma. Eu tive que levá-la todos os dias por duas semanas escondida de Daniel. Ele nem imagina que ela tenha essa arma.
Sardinha está em minhas mãos, ela bate na porta. Não posso deixar de me sentir em um filme do 007 ao ver Nora no melhor estilo bond-girl nesse biquíni, com minha camiseta e armada.
O barulho de passos, do lado de dentro, se aproxima da porta. Nós damos alguns passos para trás. A porta é aberta com tudo e uma arma é apontada para nós ao mesmo tempo que Nora aponta a dela para nosso intimidador.
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