Canção Da Morte

22 Capítulo 22 - Aves do Submundo


Nunca é do modo fácil. Dante já estava se acostumando a ter que batalhar muito para alcançar seus objetivos. Ele esperava entrar no Submundo, encontrar Hikaru, liberta-lo e voltar ao Santuário. Será que era pedir demais? Era apenas uma missão de resgate, uma simples missão de resgate. Mas com a sorte do cavaleiro de Fênix, era comum ter um cão gigante e com três cabeças para derrotar. Cérbero era o cão de guarda do Submundo e não era possível entrar nos domínios de Hades sem antes passar por ele. Felizmente para a sorte da dupla de jovens, Hikaru já estava nas portas, mas se entrar era difícil, sair era muito pior.

Dante estava visivelmente feliz em encontrar seu mestre novamente, Hikaru parecia o mesmo de sempre, seu cabelo vermelho balançava a cada movimento do cavaleiro, seu sorriso desafiador estava estampado em seu rosto e sua armadura ainda matinha o brilho, embora aquela imagem fosse apenas uma projeção do corpo de Hikaru, uma representação de sua alma. A pouca luz que existia naquele lugar não era refletida pela armadura, o deslocamento do ar pelos movimentos do cão não fazia efeito nenhum nos cabelos ruivos do cavaleiro e até seu sorriso desapareceria se ele continuasse ali por muito tempo.

- Como eu queria que Miro estivesse aqui conosco. – disse Dante enquanto corriam até as portas do Submundo.

- Ele é tão poderoso assim? – perguntou Kizumi.

- Não tanto quanto Hikaru, mas eu queria que ele viesse não só pelo seu poder, mas por sua constelação. Miro é o cavaleiro de prata de Cérbero. – explicou o cavaleiro.

- E você idiota pensou que o cavaleiro de Cérbero poderia controlar aquela fera? Só porque ele é protegido por aquela constelação?

- E não é assim que funciona?

- Claro que não! Só porque a constelação de Cérbero o protege não significa que o animal irá fazer o mesmo. Tenho certeza que se você encontrasse uma Fênix não teria domínio nenhum sobre ela.

- Ela tem razão garoto. Uma vez eu enfrentei um leão e não foi nada agradável. – disse uma voz familiar bem próximo deles.

- Hikaru? Como você... – Dante não acreditava que seu mestre estava tão próximo depois de vê-lo lutando com um cão gigante minutos antes.

- Pensou que eu ia ficar esperando por vocês? Eu já tentei fugir daqui várias vezes, aquele cão é fácil de derrotar – Dante olhou por cima do ombro do Leão e viu Cérbero inconsciente no chão. – o maior problema são os espectros que estão me perseguindo.

- Espectros? – perguntou Kizumi.

Antes que Hikaru pudesse responder um grande grupo de guerreiros com armaduras negras se aproximaram rapidamente de onde eles estavam. Dante olhou para Hikaru e viu que seu mestre demonstrava estar muito fatigado. Talvez fosse efeito de estar tanto tempo fora do seu corpo.

- Podemos derrota-los? – Kizumi questionou.

- Se pudesse eu não estaria mais aqui e vocês não precisariam descer até o Submundo só para me resgatar. – respondeu Leão.

- E então? Correr? – sugeriu Dante.

- Não vejo opção melhor. – falou Hikaru e todos começaram a correr.

Fugir dos espectros não seria algo difícil, se eles estivessem na Terra, mas estando no mundo dos mortos, o local onde os servos de Hades eram mais poderosos e o lugar que eles conheciam como a palma da mão, a tarefa não era tão fácil. Não demorou muito tempo e o trio foi alcançado pelos inimigos. Dante ordenou que Kizumi e Hikaru continuassem enquanto ele distraía os espectros, então ele tomou um caminho diferente, seguiu por uma fenda entre duas grandes rochas e desapareceu sendo seguido por vários adversários, outros porém continuaram perseguindo a amazona e o cavaleiro dourado. Enquanto corria Kizumi olhou para trás procurando por Dante, mas ela só conseguiu ver uma coluna de chamas subindo pela fenda entre as rochas e depois uma luz dourada descendo até onde Dante deveria estar.

Em dado momento ela precisou parar de correr, alguns outros espectros cercaram a dupla e não havia outra opção senão lutar, Hikaru era poderoso, mas sem corpo ele não poderia ajudar muito. Kizumi tirou seu cachecol do pescoço e elevou seu cosmo, Hikaru não entendeu o porquê daquilo e os espectros acharam engraçado alguém tentar se defender deles com um simples pedaço de tecido. Foi então que ela atacou. O cachecol pareceu ganhar vida e moveu-se como uma cobra, enrolando-se ao redor dos espectros. Kizumi puxou e os ossos de seus inimigos foram esmagados e eles caíram no chão mortos.

Hikaru estava preocupado com Dante, eles haviam se separado vários minutos atrás e o jovem ainda não tinha retornado. O cavaleiro corria apoiado na amazona de Grou, já que estava tão fraco que não conseguia correr sozinho. Ele precisava voltar rápido para seu corpo, mas relutava em deixar o Submundo se Dante não estivesse com ele. Felizmente eles viram um garoto de cabelos azuis e armadura branca fazendo sinal para que eles o acompanhassem. Então todos estavam juntos novamente.

- O que houve Dante? Conseguiu fugir dos espectros? – questionou Kizumi.

- Eles foram derrotados.

- Bom trabalho garoto. – falou Hikaru.

- Nós temos que subir o Monte Yomotsu, no topo haverá um portal que nos levará até a vila próxima ao Santuário. – disse o rapaz.

- Ótimo! Vamos dar a volta e subir pela inclinação aonde as almas chegam.

- Não há tempo! Precisamos subir por este lado! Mesmo sendo um penhasco, teremos que escalar até o topo. Não há tempo para darmos a volta.

Eles chegaram até o monte e começaram a escalada, quando ainda estavam no início um forte tremor quase os lançou para baixo, mas todos seguraram firme e permaneceram no mesmo lugar. Depois do tremor eles sentiram um forte cosmo, mesmo que distante. Era um cosmo assustadoramente poderoso que fez Dante tremer de medo.

- Que cosmo foi esse? – perguntou o cavaleiro assustado.

- Provavelmente foi um dos Três Juízes, os mais poderosos soldados de Hades. – disse Hikaru.

- Três Juízes? Quem são eles?

- São os três mais poderosos espectros que existem. Lembra-se de quando Aldebaran falou com vocês sobre as técnicas dos cavaleiros? Que algumas delas podem ser transferidas através das gerações, que podem ser passadas para os próximos cavaleiros dependendo de quão poderoso é o criador da técnica? Imagine agora que existiram, no passado, pessoas tão poderosas que elas não mantiveram suas técnicas através dos séculos, elas mantiveram a si mesmas. Soldados tão poderosos que o próprio Hades faz questão de ressuscitá-los em todas as Guerras Santas, para que eles liderem seus espectros malignos. São os responsáveis por julgar as almas que entram no Submundo e determinar se elas vão para os Campos Elíseos, onde terão descanso eterno ou se ficarão nos Campos de Asfódelos para sofrerem pela eternidade.

Eu tive a infelicidade de conhecer um deles enquanto estive aqui. Radamanthys de Wyvern, que me condenou à prisão do Submundo. Ele é o juiz responsável por julgar as almas das pessoas nascidas na Ásia. O outro é Aiacos de Garuda, o encarregado de julgar as almas das pessoas europeias. E por último, Minos de Grifo, o principal dos três, ele é quem possui o voto supremo. Ele seria o líder entre os três juízes. Estas são as três aves do mundo dos mortos: Wyvern, que se assemelha a um dragão; Garuda, a ave que parece com os humanos e o Grifo, o pássaro com corpo de leão.

Enquanto conversavam eles foram se aproximando do topo da montanha. Entretanto, os espectros que eles haviam derrotado ressurgiram e agora estavam perseguindo-os novamente. Dante ficou para trás, lançando labaredas de fogo montanha abaixo enquanto Kizumi carregava Hikaru para cima, conforme eles se aproximavam da saída, o cavaleiro dourado ficava mais pesado, o que era um bom sinal, pois significava que sua alma e seu corpo estavam começando a se unir novamente. Era apenas uma questão de tempo.

Contudo, eles sabiam que não seria uma tarefa fácil e logo que olharam para cima viram que outros espectros estavam no topo da montanha e desciam muito rápido. Estavam cercados. Kizumi foi obrigada a parar e deitar Hikaru numa rocha, a cada minuto que passava o cavaleiro parecia mais fraco, seu rosto estava pálido e sua armadura já mostrava uma cor opaca. Kizumi retirou seu cachecol do pescoço e já estava se preparando para lutar quando alguém segurou sua mão. Dante não olhava para ela, mas fitava os espectros que se aproximam logo acima.

- Quando eu der o sinal, leve-o para fora daqui. – disse o cavaleiro.

- O quê? Você não vai lutar sozinho! Eu posso ajudar! – protestou a amazona.

- Meu mestre, minha missão, minha luta. Faça o que eu digo! – ordenou Dante.

- Moleque idiota! Escute a garota! Não pode vencer sozinho! — disse Leão.

- Como está se sentindo mestre? Acha que sobreviverá? – perguntou Dante pondo a mão no ombro de Hikaru.

- Rapaz, estou me sentindo tão bem, tão próximo do meu corpo que consigo até sentir sua mão tocar meu ombro.

- Ótimo, então me perdoe.

- Perdoar? Pelo...

Antes que Hikaru pudesse falar o cavaleiro de bronze acertou um soco no rosto do mestre fazendo com que ele desmaiasse. A alma de Hikaru estava quase em sintonia com seu corpo novamente, o retorno do cavaleiro estava muito próximo e Dante não permitiria que ninguém o impedisse de concluir sua missão, nem mesmo Hikaru.

Kizumi não acreditou no que viu, em Jamir as amazonas não ousavam nem aumentar o tom de voz para falar com seu mestre, e esse cavaleiro teve a ousadia de bater no seu professor.

- Espero que ele não fique muito bravo quando acordar. – comentou Dante. – Aguarde o meu sinal e fuja daqui. Não vou repetir.

- Você não precisa fazer isso! – Kizumi já demonstrava certa tristeza na voz, mesmo conhecendo o garoto a tão pouco tempo ela sabia que ele era uma pessoa boa e que não merecia o destino que estava à sua frente. – Eu posso te ajudar! Deixe-me lutar com você! Eu posso te ajudar! – ela repetia insistentemente.

- Você já ajudou bastante. Até mais do que eu mereço. Mas faça-me um último favor: não permita que ele volte pra cá novamente. Ou qualquer outro. Fique viva e mantenha os outros vivos. – ele parou de falar, sabia o que vinha pela frente. – Eh... Adeus.

Então os espectros atacaram. Kizumi lançou seu cachecol montanha abaixo e com o poder da telecinese fez com que ele se transformasse numa barreira para retardar o avanço dos inimigos. Dante voou e incendiou todo seu corpo, os adversários foram levados para cima e depois uma imensa ave de fogo desceu a montanha carregando consigo todos os espectros que tentavam subir. Ao todo duas dezenas de espectros morreram pelas chamas da fênix gigante. Enquanto carregava o corpo de Hikaru, Kizumi olhou para baixo e viu um pequeno feixe de luz na escuridão, cada vez mais distante, até que desapareceu por completo. Ela sabia que uma fênix pode voltar a vida, ressurgir do mundo dos mortos, mas seria possível voltar ao mundo dos vivos uma vez que alguém estivesse de corpo e alma no Reino de Hades? E se esse alguém morresse no Submundo? Será que haveria possibilidade de voltar ao mundo dos vivos? Para Kizumi só o tempo iria dizer e ela pediria a todos os deuses que ressuscitassem o cavaleiro de bronze. Todos menos Hades. Ela não pediria nada ao Senhor dos mortos, ela exigiria e seria muito bom para o próprio Hades se atendesse ao que a amazona ordenasse.

Quando saiu pelo portal, a alma de Hikaru tornou-se uma esfera luminosa, uma esfera que flutuou pelo ar e voou rumo de uma alta montanha. A lua não brilhava nessa noite, de modo que Kizumi não teve dificuldades em acompanhar a esfera de luz que se distanciava cada vez mais rápido. Para ela essa seria a sua lembrança mais dolorosa, a luz da vida sendo consumida pela escuridão. Por sorte havia outros cavaleiros e amazonas, outras constelações, mas será que suas estrelas seriam capazes de afastar as trevas?